QUO VADIS, NEPAL?

Roteiro conhecido, destino incerto

O país montanhoso que até ontem estampava revistas de viagem e cartões postais; hoje, ocupa manchetes com tumultos, renúncias de primeiros-ministros e protestos incendiários. O que está acontecendo? Não se preocupe, não pretendo explicar.

Localizado na Cordilheira do Himalaia, entre o Tibete e a Índia, e conhecido por abrigar o Monte Everest, o Nepal, muitas vezes, é reduzido ao exotismo pela mídia ocidental, numa junção de fotografias que misturam “aventura”, “espiritualidade” e “neve”. No entanto, conforme visto na última semana, o país saiu abruptamente da “seção de viagens” para ocupar, de forma dramática, os cadernos de política internacional.

No dia 9 de setembro, a capital Katmandu acordou com manifestações massivas que rapidamente se transformaram em incêndios criminosos e atos de violência extrema. O saldo trágico, até agora, resultou em 72 vidas perdidas e centenas de feridos, majoritariamente em função dos confrontos com as forças de segurança do Estado nepalês. Diante disso, a pergunta parece inevitável: afinal, o que está acontecendo?

Embora algumas especulações já circulam no meio jornalístico, como a corrupção generalizada, insatisfação popular e a proibição governamental do uso de redes sociais, os limites empíricos dessas explicações permanecem desconhecidos, e tampouco caberia a este texto a pretensão de confirmar ou não tais hipóteses. Deixemos essa tarefa para os especialistas em Nepal (os de verdade, não os de ocasião que talvez surjam nas próximas semanas).

Assumindo, portanto, um compromisso de escrever apenas sobre aquilo que conheço, e admitindo o meu desconhecimento sobre a realidade política nepalesa, o objetivo aqui não é oferecer diagnósticos apressados ou receitas analíticas sobre a causa social deste evento. Pelo contrário, o que proponho, ao evitar explicações de minuto, é refletir sobre algo que já discuti anteriormente neste mesmo espaço e que, curiosamente, volta a se impor diante da crise no país montanhoso.

Nepal, um roteiro conhecido?

Em março de 2025, relembrando os vinte anos da ‘Revolução das Tulipas’ no Quirguistão, escrevi aqui no Le Monde Diplomatique Brasil, uma breve análise sobre os desdobramentos daquela revolta na ex-república soviética. Mas aí você deve estar se perguntando: o que um país há cerca de 1.600km de distância, na Ásia Central, muçulmano e de herança turco-mongol, tem a ver com o Nepal, uma ex-monarquia hindu no sul da Ásia?

A resposta imediata é simples, e tirando o fato de ambos não possuírem acesso direto ao mar, quase nada têm em comum. Suas trajetórias históricas, culturais e sócio-políticas são profundamente distintas e qualquer comparação grosseira entre os dois países seria um equívoco analítico, para dizer o mínimo. No entanto, a repetição da história muitas vezes encontra eco em contextos aparentemente desconexos, e é aqui que surgem alguns paralelos interessantes. Vamos aos fatos.

Os protestos no Nepal começaram no dia 4 de setembro de 2025, inicialmente desencadeados pela decisão do governo de banir 26 plataformas digitais do país, incluindo gigantes como WhatsApp, Instagram, Facebook e X. A reação popular foi instantânea: casas de políticos foram vandalizadas, prédios do governo e o parlamento incendiados, e a violência escalou a ponto de forçar a renúncia do primeiro-ministro Khadga Prasad Oli (Partido Comunista do Nepal–Marxista-Leninista Unido/UML).

No entanto, é fundamental compreender que, no contexto nepalês, classificar essas plataformas como meras “redes sociais” pode ser uma subavaliação enganosa. De acordo com Atul Chandra e Pramesh Pokharel, elas são a espinha dorsal de uma sociedade que possui taxas altíssimas de penetração digital. Além disso, para a juventude do país, tais redes são mais do que entretenimento, funcionando também como classificados de emprego, agências de notícias e ferramentas de organização comunitária. Ou seja, “cortá-las”, em meio a estagnação econômica, foi interpretado como uma punição coletiva deliberada, bem como apontam os analistas locais.

O governo, é claro, tentou se escudar na narrativa combalida do combate às “notícias falsas” e à “desarmonia social”. Também alegou proteger a população de fraudes e discurso de ódio, tal como fez em 2023 ao proibir o TikTok no país. A suspensão, revogada ainda na noite de segunda-feira (08/09), ocorreu poucos dias da aprovação de uma nova lei que exige que empresas do setor mantenham escritórios de representação local. Críticos, por sua vez, argumentam que o ato foi, na verdade, uma estratégia para sufocar a crescente campanha anticorrupção que ganhava força digitalmente.

Porém, independente das versões, e ainda que a proibição das redes tenha sido o estopim para a atual onda de protestos, o episódio parece ser mais do que um conflito sobre “liberdade digital”. Jovens que se autodenominam “Geração Z” assumiram a linha de frente, transformando a identidade geracional em uma bandeira de união. Essa característica ajuda a explicar os slogans “nepo baby” e “nepo kids”, que viralizaram nas manifestações como denúncias ao estilo de vida privilegiado dos filhos da elite política nacional, distantes do cidadão comum.

