Turbinados pelo euro, empresários alemães perdem de vez suas inibições - Le Monde Diplomatique

INVESTIGAÇÃO SOBRE OS MESTRES DO JOGO EUROPEU

Turbinados pelo euro, empresários alemães perdem de vez suas inibições

por Olivier Cyran
2 de setembro de 2013
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Catapultada pelo modelo europeu, a indústria alemã não corresponde mais ao estereótipo de seu empresariado, tido como engenhoso e familiar, social e conquistador. Esses representam uma força econômica e financeira com peso em arbitragens tanto europeias como locais. Mas, afinal, em que pensam os patrões da Alemanha?Olivier Cyran

Com físico hollywoodiano e leve sotaque bávaro, Klaus Probst encarna a síntese perfeita do cidadão do mundo e do industrial ancorado em seu castelo-fortaleza. Ainda que o “modelo alemão” tantas vezes invocado esteja mal das pernas, nenhuma dúvida atinge esse velho engenheiro que se transformou em empresário. “Nosso sistema é realmente um modelo”, diz, com a voz calma. “Quando vemos a França e a maneira como os sindicatos ali reagem às perdas de empregos, percebemos a vantagem que temos aqui na Alemanha, onde todo mundo consegue chegar a um acordo com base em soluções razoáveis. A parceria social que reina em nosso país parece-me de grande estabilidade; não vejo nenhuma ameaça no horizonte.”

Indestrutível, o otimismo de Probst está à altura da multinacional que ele preside: a Leoni AG, maior fornecedora europeia de sistemas de cabos para a indústria automotiva, alcançou em 2012 um volume de negócios de 3,8 bilhões de euros e um lucro, sem descontar impostos, de 236 milhões de euros, um significativo aumento em relação a anos anteriores. É também um dos membros mais prestigiados da Associação da Indústria Metalúrgica e Eletrônica da Baviera (VBM), que representa seiscentas empresas e mais de 700 mil empregos. “A VBM é uma estrutura bastante poderosa”, admite Probst. “Ela defende os interesses de nossa indústria junto aos políticos, especialmente Horst Seehofer, presidente da Baviera, mas também junto à [chanceler] Angela Merkel. Nossa intervenção se dá, sobretudo, em questões de política energética, porque a eletricidade é cada vez mais cara, o que coloca em perigo algumas de nossas empresas.”

O objetivo é contornar as disposições da “revolução energética”, destinada a promover a energia alternativa, mas enfraquecida por uma série de emendas aprovadas sob a pressão de lobistas. Com base em uma modificação legislativa de junho de 2011, mais de 2 mil grandes empresas foram isentas da taxa ambiental, imposto que incide sobre os grandes consumidores de combustíveis fósseis. O custo dessas acomodações para o erário público é estimado em 4 bilhões de euros para 2013.1

Na Alemanha, o lobby também assume a forma de dinheiro vivo. De 2002 a 2011, o VBM distribuiu 4,16 milhões de euros para diferentes partidos, incluindo 3,7 milhões para a União Social Cristã (CSU) de Seehofer.2 Só a BMW e o Deutsche Bank se mostraram mais generosos.

Fechados em uma bolha

Diante desses números, o surto alemão de baixos salários e precariedade parece fora de propósito. O fato de a Alemanha fazer parte dos três países europeus – após a Bulgária e a Romênia – onde a diferença de renda entre os 20% mais ricos e 20% mais pobres mais se aprofundou entre 2000 e 20103 não altera o humor afável de Probst. “Ainda que muitos estudos confirmem o que você diz, não vejo nada desse tipo à minha volta”, assegura o CEO. “Graças ao auxílio social, todos aqui têm uma fonte de renda que lhes permite viver decentemente. Eu tenho dois filhos estudantes; de forma alguma sinto medo que a sociedade em que eles vivem se degrade ou mergulhe no caos.” Probst olha para o relógio. Em alguns instantes, ele dará uma palestra nos luxuosos salões do Clube de Imprensa de Nuremberg sobre o tema “As inovações não caem do céu”.

