Simulações europeias - Le Monde Diplomatique

Limites da democracia

Simulações europeias

por Serge Halimi
5 de junho de 2009
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Quando socialistas, liberais e conservadores confluem para as mesmas posições no Parlamento Europeu, é preciso compreender porque. Talvez a despolitização seja resultante do bloco governante, que não quer romper com a coalizão. As consequências começam com grandes abstenções, mas não se sabe onde terminam…

Imaginem uma eleição cujos resultados são conhecidos por todos com antecedência, e na qual se apresenta um grande número de candidatos cuja incompetência é notória”, escreveu Vaclav Havel. “Todo pleito pretensamente democrático organizado dessa forma, na certa seria qualificado de farsa”1, conclui.

Quando fez esta descrição, o antigo presidente tcheco não estava se referindo ao Parlamento Europeu, e sim ao Conselho dos Direitos Humanos das Nações Unidas. Mas, não faltam coincidências…

Desde a primeira eleição dos deputados europeus, a taxa de abstenção tem sido crescente: de 37% em 1979, passou a 54% em 2004. Ainda assim, os poderes do Parlamento foram ampliados, assim como seu campo de atuação, que hoje diz respeito a 495 milhões de habitantes, contra os 184 milhões de 30 anos atrás. A Europa ocupa o palco, mas não convence a plateia.

Isso ocorre, provavelmente, porque não existe nenhuma comunidade política continental digna desse nome. A esperança de que a simultaneidade dos 27 pleitos nacionais, quase sempre disputados em torno de questões internas, possa propiciar um dia o nascimento de uma identidade européia permanece uma fantasia.

Quantos cidadãos eslovenos estão a par, mesmo que de maneira vaga, dos debates eleitorais suecos? E quantos alemães se informam a respeito da vida política búlgara? Entretanto, no dia que se segue a um pleito europeu, os eleitores descobrem que em Estocolmo ou em Sofia o veredicto das urnas pode não ter sido o que os demais esperavam. Ou que, na realidade, seus votos não elegeram mais do que 1% (Eslovênia) ou 13,5% (Alemanha) do total dos parlamentares da UE2.

Alguém acredita que uma revelação dessa natureza não alimenta, na mente do eleitor, o sentimento de inutilidade relativa? Bem, essa impressão nunca chegou a ser questionada pelos governantes europeus, pelo contrário: estes ignoraram até mesmo a vontade de três povos em pleitos relativos ao tratado constitucional, em decisões tomadas após campanhas que mobilizaram interesses e paixões.

Na França, sete das oito circunscrições eleitorais foram redesenhadas com a única finalidade de favorecer os grandes partidos. Elas não correspondem a nenhuma realidade histórica, política ou territorial. Aliás, a do sudeste tem como líder principal um socialista que no passado foi eleito no noroeste e que qualificou de “lástima” sua própria transferência de uma região para outra. Contudo, ele já está eleito de antemão, assim como a ministra francesa da Justiça, a quem o pleito interessa tão pouco que ela situa em Haia, e não em Luxemburgo, a sede da Corte Europeia de Justiça. Na Itália, Silvio Berlusconi havia planejado, sem pestanejar, inscrever oito modelos e atrizes de novelas como candidatas.

E isso não é tudo. As forças políticas que ao longo dos últimos 30 anos transformaram o “velho continente” em um grande mercado ao qual foram sendo incorporados novos países, num processo de ampliação que parecia não ter fim, propõem agora repentinamente “uma Europa que protege”, “humanista”, “social”.

Por mais que socialistas, liberais e conservadores se enfrentem no decorrer das campanhas eleitorais, seus votos costumam confluir na maior parte dos pleitos do Parlamento Europeu. Além disso, eles dividem entre si os cargos de comissários – dos quais seis são atribuídos aos socialdemocratas, encarregados, entre outros, da gestão fiscal, da indústria, dos assuntos econômicos e monetários, do emprego e do comércio. O medo do enfrentamento e a despolitização das questões em pauta favorecem a recondução constante desse bloco governante, que abrange “desde um centro-direita que absorve todas as tendências até um centro-esquerda amolecido, passando por uma coalizão liberal desprovida de qualquer firmeza”3.

Até que ponto uma carência tão grande de alternância poderá garantir a permanência de José Manuel Barroso, atual presidente da Comissão Europeia, à frente dessa combinação de eleitos cuja gestão produziu resultados mais do que medíocres? “Ele realizou um trabalho excelente, e quero anunciar aqui de maneira muito clara que nós o apoiaremos”, declarou o primeiro-ministro trabalhista britânico Gordon Brown. Uma afirmação que o socialista espanhol José Luis Zapatero confirmou com entusiasmo: “Eu apoio o presidente Barroso”. Vale lembrar que os senhores Brown e Zapatero defendem o mesmo programa, o do Partido Socialista Europeu (PSE). Uma agremiação à qual também pertence a líder socialista francesa Martine Aubry, que, no entanto, já avisou: “A Europa à qual eu aspiro não é uma Europa dirigida pelo sr. Barroso com seus amigos Sarkozy e Berlusconi”.

Cabe agora aos eleitores se esforçarem para entender alguma coisa e tirar as conclusões que puderem…

 

*Serge Halimi é o diretor de redação de Le Monde Diplomatique (França).



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