Trumpismo, bolsonarismo e a resistível ascensão da extrema-direita
Qual é a posição do Flávio Bolsonaro sobre a participação do Brasil no “Escudo das Américas” e a exploração de minerais críticos por empresas americanas no território nacional?
Nos últimos ciclos eleitorais, as trajetórias políticas dos Estados Unidos e do Brasil têm revelado semelhanças marcantes, especialmente entre os fenômenos do “Trumpismo” e do “Bolsonarismo”.1 A análise de semelhanças e diferenças entre os dois países ajuda a esclarecer questões centrais do nosso tempo: o fortalecimento da extrema-direita pelo mundo, as consequências de seus governos e os caminhos possíveis para a defesa da democracia frente a ameaças de retrocessos.

Como na surpreendente volta de Trump à Casa Branca em 2024, após a tentativa de insurreição que culminou na invasão do Capitólio em 6 de janeiro de 2021, poucos apostaram numa reviravolta da família Bolsonaro após o plano de golpe que se seguiu à derrota nas eleições de 2022. Esse plano culminou na invasão e depredação de prédios públicos na Praça dos Três Poderes, em 8 de janeiro de 2023, e na condenação de Jair Bolsonaro por liderar um esquema que incluía planos para assassinar o Presidente e Vice-Presidente da República além de um Ministro do Supremo Tribunal Federal.
Neste ponto, cabe mencionar que há uma clara diferença entre Brasil e os EUA: enquanto a justiça americana falhou ao não dar seguimento em tempo hábil ao processo contra Trump por tentativa de insurreição e outros crimes, deixando o caminho livre para a sua volta à política em 2024, o judiciário brasileiro funcionou com agilidade no julgamento de Bolsonaro e outros envolvidos na tentativa de golpe de 08 de janeiro.
Com a inelegibilidade de Jair Bolsonaro, a escolha pelo pai do filho mais velho, Flavio, para ser candidato a presidente, levantou diversos questionamentos, inclusive no Partido Liberal (PL) e entre aliados de direita, considerando a sua atuação inexpressiva como parlamentar e histórico de envolvimento com milícias e “rachadinhas” no Rio de Janeiro.
Para melhor entender o resultado do primeiro turno das eleições presidenciais em 4 de outubro, é importante considerar uma série de fatores, alguns dos quais guardam semelhanças com as eleições presidenciais recentes nos EUA.
Uma das dificuldades inerentes à campanha do Lula, após o exercício de três mandatos, como no caso das candidaturas de Hillary Clinton em 2012 e Joe Biden em 2024, tem sido a superação da pecha de candidato do “establishment”, ou seja, das elites políticas tradicionais.
Como no caso de Biden com Trump em 2024, a campanha do Presidente Lula no primeiro turno parece ter subestimado o potencial de crescimento da candidatura de Flávio Bolsonaro, especialmente no sentido de explorar – apesar de melhorias nos indicadores de inflação e desemprego – as frustrações de grande parte do eleitorado com dificuldades econômicas, especialmente o endividamento.
No primeiro turno, a comunicação da campanha do Presidente Lula poderia ter sido mais eficaz em destacar as contribuições de programas do atual governo para a qualidade de vida das pessoas, sem menosprezar as dificuldades econômicas enfrentadas por grande parte da população, assim como um conjunto de propostas inovadoras para o próximo mandato, levando em conta a ansiedade por mudanças dentro do eleitorado.
Enquanto isso, umas das táticas da campanha de Flávio Bolsonaro, seguindo o exemplo de Trump e de seu pai, tem sido a ampla divulgação em redes sociais de notícias distorcidas e falsas, a demonização de adversários e a utilização indevida da religião como arma eleitoral, com o apoio de alguns líderes evangélicos de extrema direita.
