Um ano de volta para casa - Le Monde Diplomatique

MULTIVERSIDADES

Um ano de volta para casa

por Bruno Cava
18 de março de 2008
compartilhar
visualização

Faz um ano: uma passeata, um ato de coragem, uma afirmação de direitos. Milhares de jovens avançam pelas ruas do Rio e retomam o terreno histórico da UNE a Praia do Flamengo. À moda do MST, simplesmente arrombaram o portão metálico e ocuparam a terra. Agora, é preciso ir alémBruno Cava

Há pouco mais de um ano, a União Nacional dos Estudantes (UNE) obteve uma de suas mais importantes e sonoras vitórias.Era 1º de fevereiro de 2007, Praia do Flamengo, Rio de Janeiro. Ali se realizava a 5ª Bienal de Arte, Ciência e Cultura, evento do movimento estudantil que conjuga política e cultura em um ambiente jovial e descontraído. Eis que do comum produtivo daqueles dias alegres se desenvolvem conversas, que se tornam debates, que viram conclamações. Como que por encanto, ou talvez precisamente por encanto, forma-se uma passeata, um ato de coragem, uma afirmação de direitos: a UNE quer voltar pra casa. Milhares de jovens avançam pelas ruas do Rio e retomam, de assalto, o antigo terreno ao número 132 da Praia do Flamengo.

O espaço histórico da entidade servia-lhe de sede até o golpe de Estado contra o presidente João Goulart, em 1º de abril de 1964. Em 61, a UNE já havia participado da campanha pela legalidade, a favor da posse de Jango. Nos anos 60, ela se configurava francamente como de esquerda, manifestando-se pró-Jango e mesmo pró-Fidel. Nada por acaso, sofria o assédio dos movimentos anticomunistas, tais como o que disparou tiros contra sua sede, em 62. Na exata data do golpe, o antigo prédio foi vexaminosamente incendiado. Em novembro do mesmo ano, com a Lei Suplicy de Lacerda, a UNE submergiu na clandestinidade e o tradicional terreno foi expropriado da legítima possuidora.

Consolidado o regime autoritário — com escandalosos apoios em parte da classe-média, na mídia corporativa e no empresariado do Sudeste, é sempre bom sublinhar — as liberdades foram gradualmente suprimidas, os movimentos de esquerda calados e o movimento estudantil cada vez mais perseguido. Quem nunca ouviu falar do congresso “estourado” em Ibiúna, em outubro de 1968 — ano ao mesmo tempo mágico e trágico, em que tudo aconteceu? Foi a ocasião em que suas lideranças foram todas, num só lance, presas e anuladas. Um dos capturados era ninguém menos do que Zé Dirceu, então presidente da UEE-SP e talvez o mais famoso militante estudantil da época.

Somente quarenta e três anos mais tarde, em fevereiro de 2007, os estudantes recuperaram o terreno perdido. À moda do MST, os milhares que participavam da bienal simplesmente arrombaram o portão metálico e ocuparam a terra, em que funcionava um estacionamento irregular. No mesmo dia, montaram-se barracas e organizaram-se coletivos para a autogestão do lugar. A ocupação logo se autogestou. E mais. Tornou-se uma campanha afirmativa: “A UNE de volta pra casa”.

Nos anos 60, no mesmo local funcionava o Centro Popular de Cultura (CPC). Foi um pólo histórico de transformação ético-estética, que ajudou a romper a dicotomia entre cultura popular e cultura erudita

Visitada e apoiada por intelectuais, políticos e artistas, como os músicos Marcelo Yuca, Martinho da Vila, Beth Carvalho e Carlos Lyra; os senadores Inácio Arruda e Marcelo Crivella; o ator Paulo Betti; a deputada Manuela D’Ávila; o reitor da UFRJ, Aloísio Teixeira e os ministros Tarso Genro e Gilberto Gil, a ocupação rapidamente passou a produzir cultura, com mostras de cinema, recitais de poesia, malabares, capoeira, danças, saraus literários, além de uma nova interpretação de “Os Saltimbancos”, adaptação por Chico Buarque do conto “Os Músicos de Bremen” (Irmãos Grim). Tudo isso já parte do ambicioso projeto do CUCA (Circuito Universitário de Cultura e Arte), carro-chefe da área cultural da entidade estudantil.

