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BEM-VINDO À SOCIEDADE SEM CONTATO!

Trabalho, família, wi-fi

por Julien Brygo
1 de junho de 2020
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Os gigantes do setor digital dificilmente poderiam prever que um teste em tamanho real de sua visão de sociedade seria justificado por uma motivação sanitária. Durante semanas, produtores e consumidores tiveram de resolver seus assuntos por meio das telas, inclusive quando se tratava da escola, do divertimento e da saúde

Boas notícias no jornal das oito da noite do canal France 2 do dia 6 de maio de 2020. No quinquagésimo dia de confinamento na França, enquanto a escassez de equipamentos sanitários fustigava o país em plena pandemia de Covid-19, a Prefeitura de Paris anunciou que finalmente ia distribuir máscaras gratuitamente nas 906 farmácias da capital. Com uma condição, advertia Anne-Sophie Lapix, a apresentadora: os parisienses precisavam “se inscrever pela internet” – e depois baixar um cupom, que devia ser impresso ou apresentado diretamente na tela do celular à farmácia, para então terem acesso ao equipamento que é de uso obrigatório no transporte coletivo.

O que antes da pandemia de Covid-19 seguia no ritmo de um cavalo a galope, agora avança na velocidade de um furacão, arrastando todos para um novo mundo, o da internet. Uma experiência em escala real de um mundo sem contato. Antes, a internet era o local para pedir seguro-desemprego, documento de identidade, autorização de residência e licença para o carro; agora, ela é também onde se requisita um equipamento sanitário básico e se realizam as atividades relacionadas ao trabalho, à saúde, ao lazer, à educação – e à família.

Entre 17 e 31 de março, de acordo com o site Médiamétrie, o tempo diário de navegação digital dos franceses chegou a 2h50, um aumento de 36% em relação a março de 2019 (para a televisão, foram 4h41 em média entre 17 de março e 26 de abril, um aumento de mais de um terço em um ano). Sejam professores obrigados ao ensino a distância, médicos que tiveram de se conformar com a telemedicina, profissionais confortavelmente – ou não – instalados em seus chinelos de home office e até universidades que decidiram iniciar seus alunos no telemonitoramento para a aplicação de provas em domicílio,1 a presença do mundo virtual ganhou tal amplitude no cotidiano que a posse de um dispositivo conectado à internet parece mais do que nunca uma necessidade vital. Sem internet não há máscaras, não há exame médico, não há home office (que se estendeu a um quarto da população ativa da França durante o confinamento), não há acesso ao registro da previdência social, da aposentadoria nem à conta bancária.

Pegar um trem depois da quarentena sem internet? Impossível. No dia 7 de maio, a Sociedade Nacional de Estradas de Ferro e a região de Hauts-de-France anunciaram a introdução de um sistema de bilhetes no modelo “o primeiro que chegar leva”, para quem quiser utilizar o trem regional com origem ou destino em Lille a partir de 11 de maio. Os bilhetes não são vendidos na estação: só podem ser obtidos pela internet. A substituição de cerca de 5 mil postos de trabalho (bilheteiros, agentes de informação etc.) na França em dez anos (mil deles apenas em 2019)2 por máquinas de vendas e aplicativos digitais foi um prelúdio dessa situação. Qualquer pessoa que não tenha um smartphone, que não se dê bem com a internet ou simplesmente que não goste da ideia de estar permanentemente conectada, e potencialmente vigiada, estará presa em uma sociedade na qual quase tudo lhe será negado.

É um fato, porém, reconhecido pelas autoridades: na França, muita gente não está conectada à internet. Segundo o “Barômetro digital 2019”, a proporção de habitantes do país que se diz “pouco acostumada” com a internet chega a 23% da população maior de 18 anos, o equivalente a 13 milhões de pessoas. É o chamado analfabetismo digital.3 Para os 15% de indivíduos de 15 anos ou mais que não usaram a internet em 2019 ou para os 38% de usuários que dizem não ter pelo menos uma habilidade básica em informática, um mundo está se fechando.

