Ser de esquerda no Brasil hoje - Le Monde Diplomatique

RESISTÊNCIA E RECONSTRUÇÃO

Ser de esquerda no Brasil hoje

por Alexandre de Freitas Barbosa
14 de Março de 2019
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O novo ciclo depende da resolução dos conflitos entre as várias facções que compõem o atual governo e da capacidade de resposta da esquerda

O deputado que dedicou o seu voto ao torturador, naquele fatídico dia 17 de abril de 2016, tornou-se presidente da República no dia 1º. de janeiro de 2019. Se alguém fizesse essa previsão no dia da farsa, que entrará para os anais da história nacional, seria então chamado de louco. O que aconteceu? Como isso foi possível?

As respostas a essas questões exigem um mergulho na dinâmica social, política e econômica, repleta de contradições, que marcou o ciclo da história do país entre 1988 e 2016. Ficou evidente que o golpe midiático-judicial-parlamentar responsável por colocar Temer no poder, com amplo apoio das elites e classes dominantes, não foi uma “pinguela”, como o político esquecido da sociologia FHC vaticinou. A ponte foi dinamitada e dos seus destroços emergirá um novo ciclo histórico, que o presidente empossado muito provavelmente não conseguirá protagonizar.

No curto prazo, o cenário é o seguinte: o sistema político foi implodido, o projeto econômico ultraliberal ingressou de cheio na agenda do novo governo e os movimentos sociais que empolgaram a cena brasileira desde os anos 1980 estão na retaguarda. Lula está preso e a palavra “desenvolvimento” deixou de ser pronunciada.

Até quando? O novo ciclo depende da resolução dos conflitos entre as várias facções que compõem o atual governo e da capacidade de resposta da esquerda. Apesar de alijada do poder e de seus partidos se digladiarem a olhos vistos, ela ainda goza de capilaridade e influência junto a representantes do Estado, da imprensa e da sociedade.

Daí a pergunta, o que é ser de esquerda no Brasil de hoje? O tempo e lugar em que são formuladas a teoria e a prática que fundamentam uma posição dita de “esquerda” contam. Não será mais a esquerda de ontem e tampouco ela enfrentará os mesmos dilemas que a esquerda europeia, estadunidense ou dos demais países latino-americanos. Diferenças regionais nas práticas e formulações dos intelectuais e dos movimentos sociais que atuam na periferia das grandes cidades, nas áreas rurais ou nas cidades médias do Sul ou do Nordeste também devem ser levadas em consideração.

O discurso dominante durante a campanha transformou a esquerda em pária da vida política nacional. Apesar de ter angariado o apoio de segmentos sociais dispersos, pouca gente minimamente informada acredita no besteirol do bruxo de Richmond. O consenso vitorioso se armou, via grande mídia, em torno da responsabilização do PT por ter “quebrado o país” ou por ter desorganizado a “harmonia social”, ao prometer o “paraíso aos pobres” contra a bandeira da meritocracia – na maioria das vezes ostentada pelos privilegiados ou por aqueles que lograram se situar alguns degraus acima da base da pirâmide social.

Muito diferente era a imagem da esquerda ao longo dos anos 1980 e 1990, lentamente construída após anos de luta e resistência. Então ser de esquerda era ostentar uma estrela do PT no peito, participar de movimentos de base, ganhar espaço no Congresso, eleger prefeituras, estabelecer parcerias com os movimentos internacionais e votar em Lula para presidente. As elites econômicas podiam olhar com distância, mas havia respeito e até certa admiração.

Ser de esquerda era fazer parte de uma subcultura – inicialmente quase uma contracultura – que, não obstante, se alastrava pelos veículos da imprensa, pelo mundo da cultura e pelas universidades, em sintonia com o povo que agora se fazia expressar por seus próprios líderes. Até que esse processo subterrâneo adquiriu desenvoltura e chegou ao poder. Segmentos das classes médias e das elites souberam reconhecer a importância deste movimento e o seu caráter democrático, dando o seu apoio muitas vezes velado, quando não de forma interesseira.

Foram os governos do PT de esquerda? Sim e não. Sim, porque conseguiram trazer para a agenda do Estado velhas demandas represadas. Nas áreas da política social, da cultura, da educação e do mundo do trabalho, houve avanços expressivos. Na política externa, o Brasil resgatou uma tradição esquecida e a levou a novas alturas, exercendo um protagonismo reconhecido tanto pelo poder econômico global, como pelos países periféricos e pelos movimentos sociais nos quatro cantos do planeta. Isso não é pouco.