Em suma, de volta o 132 da Praia do Flamengo, de volta o território produtivo que outrora fez a boa reputação da União dos Estudantes. Como se sabe, nos anos 50 e 60, no mesmo local funcionava o Centro Popular de Cultura (CPC). Trata-se um dos pólos históricos de transformação ético-estética (logo política), que rompeu a dicotomia entre cultura popular e cultura erudita, aproximando o morro do asfalto.

Abdias Nascimento, ícone do movimento negro e produtor do Teatro Experimental Negro (TEN), no CPC, ressaltou à imprensa da UNE que os estudantes deveriam resistir com firmeza. Noutra entrevista, Carlos Lyra lembrou que “o CPC aproximava a música do morro, da área rural à classe média. Foi a partir dali que surgiu a música regional que existe do jeito que ela é hoje, o forró, outros ritmos, tudo veio dessa maneira. Aquilo influenciou o Rio de Janeiro, a arte, a música brasileira e nós acreditávamos que era mesmo uma revolução cultural (…)”.

Com tanta mobilização, e dado o contexto histórico, a decisão na Justiça sobre a posse da terra não poderia ser outra… É nossa! Uma conquista da juventude, cujo desejo imenso pode, de fato, mudar o estado das coisas, como de fato mudou. Afinal, conforme sustenta o filósofo italiano Antônio Negri: a “liberdade não é uma batata”. Ela não não é uma dádiva da natureza. Precisa ser conquistada, trabalhada, desenvolvida. Maquiavel, já no século 16, dizia que a única garantia dos cidadãos contra a dominação do poder constituído é uma constante e inabalável virtude cívica na luta democrática. Na ocupação do Flamengo, os insurgentes fizeram da própria alegria um ato de força política, mostrando que a democracia é sim possível — aqui e agora.

Agora, além do fortalecimento do CUCA, o desafio é a reconstrução do antigo casarão. Oscar Niemeyer doou o projeto arquitetônico e o presidente Lula prometeu recursos. Nesta terça-feira, dia 11 de março, o governador do Rio de Janeiro Sérgio Cabral reuniu-se com a presidente da UNE, Lúcia Stumpf, para tratar da obra.

A justiça, sempre histórica, está ao lado dos estudantes, porque eles próprios a concretizaram, na prática. Daqueles dias felizes de incertezas, que pouco mais tarde inspirariam a outra ocupação vitoriosa, a Ocupação USP, ficam as saudades. E, sempre, a poesia:

Art-liquidifica-dor

(Mia Vieira, estudante carioca, fevereiro 2007, da ocupação)

Bruno Cava é mestre em Filosofia do Direito.



Artigos Relacionados

Pesquisa

Concentração de entregadores nas regiões mais ricas da capital paulista

Online | Brasil
por Lívia Maschio Fioravanti
Direito à cidade

As perspectivas para o Brasil pós 2 de outubro

por Nelson Rojas de Carvalho
Eleições 2022: a mídia como palanque

Internet abre espaço para a diversidade de perfis, mas impulsiona velhas práticas

Online | Brasil
por Tâmara Terso
A CRISE DA CULTURA

Lei Aldir Blanc: reflexões sobre as contradições

por Rodrigo Juste Duarte, com colaboração de pesquisadores da rede do Observatório da Cultura do Brasil
AMÉRICA DO SUL

A “nova onda rosa”: um recomeço mais desafiador

Online | América Latina
por Cairo Junqueira e Lívia Milani
CORRUPÇÃO BOLSONARISTA

Onde está o governo sem corrupção de Bolsonaro?

Online | Brasil
por Samantha Prado
CONGRESSO NACIONAL

Financiamento de campanhas por infratores ambientais na Amazônia Legal

Online | Brasil
por Adriana Erthal Abdenur e Renata Albuquerque Ribeiro
EDITORIAL

Só existe um futuro para o Brasil, e ele passa pela eleição de Lula neste domingo

Online | Brasil
por Le Monde Diplomatique Brasil