Salários, lucros e desigualdade: o Brasil sob a lente de Piketty
Renda do capital se multiplica a uma velocidade incomparável em relação à renda do trabalho, corroendo o poder de compra dos assalariados e aprofundando a concentração de riqueza

A desigualdade no Brasil não é um fenômeno acidental, mas uma construção histórica estrutural. É um legado que se manifesta hoje com a mesma intensidade de séculos atrás, embora em novas roupagens. A jornada da Senzala, onde a exploração do trabalho escravizado cimentou uma estrutura social profundamente injusta, até a Bolsa de Valores, onde a acumulação de capital se acelera, é a história de um país que nunca conseguiu quebrar o ciclo da concentração de riqueza. Para compreender a dinâmica que mantém essa profunda desigualdade, é fundamental analisar a tese de Thomas Piketty, exposta em sua obra O capital no século XXI. O economista francês argumenta que, quando a taxa de retorno sobre o capital (r) supera a taxa de crescimento da economia (g), a riqueza tende a se concentrar em poucas mãos, perpetuando as disparidades. O Brasil é, infelizmente, um caso emblemático dessa teoria, servindo como um estudo de caso perfeito para os conceitos do livro.
O cerne da questão é que, em um cenário onde o r supera o g, o dinheiro de quem já é rico se multiplica mais rápido do que a renda de quem depende do próprio trabalho. Como demonstra Piketty, isso cria um ciclo vicioso: os detentores de capital veem seus ativos crescerem exponencialmente, sem a necessidade de grande esforço ou inovação, enquanto a maioria da população não consegue acompanhar esse ritmo. A herança torna-se um fator decisivo, pois a riqueza acumulada em uma geração é transferida e continua a crescer, perpetuando o privilégio e a falta de mobilidade social.
O contraste entre João e Paulo ilustra de forma concreta a dinâmica de desigualdade apontada por Piketty. João, que recebe um salário mínimo de R$ 1.550, vê sua renda crescer 4,5% ao ano, apenas acompanhando a inflação, o que representa um ganho anual de R$ 69,75. Paulo, herdeiro de um patrimônio de R$ 10 milhões investido em ativos atrelados à Selic de 12,5% ao ano, sem necessidade de esforço laboral, obtém em um ano R$ 1.250.000 de acréscimo patrimonial. A diferença evidencia como a renda do capital se multiplica a uma velocidade incomparável em relação à renda do trabalho, corroendo o poder de compra dos assalariados e aprofundando a concentração de riqueza. Ainda no Brasil, a tributação regressiva onera o consumo e, ao mesmo tempo, isenta lucros e dividendos, reforçando a renda de Paulo em detrimento da renda de João, cristalizando um ciclo de desigualdade estrutural.
O gráfico 1 analisa a evolução real dos salários (INPC) e da taxa Selic[1] entre 2004 e 2025, ilustrando a dinâmica da desigualdade no Brasil em linha com as ideias de Thomas Piketty.

