Um ano do crime ambiental e humano em Brumadinho

Crime ambiental

Um ano do crime ambiental e humano em Brumadinho

por Julia Castello Goulart
21 de janeiro de 2020
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O tempo passa. Dia 25 de janeiro de 2020 se completa um ano. A dor, a saudade permanece destas vidas que não se apagam das memórias dos atingidos em Brumadinho. Permanece a pergunta: a justiça foi feita? Alguém foi realmente responsabilizado por este crime ambiental e humano?

Dia 25 de janeiro de 2019. 12h28 min. Um som estrondoso foi ouvido. Seu Sebastião jura ter ouvido dois sons, como bombas, seguidos um do outro. Dona Neiva começava a cozinhar o almoço quando o telefone insistiu em tocar. Roberta ouviu o filho batendo à porta de casa gritando que a barragem tinha se rompido.

Bastou um telefonema de uma amiga para Ana Paula saber que o pior tinha acontecido com seu marido que trabalhava na mina. E o seu irmão? Já para Helena foi a falta de um telefonema que fez seu coração pressentir algo muito ruim. O mesmo aconteceu com Joel. Chegou a ficar com o corpo paralisado ao ouvir a notícia do ocorrido na televisão.

Enquanto alguns esperavam angustiados por notícias, outros se preparavam para trabalhar. Tenente Pedro teve uma reunião de emergência e embarcou no helicóptero. Mariane convocou médicos, para assim como ela se tornarem voluntários. Avimar pegou o primeiro voo para voltar para a cidade. Várias decisões precisavam ser tomadas como prefeito. Rômulo foi direto para a Defensoria, já sabia que iria para Brumadinho naquela mesma noite. Até o amanhecer Dom Vicente rezou dentro da casa de diversas famílias para que Deus os confortasse, de alguma forma.

Brumadinho (Foto: Julia Castello Goulart)
Cruz em frente ao letreiro da cidade, com frase de protesto. (Foto: Julia Castello Goulart)

Mais de 250 histórias não tiveram um merecido final feliz. Não terminaram em encontros emocionados. Vidas que se foram não por acaso, nem pelo acaso. A ganância de uma mineradora colocou preço por estas vidas. E nada valia mais para eles do que o ferro que ainda poderia ser explorado e vendido, mesmo que colocassem milhares de pessoas em perigo. Brumadinho não foi apenas um dos maiores crimes ambientais e humanos das três últimas décadas. Foi um crime, como muitos outros casos no Brasil, sem desfecho da justiça para as vítimas que ficaram e têm suas vidas marcadas e modificadas para sempre.

Morte do rio

O rio Paraopeba corta a cidade, é possível vê-lo de uma ponte. A mesma ponte que Thiago esperou por horas, minutos ou segundos durante o bloqueio de uma barreira policial naquela sexta-feira (24) para encontrar o tio que estava com o filho desaparecido. A lama que citam, não é terra com água, não é algo natural. São rejeitos de minério de ferro que escorreram e contaminaram o rio. Destruindo por onde passava toda a fauna e a flora.

Hayò, cacique da aldeia Pataxó Hã-Hã-Hãe que vive na região, viu da noite para o dia a morte deste mesmo rio. A morte de toda mãe natureza que ele havia jurado proteger. Alguns estranhos entravam na aldeia, mediam a qualidade de água, pegavam peixes mortos para fazer análises em laboratórios e produziam estudos, pesquisas e estatísticas de que o rio poderia ter uma pequena chance, mas voltaria a viver. Hayò rezava e pedia perdão pela morte do rio. Uma morte para ele sem volta.

Dona Neiva também olhava da janela de sua casa o mesmo rio que um dia viu os filhos e os netos nadando. Cheroso, seu marido, tentou salvar alguns peixes que tentavam em meio a água contaminada buscar oxigênio na superfície.

 Interior de casa destruída no Córrego do Feijão. (Foto: Julia Castello Goulart)
Interior de casa destruída no Córrego do Feijão. (Foto: Julia Castello Goulart)

Buscas sem encontros. Enterros sem corpos. Roberta lutou mais de seis meses depois para encontrar o corpo do marido. Nada do que os funcionários da mineradora dissessem mudaria a ideia de que ela encontraria o marido. Nem que fosse uma parte dele, ela esperaria para dar um enterro digno para seu companheiro de vida e pai de seus filhos.

A revolta é tamanha. As investigações avançavam, mas nada parecia trazer conforto para as famílias, para os amigos e vizinhos. Raquel, como Junior, não perdeu nenhum familiar, mas perderam conhecidos e todo simples almoço de família que antes era tão comum, tinha se tornado um evento. A felicidade dava vergonha, às vezes. Era difícil se permitir sorrir quando se encontra tantas pessoas conhecidas sofrendo.

Justiça?

O dinheiro das indenizações veio para alguns. O auxílio veio para quase todos da cidade. Mas era um dinheiro ingrato. Conseguia comprar tudo, menos a vida dos que se foram. Dinheiro este que trouxe muitas brigas entre familiares e um vazio, que gerava eco na busca em vão da felicidade que tinha desaparecido.

Havia alguns que acreditavam. Para Guilherme ainda era possível ver o pai, os tios e os colegas de trabalho do papai nas estrelas do céu. Para outros, como Gabriel, a morte não era algo fácil de aceitar. Assim como não era fácil ver as pessoas esperando em filas para receber cestas básicas da prefeitura. O incômodo se tornou em ação e ele criou a ONG Amigos de Brumadinho. Helena transformou seu luto em luta e criou um Instituto em homenagem aos filhos.

O tempo passa. Dia 25 de janeiro de 2020 se completa um ano. A dor, a saudade permanece destas vidas que não se apagam das memórias dos atingidos em Brumadinho. Permanece a pergunta: a justiça foi feita? Alguém foi realmente responsabilizado por este crime ambiental e humano?

Desde 1985 aconteceram nove rompimentos de barragens de minério no Brasil. E ainda existem 723 barragens consideradas de alto risco no país. Eu te pergunto, você que está aqui: até quando?

Julia Castello Goulart é jornalista, autora do livro “Memórias de Brumadinho: vidas que não se apagam”, publicado pela editora Autonomia Literária.



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