Síntese histórica de uma guerra
A guerra na Ucrânia pode ser vista como um conflito que expressa um rearranjo da ordem global contemporânea. Existem raízes culturais e identitárias que dividem o território, evidenciadas por episódios como a Revolução Laranja e o movimento Euromaidan
O início da guerra da Ucrânia, em fevereiro de 2022, imputou um novo paradigma na geopolítica mundial e um rearranjamento da ordem global que vinha seguindo uma certa lógica desde o pós-11 de setembro. Mas ainda não é uma “nova ordem mundial” como se afirmou e, sim, uma reacomodação de posições das potências principais e secundárias, uma certa, remultipolarização global e assimétrica.
Qualquer humanista lamenta os repugnantes impactos causados pela dolorosa guerra: uma vida perdida que deve ser lamentada e nesse caso, apesar da imprecisão, números de fontes distintas convergem para mais de dois milhões de mortes e feridos entre russos e ucranianos, militares e civis, assim como o último Relatório do Acnur, divulgado em junho de 2026, apontou 5,7 milhões de refugiados ucranianos e 3,7 milhões de deslocados internos. O órgão da ONU apontava ainda que 14,6 milhões de pessoas na Ucrânia foram identificadas como necessitadas de assistência. De fato, uma catástrofe humana.
Mas, muitas vezes, a perspectiva humanista precisa se defrontar com a Realpolitik que exige a análise fria de fatos e cenários possíveis. E a compreensão da Guerra da Ucrânia não se explica por um fato isolado ou a responsabilização de uma única personagem como muitas vezes se quer impor; no caso, a personagem eleita pela mídia ocidental chama-se Vladimir Putin. Porém, a simples atribuição a Putin está muito aquém da compreensão dos acontecimentos e incorre em erros.
Russos e ucranianos derivam de um mesmo tronco étnico-linguístico e isso significa que são povos afins, mas há controvérsias se são de fato a mesma nação, como insistiu Putin na eclosão da guerra, justificando por meio do povo antecessor de ambos, os rus, a origem étnica. Os ucranianos negam essa interpretação, afirmando que assim como russos e ucranianos são eslavos, sérvios, eslovacos, croatas, poloneses, entre outros também o são. O mesmo caso de portugueses e espanhóis, que são latinos com línguas distintas, ou alemães e suecos que são germânicos e isso não os impedem de constituírem Estados distintos. Portanto, a questão nacional e territorial estão presentes na compreensão dos fatos e são ingredientes imprescindíveis para subsidiar o discernimento do momento; o nacionalismo, essa invenção francesa, evitado no início como fonte de esclarecimento da questão, aflorou mais recentemente na guerra local.

Das causas
Para ficarmos num passado recente sem retornar ao início do século XX quando sequer existia um país chamado Ucrânia, vamos nos ater aos eventos do pós-Guerra Fria que geraram a criação da Ucrânia como Estado, mais precisamente ao evento histórico ocorrido em 2004, a Revolução Laranja; ali, diante de uma Ucrânia já emersa em tensões internas.
As eleições presidenciais daquele ano apresentaram como principais candidatos Viktor Yanukovich e Viktor Yushcenko. O pleito foi vencido pelo primeiro, um notório simpatizante de Moscou, mas, diante de acusações de fraudes e intensas manifestações, as eleições foram anuladas e remarcadas para o ano seguinte, dessa vez com a vitória de Yuschenko. Durante as manifestações, os simpatizantes de Yushcenko utilizaram as cores do partido oposicionista, laranja, daí o nome do movimento.
Nas eleições seguintes, em 2010, os concorrentes foram os mesmos, e Yanukovich saiu vencedor. Naquele momento, havia um forte apelo entre os ucranianos para que o país ingressasse na União Europeia. Yanukovich, ao invés disso, selou um acordo aduaneiro com Moscou, seu aliado de primeira ordem. Foi a razão para a explosão de novas manifestações em 2014. Evidenciava-se a divisão do país entre simpatizantes pró-Europa e pró-Moscou. Foi durante essas manifestações que se fortaleceu um movimento embrionário, hoje bastante forte em toda a Europa: a ascensão de grupos organizados de extrema-direita que, no caso da Ucrânia, converteram-se em milícias armadas e apoiadas por certo segmento da política ucraniana. Não nos esqueçamos de que um dos principais argumentos de Putin para invadir a Ucrânia em 2022 foi o de desnazificar o país.
Violentas manifestações explodiram com dezenas de mortos em poucos dias. O palco dos acontecimentos foi a Praça da Independência em Kiev. Brota daí a expressão Euromaidan, junção semântica das expressões Europa e Maidan (praça em ucraniano). Os episódios da Euromaidan levaram à destituição do presidente eleito, Yanukovich, que se refugiou em Moscou. Na leitura russa, o que se processou em essência, foi um golpe de Estado. Putin reagiria a isso.