No dia 30 de março, o governo francês, comprometido com sua meta de digitalizar 100% dos serviços públicos até 2022 (“Ação Pública 2022”), recomendou que os franceses que não saibam usar muito bem a internet acessem o Solidarité-numérique.fr, um novo site lançado por uma cooperativa de mediadores, a Mednum – e que, felizmente, tem um número de telefone. Uma última gentileza antes de abandonar para sempre setores inteiros da população? Algumas semanas antes, Cédric O, secretário de Estado para Assuntos Digitais, anunciou que iria triplicar o orçamento destinado aos “Pass Numériques” (vouchers de treinamento digital) para 30 milhões de euros, o equivalente a cerca de 2 euros por pessoa que não usa a internet. Uma quantia irrisória, dividida entre o Estado e as coletividades territoriais, para preencher uma lacuna digital cada vez mais profunda e cada vez mais incapacitante – inclusive para alimentar o sonho de permanecer saudável.

 

Teste para a medicina do futuro

Mesmo antes de se iniciar o confinamento, o fantasma da internet total já fazia parte do cotidiano do doutor Thibaud Zaninotto, em Paris. No final de 2019, ele ainda estava “no front”, segundo suas próprias palavras, no serviço de emergência de um grande hospital de Paris. O que ele viu ali o deixou “completamente arrasado”. “Pacientes de 70 anos deixados por 48, 72 horas sozinhos, em uma maca no corredor, sem conseguir um copo de água; equipamentos antigos e de baixa qualidade… Além de gastar uma quantidade incrível de tempo procurando leitos disponíveis, tínhamos de passar quase 10 horas por dia no computador lançando no sistema cada ato realizado.” Por isso, em dezembro de 2019, o médico de 30 anos decidiu deixar a sala de emergência para atender apenas em consultório.

Quatro meses depois, o mundo desabou sobre o doutor Thibaud, pego pelas telas – e pelo vírus. “Eu peguei Covid-19”, ele nos contou no início de abril, em uma entrevista por vídeo, com o semblante ainda cansado por duas semanas de combate à doença. Assim que conseguiu ficar de pé, o médico assumiu o lugar de um colega do 18º Distrito de Paris. E, após duas semanas de confinamento, 60% a 70% de suas consultas passaram a ser realizadas por vídeo, por meio do site privado Doctolib, líder francês em agendamento e consultas on-line. “Nunca imaginei que eu faria isso. Falta calor humano, contato clínico, mas no contexto não é tão ruim, pois no consultório [que ele divide com diversos colegas], é impossível se proteger totalmente contra a transmissão dos micro-organismos, pois há os botões dos painéis eletrônicos, as maçanetas…”

No entanto, um detalhe chamou sua atenção quando o médico se viu na rotina das consultas on-line: “Passados alguns dias, comecei a me perguntar aonde tinham ido parar os pacientes com mais de 50 anos. Eles não estavam lá. Não apareciam na minha tela. A média de idade da minha clientela, atualmente, está entre 25 e 30 anos: pessoas que sabem usar aplicativo e sistema de vídeo”. O profissional de saúde não hesita em falar em “triagem social”, fazendo um paralelo entre o sucesso do Doctolib e as “filas intermináveis” diante dos consultórios que ainda oferecem consultas sem hora marcada em seu bairro.

Detectar uma infecção de ouvido, diagnosticar uma inflamação, tratar um resfriado… “Como você vai ver em uma tela a verdadeira cor do fundo da garganta ou de um ouvido inflamado? As telas mostram cores modificadas. Eu tento fazer mais perguntas, e assim chego ao diagnóstico. As pessoas vão se acostumar, eu acho. É uma experiência em escala real para a medicina do futuro, porque no momento não há escolha”, diz, inclinando-se sobre sua câmera. “Funciona muito bem do ponto de vista técnico”, admite o doutor Thibaud. “E, de qualquer forma, é muito melhor do que os recursos podres dos hospitais públicos de Paris.”

