Retratos de um Partido Republicano fragmentado na CPAC

A DESELEGÂNCIA DO ELEFANTE

Retratos de um Partido Republicano fragmentado na CPAC

por Marina Slhessarenko Barreto
13 de março de 2023
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Evento revelou fidelidade inabalável a Trump, mas deixou de fora outros republicanos de vulto

Uma atmosfera de festa à uma da manhã“. Foi assim que o jornalista do Atlantic John Hendrickson definiu a CPAC – Conferência da Ação Política Conservadora, maior evento do gênero dos Estados Unidos, que aconteceu no Centro de Convenções e Resort Gaylord National, em Maryland, entre os dias 1º e 4 de março. Não foi ele o único a notar um flair decadente à ocasião, que presenciou lotação menor do que a máxima em meio a disputas de poder dentro do próprio Partido Republicano.

A ausência de diversas celebridades do partido foi listada à guisa das fofocas que correm soltas nas ultrajantes passarelas da high society norte-americana. Uma das mais ácidas, que pipocou em uma festa de encerramento, foi sobre como o evento flopou este ano. Os indícios do insucesso e as razões para ele são vários. Além da plateia menor, dos altíssimos preços de adesão em meio à alta da inflação (um ticket básico para todos os dias custou US$ 295) e da menor quantidade de souvenirs com slogans explosivos, stands e patrocinadores de longa data – como a Fox News, agora substituída por sua versão sob esteroides NewsMax  –, a cúpula organizadora do evento se enredou em disputas recentes difíceis.

Primeiro, o presidente da associação responsável por realizar o evento, Matt Schlapp, vem sendo acusado na justiça de importunação sexual por um jovem que participou do pessoal de campanha de um senador republicano da Geórgia. Embora negue as alegações, Schlapp soma outras controvérsias em sua liderança, como a mudança radical de formato do evento e da audiência. Em vez de uma conferência anual, a CPAC passou a abrigar outras configurações, com múltiplos eventos nos estados dos Estados Unidos e também fora dele – o Brasil, por exemplo, teve sua primeira edição em outubro de 2019. Além disso, o público conservador foi sendo progressivamente preterido em favor das franjas trumpistas; nas palavras do predecessor de Schlapp, “houve uma transição significativa na administração para longe dos conservadores”.

Isso leva a um segundo ponto: a hegemonia do ex-presidente Donald Trump no evento – e no partido. Se é fato que a CPAC foi “trumpificada“ (não faltaram loas regozijantes dos painelistas ao ex-presidente), também o é que novos eventos ditos conservadores – “ditos” porque eufemizam o ultraconservadorismo da extrema direita – vêm disputando o espaço antes ocupado pela Conferência. O Clube para o Crescimento, por exemplo, dividiu os holofotes com a CPAC. Retiro sediado em Palm Beach, na Flórida, o Clube foi patrocinado por financiadores privados e arrastou personalidades como o ex-vice presidente Mike Pence e o governador floridense Ronald DeSantis. Mesmo que não tenha lançado sua campanha oficialmente, DeSantis já é visto como uma nova liderança potente dentro do próprio partido – e a esperança mágica da velha e nova guarda contra o disco arranhado de Trump.

(Foto: Unsplash)

Woodstock conservador em trumpificação

Fundada na década de 1960 e realizada primeiramente em 1974, com um discurso inaugural de Ronald Reagan, a CPAC se propõe a ser hoje algo como um pop show de líderes e influenciadores da extrema direita, com direito a vinhetas caprichadas antes da entrada dos painelistas e diversos patrocínios. Sua organização até incorporou beats retrôs em algumas entradas, para agradar o público nostálgico dos anos 1990. As inúmeras propagandas entre e durante painéis, por sua vez, chamaram a atenção por seu caráter de call to action ou autoemancipação, harmonizada pela retórica do empreendedor de si mesmo neoliberal.

Alguns conferencistas anunciaram novos livros e ao menos dois deles recém publicaram obras para o público infantil. Lançados pela mesma editora, Brave Books, os livros infantis foram escritos por um ex-secretário de imprensa da Casa Branca e por uma influenciadora anti-LGBTQIAP+. O primeiro tem como tema as fake news, e o segundo, os perigos de se guardar segredos dos pais. Além deles, foi divulgado um livro infantil grátis sobre os feitos de Donald Trump na presidência dos Estados Unidos – supostamente encomendável online pela url marota freetrumpbook, já criticada em alguns fóruns da internet por ser um golpe.

