Segurança econômica e poder imperial sob Trump 2.0
Do Golden Dome ao controle das cadeias produtivas estratégicas
Introdução
“Os Estados Unidos precisam da Groenlândia por razões de segurança nacional. Ela é vital para o Golden Dome que estamos construindo. A OTAN deveria liderar o processo para que isso aconteça. Se não o fizermos, a Rússia ou a China o farão – e isso não vai acontecer.”
Com essa declaração, publicada na sua rede social, Donald Trump desloca a Groenlândia para o centro do debate geopolítico transatlântico e explicita, de forma inédita no pós-Guerra Fria, a disposição dos Estados Unidos de tratar a soberania de um território aliado da OTAN como questão subordinada aos imperativos de segurança nacional. Ao vincular diretamente o controle da ilha à construção do Golden Dome, à rivalidade estratégica com China e Rússia e ao papel instrumental da OTAN, Trump formula uma declaração de intenção estratégica que vai além da retórica episódica e sinaliza uma inflexão estrutural na política externa norte-americana.
Esse movimento não é isolado. Ele se insere em um reposicionamento mais amplo formalizado na National Security Strategy de 2025, que redefine a segurança nacional a partir de uma lógica de America First e estabelece a segurança econômica como seu núcleo material. O documento afirma que a força do Estado depende de sua capacidade de manter a economia mais robusta do mundo, desenvolver tecnologias avançadas e preservar uma base industrial capaz de sustentar tanto o poder militar quanto a autonomia estratégica dos Estados Unidos[1]. Nesse enquadramento, a segurança econômica deixa de ser um complemento da política externa e passa a constituir seu núcleo material. A NSS dedica uma seção central à Economic Security, na qual sustenta que a reindustrialização norte-americana exige o reequilíbrio das relações comerciais, a atração seletiva de investimentos, a proteção das cadeias produtivas críticas e o acesso seguro a minerais e materiais estratégicos, retomando explicitamente a tradição hamiltoniana segundo a qual nenhuma nação pode depender de potências rivais para os insumos essenciais à sua defesa e à sua economia[2]. Essa lógica articula-se a uma concepção territorializada do poder, ao definir o Hemisfério Ocidental como base da posição internacional dos Estados Unidos e ao afirmar o chamado “Corolário Trump à Doutrina Monroe”, que legitima o uso de instrumentos econômicos, regulatórios e políticos para conter adversários, disciplinar aliados e assegurar o controle sobre recursos estratégicos e cadeias produtivas na área de influência norte-americana[3].
Nesse enquadramento, a força dos EUA passa a depender da capacidade de controlar cadeias produtivas críticas, assegurar acesso a minerais estratégicos e disciplinar fluxos de investimento considerados sensíveis. A política externa deixa, assim, de se orientar prioritariamente por compromissos multilaterais e passa a operar por meio de instrumentos econômicos, regulatórios e políticos voltados à contenção de rivais e à gestão assimétrica de aliados.
É nesse contexto que a Groenlândia assume centralidade inédita. Este artigo argumenta que, sob Trump 2.0, o território tornou-se um caso-limite da segurança econômica contemporânea, no qual investimento, regulação e poder estatal operam de forma integrada. Mais do que um objeto de disputa geopolítica clássica, a Groenlândia funciona como laboratório avançado de uma agenda imperial de segurança econômica, por meio da qual os Estados Unidos buscam conter a presença chinesa e reorganizar, sob coerção política, o acesso a recursos estratégicos e cadeias produtivas no Norte Global.
Kalaallit Nunaat: povo, território e autonomia limitada
Kalaallit Nunaat, nome inuit da Groenlândia e território ancestral do povo Inuit, é hoje uma ilha semi-autônoma de cerca de 56 000 habitantes, a imensa maioria dos quais (aproximadamente 88–90%) identifica-se como Inuit, distribuídos principalmente ao longo da costa sudoeste, onde as condições climáticas são menos extremas.