De fato, a Doctolib tem pouco em comum com a dilapidação organizada do hospital público que escandalizou o médico. O número de teleconsultas na França atingiu quase meio milhão durante a última semana de março de 2020, segundo dados da Assurance Maladie, contra 60 mil em todo o ano de 2019. E a Doctolib – start-up criada com o apoio do Estado francês e da incubadora Agoranov, que alcançou o nível de “unicórnio” ao ultrapassar 1 bilhão de euros em valorização – teve 2,5 milhões de consultas por vídeo durante o confinamento. Financiada pela adesão dos médicos (129 euros mensais por profissional), a Doctolib tinha 30 mil profissionais de saúde e 12 milhões de visitas no final de 2017. Dois anos depois, em maio de 2019, 80 mil profissionais de saúde geraram 30 milhões de visitas de pacientes por mês no site e no aplicativo para dispositivos móveis.

No início de abril, o número de teleconsultas diárias – serviço lançado em janeiro de 2019 e cujo caráter pago, com um custo de 79 euros, foi suspenso desde o início da crise sanitária – passou de mil para 100 mil. “E aumenta a cada hora”, declarou à imprensa Stanislas Niox-Château, cofundador e presidente da Doctolib, que estima que, “quando a epidemia de coronavírus tiver passado, entre 15% e 20% das consultas médicas na França serão feitas remotamente…”.4 Não há dúvida de que a Doctolib acabará se tornando parte da solução para o problema dos desertos médicos. Também é muito provável que, após o confinamento, a conta bancária do jovem dirigente esteja mais gorda: em 2019, o ex-campeão de tênis “extremamente dedicado”5 entrou, em 269º lugar, na lista da revista Challenges de maiores fortunas da França.

Quando se trata de dados bancários, pessoais e médicos, há muita coisa em jogo para seguradoras, anunciantes, forças da ordem e sites comerciais. Os milhões de franceses que agora fazem consultas via Doctolib deixam à disposição uma verdadeira mina de ouro: informações detalhadas de saúde (histórico de consultas, prescrições, número de telefone e endereço de e-mail). Em 21 de abril de 2020, o governo baixou um decreto autorizando a Caisse Nationale d’Assurance Maladie e a Health Data Hub – uma nova plataforma de saúde que funciona com inteligência artificial, lançada pelo presidente Emmanuel Macron após o relatório Villani – a coletar uma quantidade considerável de informações sobre os usuários durante o confinamento, “apenas com o objetivo de facilitar o uso de dados de saúde para gerenciar a emergência sanitária e melhorar o conhecimento do vírus causador da Covid-19”.6

 

Uma novilíngua intuitiva

Um pequeno detalhe: a plataforma, que contém arquivos da Assurance Maladie, faturas hospitalares, causas médicas de morte, dados médico-sociais de pessoas com deficiência e uma amostra de faturas de reembolso de organismos de saúde complementar, está hospedada na “nuvem” [local de armazenamento de dados informacionais] da Microsoft, empresa certificada no final de 2018 para fazer a “hospedagem de dados” na França. Com a Cloud Act [Lei da Nuvem], os governantes e os serviços de inteligência dos Estados Unidos poderão acessar as informações contidas no servidor.7 A Comissão Nacional de Informática e Liberdade (Cnil) expressou profunda preocupação, em um parecer emitido em 23 de abril, mas o governo não compartilha de suas posições. Assim é mais fácil entender por que empresários franceses e estrangeiros da alta tecnologia passeiam todo ano pelo Palácio de Versalhes para a cúpula “Choose France” [Escolha a França], organizada pelo governo francês.

Serviços públicos, saúde, entretenimento… Raros são os setores que não mergulharam no mundo digital durante a pandemia de Covid-19. Na educação, o confinamento foi particularmente propício para a experiência em larga escala da sociedade sem contato. Na França, os professores já fazem a chamada por meio de um “espaço de trabalho digital”, descrito pelo Ministério da Educação Nacional como um “pacote modular e expansível de serviços integrados ou conectados, e interoperáveis”. Há anos os pais dos alunos podem consultar on-line os boletins escolares ou a agenda de recados de seus filhos. Mas, com o vírus, as novas obrigações, já integradas, multiplicaram-se por dez. Com seu cortejo de novas palavras: uma novilíngua que supostamente deveria ser compreendida por todo mundo de forma intuitiva.

