INVISÍVEIS DURANTE A HISTÓRIA LITERÁRIA BRASILEIRA

Só agora as trabalhadoras domésticas aparecem como protagonistas

Apesar de estarem dentro da casa de boa parte dos brasileiros desde o final do século XIX, o mais comum é que as trabalhadoras domésticas não apareçam na história literária brasileira

No dia 21 de abril de 2020, quando a Covid-19 já deixava seu rastro de morte pelo mundo, o jornal francês Le Monde foi o primeiro a chamar a atenção para a categoria mais afetada pela pandemia no Brasil: “As trabalhadoras domésticas estão na linha de frente do combate ao coronavírus no Brasil”. Elas foram as primeiras a morrer quando a Covid-19 chegou ao país, as primeiras a serem demitidas quando os patrões decidiam resguardar a própria família, e também as mais expostas quando determinavam que elas ficassem confinadas com eles. Na pandemia, as trabalhadoras domésticas foram classificadas como “essenciais” e tiveram de continuar trabalhando em muitos estados. Em nenhum momento da história do país, no entanto, elas foram entendidas como “essenciais”. Muito pelo contrário.  

De acordo com o IBGE, o trabalho doméstico é uma das maiores categorias de trabalho do país, composta por quase 6 milhões de pessoas, segundo dados da Pnad de 2022, sendo 91% mulheres e 67% negras. É também a categoria mais precarizada, a que ganha menos, a que menos se aposenta, a menos escolarizada, a menos representada politicamente. Apesar de carregar tamanha força dramática, é também uma das que menos figura no imaginário estético e literário brasileiro. Ou figurava. 

Em um levantamento feito ao longo de todo o século XX, não encontrei uma só protagonista de romance brasileiro que seja faxineira, babá, cozinheira, lavadeira, cuidadora de idoso, passadeira, ou tudo isso junto, no que se convencionou chamar de “empregada doméstica”. Para lembrar de alguns exemplos mais populares, houve a Tia Nastácia, que tinha participação secundária nos romances de Monteiro Lobato, escrito nos anos 1930; teve a Janair, de A paixão segundo G.H., quem desperta o fluxo de consciência da protagonista de Clarice Lispector na década de 1560; e pouco antes, no final da década de 1950 teve Gabriela, de Jorge Amado, de Gabriela Cravo e Canela, que muito pouca gente há de lembrar que foi levada por Nacib para ser sua empregada doméstica antes de se tornar sua mulher. Menos leitores ainda hão de se lembrar de que ao longo do romance Gabriela foi transformada pelo narrador em “cozinheira de mão cheia” para que o personagem não tivesse vergonha de dizer que se amasiou com a faxineira. Nesse sentido, Jorge Amado foi cirúrgico ao expor como boa parte dos patrões se relacionavam com suas serviçais: um misto de dependência, desejo e vergonha. Ainda assim, a representação não deixava de aprisionar a personagem em um estigma, que seria cada vez mais reforçado no decorrer da nossa história literária. Esse é o grande problema da longa história de estereotipia construída sobre a personagem: a fixação de um imaginário racista. 

Apesar de estarem dentro da casa de boa parte dos brasileiros desde o final do século XIX, como um legado nefasto da escravidão, o mais comum é que as trabalhadoras domésticas não apareçam na história literária brasileira, ou que sejam “disfarçadas” como Gabriela. É no mínimo curioso que uma personagem tenha despertado tão pouco o interesse dos escritores como material dramático humano. Uma figura que, como definiu Patricia Hills Collins, tem “um ponto de vista especial quanto ao self, à família e à sociedade” ao ser o que ela conceituou como uma outsider within, ou seja, aquela que está dentro de uma estrutura social tendo acesso a dinâmicas e informações que mais ninguém teria, uma “perspectiva não evidente”, mas sem fazer parte dela.  

Quando muito, nos contos, romances e peças de teatro, as trabalhadoras domésticas serviam de escada, figurante ou cenário; eram narradas sob estereotipia; confirmando um imaginário racista, sexista e classista acerca das mulheres subalternizadas; e sobretudo desumanizadas, descritas com características de animais. Nelson Rodrigues, por exemplo, dos mais importantes dramaturgos da história do teatro no Brasil, usava a expressão “ventas triunfais” para descrever recorrentemente as criadas das suas peças nas rubricas (também chamadas didascálias) – isso quando lhes dava um nome. O mais comum é que elas apareçam nas suas peças como “Crioula”. “Crioula das ventas triunfais”. 

Crédito: Arquivo/Agência Brasil

Protagonismo começa a surgir há pouco menos de dez anos 

Ironicamente, foi justamente durante a pandemia de Covid-19, quando estavam mais expostas à morte, que as trabalhadoras domésticas começaram a ganhar uma sobrevida literária, com premiações, best sellers e diversidade de títulos. O hit Suíte Tóquio, de Giovana Madalosso, que narra a história de uma babá que sequestra a filha da patroa e foge com a criança de ônibus pelo país, é de 2020 e já foi vendido para se tornar uma obra audiovisual; Solitária, de Eliana Alves Cruz, que narra a vida de uma mãe e filha que moram e trabalham em uma “casa de família”, é de 2022, e também deve chegar em breve às telas.  