A divulgação indevida pelo ministro André Mendonça do STF, de indícios de vínculos entre Alexandre de Moraes e o dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, desviou a atenção dos vínculos entre Flávio Bolsonaro e Vorcaro, como no financiamento do filme Dark Horse e, ao mesmo tempo, motivou a base de extrema direita, ávida por vingança contra o Moraes pelo seu papel na condenação de Jair Bolsonaro e outros responsáveis pela tentativa de golpe.
Claramente, a carência de diálogos e debates com os candidatos à presidência sobre questões fundamentais que afetam a qualidade de vida das pessoas – como a geração de emprego e renda, saúde pública, educação, segurança pública, meio ambiente e mudanças climáticas – no sentido de facilitar comparações entre as propostas dos candidatos, tem prejudicado a qualidade do processo eleitoral, favorecendo, a nosso ver, a campanha de Flávio Bolsonaro.
É difícil estimar a influência de Trump e Rubio, com suas táticas intervencionistas, no primeiro turno das eleições presidenciais. Por um lado, devem ter animado uma parte significativa da base de Bolsonaro. Por outro lado, as investidas da Casa Branca contra a soberania do Brasil, com a anuência e participação de Flávio e Eduardo Bolsonaro, provocaram indignação entre grande parte do eleitorado, o que encontrou eco nas declarações do Presidente Lula na assembleia da ONU, lembrando que “o Brasil não cabe no quintal de ninguém”.
Perspectivas para o segundo turno
Na campanha do Presidente Lula, há iniciativas importantes sendo tomadas para superar lacunas e falhas do primeiro turno, a exemplo de melhorias na comunicação, especialmente a articulação entre mobilizações de rua com a utilização das redes sociais, com envolvimento de jovens como a deputada eleita Ana Elisa Santos Silva.
Nas mensagens de campanha do Lula nos próximos dias, além de apontar contradições e omissões nas propostas do Flávio Bolsonaro, lembrando como foi o governo de seu pai em áreas como a saúde pública, é preciso destacar resultados positivos do último mandato e, ao mesmo tempo, apresentar propostas inovadoras para um próximo governo que se conectam diretamente com a qualidade de vida no cotidiano das pessoas – ou seja, “fazer mais e melhor”.
As políticas públicas na área de infraestrutura – como transportes, energia, comunicação e saneamento básico – têm recebido pouca atenção nesse processo eleitoral, apesar de sua enorme relevância para a qualidade de vida das pessoas e o alcance dos objetivos da ONU sobre desenvolvimento sustentável (ODS). O atual governo do Presidente Lula tem demonstrado avanços no sentido de melhor aproximar políticas de infraestrutura das necessidades das pessoas – a exemplo da geração descentralizada de energia solar fotovoltaica entre comunidades rurais isoladas, que antes dependiam de energia oriunda de geradores a óleo diesel. Entretanto, ainda há muito o que fazer. Assumir compromissos com políticas de infraestrutura que priorizam a inclusão social, a sustentabilidade ambiental e a resiliência climática, com transparência e participação social, pode ser uma das inovações de um novo governo do Presidente Lula destacadas nesta reta final do processo eleitoral de 2026.
No caso da campanha do Flávio Bolsonaro, além da ânsia em soltar o pai da prisão domiciliar e promover o impeachment de Alexandre de Moraes, muitas perguntas permanecem sem respostas sobre como será o próximo governo, caso seja eleito, como por exemplo:
- Como pretende realizar o prometido “tesouraço” nas contas públicas, inspirado no exemplo de Javier Milei, sem provocar graves prejuízos em programas essenciais, em áreas como a saúde pública, educação e previdência social?
- Quais as propostas do candidato em relação à garantia de direitos trabalhistas, inclusive em relação à eliminação do regime do 6×1?
- Quais as lições aprendidas com a resposta desastrosa do governo de Jair Bolsonaro frente a pandemia da COVID-19, quando morreram mais de 700 mil brasileiros, e quais as medidas que seriam tomadas para evitar uma nova tragédia?
- Quais as medidas a serem tomadas para evitar a repetição de graves erros da política ambiental do governo de seu pai, em relação a temas chave como proteção da biodiversidade, gestão das águas e controle da poluição atmosférica?