Essa presença humana e histórica contrasta com o modo como a Groenlândia tem sido frequentemente tratada no discurso estratégico contemporâneo, como se fosse um espaço vazio disponível à projeção de interesses externos. Como argumenta Antony Anghie, no livro Imperialism, Sovereignty and the Making of International Law, a noção de terra nullius nunca descreveu uma realidade empírica, mas operou como uma ficção jurídica mobilizada pelas potências coloniais europeias para legitimar a anexação de territórios previamente designados para a colonização. Longe de pertencer apenas ao passado colonial, essa ficção permanece operativa e reaparece, sob novas linguagens, nas declarações imperiais contemporâneas dos Estados Unidos, nas quais a Groenlândia é reinscrita como espaço estratégico apropriável, subordinando população, autonomia e soberania a imperativos de segurança nacional e econômica.
É nesse quadro histórico que se insere a trajetória política da Groenlândia sob o domínio dinamarquês. O território permaneceu sob controle colonial por mais de dois séculos, e sua incorporação formal ao Reino da Dinamarca, em 1953, não significou o fim da condição colonial, mas um rearranjo institucional. Apenas com o Home Rule Act de 1979 e, sobretudo, com o Self-Government Act de 2009, consolidou-se um regime de autogoverno que transferiu ao governo groenlandês autonomia sobre políticas domésticas e sobre a exploração de recursos naturais. A Groenlândia configura, assim, um território habitado por um povo politicamente constituído, dotado de autogoverno formal, mas marcado por uma autonomia estruturalmente limitada quando decisões estratégicas envolvendo segurança, recursos e inserção internacional entram em jogo.
Essa autonomia, contudo, permanece estruturalmente condicionada. Defesa e política externa continuam sob responsabilidade de Copenhague, e a dependência fiscal em relação à Dinamarca segue elevada, com transferências que financiam parcela significativa do orçamento local. A Groenlândia combina, assim, autogoverno interno e dependência externa – condição que a torna particularmente vulnerável a pressões quando interesses estratégicos de grandes potências entram em jogo, tensionando o princípio da autodeterminação em um contexto de rivalidade sistêmica.
Nesse contexto, o território assume relevância adicional em função de seus recursos naturais. A Groenlândia concentra depósitos relevantes de terras raras pesadas, como disprósio, térbio e neodímio, essenciais para tecnologias de defesa, semicondutores, veículos elétricos, turbinas eólicas e sistemas digitais avançados. Seu valor estratégico decorre menos da escassez geológica e mais da forma como as cadeias produtivas globais desses minerais foram historicamente organizadas.
Atualmente, a China domina não apenas a mineração, mas sobretudo as etapas de separação, refino e processamento intermediário das terras raras. Ao longo de décadas, países ocidentais terceirizaram essas fases intensivas em custos ambientais e regulatórios, produzindo uma dependência estrutural difícil de reverter no curto prazo. Nesse cenário, a Groenlândia surge menos como solução imediata de abastecimento e mais como ativo estratégico de médio e longo prazo, capaz de sustentar a reorientação de fluxos de investimento para fora da órbita chinesa.

Ártico: entre espaço de segurança e fronteira econômica estratégica
O significado da Groenlândia não pode ser compreendido como resultado exclusivo da rivalidade recente com a China. Ela se inscreve em uma continuidade histórica mais longa da política estratégica norte-americana em relação ao Ártico. Ainda no século XIX, sob Andrew Johnson, e novamente no pós-Segunda Guerra Mundial, durante o governo Harry Truman, os Estados Unidos apresentaram propostas formais de aquisição da ilha, já então considerada estratégica. A Dinamarca recusou a transferência de soberania, mas aceitou a manutenção de uma presença militar norte-americana permanente, inaugurada no imediato pós-guerra, quando o Ártico passou a ser incorporado à definição da segurança continental dos Estados Unidos.
Já nos anos 1940, formuladores centrais da política externa norte-americana identificavam o controle do Atlântico Norte e do Ártico como condição material da defesa dos Estados Unidos. Em um contexto marcado pela expansão da aviação estratégica e, posteriormente, pelo desenvolvimento de mísseis balísticos intercontinentais, a geografia da segurança global foi profundamente reconfigurada. A Groenlândia, pela sua posição entre a América do Norte e a Eurásia, foi integrada de forma estrutural a esse perímetro estratégico.