Em outras propagandas, os espectadores foram convidados a baixar um “kit de informações” ao enviar um SMS com a palavra TRUMP ou RSBN (transmissora de extrema direita do evento, feita sob “a perspectiva da pessoa normal”) para um certo número telefônico. A promessa feita era de um manual sobre como se proteger durante tempos econômicos difíceis e de incerteza sobre aposentadorias. A recomendação? Investir em pedras preciosas. Segundo Phillip Patrick, porta-voz do Birch Gold Group, “ouro e prata [….] são ativos seguros e muito favoráveis a tempos como estes”.

A Panex LLC., empresa de exploração de petróleo, também fez vários apartes incentivando a exploração das “pessoas comuns” – com orçamentos polpudos para pagar o ticket do evento, cuja versão mais cara poderia chegar a US$ 30 mil) – no mercado de petróleo. Em sua propaganda, um vídeo curto alertava sobre como o petróleo é importante para nosso dia a dia, “assim como o sol que nasce todas as manhãs”. O vídeo passa a mostrar então o CEO da empresa e direciona o espectador ao site, que apresenta o material em uma versão audiovisual ampliada.

Em estilo anedótico, o narrador dessa versão supõe como seria uma vida sem petróleo, em nome de “salvar o mundo”. Os personagens vão gradualmente se tornando como que caricaturas extraídas da idade média, com direito a suspensórios, burros de carga – em vez de carros – e galinhas para fazer as vezes de despertador. O narrador, no meio tempo, ironiza os atores como lunáticos idealistas. E o grand finale fica a cargo do CEO da Panex, Jay Burr, que crava: “É muito simples. Estamos todos no negócio antigo [do petróleo], queiramos ou não. Todos nós pagamos por isso, todos os dias”. E, então, lança sua conclusão: “Se você vai estar nesse negócio de qualquer forma e pagar esses preços, não faz sentido tentar aprender como ganhar dinheiro com isso?”.

Mais propagandas ao longo do evento ofereceram bíblias grátis e convites para integrar movimentos de base – como de mães para a “formação de patriotas” e de cidadãos em prol de reformas eleitorais específicas. Em todos os casos, havia um discurso explícito ou subjacente de apresentação da “verdade” sobre algum determinado assunto, com pitadas de lamúria pela suposta crise de valores no país e pela pervasiva ausência de fé cristã – ainda que vários painelistas tenham igualmente defendido a liberdade de crença; inclusive, de não ter uma.

A lista de presenças comerciais também incluiu o stand de um aplicativo de relacionamentos para solteiros de direita – The Right Stuff –, o de uma autodeclarada companhia telefônica cristã conservadora – a Patriot Mobile –, e uma fala do magnata de travesseiros Mike Lindell (Mr. Pillow), que ecoou o discurso anterior do ex-presidente brasileiro Jair Bolsonaro sobre a fraude das eleições brasileiras de 2022 – a despeito de todas as auditorias, inclusive feitas por militares, provas em contrário e reconhecimento nacional e estrangeiro da higidez procedimental. Só faltou mencionar que o incumbente anterior fez de tudo para manipular as eleições no segundo turno também, sendo complacente com operações policiais ilegais e injetando fundos sem fim em um ecossistema comunicacional paralelo.

Os temas tratados pelos painéis foram diversos, trazendo em cena um amálgama de interesses liberais e conservadores. No primeiro sentido, vários conferencistas colocaram como sua missão fazer cumprir a primeira emenda (liberdade de expressão), entrando em fogo direto contra as BigTechs que suspenderam contas em redes sociais e controlaram postagens de usuários. Ao mesmo tempo, também desdenharam da “mídia mainstream” e seus supostos pendores marxistas e de extrema-esquerda.

Já no lado conservador, ataques múltiplos sobre direitos da população LGBTQIAP+ e o modelo educacional do país deram a tônica. “[A esquerda radical] disse que está vindo para pegar nossas crianças” – vociferou a deputada da Geórgia Marjorie Taylor Greene. O alvo preferencial seriam os transgêneros – em um clima político já em ebulição: o Tennessee acaba de proibir performances “imitadoras de homens ou mulheres” que poderiam ser “prejudiciais aos menores”, bem como outros estados propuseram ou aprovaram iniciativas discriminatórias à identidade de gênero.