Em matéria de inovações, o Grupo Leoni contribuiu bastante durante sua longa história, em que se reflete o capitalismo épico do Reno. Fundado no século XIX, em meio à Revolução Industrial, com capital aberto desde 1923, o fabricante de cabos fortaleceu-se durante o período nazista, beneficiando-se do trabalho obrigatório dos deportados. Em seguida, floresceu graças ao “milagre alemão” do boom do pós-guerra da indústria automobilística. A euforia da época, combinada à proibição de “greves políticas” e a um anticomunismo cada vez mais robusto à medida que se apoiava no Muro de Berlim, favoreceu o surgimento de um consenso social inédito na Europa. A jovem República Federal pôde assim delegar às organizações empresariais a tarefa de negociar elas próprias os acordos coletivos, setor por setor.

O Estado renunciou a qualquer intervenção: caberia aos empregadores fixar, em acordo com os sindicatos, as condições de trabalho e remuneração. Em contrapartida a esse direito soberano, eles se empenharam em envolver estreitamente representantes dos trabalhadores na administração de suas empresas. Assim nasceu o sistema de cogestão paritária, que atribui aos sindicatos metade dos assentos nas instâncias dirigentes, seja no conselho da empresa (Betriebsrat), no caso de companhias pequenas e médias, seja no conselho de fiscalização (Aufsichtsrat), no caso daquelas com mais de quinhentos trabalhadores. Paritário, o sistema realmente só o é na metalurgia: em todos os outros setores, a direção da empresa dispõe da maioria de um voto para decidir em caso de conflito.

Invejada pelos patronatos latinos, a cogestão à moda alemã, no entanto, está em processo de desmonte. “No papel, tudo é perfeito, mas na realidade a parceria social só existe nas indústrias tradicionais”, lamenta Jürgen Bothner, secretário-geral do sindicato Ver.di em Hessen. O crescimento de uma indústria de serviços em grande parte indiferente aos seus encantos fez o “modelo alemão” derreter como neve ao sol. Em 2012, apenas 58% dos empregados na Alemanha se beneficiavam de um acordo coletivo: 60% no oeste do país e 48% no leste, contra, respectivamente, 75% e 63% quinze anos antes. E nos setores onde ele ainda se aplica, o delicado equilíbrio entre os parceiros sociais se inclina cada vez mais fortemente para um único lado. “Entre as centrais sindicais e os representantes dos trabalhadores que tomam assento nos conselhos executivos das empresas, os laços estão cada vez mais retesados, quando não rompidos”, suspira Bothner. “Não é raro que os que foram eleitos para representar os interesses dos trabalhadores pactuem com o empregador.”

Já Probst elogia o “sentido de responsabilidade” de seus parceiros sociais. De fato, estes últimos sabem como acomodar as coisas: em 2000, depois entre 2008 e 2010, os representantes dos assalariados na indústria metalúrgica e eletrônica, à qual o Grupo Leoni é afiliado, aceitaram sem críticas a oferta patronal de um bloqueio dos salários − em troca do que o fabricante de cabos “superou a crise e está indo muito bem hoje, no interesse de todos os seus funcionários”, felicita-se o CEO, que se mostrou menos rigoroso consigo mesmo, já que seus rendimentos pessoais aumentaram 8,8% entre 2008 e 2009. Ele está atualmente em 55o lugar entre os gerentes mais bem pagos da Alemanha, com um salário anual de 1,87 milhão de euros, ao qual se juntam seus rendimentos financeiros.4

Outro fator contribuiu para esvaziar a parceria social de sua substância: as ondas de deslocalizações (saídasde indústrias para outros países em busca da redução de custos) que vêm varrendo a Alemanha há duas décadas. Também nessa área, a Leoni AG fez parte dos precursores. Dos 60 mil funcionários do grupo, apenas 4 mil ainda trabalham em solo alemão. “Quando a Cortina de Ferro caiu em 1989”, lembra Probst, “decidimos imediatamente deslocar uma parte de nossa produção para a Hungria, a Polônia, a Eslováquia e a República Tcheca”.