A queda de Yanukovich foi celebrada pelos ucranianos, mas repudiada pela população de fala russa que ocupa a porção oriental do país. Compreender os fatos políticos da Ucrânia implica considerar essa flagrante divisão cultural. O rio Dnieper atua como uma espécie de divisor territorial e linguístico do país. Ele corta a Ucrânia de norte a sudeste, referenciando as respectivas maiorias e minorias que podem ser observadas no mapa a seguir.
Figura 2 – Diversidade linguística na Ucrânia1

A Criméia e o Donbass
A crescente aversão russa no oeste ucraniano contrastava com os movimentos pró-Moscou do leste, reforçados pela queda de Yanukovich e incorrendo em fortes distúrbios. Em Luhansk e Donetsk, o separatismo local que se desenvolvia desde 1995 se aguçou, enquanto, na Crimeia, majoritariamente russa, populares saíram às ruas em protesto contra a queda do presidente, em suas visões, democraticamente eleito, e pressionando o parlamento local a proceder a uma declaração de secessão da Ucrânia e anexação à Rússia. Era o mote de que Putin precisava. Patrocinado por Moscou, foi realizado um referendo para endossar tal desejo popular.
A Criméia é composta majoritariamente por russos, mas também abriga ucranianos e tártaros. Essa distribuição linguística e nacional é fruto da formação territorial que se construiu ao longo da história; os tártaros têm ascendência turca e ali chegaram ao longo do século XIII, quando os russos já estavam. Atualmente, a Criméia apresenta uma população de 2,3 milhões de habitantes, e o referendo contou com expressiva participação de 1,2 milhão de votantes, sacramentando a declaração unilateral de “independência.” Em seguida, Putin ocupou definitivamente a região; na verdade, oficializou tal empreita, pois, devido a um acordo de 1997, as tropas russas já estavam estacionadas em Sebastopol, estratégico porto para as águas quentes do Mar Negro. Tal iniciativa foi vista como uma agressiva afronta pelo Ocidente e pela Ucrânia, mas aos olhos da opinião pública dos russos, encarado com naturalidade, pois a Criméia sempre foi russa.
Como outras partes europeias, a Crimeia é permeada de tensões nacionais sobre seu pertencimento. Desde tempos remotos diversos povos ali deitaram impérios: gregos, romanos, bizantinos, mongóis, otomanos, dentre outros. Cada povo, uma cultura. Os tártaros são povos turcomanos procedentes das estepes asiáticas e migraram para terras russas e da Anatólia junto com as invasões mongóis que, partindo das imediações do centro asiático, rumaram a oeste, empreendendo conquistas, derrotando grandes impérios como o russo e o domínio muçulmano dos Abássidas. Fundaram diversos khanatos nas imediações dos domínios muçulmanos, e a Crimeia foi um deles. Mas, sempre foram minoria na região, pois quando os tártaros chegaram à península, essa já era fortemente ocupada pelos rus.
A Crimeia situa-se nesse contexto; inclusive, a Guerra da Crimeia, de 1853, foi fruto de uma imbricada disputa, em que a Rússia perdeu a guerra para uma coalizão otomano-britânica-francesa, mas, no armistício, a península permaneceu sob seu domínio. E, quando o Império Russo se converteu em União Soviética, a situação se manteve até 1954, quando Nikita Kruschev, não imaginando o trágico fim soviético, transferiu a administração para a Ucrânia como uma espécie de agradecimento pela carreira política construída em solo ucraniano. Portanto, como se vê, desde sua conquista, há 239 anos, durante 179 anos esteve sob domínio de Moscou, e os 70 anos em que passou sob administração de Kiev, mas em ambiente soviético, foram fruto de uma controversa e pouco compreendida transferência administrativa. Reconquistada em 2014, após os episódios do Euromaidan, é praticamente impossível que Moscou renuncie à estratégica península que lhe dá acesso às águas dos mares Negro e Mediterrâneo.
Em Donbass, rica região mineral e siderúrgica do leste ucraniano, particularmente em Donetsk e Luhansk, ocorre antigo movimento separatista pró-Rússia, movido por paixões nacionais e reivindicações territoriais, no esteio daquilo que é bastante comum em território europeu. Os episódios do Euromaidan vieram agravar as tensões no leste, com acirramento dos ânimos e aumento da violência. A tensão se alastrou para áreas vizinhas, como Carcóvia e Slaviansk. Nesse contexto e no curso do que acontecera na Crimeia, em maio de 2014, unilateralmente, as duas províncias separatistas declararam independência: Kiev condenou, Moscou aplaudiu. Como tentativa de limitar a violência, foram assinados os Acordos de Minsk em 2014, ratificados em 2015. Os acordos previam uma convivência entre um Donbass autônomo, mas sob soberania ucraniana, com a preservação da autonomia e liberdade da maioria russa da região. Contudo, o acordo não foi cumprido, pois inviabilizava-se perante interesses contrastantes: os separatistas apoiados por Moscou insistiam em uma sanha independentista, enquanto o presidente ucraniano, Petro Poroshenko, radicalizava a perspectiva pró-Europa. Ambos os lados desobedeciam ao acordado, com manutenção de violência recíproca e conhecida atuação do Batalhão de Azov em Donetsk e Luhansk, milícia neonazista da extrema direita ucraniana; seu líder, Andriy Biletsky, foi um conhecido líder supremacista.