Uma das bandeiras transnacionais mais repetidas pela extrema direita, a pauta de gênero foi atacada a rodo e desprezada sob as alcunhas ideológicas de “generismo” e “transgenerismo”. Houve algumas incoerências nos discursos presentes – como entre Greene, que falou que não há qualquer gênero para a oposição, e o senador do Alabama Tommy Tuberville, que disse que há um só gênero para todos, segundo os adversários. Também, vários ataques a atletas transgêneros que estariam “roubando a cena” em competições esportivas – o que Trump trouxe em seu discurso com “vamos manter homens fora de esportes de mulheres”. E à “mídia vilã”, bem como ao establishment científico, que não reportariam os diversos casos de reversão de cirurgias de mudança de sexo.

O combate ao suposto marxismo, comunismo, bolivarianismo e outras tantas ideologias que os palestrantes identificaram com a mídia e a oposição também foi repetido à exaustão, sem originalidade. Eduardo Bolsonaro falou sobre como Lula seria um dos “comunistas (…) mais perigosos do mundo”. Em alternativa a essas ideologias mirabolantes, seria excelente o novo protagonismo assumido por canais de mídia independente, que mostrariam a “verdade” aos cidadãos comuns. “Ninguém mais acredita na mídia mainstream”, bradou a influenciadora transfóbica Chaya Raichik; “está todo mundo indo para o jornalismo independente”. E zombou, junto com outro apresentador do evento, como tem mais seguidores no Twitter que Maggie Haberman, jornalista de política do New York Times.

 

A “ideologia” da crise climática

Também chamou atenção a abordagem dada na Conferência ao aquecimento global. Ao arrepio de movimentos ambientalistas de hoje em dia, diversos conferencistas e propagandas defenderam o uso de combustíveis fósseis e atacaram a “ideologia ESG”, vista pelas lentes de um complô internacional de alguma forma manipulado pelo filântropo e bilionário George Soros. Em painel com o presidente da Assembleia Legislativa de Oklahoma, um conselheiro econômico de campanha de Trump e outro integrante de seu governo, bravatas contra a agenda ambiental foram combustível para acusar a esquerda de embalar suas pautas progressistas em projetos alegadamente pró-meio ambiente.

A agenda ESG seria o maior exemplo disso. Do inglês, Environmental, Social, and Corporate Governance, ESG virou símbolo da mais recente adaptação do mercado corporativo aos ditames da crise climática. A matemática é simples: diversos modelos de negócio se apoiam em padrões (literalmente) fósseis de produção, transporte e distribuição. Em vista da catástrofe iminente, considerar os riscos de inviabilização de sua matriz de carbono ou atividade costeira é considerar os riscos materiais de seu próprio negócio. Por um lado, se governos taxarem pesadamente o uso de carbono, empresas que se apoiam em combustíveis fósseis terão suas balanças bastante afetadas. Por outro lado, subindo o nível do mar, companhias que possuem fábricas e ativos à beira-mar deverão se adaptar com urgência.

Mas não foi disso que os painelistas falaram. Ao contrário, eles enfatizaram como a esquerda estaria instrumentalizando a agenda ESG para seus próprios fins. Investidores, nesse cenário, deveriam se caucionar de bons conselheiros e não investir em empresas e fundos que têm um tal selo, que viria em detrimento dos mais extravagantes retornos financeiros. Subjacente a essa visão, há uma concepção de que maiores lucros vêm necessariamente vinculados à produção fóssil, extrativista e antiambientalista. Zerar emissões de carbono, em resumo, seria contra o interesse de grandes corporações.

Portanto, caberia aos bons “conservadores” – que, de conservadores, só guardam esteio no nome do evento, já que conservar o modelo de vida hoje implica uma mudança radical de padrões econômicos e sociais, sob pena da fritura cataclísmica – se insurgir contra essa agenda “woke” que a esquerda tentaria entubar goela abaixo dos cidadãos comuns. E tomar cuidado com as companhias onde eles investem seu dinheiro. Afinal, seria crucial entender como elas vêm se portando durante essa “crise do mundo de hoje”.

Não adiantaria só parar de tomar Coca-Cola e comprar Dr. Pepper diet; não adiantaria só deixar de ir à Disneylândia e deixar de assinar Disney+. Seria preciso ir além: dizer para a Coca-Cola que não mais vai consumir seus produtos por causa de sua cultura progressista. “Todos podem ter um impacto tremendo” como clientes; não é só o caso de parar de consumir: seria necessário dar razão para sua rebeldia.

O resultado, no fim, sempre dá no mesmo lugar: o bolso. Seja das grandes corporações, fundos de investimento ou dos consumidores. Um bordão bastante repetido no evento foi o de “votar com sua carteira”, também trazido por Donald Trump Jr., host e filho do ex-presidente.

 

À extrema direita, as batatas?

