Um anti-imperialismo cuir e feminista
É urgente pensar como construir uma proposta para um anti-imperialismo que se preocupa com a liberação dos povos verdadeiramente e não com o standing relativo de diferentes impérios, ou que é apenas um contra-projeto de masculinismo imperial
Os Estados Unidos invadiram a Venezuela. Se, no debate público de maneira mais ampla, discute-se sobre a ilegitimidade da ação dos EUA e a legitimidade do governo de Nicolas Maduro, nos círculos de relações internacionais, discute-se sobre o que a nova etapa particularmente ofensiva do imperialismo norte-americano significa para o Brasil. Diante da inegável superioridade militar dos EUA e da sua renovada disposição em desestabilizar territórios – não só a “velha guarda” da nossa área pode regozijar do retorno da geopolítica, mas também uma nova guarda se vê um tanto fascinado por essa sereia. É a hora de repensar nosso acesso à bomba nuclear? Devemos estreitar laços com os inimigos dos nossos inimigos – Rússia e China – a fim de resguardar nossa soberania? O BRICs deve ser uma aliança militar? De maneira curta e direta: como evitar ser invadidos?
A pergunta sobre evitar ser invadidos requer um minuto de consideração, o que raramente a ameaça das armas nos deixa, então é preciso pensar rápido. Anti-imperialismo é evitar ser invadido? É a proteção de fronteiras ou de regimes contra o mais forte que nos ameaça imediatamente?
Logo após a captura de Maduro, o secretário de Estado Rubio não mediu palavras: disse ao vizinho da Venezuela, Gustavo Petro que era melhor que o presidente colombiano “watched his ass”, que em bom português seria algo talvez impublicável em um jornal respeitado. Uma talvez publicável tradução: tal qual uma certa parte da anatomia dos bêbados no dizer popular, o de presidentes latino-americanos teria um potencial dono. Os Estado Unidos.
Petro respondeu dizendo que, caso Rubio viesse a sequestrá-lo, que o povo usasse a situação para tomar o poder.
Há algo nessa resposta: anti-imperialismo não é a proteção da soberania a qualquer custo, ou pelo menos me parece urgente, sob a mira de bombas planadoras AGM-154 e comandos Delta Force, pensarmos sobre o que queremos dizer quando dizemos que o momento urge para pensarmos em estratégias anti-imperialistas.
Aqui está a dúvida: é anti-imperialismo uma defesa da proteção das fronteiras nacionais que não se preocupa com, por exemplo, quem serão nossos aliados e quais os termos das alianças geopolíticas que podem garantir a sustentação de um regime, qualquer regime, inclusive um governo explorador, e o controle de território, independente de como esse território esteja sendo organizado? Ou é anti-imperialismo uma luta igualitária por autogoverno?

Parece que circula, junto com a volta da geopolítica, uma visão soberanista e formalista do anti-imperialismo.
Uma visão repercutida em vídeos de oficiais chineses assegurando que, caso os EUA ataquem a China, o governo chinês é capaz de responder à altura e suas armas alcançam todos os lugares do mundo. Um anti-imperialismo que parece, antes de tudo, se preocupar em comparar tamanhos de armamento e medir o tamanho da sua resposta. Um anti-imperialismo que tem como campeões não o povo, em todas as suas facetas, mas muito simplesmente os inimigos dos nossos inimigos. Aliados cujo compromisso com o nosso próprio autogoverno é secundário, na melhor das hipóteses. Aliados cujo compromisso principal é a proteção do próprio ass.
É isso há anti-imperialismo? Salvar nossos traseiros? Parece-me que há uma outra visão de anti-imperialismo mais espalhafatosa. Uma mais gilete embaixo da língua e água quente no ouvido e menos bombas muito grandes e potentes. Uma que talvez tenha sido derrotada no passado ou que talvez até nunca conseguiu tomar forma, mas que é o anti-imperialismo pelo qual se vale a pena lutar, e um que convida quem mais sonha com autogoverno a participar das formas pelas quais vamos construir uma luta igualitária por autogoverno, uma luta popular e igualitária por formas de autodefesa e autogoverno. Um anti-imperialismo feminista e cuir (que é outro jeito de dizer LGBT, para os fins desse texto).