“Em março”, explica Yasmina B., professora em uma escola de arquitetura francesa, que prefere permanecer anônima, “a direção da instituição onde eu trabalho nos apresentou em tempo recorde uma nota explicativa sobre as novas ferramentas técnicas absolutamente incompreensível. Há palavras como ‘pedagoteca’, novos softwares como o Moodle, que precisa ser acessado por meio do BigBlueButton, o serviço ‘Renater’. Para as conferências em pequenos grupos, temos de ‘compartilhar nossas telas’, ‘cancelar a publicação de vídeos off-line’, ‘enviar PDFs’ aos alunos… É ilegível”. “Teríamos de fazer uma faculdade só para entender os documentos que eles mandam”, ironiza a professora.

Além de depender da qualidade dos equipamentos computacionais dos professores, a educação a distância tira as coisas do lugar. Ela transforma aulas em séries que o aluno pode parar a qualquer momento e retomar aleatoriamente. “A ultratecnologia nos impede de pensar no essencial, ou seja, no conteúdo das aulas e nos alunos”, reclama Yasmina, que pensa seriamente em jogar fora seu jaleco de professora – e seus aplicativos digitais. “Agora temos de passar a vida em frente à tela do computador, é uma catástrofe. Eu tenho um bloqueio real na minha cabeça. O que está implícito é que estamos diante de ‘nativos digitais’, millennials que dominam perfeitamente as ferramentas, e precisamos alcançá-los!”

No mundo inteiro, a escola pela internet tem aprofundado as desigualdades escolares. “Afastados das salas de aula pela pandemia de Covid-19, cerca de 826 milhões de alunos do ensino básico e estudantes universitários, metade do total, não têm acesso a um computador em seu domicílio, e 43% (706 milhões) não têm internet em casa, embora o ensino digital a distância esteja sendo utilizado para garantir a continuidade da educação na grande maioria dos países”, alertou a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) em comunicado à imprensa no dia 21 de abril. Segundo o Instituto Nacional de Estatística e Estudos Econômicos (Insee), 19,2% dos franceses entre 15 e 29 anos têm pelo menos uma deficiência na área (informação, comunicação, software ou resolução de problema). Todo professor tem um caso para contar: alunos que “enviam todo o conteúdo de um e-mail no campo ‘Assunto’”, outros que “abrem um novo tópico de discussão a cada resposta enviada” ao professor, isso sem falar daqueles que são prolíficos em likes e outros comentários no Facebook, mas que não sabem “enviar um anexo no e-mail”. A única certeza de Yasmina: “É muito mais trabalho e afeta nossa vida pessoal”.

(Janett Adler)
Continuidade pedagógica questionável

Os grandes vencedores desse ensaio geral: as start-ups e as gigantes digitais – que passeiam em Versalhes. “Os programas que nos dão para trabalhar estão entre o Minitel e o Windows 95”, brinca Florian Petit, professor de Filosofia em uma escola de ensino médio em Senlis (Oise). “Eles pedem a utilização de espaços de trabalho digitais e aplicativos, como o Iprof [uma interface entre a equipe e a administração], mas desde os primeiros dias de confinamento nada funcionava, tudo ficou saturado. Então eu fiz a mesma coisa que muitos outros professores fizeram: pedi que meus alunos passassem a usar o aplicativo Slack [uma plataforma norte-americana de “comunicação colaborativa”, cujo uso saltou 350% entre fevereiro e março]”, explica. “Sobre a coleta de dados, é algo que incomoda muito, porque ninguém sabe nada sobre isso. Mas não temos escolha, pois, em nome de uma continuidade pedagógica muito questionável, pedem que se mantenha um vínculo digital diário com nossos alunos. As aulas viram um questionário de múltipla escolha no Google Form; os alunos são obrigados a ter uma conta Google. Nada disso está certo.” Embora a internet total tenha saltado aos olhos de todos durante a quarentena, tudo isso já estava encaminhado, o que transformou esse período de crise em uma volta de aquecimento.