Bem como as ausências eloquentes na Conferência, também não passou despercebida a baixa cobertura midiática dada ao evento. Com efeito, cobrir um bando de gatos pingados em um hotel perto de Washington D.C. pode ser uma escolha editorial ruim. Não só pela baixa audiência presente, mas também pelo reiterado desrespeito dos conferencistas ao ofício jornalístico e à qualidade do trabalho realizado. No limite, isso pode afetar a própria saúde mental dos que estão em campo apurando e cobrindo, a julgar até por episódios de assédio passados sofridos por jornalistas no evento.

No entanto, tem uma razão mais importante a ser colocada na mesa – e aqui agradeço pelo alerta dado pelo colega jornalista Maickson Serrão, da Sumaúma Jornalismo. Depois de anos lutando com como cobrir de forma responsável a extrema direita, talvez o jornalismo tenha finalmente achado um ponto de equilíbrio: o silêncio calculado. Não é que não haja qualquer forma de cobertura ao que aconteceu, mas sim uma cobertura menos incandescente e mais responsável. Uma cobertura que foque nos ataques à democracia e no que está em jogo, sem menosprezar o perigo que tais ataques representam diante de leitores e estrategistas nada caridosos.

A deputada de Wyoming Harriet Hageman citou o bordão de que “o melhor desinfetante é a luz do sol”. E eu acrescento: só se for reportada por alguém. Se não há cobertura, a “verdade” que os ultraconservadores tanto clamam não pode vir à tona – seja via endosso a alguma cobertura feita, seja via seu rechaço e descredibilização (que traz combustível infinito para a criação de narrativas conspiratórias). Manchetes e voz na esfera pública – afinal, “falem bem, falem mal, falem de mim” – é tudo o que eles querem.

E isso ficou mais do que claro nas ameaças feitas pelo estrategista Steve Bannon à Fox News – sentenciado no ano passado a quatro meses de prisão por não colaborar com a investigação sobre a invasão ao Capitólio. Desde que a Fox atravessou uma crise existencial após o resultado eleitoral de 2020 e passou a se distanciar de Trump, o clã trumpista se insurgiu. Segundo Bannon, a corporação teria “desrespeitado Donald J. Trump por tempo demais“. Ela deixou de cobrir seus feitos, o que seria um ultraje, já que “quando Donald J. Trump fala, isso é digno de notícia”. E arrematou: se o presidente da corporação Rupert Murdoch conjecturou “que Trump não vai ser presidente”, Bannon e seus aliados consideram que ele “não vai ter uma rede [de TV]” e vão persegui-lo “a cada passo”.

A ânsia por cobertura também ficou patente na fala de outros conferencistas. Eduardo Bolsonaro suplicou para que os “amigos norte-americanos” cubram o que está acontecendo no Brasil (aludindo especificamente às prisões após o 8 de janeiro de 2023). “Nem eu às vezes [sei]”. Como seriam aliados, seria importante que setores de mídia independente e da CPAC ressoassem o cenário brasileiro, se conectassem e “trocassem experiências”. “Vocês são uma de nossas últimas esperanças no mundo” em nome da liberdade de expressão.

Isso tudo pode levar a questionamentos sobre a própria razão de ser deste texto que vos fala. Ao que já engato uma resposta curta: meu propósito aqui foi mais de pesquisadora do que qualquer outra coisa. Conhecer o que se passou sem dar brecha a manchetes estridentes de falas feitas para chocar é importante para entendermos onde estamos e o que (não) podemos construir a partir daqui.

Além do mais, por mais que a estratégia de não cobertura deliberada seja bem intencionada e pareça eficaz, ela ainda pode ter efeito rebote. Se é verdade que ela não amplia a voz das franjas nem arrebanha colateralmente mais público a esse tipo de discurso, ela também pode servir para empurrar mais para as margens um tipo de convivência social nociva à democracia. E o risco aqui é de uma desconexão mais profunda e visceral em relação às realidades compartilhadas, radicalizando ainda mais os adeptos do trumpismo em direção a um desconhecido tenebroso.

 

O abismo entre nós

Acompanhar um evento desses é, certamente, um soco no estômago. Conforme entravam e saíam painelistas, fui crescentemente tendo uma sensação de desolação. Mesmo que essa franja – que ainda não se sabe muito bem quantificar – seja pequena, ela ainda é frenética e barulhenta. Mais: não parece tão facilmente isolável por um “cordão sanitário“, como vêm sugerindo alguns comentadores políticos sobre o que fazer com o espólio vivo da extrema direita em uma democracia. É uma franja que ocupa postos institucionais de grande poder, preparando e votando projetos de lei, sugerindo novas arenas de disputa, estabelecendo prioridades para a ação política e aliciando seus apoiadores a pautas de interesse. É uma franja que usa uma retórica de guerra absoluta e necessidade de mudança radical. É uma franja que criou um ecossistema alternativo altamente sofisticado de comunicação e informação, à revelia da mídia e dos circuitos da cultura mainstream.