Depois de uma segunda onda no final dos anos 1990 em direção à Ucrânia e à Romênia, uma terceira se seguiu na década de 2000, dessa vez rumo à Tunísia, ao Marrocos e ao Egito. As revoluções árabes afetaram essa estratégia de competitividade? “De forma alguma”, retruca o líder empresarial. “O cálculo é feito rapidamente: na Alemanha, o custo do trabalho no setor de eletrônicos é de 25 euros por hora, aí incluídas as contribuições sociais, enquanto na Polônia é de 6 euros e na Tunísia de 2 euros.” É desnecessário dizer que os 12 mil trabalhadores da planta da Sousse na Tunísia, principalmente as mulheres, que recebem 300 euros por mês, não são afetados pelos benefícios do “modelo alemão”. Para Probst, sua contratação é mais uma “forma moderna de ajuda ao desenvolvimento”.

“A Alemanha vai muito bem. Nunca estivemos tão perto do pleno emprego”, professa. Em um país onde 4 milhões de trabalhadores – 12% da população ativa – recebem um salário bruto de menos de 7 euros por hora5 e onde uma agência de emprego considera útil publicar um folheto aconselhando os desempregados a beber água da torneira em vez de água engarrafada,6 propósitos tão bem-intencionados podem surpreender. Não devemos esquecer que os grandes patrões alemães vivem em uma bolha cada vez mais impermeável.

Professor de Sociologia da Universidade de Heidelberg, Markus Pohlmann conduz há seis anos um ambicioso estudo sobre as elites econômicas ao redor do mundo. Na Alemanha, sua equipe realizou 82 entrevistas com altos executivos de duas gerações: os que estavam na ativa nas décadas de 1980 e 1990, e aqueles que estão no controle hoje. Com o objetivo, diz ele, “de avaliar até que ponto os princípios do neoliberalismo impregnaram a mente dos tomadores de decisão e sua gestão dos negócios”.

De acordo com Pohlmann, os empresários alemães “se consagram de corpo e alma a seu negócio, muito mais agora do que há vinte anos. Seu tempo de trabalho varia, em média, entre catorze e dezesseis horas por dia durante a semana, e depois novamente entre dez e doze horas nos finais de semana. A empresa é o único filtro por meio do qual eles veem o mundo social”. O sociólogo assinala outra grande mudança: “Para a geração mais velha, havia uma espécie de pacto social em virtude do qual a busca do consenso temperava a fria obrigação de acumular os lucros. Essa concepção desapareceu. O que prevalece agora é o princípio do capital humano, segundo o qual cada indivíduo é responsável por seu destino. Aqueles que têm menos sucesso – as ‘pessoas com desempenho limitado’, como costumam ser chamadas nesse meio – são descartados sem nenhum escrúpulo”.

“A mão de obra tem um custo,  como o porco”

Essa evolução se traduz tanto nos discursos como na prática. Nos últimos anos, as profissões de fé dos grandes patrões contrastam, por sua rudeza sem inibições, com o tom mais parvo dos barões da velha escola. “Na Alemanha, temos a tendência de pensar que cabe ao chefe de empresa pagar ao trabalhador um salário suficiente para sustentar toda a família. Mas isso é impossível no plano econômico”, afirmava, por exemplo, em 2005, Walter Norbert, então economista-chefe do Deutsche Bank.7 Na mesma época, Michael Rogowski, então presidente da poderosa Federação da Indústria Alemã (BDI), recorria a uma metáfora animal para explicar o funcionamento do mercado de trabalho: “A mão de obra tem um custo, exatamente como a carne de porco. No ciclo de negócios, os preços são mais elevados quando a carne de porco é rara. Quando há uma grande quantidade dela, os preços caem”.8 Desde então, o apreciador de carne de porco tornou-se consultor do grupo de investimento norte-americano Carlyle e depois apresentador de um programa no canal a cabo alemão N-tv.