Nesse processo, consolidou-se a presença militar permanente dos EUA na ilha. A Base Aérea de Thule – atualmente denominada Pituffik Space Base – tornou-se peça-chave dos sistemas de alerta antecipado e vigilância durante a Guerra Fria, integrando a Groenlândia à arquitetura de segurança estratégica norte-americana. Mesmo após o fim da bipolaridade, quando o Ártico perdeu visibilidade no debate público, essa infraestrutura não foi desmobilizada. Ao contrário, permaneceu como ativo estratégico latente, passível de reativação diante de novas transformações geopolíticas.
Trump já havia declarado esse interesse em 2019, ao levantar publicamente a possibilidade de os Estados Unidos adquirirem a Groenlândia, proposta rejeitada de imediato pelo governo dinamarquês e que resultou no cancelamento de uma visita oficial à Dinamarca. Essa iniciativa já expressava a leitura estratégica de Washington sobre o valor geopolítico da ilha no Ártico, ao articular posição territorial, recursos naturais e preocupações com a presença chinesa.
O que se altera sob Trump 2.0 não é a importância estratégica da Groenlândia em si, mas o contexto material e político no qual essa importância se atualiza. Esse novo contexto redefine os cálculos estratégicos dos principais atores no Ártico. O avanço do degelo e a abertura progressiva de rotas marítimas transformaram a região de periferia congelada em fronteira econômica e estratégica emergente. A Groenlândia passa a concentrar interesses associados não apenas à segurança militar, mas também à logística, ao comércio e, sobretudo, ao acesso a recursos naturais estratégicos.
É nesse novo cenário que a presença chinesa passa a ser tratada como politicamente sensível. A partir de meados da década de 2010, a China formula explicitamente uma política para o Ártico, consolidada no White Paper on China’s Arctic Policy, de 2018. Ao se definir como near-Arctic state, Pequim não reivindica projeção militar direta, mas legitima sua atuação econômica, científica e logística na região, integrando o Ártico à chamada Rota da Seda Polar. Trata-se de um padrão característico da estratégia chinesa contemporânea, baseado na expansão por meio de investimento, participação corporativa e financiamento de longo prazo, e não pela ocupação militar clássica.
Na Groenlândia, essa estratégia concentrou-se sobretudo no setor mineral. Projetos de exploração de terras raras e outros minerais críticos passaram a contar com participação de empresas chinesas, principalmente nas etapas iniciais (upstream) da mineração. Do ponto de vista de Washington, essa presença não foi interpretada como investimento ordinário, mas como risco potencial à segurança nacional, dada a combinação entre a posição geoestratégica da ilha, sua integração histórica à arquitetura militar norte-americana e a centralidade crescente dos minerais críticos para setores sensíveis como defesa, semicondutores, energia e tecnologias avançadas.
A relevância desses recursos não decorre de escassez geológica absoluta, mas da forma como as cadeias produtivas globais foram historicamente organizadas. A vulnerabilidade enfrentada pelos Estados Unidos e seus aliados é estruturalmente produtiva: a China consolidou uma posição dominante não apenas na extração, mas sobretudo nas etapas de separação, refino e processamento intermediário de minerais críticos, adquirindo capacidade de influência estrutural sobre cadeias industriais estratégicas – algo que passa a ser tratado por Washington como risco direto à segurança nacional.
Nesse contexto, a Groenlândia emerge menos como solução imediata de abastecimento e mais como ativo estratégico de médio e longo prazo. Para os Estados Unidos, seu valor reside na possibilidade de sustentar uma reorganização seletiva das cadeias produtivas fora da órbita chinesa, desde que acompanhada por decisões políticas capazes de orientar investimentos, selecionar parceiros e disciplinar o acesso aos recursos. O investimento passa a ser explicitamente subordinado a critérios de alinhamento estratégico e controle político, em lógica comparável à observada no caso da Venezuela, onde o controle de recursos energéticos foi articulado à atuação de corporações integradas à coordenação do Estado norte-americano.