No período de 2004 a 2015, o Brasil vivenciou um cenário em que, apesar de alguns anos com reajustes salariais robustos, a taxa Selic, que serve de referência para o retorno de investimentos financeiros, se manteve em patamares consistentemente elevados. Por exemplo, em 2005, o salário mínimo teve um aumento de 15,38%, mas a Selic atingiu um pico de 19,75%. Em 2006, o reajuste salarial foi de 16,67%, mas a Selic estava em 17,26%. Nesses casos, o rendimento do trabalho, por mais expressivo que fosse seu crescimento nominal, perdeu a corrida contra o retorno do capital. Essa dinâmica reforça a tese de Piketty. O capital, especialmente o financeiro, se valoriza a uma velocidade superior à renda do trabalho. Enquanto os salários crescem por meio de reajustes anuais que buscam compensar a inflação, os juros sobre ativos financeiros, em um ambiente de Selic alta, geram retornos que ampliam o fosso entre quem vive do trabalho e quem vive da renda do capital.
Após 2015, houve uma mudança no cenário. A taxa Selic começou a cair, atingindo níveis historicamente baixos em 2018 e 2019 (6,65% e 6,40%, respectivamente). No entanto, os reajustes do salário mínimo também desaceleraram drasticamente, como em 2018 (1,81%) e 2019 (4,61%). Essa fase de “juros baixos” não foi acompanhada por um aumento significativo do poder de compra dos trabalhadores. A tese de Piketty, nesse contexto, mostra que mesmo com o retorno do capital financeiro mais baixo, o ganho real dos salários se mostrou insuficiente para reduzir a distância histórica entre capital e trabalho. Já nos últimos anos, a tendência de retorno superior do capital se reafirma. Em 2025, enquanto o reajuste salarial foi de 7,95%, a Selic alcançou 15%. Essa lacuna de mais de 7% ilustra, de forma contundente, a essência do argumento de Piketty: quando a taxa de retorno do capital (r) supera a taxa de crescimento da economia (g), a tendência é de ampliação da desigualdade, pois o capital rende mais que o trabalho e a produção.
Destarte, a tributação da renda no Brasil reforça a tese de Piketty sobre a concentração de riqueza. Não bastasse a tributação direta na fonte, a renda do trabalho do brasileiro enfrenta uma dupla carga de impostos. Além do Imposto de Renda progressivo em quatro faixas – 7,5%, 15%, 22,5% e 27,5%, desconsiderando a isenção – que incide diretamente sobre os salários, os trabalhadores arcam com os tributos indiretos, como ICMS e IPI, embutidos nos preços de produtos e serviços. Essa combinação reduz o poder de compra do trabalho e recai de forma mais pesada sobre os mais pobres, que gastam o que ganham. Enquanto isso, a renda do capital usufrui de mecanismos de isenção, como a não tributação de lucros e dividendos, aprofundando o abismo que favorece a acumulação patrimonial em detrimento do esforço laboral. Logo, como a renda do capital cresce mais rapidamente que a renda do trabalho, isso acaba ampliando desigualdades estruturais em suas múltiplas escalas no país.
Nesse mesmo sentido, a manutenção de uma Selic elevada atua como outro vetor de concentração e entrave ao desenvolvimento. Os juros altos encarecem o crédito, inibem o investimento produtivo e a modernização industrial; ao mesmo tempo, desestimulam o consumo das famílias ao encarecer financiamentos e empréstimos, afetando produção e emprego; ampliam o peso da dívida pública, drenando recursos que poderiam ser destinados a áreas sociais e infraestrutura; e, por fim, aceleram a financeirização da riqueza, ao tornar mais rentáveis e seguros os títulos públicos, deslocando capitais do setor produtivo para o mercado financeiro e reforçando a lógica especulativa.
Se o Brasil quiser romper com a lógica de concentração de renda representada por Paulo – uma lógica que atravessa a história nacional, da Senzala à Bolsa de Valores – será indispensável a adoção de medidas estruturais, como a tributação progressiva sobre grandes fortunas e heranças, a taxação de lucros e dividendos e a implementação de políticas públicas de inclusão social e redistribuição de renda. Todavia, a Reforma Tributária se furtou disso, ou seja, de tornar o imposto progressivo e tributar a renda e patrimônio.
Juliano Giassi Goularti é doutor pelo Instituto de Economia da Unicamp.
[1] Selic significa Sistema Especial de Liquidação e de Custódia, mas no dia a dia se refere à taxa básica de juros da economia brasileira, definida pelo Banco Central (BC). Ela serve como referência para todas as outras taxas de juros: empréstimos, financiamentos, investimentos. Também é um instrumento de política monetária, usada para controlar a inflação. Quando o BC aumenta a Selic, crédito fica mais caro. Consumo e inflação tendem a cair. Quando o BC reduz a Selic, crédito fica mais barato. Consumo e investimento tendem a aumentar.


O problema, caro Juliano, é que a turma se acomodou com esse jeito perverso de viver. E quando digo “a turma” refiro-me não apenas aos que se beneficiam exclusivamente de investimentos financeiros mas também dos que são lesados por tais investimentos. Além disso qualquer balconista de padaria hoje aplica, via celular, suas merrecas em investimentos de “bancos” para lá de suspeitos, mas ainda assim unicamente financeiros. Isso quando não usa seus suados caraminguás em apostas. Talvez as medidas propostas no artigo funcionem, sim, mas talvez seja de fundamental importância, imprescindível mesmo, como diz o poeta, “a reeducação de alguém”. (Caetano, “O estrangeiro)