Twitter ou o triunfo da plasticidade - Le Monde Diplomatique

NOVA COMUNICAÇÃO

Twitter ou o triunfo da plasticidade

por Mona Cholllet
1 de outubro de 2011
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Desde a sua criação, em 2006, o Twitter propõe aos internautas a transmissão de mensagens curtas pela internet e por celulares. Simples e gratuito, o serviço atinge cada vez mais usuários. Ele se tornará rapidamente, conforme a ambição de seus criadores, no “principal centro de informações do planeta”?Mona Cholllet

Quinze anos após sua abertura ao grande público, poderia a especificidade da internet – a de ser uma mídia produzida por seus usuários – continuar escapando a tantas análises? A rede ainda é frequentemente apresentada como simples convergência dos meios de comunicação preexistentes. Mas essa visão, argumenta o pesquisador Dominique Cardon, “transpõe preguiçosamente para a internet modelos forjados nas mídias tradicionais: prática do controle editorial, economia da raridade, concepção passiva do público”.1

A natureza da internet, porém, tornou-se particularmente evidente com o advento da web 2.0 e suas ferramentas de fácil manuseio. As plataformas de blogs permitiram que internautas sem habilidades específicas de programação tivessem acesso à autopublicação. A incontestável padronização dos sites daí decorrente, distante da inicial profusão criativa, suscitou o desapontamento de alguns pioneiros.2

A ascensão das redes sociais, como MySpace – muito popular entre os músicos –, Facebook e Twitter, representa mais uma etapa na expansão do círculo dos produtores. Embora haja um verdadeiro acúmulo de meios de comunicação, a web social “permite que internautas menos dotados de capital cultural entrem em cena de maneiras muito mais rápidas, leves e fáceis que a redação de um blog”.3 E o entusiasmo continua: ainda que seu sucesso a longo prazo permaneça incerto, o recém-nascido Google+, lançado no fim de junho de 2011, em um mês já contava com 25 milhões de inscritos. O Facebook só atingiu essa cifra com três anos de existência; o Twitter, com 33 meses.4 No início de agosto, após uma nova injeção de capital, o Twitter valorizou US$ 8 bilhões, levando alguns a falar em bolha especulativa, tão vacilante é ainda o modelo econômico do site.

O Twitter levou ao limite a plasticidade e a apropriação permitidas pela web participativa. A empresa não para de se redefinir, absorvendo constantemente as iniciativas dos internautas. A pergunta estampada em sua interface quando o sitefoi criado, em 2006 – “O que você está fazendo agora?” –, não era muito eficiente em gerar fluxos de informação emocionantes; ela foi bastante ignorada pelos usuários, que dedicaram os 140 caracteres de seus tweetsa todas as finalidades possíveis e imagináveis: fazer seus próprios destaques sobre a imprensa; produzir comentários sobre a atualidade; estabelecer uma comunicação direta, lançando perguntas uns aos outros; anunciar reuniões; fazer piadas; compartilhar fotos e vídeos; publicar anúncios… A empresa observou isso, e a questão inaugural foi substituída, em novembro de 2009, por uma mais abrangente: “O que está acontecendo?”.

 

Informações, fofocas e comentários

Os usuários também começaram a repassar a seus leitores os tweets que achavam divertidos ou interessantes, acrescentando a observação RT (retweet). Então, em 2010, esse recurso foi integrado ao serviço, com a criação de um botão de retweet.

É difícil classificar esse importantíssimo ator da internet atual. O Twitter é uma rede social de relacionamento entre amigos, como o Facebook, ou uma agência de comunicação na qual todos têm a oportunidade de ser emissor e receptor? Seus fundadores nunca souberam qual perfil escolher. Em 2010, seu presidente, diretor-geral e cofundador, Evan Williams, definiu o sitecomo uma “rede de informações”;5 porém, um ano depois, foram criados novos recursos para tornar mais fácil “encontrar os amigos”.

O objetivo do Twitter é lutar contra a concorrência e resolver as dificuldades que muitos novos inscritos enfrentam para encontrar suas marcas. Mas a iniciativa não goza de unanimidade: “‘Encontre seus amigos no Twitter’: ‘não, obrigado!’”, protestam alguns; ou ainda: “Meus amigos não estão preparados para entender minha obsessão por Katy Perry [cantora pop norte-americana − N. da R.]”.6 No Twitter, de fato, em vez de reconstituir seu círculo de amigos e conhecidos, o internauta tem a chance de seguir contas que trazem conteúdos de seu interesse – mesmo que alguns emissores sejam de seu círculo pessoal, trata-se de outra abordagem.

Além disso, tudo é público: o que é postado, quem seguimos, por quem somos seguidos. Enquanto no Facebook o acesso restrito é a regra, raros são os usuários do Twitter que ativam a função “proteger seus tweets”. O interesse do Twitter está na circulação mais ampla possível das mensagens. A coluna de “tendências” permite ver, a qualquer momento, quais tópicos vão de vento em popa, no mundo ou por país (e até por cidade). Porém, a ferramenta revela-se pertinente sobretudo em pequena escala, com cada um aproveitando sua cota pessoal de contas a seguir – sérias ou fúteis, generalistas ou hiperespecializadas. Uma conta pode ser mantida por um indivíduo, mas também por uma empresa, associação, grupo militante, meio de comunicação… Note-se que mais de 40% dos usuários não publicam nada: mais de 80% do conteúdo é produzido por 20% dos inscritos.7