Nesse sentido, tal como no caso quirguiz, em 2005, o fator desestabilizador no Nepal ancora-se em dificuldades legítimas: desigualdade social, um alto índice de desemprego, uma economia estagnada, sustentada não por investimentos internos, mas pelas remessas de seus emigrantes (cerca de um terço do PIB), e uma corrupção endêmica em suas instituições de poder. A revolta tem, portanto (e ao que tudo indica), uma base social concreta e justificada.

Ainda assim, é imperativo enxergar estes eventos como parte de um fenômeno global mais amplo. Afinal, o surgimento de coletivos juvenis, a organização e a convocação online para atos de depredação pública e a falta de uma coordenação centralizada nesses movimentos não são novidades, em especial para nós, brasileiros, que testemunhamos o desenrolar deste roteiro de perto, em junho de 2013.

Implicações geopolíticas conhecidas e não tão conhecidas assim

As chamadas “Revoluções Coloridas” não são fenômenos espontâneos, mas cartilhas minuciosamente construídas. Sua gênese remonta à desintegração da Iugoslávia, e seu padrão repetiu-se em nações pós-soviéticas como Geórgia, Ucrânia e Quirguistão entre o final da década de 1990 e o início dos anos 2000. O mesmo manual foi aplicado, com maior ou menor sucesso, em tentativas frustradas no Azerbaijão, Moldávia, Armênia, Belarus e, mais recentemente, Cazaquistão e Uzbequistão. Logo, o modus operandi que parece se replicar no Nepal não é aleatório.

Conforme amplamente documentado, as “coincidências” são, na verdade, pré-condições estratégicas: Estados fragilizados por crises políticas e econômicas, índice de desemprego nas alturas, tensões separatistas latentes e a rápida absorção dessas fragilidades por um discurso midiático uníssono, que brinda narrativas pré-fabricadas de “democratização” e “combate à corrupção” como pretexto para uma mudança de regime. Aliás, a participação massiva da juventude (“Otpor”, “Kmara”, “KelKel”, “Geração Z”), a ausência de uma liderança clara nos movimentos e a localização geoestratégica dos países-alvo, capazes de alterar dinâmicas regionais, completam o receituário.

Isso porque nem sempre é sobre garantir, apenas, o acesso à recursos naturais, ou então forçar maior abertura nacional ao capital estrangeiro, e sim sobre desestabilizar outros atores no jogo. Semelhante ao Quirguistão, que figurava entre as repúblicas mais pobres da ex-URSS e carecia de riquezas energéticas abundantes, o Nepal enfrenta hoje desafios críticos em sua economia. Porém, nestes casos, reduzir a análise à carência de insumos estratégicos, como o gás natural e o petróleo, seria um erro, já que a verdadeira fortuna de tais países se encontra em suas localizações.

Imagens de protestantes no Nepal.
Crédito: Direkton/Brasil Paralelo

O território nepalês, por exemplo, longe de ser uma barreira intransponível decorrente de suas montanhas, é o elo terrestre entre o planalto tibetano e a planície do Ganges. Para a China, um pivô fundamental de contenção da influência indiana no Himalaia e, crucialmente, um ponto vital para monitorar a questão no Tibete. Para a Índia, um Estado-tampão essencial, última linha de defesa contra a projeção de poder de Pequim em direção ao sul. Além disso, graças à posição que ostenta, o Nepal possui um potencial inexplorado em termos de energia hidroelétrica, o que o coloca no centro da segurança energética regional. Nova Délhi já importa parte dessa energia, enquanto os chineses identificam no setor uma oportunidade dourada para cooperação, e, consequentemente, para ampliar a sua esfera de influência.

E aqui entram os megaprojetos da Belt and Road Initiative (BRI), da qual o país integra desde 2017. A ferrovia trans-himalaia Jilong–Katmandu, no caso, é a demonstração da conexão logística, militar e econômica entre o terreno acidentado da cordilheira e o subcontinente. Não por acaso, em agosto de 2025, o presidente Xi Jinping recebeu o primeiro-ministro Oli, em meio à Cúpula da Organização para Cooperação de Xangai (OCX), às vésperas das comemorações do 80º aniversário da vitória chinesa na Segunda Guerra Mundial. O discurso de Xi soou afinado com a narrativa de “amizade duradoura” entre as duas nações, ligadas por montanhas, rios e, agora, por promessas de corredores de escoamento no âmbito da BRI.

Evidentemente, essa aproximação nunca foi observada com neutralidade. Vale lembrar que, quando inaugurada a primeira rodovia trans-himalaia, em 1961, o então primeiro-ministro indiano, Jawaharlal Nehru, não escondeu as preocupações com o empreendimento e, mais de seis décadas depois, o cenário de desconfiança permanece o mesmo. Não coincidentemente, Nova Délhi estimula a ascensão de agremiações hindu-nacionalistas no país vizinho, como o Partido Rastriya Prajatantra (RPP). Basta ainda dizer que a Índia não faz parte da BRI e, mesmo possuindo uma política externa marcada pelo “multialinhamento” (principalmente em fóruns como BRICS e OCX), o país traça uma “linha vermelha” clara em suas relações com Pequim: o Nepal.