A mesma coisa com o setor bancário, que passou por uma liberalização digna da década de 1980. No final de dezembro de 2019, em Dunquerque (norte da França), Hugo Bricout, arquiteto microempreendedor (ex-microempreendedor individual), foi chamado pelo banco. Dois meses antes, a instituição havia enviado ao jovem de 28 anos um aviso: “Seguindo a diretiva europeia sobre serviços de pagamento [DSP2], o nível de segurança do acesso à sua área de cliente será reforçado. Para isso, ao conectar-se à sua área de cliente, use seu smartphone para confirmar a operação”. Hugo está entre os cerca de 23% dos franceses que, em 2019, não tinham um “telefone inteligente”.8 Então ele não baixou o aplicativo, não conseguiu se autenticar e levou um sermão.

Quando foi chamado ao banco, a funcionária elevou o tom. Segundo ela, sem esse objeto remotamente rastreável e sobretudo sem o aplicativo, ele não poderia mais acessar sua conta bancária, nem pelo site. “Além disso, na agência do CIC onde fui chamado, só se via isto: a vitrine com smartphones à venda. Meu instinto de sobrevivência me diz para não comprar esse aparelho”, confidencia Hugo, que, seis meses depois e apesar do confinamento, ainda não havia cruzado a fronteira do telefone inteligente. No momento, ele se contenta com os extratos postais, mas não pode mais fazer transferências ou compras on-line por causa da falta de autenticação.

Ele também não pode desfrutar do prazer de digitar um código de acesso dezenas de vezes por dia, nem de indexar seu nível de estresse com o nível da bateria de seu celular. Segundo um estudo da Cass Business School, uma escola de negócios ligada à City University of London, a percepção de nosso ambiente muda se a bateria de nosso celular estiver com 5% ou com 95% de carga.9 “Não sou uma pessoa muito conectada”, confessa Hugo. “Já passo muito tempo no computador trabalhando, me divertindo, enviando e-mails…, o que me causa problemas nas costas. Não quero andar o tempo todo com a internet no bolso. Eu detesto isso. Acho inacreditável que possuir um smartphone agora seja um critério para poder movimentar meu próprio dinheiro!”

A introdução da diretiva de pagamento, a DSP2, que entrou oficialmente em vigor em setembro de 2019, tem causado tanta ansiedade nos comerciantes on-line, pequenos e grandes, e em seus clientes que não possuem um telefone inteligente que o item “autenticação forte”, com a potencial obrigação definitiva de todos terem um smartphone, foi adiada para o final de 2020 pela Autoridade Bancária Europeia. Embora o prazo tenha sido ampliado em um ano, o horizonte é o mesmo: tudo terá de ser feito via smartphone – a menos que os bancos decidam estabelecer um sistema de autenticação forte alternativo, o que não parece estar entre as possibilidades.

Quando está em sua fazenda familiar em Brouckerque (norte do país), Hugo fica entre os 18% de franceses que vivem em uma “zona pouco povoada”, na ponta da rede telefônica, sem a possibilidade de ter internet de alta velocidade – o que equivale a 22.500 comunidades rurais e a 63% do território da França.10 A única solução: pagar 30 euros por mês por um pacote 4G, que transforma a rede móvel em banda larga para o computador. Do outro lado do pátio, um casarão rural é onde vivem Jacky e Annie, seus pais, que transformaram seu lar em uma propriedade dedicada à educação ambiental. “Para eles, é pior ainda”, diz Hugo, “Eles estão completamente sem acesso à conta bancária.”

Como requer o confinamento, falamos com eles pelo telefone. Os dois sexagenários habilidosos com as plantas começaram o ano diante do fato consumado: não podem mais acessar a conta que possuem no Crédit Mutuel para sua associação de educação ambiental, La Ferme des Ânes. Como o filho, eles não têm um smartphone nem o “aplicativo” para “fazer uma autenticação forte”. Com um funcionário e movimentos financeiros regulares, esse entrave traz dificuldades. Jacky Bricout cita em particular a “campanha de doação em curso para ajudar vários migrantes que atingiram a maioridade a pagar o aluguel” na região.

