NO ESPELHO DAS SÉRIES

Stranger Things, a virtude segundo a Netflix

Um dos paradoxos da era digital é este: por um lado, as grandes plataformas globalizam certas formas culturais; por outro, elas fragmentam os públicos em silos autônomos. Séries de sucesso emergem como referências comuns para populações relativamente heterogêneas. Elas carregam a marca contraditória de uma época em que tudo é mercadoria, até mesmo a contestação

Carro-chefe da Netflix de sucesso planetário, a série Stranger Things (2016-2026) foi rapidamente recebida como uma obra progressista. Provavelmente porque, entre o fantástico e a ficção científica, essa história de crianças apaixonadas por jogos de RPG e confrontadas com forças maléficas cultiva a nostalgia dos anos 1980, época em que se passa, pelo ângulo do feminismo, da diversidade cultural e da marginalidade. Ao receber um prêmio que consagrou a série em 2017, o ator David Harbour inflamou-se em nome de todos os colegas: “Este prêmio [...] é um apelo [...] a construir, por meio de nossa arte, uma sociedade mais empática e mais compreensiva [...]. Vamos repelir os brutamontes, vamos proteger os marginalizados e os excluídos, aqueles que não têm lar”.[1] Não era preciso mais do que isso, no início da era Trump, para ver nesse programa a vanguarda de uma resistência cultural encabeçada pela Netflix, plataforma tida como próxima…

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