Saúde Social: a nova epidemia da solidão e a sua solução
Livro de cientista social apresenta a importância da coletividade e comunidade na saúde
Em 2024, diante um globo em colapso, caracterizado por crises econômicas, conflitos políticos e complexificado pelas tensões sociais e inimizades – além do uso excessivo das telas, Kasley Killam oferece uma nova solução: o reconhecimento e aprendizagem sobre a saúde social.
Kasley Killam é especialista em saúde social e conexão humana dos Estados Unidos, reconhecida internacionalmente. Em 2024, lançou a obra Saúde Social: A Arte e a Ciência da Conexão Humana, trazida ao Brasil pela Editora Amarilys.
Mas, afinal, o que seria a saúde social? A autora exemplifica a saúde como três colunas de um templo grego: a física, a mental e a social. A associação pode estar meio desconexa, mas esclarece um caráter importante da saúde que fora enevoado por muito tempo. Os relacionamentos com quem convive contribuem para uma pessoa garantir o seu bem-estar pleno.
Para o leitor compreender com clareza, ela elabora esta tabela:

Para entendermos melhor o que a cientista aborda em seu livro, o Le Monde Diplomatique Brasil entrevistou a autora do Prefácio, professora universitária, fundadora da Spark e Grupo Aladas, Andrea Bisker. De acordo com ela, “o que a Kesley fez, ela deu um nome, ela deu um letramento para a habilidade social, isso é um grande favor que ela fez pra gente”.
Cultivar as suas conexões
Killam norteia a ideia de saúde social a partir da falta de convívio entre os indivíduos na era digital, – a prescrita “epidemia da solidão”. Segundo Bisker, “hoje, com tanta digitalização, a gente perdeu a habilidade de se conectar de verdade. É hora de reaprender”.
A obra é baseada em muitas pesquisas coerentes e influentes para a proposta central da autora. A epidemia da solidão foi alertada pela Organização Mundial da Saúde em 2023. O relatório da comissão sobre Conexão Social da OMS indica que uma em cada seis pessoas no mundo é afetada pela solidão, associada a cerca de 100 mortes a cada hora.
Killam continua que “Todo esse tempo conectado a dispositivos tem efeitos mistos em nossa saúde social”. Em pesquisa Teens’ social media habits and experiences, 81% dos adolescentes afirmam que as redes sociais beneficiam a conexão. Por outro lado, em outro estudo apresentado pela cientista, No more FOMO: limiting social media decreases loneliness and depression, estudantes reduziram no máximo 30 minutos de redes sociais por dia, o que diretamente implicou na redução da solidão e da depressão.
A pesquisa de Carlo Lazzari e Mraco Rabottini¹, idosos isolados ou solitários apresentam um risco de 49% a 60% de desenvolver demência, comparável a outros fatores de risco, como depressão, diabetes, hipertensão, falta de educação, inatividade física e tabagismo.
Além do impacto na saúde mental, a saúde social também está correlata à saúde física. De acordo com estudos apresentados por Killam, a rejeição social afeta diretamente a região do cérebro. A partir de outros estudos e relatos apresentados, a autora propõe quatro diferentes tipos de pessoas: borboleta, duradouro, flor de parede ou vagalume. Algo interessante para entendermos que uma pessoa é muito mais complexa do que “extrovertida” ou “introvertida” quando falamos de relações.
A autora propõe que a saúde social favorece o indivíduo a gerar novos estímulos que propiciem uma melhoria no bem-estar e na comunidade. Portanto, a sua importância se dá por três pressupostos: a saúde social é inclusiva e convidativa, positiva e generativa, proativa e preventiva.

A desigualdade na saúde
A saúde, mesmo que um direito, não é acessível para todos. De acordo com levantamento do IBGE em 2020, 1 em cada 4 pessoas vive em famílias com restrição de acesso à saúde e 76% da população brasileira é dependente do Sistema Único de Saúde (SUS) no Brasil.
Nos Estados Unidos, 27,2 milhões de adultos acima de 18 anos (8.2% da população americana) não tem seguro de saúde em 2024, de acordo com pesquisa levantada pelo National Center for Health Statistics.
Entretanto, mesmo que o livro de Killam ofereça uma proposta simples e concreta sobre a sua ideia central, ela inicia sua obra a partir do pressuposto de que a saúde física e mental é acessível para todos. A falta de acesso às inovações médicas afunila o tipo de público que leria o seu livro. Por isso, prejudica a própria palavra que Killam gostaria de transmitir para todos: de que a saúde social é algo que deve ser trabalhado do indivíduo à comunidade, à qual agravada pela desigualdade.
Ao mesmo tempo, a pesquisadora surpreende com a definição de um termo que já estava no fundo da mente de todos: a saúde social. Assim como a autora sugere, a iniciativa de governos é essencial para auxiliar que as pessoas desempenhem as suas conexões.
Killam meramente sugere que o bem-estar social é prejudicado pela desigualdade quando menciona que “um dos maiores impedimentos para tornar a saúde social uma prioridade é a ocupação. Se você estiver preocupado com suas tarefas, terá menos espaço mental para prestar atenção nas pessoas ao seu redor, muito menos para se conectar com elas de forma significativa²”.
Quando perguntada sobre o papel de iniciativas governamentais para assegurar a saúde social, Andréa Bisker afirma que “as políticas públicas devem promover a construção e o desenvolvimento de espaços públicos, seja pistas de skates, parquinhos infantis ou shoppings centers”.
A partir das demandas em infraestruturas, o governo auxilia para o investimento da saúde social não para remediar, mas para prevenir. Bisker complementa: “o governo não dá conta das doenças. Então, deve-se mudar a mentalidade de longo prazo e entender que se deve investir em saúde social, pois é mais barato”.
Denota-se que Killam escreve Saúde Social: A Arte e a Ciência da Conexão Humana baseada em sua vivência nos Estados Unidos, que difere-se das conexões no Brasil.
Sobre a sociedade brasileira, Andrea Bisker arrisca dizer que “a gente (povo brasileiro) tem mais facilidade nas conexões.” A extroversão é muito comum. “Agora, o que é muito difícil para a gente? A gente não tem tempo e não tem espaços públicos, principalmente nas periferias”. Andrea conclui que a rotina de trabalho exaustiva e o cotidiano apressado impede diretamente o hábito de praticar a saúde social.
Regina Lemmi é parte da equipe do Le Monde Diplomatique Brasil.
¹LAZZARI, Carlo; RABOTTINI, Marco. COVID-19, loneliness, social isolation and risk of dementia in older people: a systematic review and meta-analysis of the relevant literature. International Journal of Psychiatry in Clinical Practice, v.26, n.2, pag. 1-12, 2021.
²KILLAM, Kasley. Saúde social: A Arte e a Ciência da Conexão Humana, pág. 82, 2025. Editora Amarilys.