Essa transformação prepara o terreno para o movimento decisivo analisado na seção seguinte: a intervenção direta do Estado – norte-americano e de seus aliados – sobre projetos, corporações e fluxos de capital. A disputa pela Groenlândia desloca-se, assim, do plano geopolítico abstrato para o nível concreto da economia política internacional, no qual decisões sobre quem investe, quem controla e quem é excluído passam a funcionar como instrumentos centrais da contenção estratégica.

Corporações, projetos e disputa por controle: investimento e segurança na Groenlândia
É no plano dos projetos de exploração de recursos e dos instrumentos regulatórios que a politização das cadeias produtivas se traduz em decisões concretas. Na Groenlândia, a disputa entre os EUA e a China não se manifesta prioritariamente por meio de confrontos militares ou negociações diplomáticas formais, mas pela reorganização seletiva do investimento estrangeiro e pelo controle político do capital em setores classificados como estratégicos. O território converte-se, assim, em um espaço privilegiado para observar como segurança econômica, investimento e poder estatal operam de forma integrada.
A exploração mineral na Groenlândia passou a ser estruturada por uma clivagem clara entre, de um lado, corporações incorporadas em países aliados dos Estados Unidos – integradas ou passíveis de integração às cadeias produtivas ocidentais – e, de outro, a presença chinesa concentrada nas etapas iniciais (upstream) da mineração. Essa clivagem não decorre de diferenças técnicas ou econômicas intrínsecas, mas de decisões políticas que redefinem quais capitais são considerados aceitáveis do ponto de vista da segurança.
Quadro 1 – Corporações e projetos estratégicos na Groenlândia
| Empresa | Nacionalidade / incorporação | Projeto | Tipo de atuação | Observação estratégica |
| Critical Metals Corp. | British Virgin Islands/NASDAQ:
CRML |
Tanbreez | Mineração de terras raras pesadas (upstream) | Integração a cadeias industriais ocidentais; interesse em financiamento público dos EUA |
| Ucore Rare Metals | Cfanadá | Acordos de offtake e processamento | Integração downstream | Processamento planejado na América do Norte, apoio do Pentágono |
| REalloys Inc. | Estados Unidos | Offtake parcial | Fornecimento industrial | Conexão com setores de defesa e tecnologia |
| Shenghe Resources | China | Greenland Minerals (participação acionária) | Upstream da mineração | Presença chinesa sensível do ponto de vista da segurança econômica |
| Energy Transition Minerals | Austrália | Kvanefjeld | Mineração | Projeto politicamente e ambientalmente sensível |
| Amaroq Ltd. | Canadá | Projetos no sul da Groenlândia | Mineração | Capital aliado; diálogo direto com autoridades norte-americana |
O Quadro 2 evidencia essa divisão. Corporações incorporadas nos Estados Unidos e em países aliados estruturam sua atuação em conexão direta com cadeias industriais da América do Norte, combinando extração, acordos de offtake e controle das etapas subsequentes da produção. Em contraste, a presença chinesa concentra-se sobretudo nas fases iniciais (upstream) da mineração, por meio de participações acionárias em projetos estratégicos como o Greenland Minerals (Kvanefjeld).
Essa distinção é politicamente decisiva. Enquanto empresas norte-americanas e aliadas buscam assegurar não apenas a extração, mas o controle integrado das cadeias produtivas, a participação chinesa no upstream passa a ser reinterpretada como risco à segurança econômica. A viabilidade econômica dos projetos deixa de ser critério suficiente; o alinhamento estratégico torna-se condição necessária.
Nesse contexto, os contratos de offtake assumem papel central. Ao garantirem antecipadamente o destino da produção, esses acordos reduzem riscos, viabilizam financiamento e, sobretudo, ancoram projetos minerais em circuitos industriais específicos. Na Groenlândia, os offtakes operam como instrumentos de disciplina do capital: vinculam a produção a setores estratégicos – como defesa, semicondutores e tecnologias avançadas – e integram os projetos a cadeias produtivas consideradas politicamente confiáveis.
