Salve os malditos! - Le Monde Diplomatique

MÚSICA

Salve os malditos!

por Valéria Guimarães
19 de janeiro de 2017
Jards Macalé apresenta-se em show no Sesc Pompeia, em São Paulo, no dia 15 de janeiro de 2017
por Juliana Gontad
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Um senhor de setenta anos, mais jovem e atual que tantos outros, Jards Macalé é uma das poucas vozes no cenário musical que se faz ouvir contra os desmandos atuaisValéria Guimarães

Jards Macalé durante apresentação no Sesc Pompeia (São Paulo), em 15 de janeiro de 2017
Jards Macalé durante apresentação no Sesc Pompeia (São Paulo), em 15 de janeiro de 2017

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O show de Jards Macalé no Sesc Pompeia em 15 de janeiro inaugurou 2017 com a energia de que estamos precisando em dias tão sombrios. Resultado da turnê de seus cinquenta anos de carreira iniciada em meados de 2016 e com o propósito de lançar o álbum que marca a efeméride, Macalé deu seu recado. Ele e sua banda de apoio formada por jovens talentosos, a Let´s Play That (homônima de uma de suas músicas com Torquato Neto) chegaram sem rodeios e qualquer interação com o público. Nem por isso deixaram de impactar com uma massa sonora de arrepiar. A performance dividiu-se em três partes, sendo a do meio com um solo ao violão, não sem avisar a banda que se retirou: “Voltem!”. Foi a primeira vez que falou, arrancando um riso ainda tímido dos que desconfiaram de que deve ter havido ocasião que a banda se perdera por aí…

Artista experiente, Macalé teve o público em suas mãos desde o início da performance virtuosa de composições próprias, como Farinha do Desprezo, Mal Secreto, Let’s Play That, e de outros artistas que marcaram a geração de muitos que, como eu, ficaram justamente emocionados. Mas é quando canta sozinho ao violão Revendo Amigos que o domínio se faz pleno. Esta última é a música que encerra o clássico filme Amuleto de Ogum de Nelson Pereira dos Santos do qual ele assinou a trilha e atuou como o cego Firmino. Então convidou os ouvintes a fazer o corinho final e a empolgação definitivamente tomou conta da galera. Aproveitando a deixa, antes de cantar Gothan City, contou a história já bem conhecida das vaias estrondosas que recebeu no Festival Internacional da Canção em 1969 no Rio. Truque de sucesso, não falhou: as vaias foram ensurdecedoras – não a Jards, claro! Mas à atualidade do que representa essa sofisticada música de protesto que fala de caça às bruxas e de morcegos temerosos à espreita na porta principal.

Quando a banda voltou (na hora combinada!) e, com ela, todo o improviso jazzístico que caracteriza o poder criativo do artista popular que não se rende a fórmulas fáceis, os ânimos se aqueceram ainda mais com o biscoito fino fartamente saboreado pelas várias gerações que ali estavam. Luiz Melodia que me perdoe, mas a versão de Farrapo Humano ficou genial, com toda quebradeira instrumental que essa obra de arte merece. E lá vem na sequência Acertei no Milhar de Wilson Batista – a famosa música da polêmica com Noel Rosa – que levou definitivamente a plateia à loucura quando ele acrescenta ao último verso “Etelvina me acordou, Foi um sonho minha gente – tem um japonês na porta!”. E nova alusão à condição atual do país foi feita na versão de Canalha de Walter Franco com redobrada participação dos presentes que, a seu pedido, fizeram coro em uníssono ao encerrar a música com o grito incontido “canalhas!” remetido diretamente aos corruptos de plantão.

Um senhor de setenta anos, mais jovem e atual que tantos outros, Jards Macalé é uma das poucas vozes no cenário musical que se faz ouvir contra os desmandos atuais. Dito “maldito” – que ele não gosta, rótulo que lhe privou de certo circuito –, ele carrega a verve de uma geração de gênios que traduziu tão bem o Brasil pelas vias alternativas. Daí que, se o rótulo não lhe foi favorável comercialmente, deveria ser visto com orgulho por aquele que não cooptou, aquele que estando no registro do popular, do rebaixamento bakhtiniano, do underground e dos outsiders manteve-se fiel a uma proposta de altíssima cultura, um modernismo zappiano, uma ousadia estética de raro alcance. Tenho repetido o quanto a conjuntura atual ainda não nos deu uma grande música que a represente. Toda época tem sua manifestação artística marcante. Ou deveria ter. Assim como Macalé se entristece em saber o quanto as coisas não parecem ter mudado, fazendo com que suas composições tenham uma atualidade a toda prova, sinto – pela veneração que devoto à música e à arte em geral – o quanto estamos carentes de uma reação estética a altura da banalização do mal que nos assola. Enquanto isso, restam as lágrimas nos olhos que traduzem o êxtase que apenas um grande artista pode proporcionar. Salve os malditos!

*Valéria Guimarães é professora de História Cultural na UNESP e autora de Notícias diversas: suicídios por amor, leituras contagiosas e cultura popular em São Paulo dos anos dez, Ed. Mercado de Letras.



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