POR SÉCULOS, ESSE OPRESSOR FOI EUROPEU. NO ÚLTIMO SÉCULO, TEM SIDO AMERICANO

Tupy or not Tupy, that is the question

Há quem prefira o chão à mesa, vira-latas que batem continência para bandeiras alheias e vestem chapéus em defesa do entreguismo financeiro. Esses são avessos à ideia de um Brasil grandioso, miscigenado, plural e democrático

Oswald de Andrade, um século atrás já havia matado a charada da epopeia brasileira. Havia entendido que nosso desafio era digestivo e não alimentar. Éramos um país de colonização majoritariamente rural, isolado geograficamente, que apenas recentemente havia fundado a sua primeira universidade, aliás, a última a nascer na América do Sul. Que não poderia sozinho criar sua própria cultura, ainda faltavam elementos. Definitivamente concluiu que era preciso engolir todo elemento cultural possível: tanto os povos imigrantes que chegavam aos montes ao Brasil quanto a produção cultural europeia e americana, já abundante pelos avanços tecnológicos da época. Além dessas, era preciso consumir aquilo que já carregávamos na bagagem, as matrizes indígenas e africanas, que formaram a base da nossa identidade. E então digerir, nacionalizar, tropicalizar e expelir algo que fosse realmente nosso, brasileiro. 

O que talvez não tenhamos entendido até hoje é que o movimento antropofágico não tratava apenas de cultura. Tratava de soberania. Um país geograficamente protegido, não se criou preocupado com soberania territorial. Afastado dos grandes conflitos históricos que moldaram as civilizações e cercado por mar e por países menores, foram raros os momentos em que o Brasil precisou bradar armas para se manter íntegro. Ao contrário, avançou sobre territórios inicialmente ocupados por outros povos e potências coloniais e se estabeleceu como o maior país da América do Sul ainda no tempo da colônia. Sim, gigante pela própria natureza. E daí? Nem toda soberania é física e talvez essa seja a mais fácil de garantir. 

Por isso a inteligência do poeta ao idealizar o Brasil como um monstro comedor de culturas é ímpar. Essa figura já altera a lógica com que o povo brasileiro se observa, nos coloca em posição de superioridade ativa e não como o gigante adormecido que tanto ouvimos falar. E não por coincidência, no mesmo ano do Manifesto Antropofágico é publicada talvez a primeira documentação literária da figura adormecida desse gigante: Macunaíma, de Mário de Andrade. Um herói tão talentoso quanto preguiçoso, negligente consigo mesmo. O país que pode, mas não faz, e talvez não faça justamente porque tem certeza de que pode. 

Ainda caminhando pela literatura, décadas seguintes, Nelson Rodrigues, sempre cirúrgico, cunha a expressão “vira-lata”: o cão sem raça definida que vagueia pelas ruas, malandramente carismático em busca da sobrevivência. O vira-lata não é um cão de caça, nem de guarda, é um cão de sobrevivência. Por não ter pai nem mãe, lhe foi tirada a identidade. Vive de imediatismos: ora recebendo migalhas, ora virando uma lata para quem sabe ganhar na loteria canina um saco de ossos. Será esse o nosso tipo de soberania? Mendigar malandramente? Sem implorar, mas também sem rosnar? E quando somos enxotados da calçada, corremos, mordemos ou fingimos que não é conosco?
A digestão cultural não garantiu a autonomia estrutural. O Brasil passou as décadas seguintes oscilando entre a vontade de se afirmar e o medo de se indispor. No plano internacional, alternamos discursos de grandeza com posturas de dependência, ora tentando liderar a América Latina, ora aceitando o papel periférico que nos reservaram. Internamente, a construção de um projeto nacional cedeu espaço a agendas fragmentadas, guiadas mais por interesses imediatos do que por um senso de futuro coletivo. Seguimos um país de potência latente e ação hesitante, incapaz de sustentar por tempo suficiente qualquer caminho que nos libertasse da eterna posição de promissor. Hoje, o mundo multipolar nos convida a sentar à mesa das potências e chegou a hora de decidir se ocuparemos nosso lugar. 

Pessoas com vestidos rodados com estampas das cores da bandeira do Brasil. Uma delas carrega uma bandeira
Crédito: Pexels

Há quem prefira o chão à mesa, vira-latas que batem continência para bandeiras alheias e vestem chapéus em defesa do entreguismo financeiro. Esses são avessos à ideia de um Brasil grandioso, miscigenado, plural e democrático. Prefeririam vê-lo apenas branco, ou talvez alaranjado. Não digerem: apenas engolem. Engolem tudo que lhes é oferecido pelo opressor. Parecem tomados por uma síndrome de Estocolmo coletiva, encantados por aqueles que os condicionam. Por séculos, esse opressor foi europeu. No último século, tem sido americano. E não é qualquer opressor, é um opressor brilhante, que desfila em caminhonetes enormes e dá nomes sedutores às peças de carne. Um opressor que oferece entretenimento infinito, doses diárias de dopamina e a ilusão de pertencimento global. Como resistir? Ironicamente, continuamos a repetir a piada clássica: enquanto criticamos os indígenas que trocaram o país por espelhos, seguimos trocando o futuro pelos espelhos das redes sociais e afins. 

Mas nosso gigante ainda há de se alimentar desse vira-lata. Vai se apropriar do que há de bom nessa interação débil e regurgitar um Brasil global, guia, soberano de si, capaz de mostrar ao mundo a riqueza da diversidade, a grandeza da mistura e a força de um povo que já não é mais vira-lata. É caramelo, mestiço, valente e astuto, um cão que se nutriu das próprias diferenças e se fez único. 

Bruno Sindona é empreendedor de impacto e conselheiro do CDESS (Conselho de Desenvolvimento Econômico Social Sustentável).  

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