O Estado é o agente que organiza esse processo. A intervenção ocorre por meio de uma combinação de veto regulatório e promoção seletiva de capital aliado, mobilizando mecanismos de investment screening, financiamento público, garantias estatais e apoio à infraestrutura. Dessa forma, o investimento deixa de operar como variável autônoma e passa a funcionar como instrumento direto de organização do capital em função da rivalidade estratégica.
Quadro 02 – Instrumentos de controle do investimento na Groenlândia
| Instrumento / mecanismo | Ator estatal | Efeito direto sobre o investimento | Implicação política |
| Investment Screening Act (Dinamarca, 2021) | Estado dinamarquês (Danish Business Authority) | Possibilidade de veto ou condicionamento de investimentos estrangeiros em setores sensíveis | Limitação preventiva à entrada de capitais considerados risco à segurança |
| Avaliação de risco à segurança nacional | Dinamarca, em coordenação com aliados | Incerteza regulatória para investidores não alinhados | Efeito dissuasório sobre capitais chineses |
| Coordenação político-estratégica com os EUA | EUA / Dinamarca | Reorientação do perfil de investidores aceitos | Alinhamento da política de investimento à agenda de segurança econômica dos EUA |
| Promoção seletiva de capital aliado | EUA e parceiros | Facilitação de financiamento, garantias e acordos de compra (offtake) | Integração da Groenlândia a cadeias produtivas ocidentais |
| Exclusão indireta de rivais estratégicos | EUA / aliados | Restrição de acesso a projetos minerais estratégicos | Contenção da presença chinesa sem coerção militar direta |
O Quadro 3 sintetiza esse regime. A aprovação do Investment Screening Act dinamarquês, em 2021, ampliou significativamente o controle estatal sobre investimentos estrangeiros em setores sensíveis, centralizando na Danish Business Authority (DBA) a capacidade de avaliar, condicionar ou vetar operações consideradas relevantes para a segurança nacional. Esse arcabouço regulatório alinhou a política de investimento da Dinamarca aos parâmetros da segurança econômica norte-americana e às exigências da OTAN. Seu efeito concreto foi a introdução de um filtro seletivo sobre o capital estrangeiro, com impacto direto sobre a presença chinesa e a reorientação da propriedade e do controle acionário em favor de empresas incorporadas em países aliados.
Além do veto regulatório, a estratégia norte-americana opera por meio de articulação direta entre agentes estatais e corporações consideradas estratégicas. Um caso ilustrativo é o da Amaroq Ltd., empresa de mineração incorporada no Canadá, com operações no sul da Groenlândia. Declarações públicas de sua direção indicam conversas com autoridades dos EUA sobre investimentos diretos, apoio à infraestrutura e acordos de compra da produção. A escolha de uma empresa sediada em país aliado evidencia que essa política não se limita à exclusão de capitais considerados adversos, mas envolve a construção ativa de alternativas alinhadas às prioridades de segurança econômica dos Estados Unidos.
O caso da Shenghe Resources, por contraste, ilustra o movimento inverso. Apesar da relevância técnica e econômica do projeto Greenland Minerals, sua associação com capital chinês tornou-se politicamente insustentável. A exclusão não decorre de ineficiência econômica, mas de incompatibilidade estratégica. O investimento passa a ser avaliado não apenas por sua rentabilidade, mas por sua origem, seus vínculos políticos e sua inserção nas cadeias produtivas globais.
A politização do investimento torna-se ainda mais explícita no litígio envolvendo o projeto Kvanefjeld/Kuannersuit. Em 2023, a Energy Transition Minerals, empresa australiana com participação da chinesa Shenghe Resources, acionou judicialmente o governo da Groenlândia e o Reino da Dinamarca após a revogação de sua licença de exploração, decorrente da proibição da mineração de urânio. A empresa reivindica compensação de até US$ 11 bilhões por receitas futuras perdidas – valor superior ao orçamento anual do território –, convertendo uma decisão regulatória soberana em disputa jurídica de escala sistêmica. O episódio evidencia como, no contexto da rivalidade estratégica, projetos de mineração deixam de operar apenas como investimentos econômicos e passam a integrar diretamente o campo de disputa entre regulação estatal, corporações e segurança econômica.
