ENTREVISTA

Ricardo Pecego fala como “Cidadão”, seu novo livro, expõe a desumanização nas metrópoles

Obra publicada pela Editora Cachalote mergulha na complexidade das relações urbanas e questiona a indiferença social

O escritor paulista Ricardo Pecego lança Cidadão (Editora Cachalote, 146 págs.), livro de contos que revela a desumanização nas grandes cidades e a indiferença diante das histórias que se cruzam todos os dias. Em narrativas curtas e diretas, Pecego dá voz a personagens que habitam os subterrâneos da cidade: do pasteleiro descendente de japoneses ao passageiro solitário do trem noturno, cada conto desmonta a ilusão de que conhecemos o outro apenas pelo que vemos.  

A inspiração para Cidadão veio de uma crítica à forma como as cidades modernas segregam e desumanizam. Influenciado por autores como Aílton Krenak, Joice Berth e Milton Santos, o escritor provoca o leitor a repensar o espaço urbano e a hierarquia invisível que separa as pessoas.  

Nascido em Santo André (SP) em 1976, Ricardo Pecego é publicitário e produtor cultural, com mais de duas décadas dedicadas a projetos que unem arte e transformação social. Desde 2019, concentra-se na literatura e na mediação de leitura, levando uma livraria itinerante a feiras do interior paulista. Depois de estrear com Caparaó (2020), ele consolida com Cidadão uma escrita instintiva e comprometida com a empatia.  

Confira abaixo a entrevista em que o autor detalha seu processo criativo e as reflexões que movem seu novo livro. 

Em Cidadão, você expõe a desumanização nas metrópoles através de diferentes contos. Para você, qual o tema central do livro? 

Seria sobre a forma superficial como enxergamos o outro e como a cidade grande contribuí nessa questão, nos tornando indiferentes aos problemas ou realizações alheias. Por essa razão eu busco personagens que estão dentro da perspectiva do comum. 

O que te levou a abordar essa questão da indiferença e da exclusão nas cidades grandes? 

Escrevo aquilo que me toca, que observo entre as pessoas. Esse tema me incomoda pois não acredito nessa cosmovisão que centraliza o ser humano como dono do mundo, que coloca a cidade como algo que os demais habitantes da terra (não humanos) são impedidos de participar. Essa visão, como demonstro no livro, está nos contaminando de tal maneira que mesmo entre nossa espécie já classificamos alguns indivíduos como não integrantes. Tenho uma ideia clara a respeito dos meus primeiros cinco livros e desde Caparaó, o primeiro, pretendo criar histórias que demonstram as impossibilidades de vida nesse formato.   

Qual a principal mensagem que você deseja transmitir com Cidadão? 

Que a vida pode ser menos, e nem por isso ruim, do que aspiram os sonhos embutidos em nós desde a mais tenra idade. Não somos o centro do mundo e não podemos gerar igualdade entre os viventes da Terra por cima, ou seja, não é possível que todos tenham jatinhos, mansões, fazendas, iates, diamantes sem prejudicar outrem. Não consigo aceitar a ideia que boa parte da humanidade passe fome, enquanto uma mínima parcela vive com recursos ilimitados gerações a fio. Essa cosmovisão de viver para ter e deixar (herança) é um grande desperdício de tempo numa passagem tão curta nesse mundo. 

Escrever esse livro provocou alguma mudança em você ou em sua visão de mundo? 

Na verdade, escrever para mim não é transformação. Ler sim me transforma, me transporta, me movimenta (assim acontece em alguns dos contos). Escrever está mais para comunicação, expressão daquilo que me aflige, me alegra e imagino. Ler é a construção dos impactos causados pela leitura, seja de um livro, de um filme ou de uma ocasião. Contudo, acredito que depois do livro lido, de escutar e ler as conclusões diversas que os contos trouxeram às pessoas, vou despertar atenção em ideias que se passaram despercebidas durante a escrita e isso pode me modificar de alguma maneira.  

Como a bagagem de Caparaó (2020), seu primeiro livro, ajudou na construção desta obra?  

