Soneto a Satã, de Sylvia Plath - Le Monde Diplomatique

VICE-VERSE - 2

Soneto a Satã, de Sylvia Plath

por Ivan Justen Santana
4 de abril de 2008
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No segundo número de nossa seção dedicada à tradução de poesia e prosa em língua inglesa, coordenada pela jornalista e tradutora Marina Della Valle , apresentamos um poema que se encontra entre os primeiros de Sylvia PlathIvan Justen Santana

Este é um assim chamado “poema de juvenília” da norte-americana Sylvia Plath (1932-1963). Descobri o texto original fuçando na internet – assim, de início até achei possível que fosse apócrifo (de autoria falsamente atribuída), mas eu o considerei extremamente curioso assim mesmo, e portanto digno de ser traduzido – aliás, foi irresistível.

Posteriormente, minha prezada colega Marina Della Valle confirmou a autoria e me ajudou com a lição correta do poema. De qualquer forma, apenas pelo estilo e temática já dá para perceber a mão vacilante e, ao mesmo tempo, atrevida da jovem Sylvia, leitora voraz e escritora em formação, experimentando uma linguagem ultracarregada e abordando ousadamente o tão explorado tabu do nosso imaginário cristão ocidental. Ecos de Baudelaire e John Milton?

Dá pra perceber também, observando a tradução, que tomei algumas liberdades para encaixar as rimas – no original, é um “planeta orgulhoso”, e não um “mundo inglório”, mas reverti essa ironia, como qualquer bom tradutor traidor faria. Espero que tudo isso não retire (antes acrescente) sabor à leitura.

Observo ainda que usei um metro anômalo – “tridecassilábico”, que na minha imodesta e rebelde opinião combinou bem com a satânica homenagem perpetrada pelo poema – que os cristãos fiéis não me amaldiçoem por isso, e tampouco por grafar Deus com letra minúscula (está no espírito da coisa toda, se mereço vossas indulgências).

Outrossim, remeto à internet quem quiser saber mais a respeito da presente poeta (sigo aqui a Cecília Meireles, que abominava a designação “poetisa” – bem como a Alice Ruiz, que associa uma conotação infantilizadora a esse termo – perdão pelo parêntese digressivo); não é difícil encontrar maiores referências.

Para não acharem que estou me eximindo, recomendo então a biografia já lançada no Brasil (Amarga fama, de Anne Stevenson, Editora Rocco, 1992), e o extremamente bem escrito ensaio crítico e biográfico A mulher calada, de Janet Malcolm (Companhia das Letras, 1995).

Sonnet to Satan

In darkroom of your eye the moonly mind
somersaults to counterfeit eclipse;
bright angels black out over logic’s land
under shutter of their handicaps.

Commanding that corkscrew comet jet forth ink
to pitch the white world down in swiveling flood,
you overcast all order’s noonday rank
and turn god’s radiant photograph to shade.

Steepling snake in that contrary light
invades the dilate lens of genesis
to print your flaming image in birthspot
with characters no cockcrow can deface.

O maker of proud planet’s negative,
obscure the scalding sun till no clocks move.

***

Soneto a Satã

No quarto escuro do seu olho a mente lunar
gira um mortal para falsificar um eclipse;
anjos de luz se apagam sobre o lógico lar
sob a persiana de seus defeitos e colapsos.

Comandando este jato cometa saca-tintas
para obnubilar o mundo branco em turbilhões,
você escurece a ordem toda do meio-dia
e torna a foto radiante de deus em borrões.

Escarpante serpente naquela luz contrária
invade do gênesis as lentes dilatadas
para imprimir a flama-imagem originária
com sinais indeléveis a quaisquer alvoradas.

Oh fautor do negativo deste mundo inglório,
oculta o sol candente até parar os relógios.

Mais:

Seção dedicada à tradução de poesia e prosa em língua inglesa.

Coordenação:

Marina Della Valle
(



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