A Amassuru é uma rede que une ativistas, jornalistas, políticas e pesquisadoras latino-americanas preocupadas em pensar o que é e para que serve segurança e defesa a partir da perspectiva das mulheres. Recentemente, após a Operação policial Contenção que matou mais de 100 pessoas no Rio de Janeiro, a rede se pronunciou criticando a militarização da segurança pública. Na ocasião, o comunicado conjunto da organização lembrou um ponto importante: que respostas militarizadas, internas ou internacionais, não garantem nem paz nem desenvolvimento para mulheres e as chamadas “minorias”.
A existência da Amassuru é essencial para renovar e recriar no contexto latino-americano um internacionalismo feminista. Essa longa tradição se renova ao se opor, de um lado, ao militarismo das soluções de segurança pública internas que pesam sobre o trabalho de cuidado tanto das mulheres que sustentam a sociedade em contextos militarizados, quanto das mulheres que aderem à ideia de que gastar dinheiro com homens e armas é melhor do que gastar dinheiro com cuidadoras e cuidado. De outro lado, uma rede que se opõe ao geopolitismo patriarcal.
Se opor ao geopolitismo patriarcal é lembrar que a guerra e as invasões imperiais são o acirramento das pressões sobre o trabalho de cuidado feminino e também o acirramento do terror patriarcal sob o que já vivemos quotidianamente. Ele não é o oposto de uma situação de paz liberal, que nunca significou e ainda não significa o acesso das mulheres à igualdade e emancipação. Isso chama um posicionamento feminista de oposição ao imperialismo que é apoio a formas populares e igualitárias de autodoefesa e autogoverno.
É urgente pensar como construir uma proposta para um anti-imperialismo que se preocupa com a liberação dos povos verdadeiramente e não com o standing relativo de diferentes impérios, ou que é apenas um contra-projeto de masculinismo imperial.
Foi o que a Amassuru Venezuela pediu em seu comunicado logo após a invasão: que as vozes das mulheres sejam ouvidas para a reconstrução da Venezuela, que a condenação da ingerência norte-americana seja ecoada na condenação de outras formas de ingerência. Por exemplo, aquela que exclui as mulheres dos “assuntos sérios” da política internacional e que quer que deixemos para os meninos as brigas geopolíticas enquanto esperamos que heróis nacionais se apresentem para tornar o espaço doméstico apropriado para as nossas lutas feministas.
Já no caso do LGBT Mais Movimento, organização carioca que trabalha acolhendo migrantes LGBT venezuelanos há anos, lembrou que há anos recebemos aqueles para quem a soberania venezuelana nunca significou proteção. Em comunicado sobre a invasão da Venezuela que o grupo publicou no instagram, o movimento lembra que reduzir as experiências LGBT “a uma leitura apenas geopolítica ou imperialista é insuficiente” e que “a militarização por si mesma não protege vidas, não fortalece a democracia e não responde aos desejos profundos de quem sonha com um futuro digno”. O movimento condena o silêncio anterior de, justamente, os governos que agora se encontram com medo da invasão, diante das demandas e angústias daqueles para quem soberania quer dizer ser sacrificado em nome de um coletivo que recusa, abusa e explora.
O comunicado encerra reforçando que autodeterminação e geopolítica como mutuamente excludentes.
Eu não sei vocês, mas se for para pegar em armas para defender alguma coisa, as minhas lealdades estão com as mulheres do Amassuru e com as transviadasapatão do LGBT Mais Movimento. E as de vocês? Quando a coisa aperta, serão vocês aliados de quem?
Izadora Xavier é professora de relações internacionais na Universidade Estadual da Paraíba, trabalho com abordagens queer e feministas para a segurança.