Domiciliado no Crédit Mutuel de Bourbourg, a cerca de 10 quilômetros de distância, ele explica que obteve a seguinte resposta: “‘Você precisa apenas financiar um smartphone para sua associação’. Felizmente, o envio de extratos pelo correio ainda não foi cortado”, observa. “A única solução para ainda ter contato humano é descobrir os intervalos em que nosso consultor está na agência e ir nesse horário. Estamos fazendo as coisas como fazíamos quarenta anos atrás: tudo se resolve na agência, diretamente com humanos…” No entanto, o atendimento do Crédit Mutuel de Bourbourg, como muitas agências da França, também vai fechar este ano. “Aproveite enquanto ainda há atendimento sem hora marcada”, disse o funcionário do banco antes do confinamento. Entre 2009 e 2016, 14,9% das agências bancárias desapareceram na França, de acordo com a Federação Francesa de Bancos, conforme observa o jornal Le Figaro (15 mar. 2019). A agência do CIC onde Bricout foi chamado não tem mais atendimento aberto ao público desde o ano passado, e os clientes não podem entrar se não tiverem hora marcada. Será a última etapa antes do fechamento definitivo?

“Todas essas coisas que são aplicadas de maneira autoritária – telemedicina, declarações de impostos pela internet, educação a distância, certificados por QR Code [um pictograma que pode ser lido por dispositivos móveis] – permitem que as autoridades saibam tudo sobre nós: trabalho, renda, assistência social, conta bancária, localização geográfica. Não teremos mais acesso a nada sem smartphone. É uma verdadeira visão do inferno”, lança Jacky, que também pensa no checkup de saúde oferecido por seu fundo de previdência social em 2019. “Para poder fazer o checkup, é necessário se inscrever pelo Doctolib – os serviços públicos usam esses aplicativos para economizar custos de atendimento e terceirizar tudo o que podem.” Ele faz uma pausa, depois lança: “Nós passamos da diversão para as algemas. Nossa geração usufruiu de coisas boas da internet (filmes, blogs, compartilhamento de conhecimento), mas o que será da próxima?”, questiona o senhor, falando ao mesmo tempo do sistema de vigilância por geolocalização utilizado em Israel durante o confinamento e do sistema de pontos chinês, já em vigor.11

 

O marco da segurança paramétrica

Embora a DSP2 “não tenha sido recebida com bons olhos pelo mundo dos serviços financeiros”, ela constitui “um primeiro passo para a abertura dos dados bancários”, escreve em seu blog Julien Maldonato, especialista na empresa de auditoria financeira Deloitte, que afirma estar otimista12 – para os bancos. Como os carros, os caminhões e os aspiradores de pó robóticos, os bancos estão fadados a se tornar “autônomos”. A DSP2, elaborada em nome da luta contra os hackers e as fraudes por meios informacionais, vai acelerar a digitalização e permitir a mercantilização de um verdadeiro tesouro de guerra: os dados bancários. Com essa liberalização, aprovada em 2015 e em vigor desde 2018, muitas start-ups chamadas “agregadores” (Linxo, Bankin etc.) serão autorizadas a acessar as contas bancárias de seus clientes para sugerir melhorias.

No jargão bancário, isso se chama “segurança paramétrica”, como explica Maldonato: “Um cliente costuma comprar alimentos de baixa qualidade (cheios de transgênicos), com seu cartão de crédito, na mercearia do bairro. O agregador então sugere que ele faça suas compras junto a lojas parceiras que fornecem produtos orgânicos. Outro vê que sua conta de combustível só aumenta, então a start-up sugere a compra de um carro mais econômico”. E assim por diante. “Esses dados bancários permitirão detectar oportunidades de vendas adicionais. Vejamos o exemplo dos seguros”, propõe o especialista, citando dois casos concretos: “Paul dirige seu carro e enche o tanque três vezes por mês. Isso permite que a seguradora o considere um ‘motorista por diária’ e ofereça um treinamento preventivo de direção defensiva”. Ou ainda: “Laure quer ir para a Tailândia. Ela comprou uma passagem de avião e pagou sua acomodação pela internet. Isso permite que a seguradora a identifique como uma ‘futura viajante’ e ofereça uma atualização de cobertura de seguro no exterior, propondo um seguro adaptado à sua viagem”.