Mas é no plano dos “valores éticos”, conforme a expressão de Pohlmann, que os líderes atuais se destacam mais nitidamente das gerações precedentes. A moderação protestante tradicionalmente associada ao capitalismo alemão parece ter sido tanto quebrada como torpedeada pelo apetite por ganhos. “Com uma renda anual média de 2,9 milhões de euros, os principais executivos das empresas cotadas no Dax [o Índice da Bolsa de Frankfurt] receberam em 2010 rendimentos 4,5 vezes maiores do que em 1995: um aumento drástico em apenas quinze anos. Em 2011, suas rendas subiram ainda mais substancialmente, para uma média de 3,14 milhões de euros por membro de conselho executivo”, observa o sociólogo Michael Hartmann em seu último livro.9

Outro sinal dessa desintegração: a multiplicação, nos últimos anos, dos casos de fraude fiscal. Não que esta seja uma invenção recente no caso dos grandes contribuintes: na década de 1970, já era de bom-tom “abrigar dinheiro no exterior”, como admite Albert Eickhoff, industrial da alta-costura processado em 2012 por evasão fiscal ao lado de várias centenas de outros milionários alemães.10 O que mudou, constata Pohlmann, é a ostentação com que os líderes empresariais exibem sua tolerância em relação a tais práticas. “Em 2009”, diz, “após a condenação do dono da Deutsche Post, Klaus Zumwinkel, quase todos os nossos interlocutores concordavam em ressaltar que os 2 milhões de euros a 3 milhões de euros escondidos por seu infeliz colega em uma conta em Liechtenstein não passavam de café pequeno e que não havia por que fazer um escândalo.”

Membro do Conselho Fiscal do DZ Bank, terceiro banco da Alemanha, com um patrimônio líquido de 11 bilhões de euros, Siegmar Kleinert se destaca no ambiente arrumadinho dos colarinhos brancos por suas explosões de raiva contra aquilo que ele chama de “berlusconização” do país. Desde que Gerhard Schröder passou a trabalhar sua agenda junto ao grupo de energia russo Gazprom, “os diques se afrouxaram, não há mais limites para os conflitos de interesses”, denuncia. Exemplo disso é o percurso de Wolfgang Clement, ministro da Economia e do Trabalho no governo Schröder, que se tornou em seguida o conselheiro do gigante dos recursos humanos Adecco e do Citigroup. Ou ainda os acordos de Peer Steinbrück, o líder do Partido Social-Democrata (SPD) nas próximas eleições legislativas: entre novembro de 2009 e outubro de 2012, o candidato à chancelaria realizou 64 conferências para estabelecimentos como o Deutsche Bank, o Citigroup, o BNP-Paribas e o JP Morgan. Ele teria embolsado a cada vez algo entre 15 mil euros e 25 mil euros.

Aprender a tirar proveito da desgraça dos outros

A debandada para o setor privado dos secretários de Estado – assim são chamados na Alemanha os diretores de gabinete ministerial – ilustra o aumento da porosidade entre os círculos políticos e os meios empresariais. Hartmann calculou que, entre 1949 e 1999, dos vinte secretários de Estado que se revezaram no Ministério das Finanças, apenas cinco retornaram ao setor privado após terem deixado o cargo, ou seja, um em cada quatro − uma proporção que se manteve estável ao longo de meio século. Desde 2000, no entanto, sete dos oito secretários que se sucederam no Ministério das Finanças fizeram em seguida uma carreira nas altas esferas da economia ou das finanças.