Expansão da OTAN
A ordem do pós-Guerra Fria a partir dos anos 1990, sacramentou a vitória da OTAN perante aquele momento em que o mundo se viu dividido em dois blocos antagônicos representados cada qual por uma poderosa organização militar. Porém, durante a Guerra Fria, apesar de tenso, a ordem fora mais equilibrada e porque não dizer, mais responsável com cada lado respeitando sua esfera de influência no contexto da segurança internacional: as armas atômicas soviéticas jamais foram usadas, enquanto a primeira ação efetiva da OTAN só ocorreria nos Bálcãs, já após ao término da Guerra Fria, nos anos noventa. Com a falência soviética e a morte do Pacto de Varsóvia, o que se viu flagrantemente foi uma expansão da OTAN rumo a leste, se aproximando cada vez mais das fronteiras russas.
Estudiosos estadunidenses como George Kennan (1995), John Mearsheimer (2016) e Henry Kissinger (2014) alertaram que a hora era de conter e conviver com uma Rússia falida, e não de provocá-la. Kennan foi o primeiro grande estrategista a traçar as diretrizes da política externa dos Estados Unidos ao término da Segunda Guerra Mundial. Com o fim da Guerra Fria e acompanhando, contrariado, a expansão da OTAN, foi enfático:
Sem palavras. Expandir a OTAN seria o erro mais fatal da política norte-americana em toda a era do pós-Guerra Fria. Pode-se esperar que tal decisão inflame as tendências nacionalistas, antiocidentais e militaristas na opinião russa. Penso que é um erro trágico. Não há razão para isso de jeito nenhum. Ninguém está ameaçando ninguém. Esta expansão faria os Pais Fundadores [da nação norte-americana] se revirarem nos túmulos. Claro que haverá má reação da Rússia, e então eles (da OTAN) dirão que sempre sublinharam como os russos são. Mas isso está errado. (KENNAN, 1995)
As palavras de Kennan, ditas há mais de trinta anos, parecem ser sintomáticas do que ora se passa na região. Aos olhos russos, a OTAN estava avançando e acuando-a cada vez mais. Um espectador atento observa que, desde o início do pós-Guerra Fria, foi a OTAN quem avançou a leste, e não Moscou a oeste. O novo Conceito Estratégico da organização militar, decretado na Cúpula de Madri, em 2022, e que substituiu o anterior, de 2010, elege escancaradamente Rússia e China como ameaças à segurança da Europa: “a ameaça vem do leste”. E o ingresso da Ucrânia na União Europeia e na OTAN era peça importante das novas diretrizes. Em resumo: a Europa considera a Rússia uma ameaça à sua segurança, e Moscou pensa o mesmo da OTAN.
Putin percebeu e jamais aceitaria tal investida. Há um documento constitucional russo que o permite, ou mais que isso, obriga o governo a agir em nome da segurança do Estado: o Conceito de Segurança Nacional Russo elaborado em 2010, uma norma de conduta defensiva e que delimita quando e como o país poderá atuar se ameaçado. Putin o pôs em prática e invadiu a Ucrânia em fevereiro de 2022. As consequências estão aí.
A Rússia avançou e hoje ocupa cerca de 20% daquilo que outrora fora território ucraniano; sob sua ótica, lhes pertence. Não há perspectivas de paz para a região em período breve. Um fato está posto: aquilo que as tropas russas ocuparam após 2022, Criméia, Luhansk, Donetsk, Kerson e Zaporidjia não retorna mais à Ucrânia. É ponto pacífico. A paz possível para o momento em estacar a violência e cessar a crueldade recíproca e as mortes aos milhares deve levar isso em consideração; um armistício imediato com as demandas territoriais e nacionais no ponto em que estão atualmente parece ser o caminho razoável. Negar essa possibilidade é continuar assistindo aos horrores atuais.
Edilson Adão C. Silva é doutor em Geografia pelo I.G. Unicamp, mestre em Ciências pela FFLCH USP, autor de Geopolítica da Segurança Internacional: a ótica das Organizações de cooperação em Defesa (Iole, 2024).

