Crises, ficção especulativa e crítica da economia política contemporânea
Livro ficção climática (cli-fi) do escritor norte-americano Kim Stanley Robinson, The Ministry for the Future, ganha especial relevância neste momento em que o Brasil se prepara para sediar a COP 30
The Ministry for the Future,[i] do escritor norte-americano Kim Stanley Robinson, é uma obra de ficção climática (cli-fi) que combina diferentes registros textuais para construir um enredo futurista em torno de uma questão urgente: como salvar o planeta do aquecimento global. A saída proposta na trama gira em torno da criação de uma moeda baseada em créditos de carbono e de uma política monetária global voltada à sustentabilidade.
O romance entrelaça temas como crise climática, crítica da economia política, política monetária, refugiados ambientais, inovação tecnológica, desigualdade e violência social. Diante dessa combinação instigante, a leitura da obra de Robinson ganha especial relevância neste momento em que o Brasil se prepara para sediar a COP 30, em Belém.
A conjuntura atual se caracteriza pelas crises múltiplas no capitalismo contemporâneo – econômica, política, social, demográfica, ecológica e epistemológica – que corroem a sociabilidade do indivíduo moderno e o isola em meio às incertezas do neoliberalismo.[ii] Em relação à crise ambiental, pensadoras como Saskia Sassen[iii] e Eduardo Sá Barreto[iv] lembram que a lógica capitalista é, por natureza, destrutiva do meio ambiente e que, independentemente do regime político, os Estados nacionais reproduzem essa destruição.
No romance, tudo começa com uma onda de calor devastadora na Índia, responsável por milhões de mortes em poucos dias. O trauma coletivo leva à criação do Ministério para o Futuro, instituição comandada por Mary Murphy, que busca colocar em prática uma moeda lastreada na captura de carbono. Para tanto, essa policy maker precisa negociar com banqueiros, os representantes das forças mais poderosas e reacionárias do planeta.
Robinson conhece bem as relações entre ciência econômica e poder. Com uma crítica incisiva, ele denuncia um campo do saber que sustenta um status quo em crise e que necessita de uma profunda reforma. Ao resenhar o livro, o filósofo Steven Shaviro[v] observa que essas propostas reformistas presentes no livro representam, na verdade, o realismo de nosso tempo.

Ao longo da narrativa, o autor constrói um vasto repertório de críticas à economia dominante. Ele questiona os limites da economia neoclássica, a incapacidade da macroeconomia em explicar fenômenos complexos como a inflação e a contradição entre o discurso neoliberal e seus resultados concretos, sobretudo no que tange à concentração de renda e ao agravamento da desigualdade global.
Um momento a ser destacado ocorre no capítulo 64, quando Robinson revisita a ideia de eutanásia do rentista, proposta por John Maynard Keynes em sua Teoria Geral. O autor explora a etimologia do termo eutanásia, que significa morte suave, e enfatiza que o rentista não sofre, tampouco deseja morrer. Assim, para Robinson, Keynes usou um eufemismo para expressar a necessidade radical de eliminar o rentismo como forma de libertar a economia. Seria, portanto, uma revolução sem revolução, uma reforma profunda do capitalismo.
A trama de The Ministry for the Future reflete um mundo atravessado por crises, especialmente a climática. Embora não seja possível confirmar de forma objetiva, identifica-se afinidades entre as ideias de Robinson e as ideias de Mariana Mazzucato[vi] e Thomas Piketty,[vii] pois o autor também observa a necessidade de um Estado empreendedor, capaz de intervir decisivamente para resolver problemas ambientais, e de uma utopia tributária, baseada na taxação do capital global.
Em um contexto em que existe uma imensa dificuldade para imaginar novos futuros possíveis, a ficção de Robinson se torna ainda mais relevante porque nos convida a pensar o que ainda não foi pensado, a imaginar horizontes alternativos e a formular políticas globais de cooperação e justiça climática.
The Ministry for the Future, ainda sem tradução para o português, é mais que uma ficção especulativa sobre o futuro, é um exercício crítico de imaginação política que antecipa debates centrais que poderão ocorrer na COP 30 e provoca uma pergunta fundamental: que tipo de mundo queremos construir a partir das ruínas do presente?
Leonardo Dias Nunes é professor visitante no Bacharelado em Ciências Econômicas da Universidade Federal do ABC (UFABC), doutor em Desenvolvimento Econômico pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e editor do blog Sobre Economia.
[i] ROBINSON, Kim Stanley. The Ministry for the Future: A Novel. Orbit, 2020.
[ii] NUNES, Leonardo Dias. Uma teia em construção: leituras sobre a crise capitalista. Blog Sobre Economia.
[iii] SASSEN, Saskia. Expulsões: brutalidade e complexidade na economia global. Editora Paz e Terra, 2020.
[iv] SÁ BARRETO, Eduardo. O capital na estufa: para a crítica da economia das mudanças climáticas. Rio de Janeiro: Consequência, 2018.
[v] SHAVIRO, Steven. Optimism in the Face of Catastrophe: Kim Stanley Robinson’s The Ministry for the Future. Studies in the Fantastic, v.10, n.1, p.108–114, 2020.
[vi] MAZZUCATO, Mariana. O Estado Empreendedor: desmascarando o mito do setor público vs. setor privado. Portfolio-Penguin, 2014.
[vii] PIKETTY, Thomas. O Capital no Século XXI. Editora Intrínseca, 2014.