Mas não foram de esquerda por terem se acostumado e se adequado ao pacto de elites vigente. Não conquistaram ideologicamente corações e almas para um projeto nacional de fôlego, costurando acordos entre os vários segmentos da sociedade e soldando alianças de longo prazo. Ficaram na conciliação do presidencialismo de coalizão, necessária no curto prazo, mas insuficiente para os objetivos a que se havia proposto.

Não foram tampouco capazes de desarmar a cunha financeira dos juros altos e de lograr um reposicionamento da economia brasileira no novo sistema de divisão internacional do trabalho. Talvez não o tenham feito por não encontrarem uma burguesia nacional disposta a assumir a empreitada. Há até quem questione se isso é uma tarefa da esquerda. Eu diria que é ou deveria ter sido. Os historiadores do “futuro passado” dirão se tal aposta esteve nos cálculos dos governos do PT, se não a encamparam por falta de apoio social ou porque simplesmente tudo andava às mil maravilhas e não se mexe em time que está ganhando.

Jair Bolsonaro na votação do impeachment da presidenta Dilma Rousseff. Ao declarar seu voto, homenageou o torturador Brilhante Ustra. Marcelo Camargo/Agência Brasil

 

O que importa é que se “desenvolvimentismo” houve, ele se mostrou de baixa envergadura, incapaz de angariar os suportes sociais dispostos a embarcar na aventura. Faltou também uma interpretação sobre os dilemas estruturais da nação e uma utopia do possível que orientasse a sua superação. Isso era importante para que se soubesse com quem se poderia contar e em que pautas, até para escaloná-las ao longo do tempo. Mas o jogo ficou restrito às cúpulas políticas.

No meu modo de ver, essa é a autocrítica que a esquerda precisa fazer para se colocar à altura do período que se inicia. A nós não é facultada a escolha das condições em que se dá o embate que virá pela frente, pois a história passa como um trem descarrilado.

Resistir é, sim, muito importante. Precisamos recuperar a auto-estima de ser de esquerda, rever os nossos métodos de atuação e revigorar os nossos valores e concepções de mundo.

Precisamos organizar comitês populares, grupos de discussão e pesquisa, rodas de conversa, comunidades eclesiais, cursos de formação política e tudo que estiver ao nosso alcance, utilizando todas as mídias alternativas e todos os espaços democráticos.

Precisamos circular pelos espaços públicos e privados e dizer com orgulho: lutamos contra todas as formas de desigualdade, acreditamos nos valores da solidariedade e no respeito à diferença. De forma serena e convicta e, se preciso for, de forma aguerrida. O “movimento” que se alçou ao poder não logrará se enraizar na vida nacional, mas tampouco desaparecerá. Ele sempre esteve aí. Talvez até seja bom que tenha saído do armário.

Mas é preciso mais do que isso. Não podemos nos deixar encurralar numa posição crítica e distanciada do poder econômico e midiático, pois, aos poucos, crescentes segmentos da classe média e da própria burguesia se darão conta de que fizeram uma opção extremamente arriscada que, no limite, atenta contra os seus próprios interesses. É nosso dever histórico reconstruir as pontes – dialogando com os adversários de ontem e os “aliados” de anteontem, e ocupando todos os espaços disponíveis –, o que não significa abrir mão dos nossos valores fundamentais e de um novo projeto de país.

Junto com as tarefas coligadas de resistência e de reconstrução da esquerda, que passam pelo resgate da nossa auto-estima e das pontes com a sociedade, precisamos nos perguntar o que queremos dizer quando pronunciamos a palavra desenvolvimento e como viabilizaremos esse projeto em todas as suas dimensões.

Quais são as nossas reformas; que Estado é este e o que queremos dele; com quais segmentos da sociedade podemos contar (o que passa pela compreensão de que sociedade é esta); quais as estratégias políticas mais pertinentes para atingir os nossos objetivos; como agir diante das novas mudanças impostas pelo quadro político e econômico mundial? – tudo isso sem esquecer que o país que voltaremos a governar um dia não é para principiantes. Enfim, compreender a história do presente e do passado – inclusive nossos erros de estratégia e diagnóstico – é condição para a construção de uma nova utopia de esquerda no futuro.

 

*Alexandre de Freitas Barbosa é professor de História Econômica e Economia Brasileira do Instituto de Estudos Brasileiros da Universidade de São Paulo (IEB/USP).



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