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Sobre pássaros e lobos

por Ferréz
4 de dezembro de 2008
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O fato é que os grandes comércios não somam em nada na quebrada, não se adaptam à cultura local, pelo contrário. Nas periferias eles exploram os desinformados, com uma calculadora rápida e muitos sorrisos. E o crédito vai sendo aprovado, afinal nosso povo é honesto, sofre, mas não deixa manchar o nomeFerréz

Acordou com muita dor de cabeça. Existe muita propaganda para cerveja, mas nenhuma para ressaca.

Colocou sua calça jeans Levi’s, vestiu sua camisa Onbongo, pegou o Motorola na mesa, sua carteira da Britt, seus óculos da Ray-Ban, sua chave com chaveiro do Corinthians, e finalmente vestiu seu tênis Nike clássico, modelo couro, com sola desenvolvida pela tecnologia da Nasa e cadarços antideslizantes.

Pegou o ônibus da Mercedes e antes de descer no ponto com propaganda da Riachuelo viu 28 placas dos mais diversos produtos. Ao seu lado, um cara usando terno Armani, com sapatos Le Blond, e uma pasta da Past-up, e ainda com um MP4 superior.

Mas não foi isso que o irritou, foi saber que dentro da pasta havia com certeza um laptop. Sempre quis ter um, mesmo que não pense em escrever ou nada disso, mas um laptop, ah! Seria legal ter um. Uma palavra tão bonita, só perdia para palmtop, essa era mais elegante.

Desceu em frente ao America, cruzou a rua e entrou, um hot dog, uma Coca-Cola, 29 reais depois ele sai.

Pensa em ter um carro, apóia o governo, pois ele está ajudando as financeiras de carro, isso é muito legal, com 48 ou 72 prestações daria para comprar um, por que não? Todo mundo tem.

Num lugar onde seu sobrenome é o que você possui, nada mais cômodo.

O Gil da 7 galo.

O Francisco da Hilux.

O Miltinho do Opala.

Se tivesse uma Dakota queria ver quem ia entrar na frente, pedestre nem ouse.

Experimenta ter um Uninho pra ver se alguém te deixa passar.

Nem manobrista quer estacionar carro velho, meu filho.

Enquanto o mundo gira, nas Casas Bahia, o segurança desconfiou do menino, porque estava malvestido. Dedicação total a você. Ele não estava tentando roubar, na verdade estava sendo roubado, pois estava com uma nota fiscal na mão, pagando juros altíssimos num país congelado.

Levou um tiro na cara, todos correram, limparam o sangue e o atendimento recomeçou.

–Só foi um susto, pessoal!

O rapaz foi retirado, o segurança nem algemado foi pela polícia, a própria polícia que ainda falou em outros jornais que se tratava de um cidadão de bem. Os mesmos jornais que abrandaram o caso, afinal se trata de um “incidente” envolvendo um grande anunciante.

O rapaz chamava Alberto, estava sem um Nike, nem Zoomp, nem Adidas, talvez uma bermuda um pouco surrada demais, e com certeza de Havaianas, as legítimas. Mas era pouco até pra um comércio em pleno Capão Redondo, onde o cheiro de pólvora se misturou com o escapamento dos ônibus que passavam ali em frente quando a estupidez efetuou o disparo.

O fato é que esses grandes comércios não somam em nada na quebrada, não têm projeto social, não se adaptam à cultura local, pelo contrário. Nas periferias eles barbarizam os idosos, empurrando todo tipo de mercadoria, exploram os desinformados, com uma calculadora rápida e muitos sorrisos. Prometem relógio de brinde, com a dupla sertaneja de apoio.

E o crédito vai sendo aprovado, afinal nosso povo é honesto, sofre, mas não deixa manchar o nome.

Enquanto empresários abrem outra firma, e fecham a antiga pra não pagar as dívidas. Isso é capetalismo, baby! Seja bem-vindo.

A empregada que puxa o celular pra mostrar para a patroa que agora ela pode.

Somos todos iguais, e não tem nada melhor que promover a anti-revolução, afinal todos têm o que perder, todo mundo tem crédito, pode comprar tudo, até carro! Pra que ficar revoltado?

Aquele cara embaixo da ponte não sou eu. Aquele pedindo esmola também não.

Aquela senhora desempregada muito menos. Eu não. Eu tenho a oportunidade, se puder comprar um caminhão passo por cima da Pick-up, se puder comprar uma Pick-up passo por cima do Palio, se puder comprar o Palio passo por cima da moto, se puder… Mas ainda não posso.

A televisão me disse que vou poder, com apenas uma moeda eu tiro um carro, um lindo carro, só 72 prestações.

