São Paulo 2028 - Le Monde Diplomatique

EDITORIAL

São Paulo 2028

por Silvio Caccia Bava
3 de janeiro de 2019
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Quanto à vida nas cidades, que abrigam mais de 85% dos brasileiros, ela vem melhorando ano após ano. O direito à cidade, direito de acessar bens e serviços públicos e usufruir deles, se amplia em razão da participação das cidadãs e cidadãos nas decisões sobre as políticas públicas.

São Paulo é uma cidade segura. Muitas vezes, por causa do calor, durmo de janela aberta e, se saio para comprar pão para o café da manhã, deixo a porta da frente aberta também. Não é assim que fazem os californianos que moram em La Joya? Pois em São Paulo isso também se tornou possível porque conquistamos um nível de bem-estar que reduziu drasticamente a desigualdade social e a violência.

Ninguém mais precisa roubar para sobreviver. Não há mais moradores de rua. A criminalidade caiu muito depois da legalização do consumo de drogas, que caiu muito também, e que são fornecidas pelo Estado nas farmácias populares. Tem emprego para todo mundo, o salário mínimo não é o da França, de R$ 6.500 mas dá para as necessidades básicas de uma família de três a quatro pessoas. E o custo de vida reduziu porque os equipamentos e serviços públicos tornaram-se uma opção.

As escolas públicas foram convertidas em escolas de tempo integral; na verdade, os CEUs se multiplicaram e estão em todos os bairros, além de conquistarem um nível de qualidade considerado muito bom pela Unesco. As creches, de qualidade, atendem todas as crianças; mães e pais podem deixar seus filhos e filhas com tranquilidade e satisfação o dia inteiro porque sabem que eles serão bem cuidados.

Já cuidar da saúde também não custa nada: foi reforçado o SUS, o maior sistema de saúde pública do mundo, e todas as necessidades dos cidadãos e cidadãs brasileiros, mesmo as mais complexas, são atendidas por esse sistema, que chega hoje aos rincões mais remotos do país, com o programa Mais Médicos e as equipes de médicos de família trabalhando mais na prevenção que na medicina curativa.

Quanto à vida nas cidades, que abrigam mais de 85% dos brasileiros, ela vem melhorando ano após ano. O direito à cidade, direito de acessar bens e serviços públicos e usufruir deles, se amplia em razão da participação das cidadãs e cidadãos nas decisões sobre as politicas públicas.

O metrô, os trens e os VLTs (uma versão moderna dos antigos bondes), como o do Rio de Janeiro, dão conta do transporte de massa, reduzindo muito o papel do ônibus, que continua tendo seus corredores exclusivos. As bicicletas ganharam novas ciclovias, e as calçadas, ampliadas e novas, com nova iluminação pública, garantem a segurança e estimulam o deslocamento a pé em pequenas distâncias. Uma conquista social foi a tarifa zero: o usuário não paga mais por esse serviço público porque o sistema todo deixou de ter operadores privados e, assim, deixou de ser fonte de lucro, sendo financiado pelo conjunto dos impostos. A diminuição do uso do carro reduziu também a poluição do ar e a sonora.

O saneamento básico chegou a 100% das casas, e os rios tornaram-se limpos e outra vez com vida. Não temos mais favelas: estas foram urbanizadas e contam com toda infraestrutura urbana. Este ano foram reinauguradas as regatas, corridas com barcos a remo, no Rio Tietê, uma promoção do Clube de Regatas Tietê, que voltou a operar como em seus tempos áureos, no começo do século XX. E no Rio Pinheiros temos um campeonato de pesca esportiva, mas há uma área destinada a banhistas, com praias artificiais construídas tais como as que existem hoje em Paris, no Rio Sena. Reduzimos muito a captação de água dos rios depois que, por lei, foram instalados equipamentos coletores de chuva em todas as edificações. O desperdício da lavagem das calçadas se faz hoje só com água de reúso. E as placas solares também contribuem para necessitarmos menos geração de energia de outras fontes. A cidade vai se tornando mais sustentável. A coleta seletiva do lixo já abrange 80% dos domicílios.

Inspirados no modelo do Sesc-SP, foram criados centros culturais e recreativos em todos os bairros da cidade. A valorização das praças e parques, sua boa iluminação e conservação, assim como o programa de arborização urbana, tornam a cidade mais fresca e apresentam mais opções de lazer para a população. Os centros de juventude, a exemplo de Medellín, na Colômbia, estão presentes em todos os bairros – são espaços geridos pelos jovens e oferecem cursos profissionalizantes, mas o principal é que os coletivos de cultura, os saraus de poesia, dança, música e teatro têm seu espaço assegurado nesses equipamentos públicos.

Uma vez que o governo cuida da cidade e das boas condições de vida dos cidadãos, estes retribuem e valorizam também o espaço público, preservando os equipamentos e criando sempre novas iniciativas para seu uso. Nos fins de semana, os CEUs tornam-se clubes para os moradores do bairro. Tem festa, tem ginástica, tem almoço coletivo, tem teatro, tem música, tem alegria, para não falar dos bailes dos velhinhos aos domingos, como acontece no Parque da Água Branca. Há uma aproximação e um encontro entre as pessoas do bairro, que vão se conhecendo, se tornando amigas. Na rua, as pessoas se cumprimentam e sorriem umas para as outras, como em Montreal, no Canadá.

Como já aconteceu no centro do Rio de Janeiro, na área antiga mais preservada, foi instalado no Largo da Batata, aos sábados à noite, um enorme tablado de dança, acompanhado de boa música, onde quem quiser vai dançar, vai se encontrar com os outros, vai buscar encontrar os amigos, um namorado, uma namorada. À sua volta, os bares locais vão colocando suas mesinhas ao ar livre, participando da festa, numa celebração da vida.

Celebramos em São Paulo a diversidade cultural. A Parada Gay é a mais significativa, além de ser a maior do mundo! Todas as escolhas e formas de amor são respeitadas. A cidade abriga, acolhe, valoriza e comemora a presença de todas as etnias, culturas e culinárias.  

Quero viver em São Paulo!

 



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