- Quais compromissos o candidato está disposto a assumir em relação aos direitos dos povos indígenas, quilombolas e outras comunidades tradicionais, inclusive seus direitos territoriais e o direito à consulta livre, prévia e informada?
- Como o candidato propõe evitar a repetição de tragédias, como o ocorrido com o povo Ianomami durante o governo do pai, como resultado da omissão do governo federal frente à proliferação de garimpos para a exploração ilegal de ouro?
- Quais as propostas do candidato em relação à emergência das mudanças climáticas, em termos de prevenção, mitigação e adaptação? Como pretende fortalecer a capacidade dos estados, municípios e comunidades para lidar com os efeitos dos eventos climáticos extremos (enchentes, deslizamentos, secas)?
- Quais são as propostas específicas do candidato em relação aos direitos das mulheres, dos idosos, das crianças e adolescentes, e da população LGBTQIA+?
- Como propõe viabilizar uma política robusta de segurança pública, inclusive em relação ao crime organizado, tendo em vista o relacionamento histórico do candidato com as milícias no Rio de Janeiro?
- Por último, como o candidato explica as posturas da família Bolsonaro de submissão da soberania do Brasil aos interesses do governo Trump, que incluíram um convite para participar de um eventual governo de transição? Qual a sua posição sobre a participação do Brasil no “Escudo das Américas” e a exploração de minerais críticos por empresas americanas no território nacional?
É importante ressaltar que as provocações agressivas do Governo Trump ao Brasil – como a imposição de elevadas tarifas a partir de abril de 2025, a utilização da Lei Magnitsky para criminalizar autoridades brasileiras, a revogação de visto da embaixadora brasileira em Washington e a caracterização do PCC e do Comando Vermelho como organizações terroristas – se enquadram na geopolítica “Donroe”, que inclui entre suas prioridades influenciar as eleições brasileiras em favor de Flávio Bolsonaro, mas com implicações que vão desde a exploração de recursos naturais e operações militares em território nacional até a autonomia de instituições financeiras e o PIX no Brasil.
No que se refere aos debates presidenciais nesta reta final do segundo turno, trata-se de uma das últimas oportunidades para o eleitor poder comparar propostas de governo dos dois candidatos sobre questões fundamentais que mais afetam o seu cotidiano. Infelizmente, o formato do debate na Band, do dia 18 de outubro, facilitou a superficialidade e um comportamento arrogante e desrespeitoso do Flávio Bolsonaro – até o “stalking” atrás de Lula, inspirado no debate de Trump com Hillary Clinton em 2016, em conjunto com táticas de distração que sistematicamente deixaram perguntas sem respostas. Tomara que o formato do debate na Globo, na próxima sexta-feira, contribua para um enfrentamento civilizado de ideias e propostas de governo, e não um circo de distrações e ofensas.
Em qualquer cenário de resultado do segundo turno, a mobilização da sociedade civil vai continuar sendo fundamental frente às ameaças da extrema direita liderada pela família Bolsonaro e ao intervencionismo de Trump e Rubio. Mesmo com uma vitória de virada do Presidente Lula em 25 de outubro, que é plenamente possível, vai ser necessária muita pressão da cidadania sobre o Congresso Nacional, especialmente o Senado Federal, em defesa da Constituição e da democracia brasileira.
Conforme lembrado por Bertolt Brecht em sua paródia teatral sobre a Alemanha nazista, a ascensão da extrema-direita não é um fato inexorável, mas sujeito à ação da cidadania e à resistência coletiva em prol da democracia, como base fundamental de uma sociedade mais justa, fraterna e sustentável.
Título inspirado na peça teatral “A Resistível Ascensão de Arturo Ui” de Bertolt Brecht.
Brent Millikan é geógrafo e membro da Secretaria Executiva do GT Infraestrutura e Justiça Socioambiental, uma rede da sociedade civil brasileira.