As passarelas que ligam o público ao privado também são alegremente cruzadas nos dois sentidos. Alto funcionário do Ministério das Finanças e membro do SPD, Axel Nawrath foi recrutado em 2003 pela Bolsa de Frankfurt para assumir a direção das relações públicas; dois anos depois, ele retornou ao serviço público como secretário de Estado do ministro das Finanças, Hans Eichel. Hoje, é membro do Conselho Executivo do KfW, um dos quinze maiores bancos da Alemanha.

Presume-se que as relações estabelecidas, durante a década decorrida, entre o poder público e as potências do dinheiro não deixaram de gerar benefícios para estas últimas. O caso Heribert Zitzelsberger corrobora esse sentimento. O ex-gerente financeiro do Grupo Bayer, onde era encarregado principalmente das estratégias de otimização fiscal, foi licenciado em 1999 pelo governo vermelho-verde de Schröder para se tornar secretário de Estado no Ministério das Finanças. “Enviamos nosso melhor especialista em impostos a Bonn. Espero que tenha sido suficientemente ‘infiltrado’ pela Bayer para realizar as reformas necessárias”, anunciou o CEO da gigante da indústria química, Manfred Schneider, sob os aplausos da assembleia de acionistas.11

Ele não iria se decepcionar. Zitzelsberger pilotaria uma reforma tributária para baixar o imposto corporativo de 34% para 25% e reduzir a taxação dos lucros obtidos pelas empresas com papéis na Bolsa sobre as revendas das ações. Com o anúncio dessas medidas de “apoio à competitividade”, a um custo de 23 bilhões de euros por ano para os cofres do Estado, o índice Dax subiu 4,5%. Graças a seu ex-especialista em impostos, o Grupo Bayer embolsou em 2001 um desconto nos impostos de 250 milhões de euros, o que ele reverteu integralmente para seus acionistas. Morto dois anos depois, Zitzelsberger receberia as homenagens do patronato alemão, entristecido por ver desaparecer o homem que lhe deu o “maior presente de todos os tempos”.12

Berthold von Freyberg também permanece confuso em relação à sua gratidão a Schröder e à coalizão vermelho-verde. Oriundo de uma velha e poderosa família aristocrática – seu irmão, Ernst, preside o Banco do Vaticano –, esse quinquagenário com pinta de campeão de tênis fundou com dois sócios um fundo de investimentos de capital de risco, o Target Partners, que concentra seus milhões de clientes em startups de alta tecnologia. Das instalações suntuosas que ocupam uma das ruas mais chiques de Munique, ele lamenta a injustiça que atinge sua profissão: “Em 100 milhões que você investe, você consegue a cada cinco anos uma comissão anual de 2,2%, ou seja, 2,2 milhões. Ora, há um ano, os fundos de investimento alemães devem pagar um imposto de 19% sobre essas comissões. A Alemanha é o único país europeu a colocar em prática essa medida; até mesmo a França é mais liberal a esse respeito! Isso causa um dano imenso a todo o setor. Os investidores dizem: ‘Por que eu iria colocar meu dinheiro na Alemanha, quando não pago nada nos Estados Unidos?’, Então, nós nos encarregamos desses impostos, o que se traduz em uma perda de 19% sobre os ganhos. Isso é catastrófico. Temos de apertar o cinto”.

Se levarmos em conta o que diz Freyberg, não seria o ex-chanceler social-democrata que teria cometido tal indelicadeza: “Schröder criou as condições para a prosperidade que conhecemos hoje. Devemos-lhe muito mais do que a Angela Merkel, de quem não critico a defesa do euro, mas que não fez um quarto do que seu antecessor realizou em termos de reformas estruturais no mercado de trabalho”.