No entanto, além do fator geopolítico sino-indiano, existem outros indícios de ordem regional que nos permitem enxergar a crise nepalesa não enquanto um episódio isolado, mas conectado às tendências maiores. No caso, se deixarmos de lado as “revoluções coloridas clássicas”, citadas anteriormente, e buscarmos exemplos mais recentes, próximos da região, as recorrências surpreendem: Em 2021, o Afeganistão voltou ao controle dos Talibã; em 2022, o Paquistão mergulhou em instabilidade e retomou a tutela militar após a queda do primeiro-ministro Imran Khan; no mesmo ano, o Sri Lanka testemunhou a derrocada abrupta de seu governo em meio a uma crise econômica devastadora que levou o presidente Gotabaya Rajapaksa a fugir do país; em 2024, foi a vez de Bangladesh deslizar para um regime autoritário após a derrubada do governo democraticamente eleito de Sheikh Hasina; e, desde 2021, Myanmar permanece sob o punho de ferro de uma junta militar.

Além dos tumultos habituais e da sombra do envolvimento de Washington nessas transições de regime, chama a atenção o fato de que, com exceção do Afeganistão, todos esses países estavam, à época das derrubadas de governo, vinculados à estratégia de Pequim, por intermédio da BRI: Paquistão e Sri Lanka desde 2013, Bangladesh em 2016 e Myanmar entre 2017 e 2018. A coincidência é sugestiva, e talvez nem tão coincidência assim. Porém, diante de novas tendências, essa crise nos convida a perguntar até que ponto uma convulsão política no Nepal seria apenas mais um episódio local, e não parte de uma reconfiguração muito mais profunda? Afinal, as chamadas revoluções coloridas parecem ter mudado de endereço: do antigo espaço soviético, agora para cada vez mais próximas da China.

Quo Vadis, Nepal, e o que vem a seguir?

Essa é a parte difícil. Embora não exista uma resposta objetiva, talvez apenas algumas observações, um fato que se destaca é o das manifestações terem ocorrido sob um governo do UML. O que não é um detalhe trivial, pois abre terreno político para o avanço de atores monarquistas e da extrema direita nepalesa. Não por acaso, partidos como o Bharatiya Janata Party (BJP) e o RPP tiveram suas sedes poupadas durante os ataques, algo que fortalece ainda mais sua imagem de “ordem” diante da instabilidade.

A consequência provável é que o espaço político seja gradualmente ocupado por correntes antissistema, dispostas a oferecer soluções rápidas para a crise, ainda que ao custo de enfraquecer as bases democráticas do país. Aliás, os próprios membros da “Geração Z” já se distanciam dos atos mais violentos dos levantes, afirmando que as manifestações foram “sequestradas” por oportunistas.

Na sexta-feira (12/09), o presidente Ramchandra Paudel, dissolveu o Parlamento e convocou novas eleições, agendadas para março de 2026. No mesmo movimento, nomeou como primeira-ministra interina a ex-presidente da Suprema Corte, Sushila Karki, uma figura conhecida por sua independência e franqueza. Karki ainda conquistou a simpatia dos manifestantes em uma enquete organizada pela ONG Hami Nepal na plataforma Discord, para discutir a sucessão no país, e se tornou um nome de consenso após negociações entre o chefe do Exército, Ashok Raj Sigdel, e o próprio presidente.

Mas aqui surge outro questionamento: será que isso é suficiente? Como discutido, as revoluções coloridas não surgem do nada. Elas florescem justamente nas brechas deixadas pelos próprios regimes, aproveitando crises domésticas não resolvidas, e o Nepal não foge a essa regra. Karki prometeu no último domingo (14/09) atender às demandas da juventude e combater a corrupção, porém ações concretas e estruturantes serão necessárias, sob pena de que o ciclo de turbulência se perpetue.

Apenas o tempo revelará de que forma o governo interino, a nova dinâmica das redes sociais e o peso dos algoritmos na mobilização política serão assimilados, persistem também as incertezas quanto ao grau de envolvimento de atores externos neste episódio. O financiamento da National Endowment for Democracy (NED) à Hami Nepal, por exemplo, já acrescenta novas camadas à discussão, que permanece em aberto: trata-se de uma rara oportunidade para redefinir a vida sociopolítica no Nepal ou uma reconfiguração regional em pleno curso?

Guilherme Geremias da Conceição é doutorando em Relações Internacionais pelo Instituto San Tiago Dantas (UNESP, UNICAMP, PUC-SP). Pesquisador do Observatório de Regionalismo (ODR). Membro do Centro de Investigação em Rússia, Eurásia e Espaço Pós-Soviético (CIRE), vinculado ao Grupo de Estudos de Defesa e Segurança Internacional (GEDES). Colaborador externo do Núcleo Brasileiro de Estratégia e Relações Internacionais (NERINT), da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS)

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