A Groenlândia emerge, assim, como um espaço no qual decisões sobre investimento, propriedade e controle acionário são tratadas como questões de segurança nacional. O mercado não é suprimido, mas ativamente organizado pelo Estado em função da rivalidade estratégica entre Estados Unidos e China. Nesse processo, as corporações passam a operar em arranjos institucionais e regulatórios por meio das quais prioridades estratégicas são negociadas, filtradas e estabilizadas na organização dos territórios, dos recursos e das cadeias produtivas.
Conclusão
As declarações de Donald Trump sobre a aquisição da Groenlândia sob Trump 2.0 não devem ser lidas como retórica isolada ou excentricidade pessoal, mas como expressão concentrada de uma inflexão estrutural na política externa e econômica dos Estados Unidos, na qual soberania territorial, controle de recursos e segurança econômica passam a ser tratados de forma indissociável. Ao enunciar publicamente a possibilidade de aquisição de um território associado a um aliado da OTAN, Trump explicita uma lógica de poder que relativiza limites normativos do pós-guerra e reinscreve a apropriação territorial como instrumento legítimo da estratégia norte-americana.
O chamado Corolário Trump à Doutrina Monroe fornece a base política que legitima essa inflexão. Ao afirmar que economic security is national security, o governo norte-americano redefine os instrumentos centrais da política externa, deslocando o eixo da contenção estratégica para o controle político do investimento, da propriedade corporativa e das cadeias produtivas críticas. Nesse enquadramento, a Groenlândia destaca-se como um espaço privilegiado para observar como essa lógica opera de forma institucionalizada no Norte Global, por meio de regulação coercitiva, coordenação assimétrica entre aliados e promoção seletiva de capitais alinhados às prioridades estratégicas de Washington.
O caso evidencia que essa estratégia se estrutura por um duplo movimento. De um lado, a imposição de mecanismos de investment screening moldados segundo a arquitetura de segurança do investimento desenvolvida pelos EUA, transferidos a Estados aliados sob pressão política, ameaça de sanções e custos crescentes de não alinhamento, com impacto direto sobre capitais associados à China. De outro, a promoção ativa de capitais aliados por meio de financiamento público condicionado, acordos de offtake e articulação direta entre o Estado e corporações estratégicas. O investimento passa, assim, a funcionar como instrumento coercitivo de organização e disciplina do capital, por meio do qual relações de poder são projetadas sobre decisões empresariais, arranjos produtivos e controle de recursos estratégicos.
Articulado ao caso venezuelano, o exemplo da Groenlândia revela que esse padrão de ação não se restringe a contextos periféricos nem depende exclusivamente da coerção militar direta. Trata-se da aplicação adaptada de uma mesma lógica coercitiva de poder imperial ao longo da hierarquia internacional: sanções, coerção aberta e ameaça militar no Sul Global; regulação, seleção política de capitais e disciplina institucionalizada do investimento no Norte Global. Em ambos os casos, a soberania é progressivamente restringida à medida que decisões econômicas fundamentais passam a ser organizadas em função de imperativos estratégicos definidos em Washington.
Nesse sentido, a Groenlândia evidencia a normalização contemporânea de uma agenda imperial de segurança econômica assumida explicitamente sob Trump 2.0, na qual Estado, capital e coerção se articulam como dimensões indissociáveis da gestão da ordem internacional. Como na ficção jurídica da terra nullius analisada por Antony Anghie, territórios habitados e politicamente constituídos são reinscritos como espaços estratégicos apropriáveis, subordinando populações, autonomia e soberania aos imperativos de segurança econômica definidos unilateralmente pelos Estados Unidos.
Edna Aparecida da Silva é doutora em Ciência Política pela Unicamp, pesquisadora associada do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia para Estudos sobre os Estados Unidos (INCT-INEU), assim como no projeto “Dinâmica Competitiva e Interações Estratégicas: os impactos da competição tecnológica entre EUA-China sobre o Brasil” (CNPq/INEU/UFPB). Lattes: https://buscatextual.cnpq.br/buscatextual/visualizacv.do?metodo=apresentar&id=K4723858P0