Acho que quase nada. Foram muito mais os livros que li, os filmes, e a observação do presente e das memórias que ajudaram a construção do Cidadão. Fora se tratar de uma temática social, que navega entre a ficção e traços da realidade, não há vínculo efetivo entre o primeiro livro e o segundo. Mas há um aspecto em comum entre as obras que é o lidar com o processo editorial. No primeiro era um novato, e agora sou um novato com uma certa vivência, fui mais cauteloso agora e bem menos emocional nesse processo. Acredito que ter um editor presente, como foi com Camilo Gomide, me ajudou muito.   

Capa do livro "Cidadão". O livro está colorido em tons de cinza e ilustra o horizonte de uma cidade.
Crédito: Divulgação/Cachalote

Por que decidiu trabalhar especificamente com o gênero conto para este livro? 

Acho importante essa variação de formas que a escrita permite e têm momentos que o personagem se mostra tão claramente que sabemos se a história dele é curta ou longa, assim que escrevi o conto, Cidadão, que nomeia a obra, notei que tudo seria mais curto. Na jornada do Cidadão personagem e suas interações percebi que ali nasciam desdobramentos de outras histórias, assim criei o vínculo entre os demais contos, exceto para o conto 102.0, onde dou pistas da origem deste personagem para as ruas de São Paulo. 

Quais autores e obras tiveram maior impacto na construção de Cidadão? 

Para o livro foi importante a leitura de Camila Sosa Villada, Aílton Krenak, Joice Berth, Milton Santos, Allan da Rosa, Leila de Souza Teixeira, e um livro especial: Tudo que prometi ser, de Daniel Brazil, esse livro traz um personagem vivente nas redondezas do mercado de peixe da Praça 15 do Rio de Janeiro, um peixeiro, no seu duelo com o cotidiano que não se importa se ele estará lá no dia seguinte, mas estando, continua alimento a existência deste microcosmo urbano decadente. 

Como você definiria seu estilo de escrita?  

Sou um escritor sem formação literária, escrevo instintivamente e no refino dos textos em trocas com outros autores. Vou burilando o texto até o resultado que considero que a minha linguagem e do personagem se conectam. Geralmente uma escrita mais direta, não lacradora e que permeia os diversos portugueses falados no Brasil. 

Quando e como a escrita se tornou parte da sua vida? 

Desde 2006. Resolvi tirar da cabeça uma fantasia sobre o mundo, sobre como as coisas estavam se transformando para pior. Mas só a partir de 2015 que meus textos ganharam espaço fora do meu HD, escrevendo crônicas impressas num jornal local, o Megaphone Cultural, circulante em Itapira, Mogi Mirim e Mogi Guaçu por cerca de dois anos. Em paralelo aos textos que escrevia para coluna, outros foram surgindo, então depois de escrever um conto um amigo, professor de literatura, sugeriu detalhar mais a história e alongá-la, pois daria uma novela. Esse texto era o Caparaó. A partir daí algo me move para frente do computador e eu passei a nomear de trabalho. 

Você tem algum ritual de preparação para a escrita?  

Procuro, na medida do possível, escrever pelas manhãs e revisar a tarde, mas sem neura de metas. Nada contra quem as tenha. Costumo deixar algo fermentando dentro de mim, e conforme as atividades do dia se sucedem eu penso naquele tema, me lembro de um detalhe, assisto ou leio algo relacionado ao que desejo escrever.  

Quais projetos literários estão em andamento no momento? 

Tenho um romance em sua sétima reescrita, que pretendo que seja meu próximo lançamento e mais dois inspirados, que estão escritos mais para que não esqueça das inspirações iniciais. Fora os livros estou com um projeto de feira literária para minha cidade (Espírito Santo do Pinhal-SP) e atividades de mediação de leitura em rodas de conversa com adultos e crianças. 

 

Veriana Ribeiro é jornalista e escritora acreana com mais de 15 anos de experiência na área da comunicação, formada pela Universidade Federal do Acre (UFAC) e mestre em Meios e Processos Audiovisuais pela Universidade de São Paulo (USP). Publicou o livro Coletânea dos Amores Partidos (autopublicação, 2021) e participou da coletânea Antes que eu me esqueça \ 50 autoras lésbicas e bissexuais hoje (Quintal Edições, 2021), além de escrever projetos literários independentes como zines e newsletters.   

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