Reflorestar o pensamento: a saída feminista é coletiva e anticapitalista

FEMINISMOS PARA OS 99%

Reflorestar o pensamento: a saída feminista é coletiva e anticapitalista

por Samantha Prado
18 de março de 2021
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Em debate promovido pela editora Boitempo, Silvia Federici e Sonia Guajajara falam sobre a necessidade de um movimento baseado na luta por justiça social e no afastamento do isolacionismo pregado pelo sistema neoliberal e pelo feminismo disseminado na mídia

“A transformação só vem a partir do coletivo com consciência política e ecológica. Precisamos de coragem para romper com o neoliberalismo, empatia e sensibilidade para reflorestar o mundo, começando por reflorestar o pensamento”. Com essa fala Sonia Guajajara fechou o debate “Feminismo, comuns e ecossocialismo”, ao lado da autora Silvia Federici e da mediadora Bruna Della Torre.

A iniciativa aconteceu na primeira semana do evento “Feminismo para os 99%” promovido pela editora Boitempo e que conta com apoio do Le Monde Diplomatique Brasil. A conversa teve como foco a importância da expansão da luta feminista por meio da união de pautas da nossa atualidade, como  a causa ambiental e indígena. 

A pensadora italiana abriu o debate com um alerta sobre a captação do movimento feminista pela mídia e estruturas capitalistas, vendendo-o como uma ideia de luta pelo indivual e não pelo coletivo. Assim, um movimento cuja base deveria ser a crítica ao sistema, passa cada vez mais a prestigiar ações que representam bandeiras vazias e que em muito pouco contribuem para as mulheres em geral. A proliferação da ideia de “girl boss” como um atributo feminista é um dos mais recentes exemplos disso. 

É necessário que o feminismo traga perspectiva para pensar o todo – incluindo classe, trabalho, mudança coletiva e raça – para lutar por justiça social, definida como uma luta cotidiana por Silvia. “Acredito na perspectiva que vê a luta da transformação social do ponto de vista da reprodução – o que abre um campo comum onde podemos conectar diferentes lutas”, declarou após apontar a necessidade do movimento feminista se engajar em pautas que ela vê representadas na figura de Sonia Guajajara.

Autora italina, Silvia Federici. Crédito: divulgação
“Falar ainda faz parte de um rompimento de barreira para mulheres indígenas”

Sonia Guajajara relembrou o longo caminho percorrido pelas mulheres indígenas para, agora, começarem a ter espaço e representatividade. Para elas falarem e terem suas vozes ouvidas é necessário romper muitas barreiras. “Eu menina não enxergava o tempo onde nós, indígenas, estaríamos falando por nós mesmos”, revelou. Ela também lembrou as eleições de 2018, a primeira na história do país em que uma mulher indígena fez parte da chapa presidencial: “Precisamos de 518 anos para esse momento chegar, nós ainda somos estranhos dentro da própria sociedade brasileira.” 

Nos últimos anos, o termo “feminismo indígena” tem sido utilizado em alguns meios na tentativa de abranger o enfrentamento interseccional (gênero/etnia)  vivenciado por essas mulheres. Sonia, porém, atenta que feminismo ainda é um conceito em construção para as mulheres indígenas: “feminismo indígena não é falado por nós, são outras pessoas falando de nós e por nós”. 

Os ataques do governo Bolsonaro contra os povos indígenas e suas terras – por meio do descaso com o vírus, o avanço do agronegócio e de mineradoras, garimpo ilegal e madeireiras também foram debatidos no evento. Sonia aponta que houve um crescimento de casos de violência contra mulher dentro das aldeias nesse período, mas nem sequer há dados coletados e sistematizados sobre isso, o que contribui para o silenciamento das vítimas.

Líder indígena, Sonia Guajajara. Crédito: Pedro Ladeira
Desenvolver vs. envolver: a saída pela coletividade

Silvia e Sonia ainda dialogaram sobre os conceitos de desenvolvimento e envolvimento. A líder indígena trouxe a pauta à tona, lembrando que as e os indígenas sempre foram vistos como um obstáculo para o desenvolvimento do Brasil. Tirar o prefixo “des” faz a diferença. “Desenvolvimento é deixar as pessoas para trás e pensar no lucro. Esse modelo econômico atual é errado. O que precisamos é de um modelo que envolva as pessoas, justiça social e sustentabilidade. Nós queremos envolver”, disse.

Para a autora italiana, precisamos ampliar o conceito de violência e darmos uma nova perspectiva ao trabalho de reprodução social executado pelas mulheres – como criar filhos, cuidar dos mais velhos e das tarefas domésticas. Essas atividades não costumam ser vistas como trabalho de fato e representam a forma como o capitalismo explora até mesmo quem não recebe um salário. “Vivemos em um mundo onde produzir armas é considerado trabalho produtivo, mas criar crianças não”, disse Federici. 

Um dos grandes desafios da nossa sociedade é organizar a vida diária de maneira comunitária, e não isolada como prega o capitalismo: a saída é por meio do engajamento e da coletividade. “O desafio é reproduzir a luta e não o capitalismo”, alerta Silvia Federici.

Os ciclos de debates sobre feminismo, juntamente com aulas sobre pensamento feminista negro, seguirão até a primeira semana de abril de forma gratuita no canal da editora Boitempo. Aqui você confere o cronograma completo das lives semanais. 

 

Samantha Prado faz parte da equipe do Le Monde Diplomatique Brasil

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