“Mais de 1 milhão de franceses já passaram o marco da segurança paramétrica”, lembra o especialista financeiro. Antes, talvez, de “concordar com o pagamento”…, a terceira parte do DSP2, que é a grande vantagem do Gafam (Google, Apple, Facebook, Amazon, Microsoft). Trata-se do self driving finance [financiamento autônomo], que permitirá aos gigantes da internet acessar nossas conversas por meio de objetos conectados (equipados com microfones e reconhecimento de voz: Siri para Apple, Alexa para Amazon, ou Google Home) e também fazer transferências para nós – após autorização via SMS. “Amazon, Google e Apple já conseguiram a licença DSP2, mas ainda não a utilizam”, esclarece Maldonato. Premissa de um mundo onde o dinheiro estará sempre em movimento. E onde a máquina antecipará nossos desejos (e nossas compras)… Contanto que se tenha internet.

Esse ensaio geral para uma sociedade ultraconectada, embora largue milhões de cidadãos à própria sorte pelo caminho, deixou visivelmente encantado Eric Schmidt, ex-dirigente do Google. Em 10 de maio, no canal de televisão CBS News, ele confessou: “Os meses de quarentena nos permitiram dar um salto de dez anos. A internet se tornou vital da noite para o dia. Ela é essencial para fazer negócios, organizar a vida e vivê-la”.

 

Julien Brygo é jornalista.

 

1 Cf. Nina Valette, “Rennes: les étudiants vont être télé-surveillés pendant les examens de fin d’année” [Rennes: estudantes farão os exames finais sob telemonitoramento], France Bleu, 5 maio 2020. Disponível em: www.francebleu.fr.

2 Cf. Pauline Damour, “Guichets, tarifs: les usagers de la SNCF au bord de la crise de nerf” [Bilheterias, tarifas: usuários da SNCF à beira de um ataque de nervos], Challenges, Paris, 6 jul. 2019.

3 Ler Julien Brygo: “Peut-on encore vivre sans Internet?” [Ainda podemos viver sem internet?], Le Monde Diplomatique, ago. 2019.

4 “La téléconsultation médicale en plein essor” [Teleconsulta médica em plena expansão], Reuters, 27 mar. 2020.

5 Cf. Fabien Trécourt, “Stanislas Niox-Château: du tennis de haut niveau à Doctolib” [Stanislas Niox-Château: do tênis de alto nível à Doctolib], Capital, Paris, 10 jul. 2018. Disponível em: www.capital.fr.

6 Cf. Jérôme Hourdeaux, “La Cnil s’inquiète d’un transfert possible de nos données de santé aux États-Unis” [Cnil está preocupada com uma possível transferência de nossos dados de saúde para os Estados Unidos], Mediapart, Paris, 8 maio 2020. Disponível em: www.mediapart.fr.

7 Cf. Alice Vitard, “Malgré les inquiétudes, le Health Data Hub est officiellement lancé” [Apesar das preocupações, Health Data Hub foi oficialmente lançado], L’Usine Digitale, Antony, 2 dez. 2019. Disponível em: www.usine-digitale.fr.

8 “Baromètre du numérique 2019” [Barômetro digital 2019], Centre de Recherche pour l’Étude et l’Observation des Conditions de Vie (Credoc), Paris.

9 Benjamin Ferran, “L’angoisse de la batterie faible” [A angústia da bateria baixa], Le Figaro, Paris, 6 out. 2019.

10 “La couverture des zones peu denses” [A cobertura de áreas pouco povoadas], Autorité de Régulation des Communications Électroniques et des Postes (Arcep), 21 abr. 2020. Disponível em: www.arcep.fr.

11 Ler Félix Tréguer, “Urgence sanitaire, réponse sécuritaire” [Emergência sanitária, resposta securitária], Le Monde Diplomatique, maio 2020.

12 Julien Maldonato, Marine Bauchère, Elsa Mallein-Gerin e Chloé Dreher, “Ouverture des données: une bonne nouvelle pour les banques, assureurs et leurs clients!” [Abertura de dados: boa notícia para bancos, seguradoras e seus clientes!], Blog Deloitte, 24 maio 2019. Disponível em: www.blog.deloitte.fr.



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