Todos nos agarramos em alguma vaidade, casa, carro, construir, luxo, piso de primeira, forro, gesso, móveis de marca, ah! Uma linda piscina, hein? Pra todo mundo pagar um pau mesmo.

Mas terminamos e depois temos que sair de lá, tudo nos sufoca, é melhor ir para um sítio, pra casa de praia. Vinte dias por ano de férias e mantendo o ano todo caseiro, conta de água, luz, telefone, IPTU, tratamento da piscina.

Mas não importa, sabe por quê? Pros meus amigos eu conto que tenho. Pros meus parentes eu mostro que tenho. Pra minha esposa eu provo que tenho, e daí por diante.

A antiga mansão hoje é depósito de lixo. Não tem mais o glamour, elogios, festas, não se escuta a música clássica, talvez um rap ou um funk bem alto do catador de lixo que é novo morador.

Os óculos escuros na Paulista espantam o sorriso, afugentam a humildade e destroem a chance de o menino receber a moeda.

Já passei natal mais feliz em barraco, comendo coxa de frango assado, comprada na padaria com vaquinha. Já passei natal em casa de amigo, que só tinha pra oferecer um prato com arroz e feijão, e a gente ria muito, estávamos tão felizes.

O que viraram as festas e seus símbolos? Papai Noel virou uma foto 3×4 de um comerciante capitalista, distribuidor de brinquedos e de doces, ou o pai fantasiado para enganar o filho e encher o bolso da Ri Happy. O coelho da páscoa virou mascote da Garoto, que a cada ano empurra ovos maiores e mais caros nas crianças de assalariados.

Pra periferia? Algum pequeno comerciante de coração mole que compra ovos promocionais, um pequeno empresário que dá brinquedos baratos, ou o traficante da quebrada que dá tudo isso hoje pra colher viciado amanhã.

Tem uma pequena árvore no quintal de casa, esse dia vi um tufo de mato no chão, era um ninho, olhei dentro, talvez encontrasse ovos, mas me surpreendi e vi pequenos pássaros.

Chamei um amigo, mostrei e ele se encantou, resolvemos colocar o ninho na árvore. No outro dia fui ver o ninho, e estava no chão, tinha outro buraco do lado, chamei minha mãe.

– Veja, mãe, nem só de rato vive a favela.

Ela olhou e gostou. Lhe mostrei dois pássaros filhotes que estavam no muro, peguei o ninho e vi um lá dentro, de repente o ninho balançou e um saiu voando, e depois saiu outro, ela correu e conseguiu pegar um e colocamos dentro do ninho, os bichos estavam olhando o mundo pela primeira vez.

Um deles fugiu, mas vi outro pássaro o seguindo, talvez fosse a mãe, pegamos a escada e colocamos o ninho na árvore de novo.

No outro dia encontrei o ninho no chão novamente, estava todo aberto, como algo que já foi usado o suficiente, no mesmo dia vi a mãe dos pequenos pássaros, pousou no portão durante alguns segundos, olhou em direção ao ninho e saiu, fiquei com os meus botões, será que avisaram onde foram? Fui para o jardim, sentei no banco branco que o ex-dono da casa me deixou e li Hesse novamente, como fazia aos meus 15 anos, não era novo, nem encadernado, mas pra mim é meu
maior bem. A sensação veio, nada de desgosto e frustração, e apesar de toda a batalha da vida, eu lia sobre o sol, sobre o céu que não é mais tão sinistro, sobre histórias contadas como devem ser, calmamente, levemente, como uma caminhada em boa companhia.

O sol bateu de um lado do banco, recuei para o outro, e de repente voltei para onde estava, senti o calor, o livro também, as páginas se iluminaram, a história continuou, um vento veio ao meu encontro e me fez o favor de aliviar uma mente às vezes tão cansada.

Crianças passavam na rua, minhas mãos de datilógrafo não doíam mais, segurava o livro e olhava para as árvores, suas raízes e seus detalhes que vistos com atenção deixam à mostra a diferença que todos nós temos.

Voltei para dentro de casa, pensei em alguns discos, e me desculpe o Zeca Baleiro e o Chico César, mas nesse dia nenhum som casava com aquilo.

Vieram-me frases, pedaços de vidas, restos de fotos, mas após pegar um simples copo de café, e ver ainda sobre o sofá discos de Paulo Sérgio, eu fui para o banco branco e esperei somente pelos pássaros, os pequenos pássaros que por muita sorte segurei ainda dentro do ninho.

Isso eu não comprei, isso eu não paguei, nem parcelei, muito menos achei num shopping, nem tive que roubar, isso veio de graça, e acho que isso que é a vida.

Ferréz é escritor. Autor dos livros Capão pecado, Manual prático do ódio, Amanhecer Esmeralda e Ninguém é inocente em São Paulo, todos pela Editora Objetiva.



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