Em outras palavras, é um grupo político bastante organizado, que constantemente enfatizou a necessidade de participação civil em nome de seu já velho make America great again (MAGA). Não só chamou para protestos, mas também para a pressão de autoridades públicas, repúdio a corporações “woke” e influência no governo – e aqui ele parece executar bem o que é um velho aliado recentemente esquecido pela esquerda: o trabalho de base.

Pensar na disputa de liderança dentro do próprio Partido Republicano pode parecer um freio alentador nesse sentido. Em termos eleitorais, ela poderia retirar votos do candidato republicano que ganhar as primárias, ainda mais se considerarmos a não obrigatoriedade de voto no território norte-americano. Como o próprio Trump soltou em seu discurso de quase duas horas, enquanto seus “inimigos” (socialistas, comunistas, globalistas e vários outros -istas) estariam unidos no Partido Democrata, os republicanos se engalfinham em disputas fratricidas declaradas ou ainda frias, mas prestes a escalar.

O problema é que o cálculo não pode ser meramente eleitoral. Eleições importam, mas não são tudo. Pelo contrário. A atuação de um movimento civil potente – e, nas palavras de Bannon, o movimento liderado por Trump seria o “movimento político mais poderoso na história norte-americana” – corrói por dentro os laços da sociedade democrática em grau mais profundo. Assistir aos painéis, nesse sentido, reforçou a ideia já declarada a rodo de que vivemos realidades completamente diferentes.

Não é sobre o alívio de ver o auditório da Conferência por vezes metade vazio. É sobre a corrosividade das forças que a compuseram. É sobre levar a sério quem busca por “novas teorias da conspiração porque todas as velhas se tornaram realidade”, nas palavras de um conferencista e senador republicano. É sobre o perigo à democracia daqueles que se colocaram no front de diversas disputas que estão por vir, como se fossem uma luta apocalíptica – ultimamente a ser travada nas eleições de 2024, como colocou Trump em tom presciente. É sobre a força renitente de um ex-presidente que se safou de dois processos de impeachment. E, mesmo sofrendo diversas investigações de autoridades públicas, tem a inescrupulosidade de dizer que quanto mais os investigadores o perseguem, mais seus números sobem nas pesquisas de intenção de voto.

 

A exaustão do espetáculo

A boa notícia é que não há só razões para o desespero. Na verdade, a big picture traz várias tendências em sentido contrário. A baixa audiência dos painéis, a disputa de poder dentro do Partido Republicano e o embotamento da figura de Donald Trump concorrem lado a lado. A retórica venenosa do ex-presidente parece não emocionar mais como antes. Como debochou o jornalista McKay Coppins, o discurso trumpista se tornou “ruído branco” ou, pior do que isso: parte do establishment que ele tanto criticou. Pensando bem, surpreender uma legião de adeptos toda vez com as mais desonestas irreverências e inabalável desfaçatez é desafio dos maiores. Manter a autenticidade exige muito trabalho. A festa acaba, a luz apaga, o povo some e a noite esfria. O espetáculo, em resumo, perde a graça.

E cabe às cabeças de plantão confabularem novas formas de agir e motes catalisadores de medos, esperanças e sentimentos políticos. A ameaça chinesa e a guerra na Ucrânia vieram a reboque desses anseios. Segundo o ex-presidente dos Estados Unidos, ele seria o único candidato capaz de impedir que o mundo caia na terceira guerra mundial – que, segundo ele, irá acontecer de qualquer jeito se alguém não fizer algo rápido.

May the odds be in our favor. Como pressagiou um colunista do Washington Post, historicamente todo candidato que, sob uma presidência então ocupada por um democrata, ganhou a enquete presidencial da CPAC no ano anterior às eleições perdeu, em seguida, as primárias do próprio partido. Esse foi o caso de Trump dessa vez. Resta ver como será em 2024.

 

Marina Slhessarenko Barreto é pesquisadora do Núcleo Direito e Democracia do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap) e do Centro de Análise da Liberdade e do Autoritarismo (Laut). Faz mestrado em Ciência Política na Universidade de São Paulo e é bacharela em Direito pela mesma universidade.



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