Fotos de uma viagem ou de uma festa encontrarão sempre lugar mais apropriado no Facebook. O Twitter, porém, longe de ser um telégrafo frio e neutro, também criou uma relação nova com a informação, a qual é abundantemente transmitida por meio de links para várias fontes. Outrora confinada à esfera privada, ao círculo imediato (ou, para os jornalistas, aos editoriais), a reação às últimas notícias adquiriu dimensão e peso públicos. A twittosfera abarca uma mistura inédita de informações, fofocas, comentários – atividades antes bem distintas, o que geralmente provoca a desconfiança e o desprezo daqueles que não estão familiarizados com ela. Equivocadamente, segundo Cardon, “se a afirmação da subjetividade, a flexibilização das formas de enunciação, a ludificação da informação, o humor e o distanciamento cínico, os boatos e as provocações etc. estão se tornando tendências centrais da relação com a informação, a exigência de veracidade e a busca por novos dados também não param de se fortalecer”.8

Na verdade, mentiras e boatos são rapidamente identificados: o cuidado na abordagem de informações novas e o trabalho de verificação dos dados, antes a cargo somente dos jornalistas, agora estão sobre os ombros de todos os internautas, e ocorrem em plena luz do dia. Por exemplo, em agosto de 2011, algumas semanas após o blog A Gay Girl in Damascus (Uma Lésbica em Damasco) ter sido revelado falso, um estudante britânico desmascarou no Twitter outra blogueira árabe fictícia: a produção de artigos on-line, inconsistente e parcial, deixara-o intrigado.9

Muitas vezes chamado de “canivete suíço”, o Twitter deve sua popularidade à extrema diversidade de seus usuários e dos usos que permite, em conjunto com códigos comunitários muito fortes. Como todas as redes sociais, ele insere no quadro homogeneizado de um “perfil” indivíduos que poderiam estar anos-luz uns dos outros. Todos compartilham a mesma interface, a mesma linguagem, as mesmas práticas de sociabilidade virtual. O resultado é um esperanto digital cujos componentes foram reproduzidos nos cartazes de manifestantes árabes, no inverno (do Hemisfério Norte) de 2011, ou dos “indignados” espanhóis, em maio, como sinais de reconhecimento. Mas o fosso que separa uns inscritos de outros não desaparece: em fevereiro, defensores da democracia no Bahrein, revoltados com a repressão contra os manifestantes, atacaram no Twitter princesas da família real, obtendo respostas de uma arrogância abissal: “Deixe a elite conversar em paz, enquanto vocês nos invejam em silêncio. […] Não é culpa minha se você tem uma vida de merda. Sem dinheiro, certo? Dói ver pessoas como nós aproveitando a vida, hein?”.10

A flexibilidade da ferramenta também implica uma reatividade que merece a fama que ganhou, permitindo-lhe bater agências de notícia e equipes de televisão. Um tweet tem o formato de um SMS, e muitos usuários conectam-se por meio do celular. Uma vez lançadas, as notícias importantes espalham-se a uma velocidade vertiginosa: “Nada que eu conheço percorre a Terra mais rápido que o Twitter”, concluiu um jornalista do Le Figaro, assim como muitos de seus colegas, na época dos ataques em Bombaim, em novembro de 2008.11

A apropriação coletiva da informação faz da twittosfera um local de discussões acaloradas. Ali se encontram o pior e o melhor que pode produzir uma multidão: o acaloramento mútuo, a ditadura da emoção, o abandono de qualquer recuo; mas também a elaboração de uma visão crítica e de uma análise diferente daquela produzida pela mídia tradicional.

 

Medo de estar “perdendo algo”

Portanto, o “tempo real” já não envolve apenas o monitoramento dos eventos, mas também sua dissecação coletiva, que se ajusta permanentemente a seus novos desenvolvimentos. Essa aceleração vertiginosa, junto com o vício que pode ser causado pelo Twitter, não deixa de levantar questões. As capacidades humanas de atenção, compreensão e envolvimento emocional são solicitadas como nunca antes na história. A lógica midiática de sucessão de fases de interesse apaixonado e completa indiferença para com o mesmo assunto atinge seu auge: aqueles que, em março, engalfinhavam-se nas redes sociais para definir o mérito de uma intervenção militar na Líbia, como se sua vida dependesse disso, alguns meses depois nem se lembram do assunto. E algumas recomendações nos links são intrigantes: “Este artigo já tem um dia, mas ainda merece ser lido”.

O Twitter traz o risco de nos acorrentar ao presente imediato, como uma borboleta presa a uma janela iluminada, vivendo um tempo sem densidade nem profundidade.12 Como o site presta-se mal à pesquisa temática em seus arquivos, os mais fãs são assombrados pelo medo de “perder alguma coisa” ao se desconectar: “Olhem, olhem para nós, hipnotizados pelo rio de palavras, informações, pensamentos e emoções que desfila em nossas telas sensíveis ao toque”, alarmava-se – temporariamente – o jornalista Jean-Christophe Féraud.13

O desafio é saber como explorar o fluxo digital sem nele se afogar. Diante desse desafio, não podemos deixar de invejar aqueles que, há vinte anos, já denunciavam a invasão tirânica de uma nova tecnologia, considerando-se condenados, pela loucura da época, a “passar faxes ou perecer”…14

Mona Cholllet é autora de Rêves de droite (Sonhos de direita), Paris, editora Zones, 2008.



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