Em 2023, foram lançados pelo menos cinco romances sobre o universo do trabalho doméstico, tendo trabalhadoras como protagonistas: Louças de família (Eliane Marques, ganhador do Prêmio São Paulo de Literatura em 2024), Áurea (Henrique Rodrigues), O céu para os bastardos (Lilia Guerra), Os Santos (Leandro Assis e Triscila Oliveira) e Como se fosse um monstro (Fabiane Guimarães). São romances com notável investida na subjetividade da personagem e na crítica ao trabalho doméstico, que não aparece mais como mero registro de cena ou como reflexo do mito da democracia racial. As personagens agora reagem, amam, odeiam, pensam, inventam novas possibilidades de existência, têm família, conflitos próprios e contradições; e não apenas servem um cafezinho, fazem piada ou servem sexualmente alguém.  

O que aconteceu para que de repente os autores se interessassem por essa personagem? A minha hipótese é que este movimento é um efeito subjetivo, e direto, da Lei de Cotas, adotada em 2011, aliada às políticas públicas que aumentaram o poder de compra e fizeram a mobilidade social de uma parte significativa da população durante os governos Lula e Dilma Rousseff (2003-2016). Com filhos, netos e sobrinhos das empregadas domésticas entrando nas universidades, há um interesse ativo desses pensadores em contarem suas histórias – não à toa, muitos desses romances têm dedicatórias para as mães, tias e avós. 

Outra razão que culminou nessa mudança de representação estética foi a intensificação da luta do feminismo negro, impondo pautas e mobilizando debates interseccionais publicamente de forma mais intensa a partir de 2015. É de 2015 a Lei das Domésticas, a Lei do Feminicídio, é em 2015 que as mulheres tomam as ruas no que se convencionou chamar de “Primavera das Mulheres”. Foi justamente a partir de 2015 que as primeiras narradoras domésticas começaram a surgir em romances, em títulos como Luxúria, de Fernado Bonassi, ou O marechal de costas, de José Luiz Passos. Assim como nos filmes e na música. Um exemplo foi o filme Que horas ela volta?, de Anna Muylaert, em que a trabalhadora doméstica nordestina Val, além de protagonista, e de ter como antagonista uma patroa branca, inverte o drama do enredo a seu favor: de vítima, passa a heroína do filme. Na música também fez sucesso em 2015 o rap “Boa Esperança”, de Emicida, em cujo videoclipe os empregados de uma família abastada amarram os patrões e colocam fogo na mansão depois que um deles humilhou uma das empregadas.  

O romance memorialista Água de barrela, o primeiro de Eliana Alves Cruz, publicado em 2016, é um bom exemplo desta virada. Lembrando Um defeito de cor, de Ana Maria Gonçalves, na obra a narradora-autora também retorna à África para contar a história de seus antepassados antes de serem sequestrados para a escravidão no Brasil. Com foco nas mulheres da família, o enredo mostra como lavar, passar, enxaguar e quarar as roupas das patroas e sinhás brancas foi um modo de sobrevivência dessas mulheres em quase trezentos anos de história. Enquanto lavam, elas cantam, se acolhem, narram suas memórias. O título do romance se refere ao procedimento de lavar as roupas em “água de barrela”, ou seja, água com cinzas de madeira usadas para clarear manchas – dando a um gestual do trabalho doméstico a força de um título, algo impensável décadas atrás.  

Em 2018, surgiram as primeiras protagonistas em contos e romances, em livros como Perifobia, de Lilia Guerra, Zona de desconforto, de Lindevânia Martins, ou Com armas sonolentas, de Carola Saavedra. Algum nó foi desatado, e é fundamental ler, discutir e reconhecer este movimento para que não apenas uma febre literária, mas um reflexo de mudança estrutural da sociedade. Como lembra Sueli Carneiro, é a ficção que pode inventar novos mundos. “Se a historiografia pouco se deteve na história da construção do gênero, em especial na sua conjugação com raça, será a ficção que de maneira mais sistemática se encarregará de estabelecer o ser mulher e mulher negra na sociedade”. 

Novo livro de Mariana Filgueiras aborda protagonismo das trabalhadoras domésticas na literatura contemporânea brasileira (Crédito: Divulgação)

 

Mariana Filgueiras é jornalista cultural, autora de O avesso do bordado: uma biografia de Marco Nanini (Companhia das Letras, 2023), roteirista do filme De você fiz meu samba (Conspiração Filmes, 2022) e acaba de lançar Quirinas: a trabalhadora doméstica como protagonista na literatura brasileira (Pangeia, 2026) fruto da sua tese de doutorado em Estudos Literários na Universidade Federal Fluminense, trabalho contemplado no Prêmio Capes de Tese 2025. Contato: [email protected]. 

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