Apesar disso, de acordo com um estudo realizado pelo grupo de consultoria em gestão Kienbaum, uma esmagadora maioria dos empresários alemães concede seus favores à União Democrata Cristã (CDU) de Angela Merkel (78%), muito à frente do Partido Liberal Democrata (FDP, 28%) e dos sociais-democratas do SPD (10%). Empresários que apreciam a esquerda, mas votam à direita: a especificidade alemã realmente tem chumbo na asa.

A mesma pesquisa também indica que a moeda única mantém a total confiança dos meios de negócios, e dois líderes empresariais a cada três a consideram benéfica para seu país. O ex-presidente da Federação da Indústria Alemã (BDI), Hans-Olaf Henkel, que se perfila ao lado da Alternativa para a Alemanha (AFD) em uma campanha ruidosa contra a moeda europeia, gasta fôlego em vão para convencer seus pares: apenas 1% dos empresários desejaria retornar ao marco alemão. “Para as empresas alemãs, o euro é um grande sucesso. Apesar das incertezas, elas confiam na moeda única e na política de resgate do governo Merkel”, declara um dirigente da Kienbaum.13

Com sua franqueza desconcertante, Probst, diretor do Leoni, confirma: “A moeda única nos ajudou muito. A depreciação do euro em relação ao dólar, após os maus resultados econômicos de nossos vizinhos europeus, obviamente deu um impulso às nossas exportações e fortaleceu nossa competitividade nos mercados mundiais. Se a Alemanha retornasse ao marco alemão, isso provocaria uma inflação de nossa moeda que seria desastrosa para nossa indústria. É preciso reconhecer com toda a honestidade: a pressão financeira sobre a Europa mantém o euro em um nível artificialmente baixo que nos beneficia enormemente”.

Saber tirar proveito da desgraça dos outros: seria esse, então, o novo modelo alemão? Para confirmar isso, voltamo-nos para um “pequeno” industrial do Mittelstand – termo que os alemães gostam de usar para se referir a pequenas e médias empresas, mas também aos valores de honestidade, trabalho duro e perseverança. Lothar Reininger dirige com o irmão a empresa Reininger AG, especializada no fornecimento de equipamento médico: cadeiras de rodas importadas da China, camas especiais feitas na Polônia, produtos de higiene vindos da Tailândia etc. Ele emprega 190 funcionários. Reininger exibe certo constrangimento, no entanto, quando é qualificado como um empreendedor. Ex-trabalhador dos canteiros de obras da Triumph-Adler, da qual foi descartado em 1994, após uma greve “dura” contra a reestruturação do grupo por um fundo de investimento norte-americano, ele tem assento desde 2006 no conselho municipal de Frankfurt, nas fileiras do Die Linke, o partido de esquerda. Se por um lado ele encarna de forma muito imperfeita os mitos do Mittelstand, por outro também conhece todas as suas contradições.

“Em nosso setor”, explica, “há muitos trabalhadores temporários, conhecidos como ‘independentes’, que ganham de 5 a 6 euros por hora para fazer pequenos trabalhos de entrega, limpeza, desinfecção etc., que nossos concorrentes terceirizam. Em nosso caso, são nossos próprios empregados que executam essas tarefas por um mínimo de 10 euros por hora. Mesmo em um contexto de concorrência desenfreada, e não importa o que digam as organizações patronais, ainda é possível conseguir uma renda e um status decente para seus funcionários. Mas por quanto tempo? Apenas a instauração de um salário mínimo de 9 ou 10 euros, em nível federal, poderia colocar um freio no dumping social. Ao não fazê-lo, o governo Merkel ameaça a sobrevivência de alguns empregadores que desejam trabalhar corretamente.” Em 2012, a Reininger AG foi capaz de alcançar uma margem de lucro de 414 mil euros, redistribuído aos assalariados acionistas – “o equivalente a duas semanas de salário por pessoa, nada que permita partir numa viagem para as Bahamas”. Não se tem certeza de que ela possa repetir esse desempenho em 2013.

Olivier Cyran é jornalista.



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