Um Estado, dois sonhos - Le Monde Diplomatique

ISRAEL/PALESTINA

Um Estado, dois sonhos

por Alain Gresh
1 de outubro de 2010
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Com a retomada das negociações entre Israel e a Autoridade Palestina, velhas dúvidas ressurgem no horizonte: como conciliar a reivindicação de um “Estado judeu” com o direito de votar dos palestinos, que podem se tornar a maioria da população? E por que apoiariam um governo de orientação religiosa diferente da sua?Alain Gresh

“O menor dos perigos, o menor dos males seria a criação de um Estado único com direitos iguais para todos os seus cidadãos”, anuncia o presidente do Parlamento. Uma figura de destaque da vida política, um antigo ministro aprova e acrescenta: daqui para frente, não existe outra opção a não ser a proclamação de um único Estado em todo o território histórico da Palestina, do Mediterrâneo ao Jordão. Uma jovem deputada cujas convicções religiosas são inquestionáveis defende as mesmas conclusões. Serão essas três personalidades palestinas? Três membros da organização islâmica Hamas? Três antissionistas europeus? Não, essa constatação foi formulada por três membros eminentes da direita israelense.  

  

O primeiro, Reuven Rivlin, recusa a ideia de uma ameaça demográfica árabe – essa população cresce muito mais rápido que a israelense – e observa que essa maneira de pensar “conduz a referir-se à transferência ou ao fato de que seria preciso matar os árabes. Estou horrorizado com discursos desse tipo. Andei visitando escolas onde, por ocasião de simulações de eleições, Lieberman – o ministro das relações exteriores, dirigente do partido de extrema-direita Israel Beytenu – obtém 40% dos votos, e ouço crianças dizerem que seria preciso matar árabes. Esse tipo de atitude foi favorecido pela posição condescendente dos socialistas (o partido trabalhista) que afirmam ‘nós (os judeus) aqui, e eles (os árabes) lá longe’. Eu nunca entendi isso. Quando Jabotinsky1 dizia ‘Sião nos pertence’, ele queria dizer um primeiro-ministro judeu e um vice-primeiro-ministro árabe2”.  

  

O segundo, Moshe Arens, foi ministro da Defesa e das Relações Exteriores durante os anos 1980. Um padrinho político de Benjamin Netanyahu, catalogado como um “falcão”, ele explicitou seu pensamento numa coluna do diário Haaretz: “O que aconteceria se a soberania israelense se aplicasse à Judeia e à Samaria e se a cidadania israelense fosse oferecida à população palestina? Aqueles que, em Israel e no exterior consideram a ‘ocupação’ como um mal insuportável se sentiriam aliviados por uma mudança que libertaria Israel desse fardo3”. Mas como absorver essa população? Israel, responde Arens, já inclui minorias bem inseridas, como os drusos e os tcherkesses. Quanto aos muçulmanos, as suas dificuldades para se integrar “devem-se aos governos israelenses sucessivos que não tomaram medidas eficientes”. Para ele, esta é a primeira tarefa a ser enfrentada. 

  

A terceira personalidade que questionou o consenso israelense é Tzipi Hotovely, a mais jovem integrante do Parlamento, uma estrela em ascensão do Likud, uma agremiação à qual ela aderiu após ser convidada pessoalmente por Netanyahu. Ela atribui grande importância à manutenção das colônias: “Os judeus viveram em Hebron (na Cisjordânia), em Beit El (na Samaria). Esses são lugares bíblicos. Foi a partir de Hebron que Davi começou a edificar seu reino. Nós não podemos abandoná-los, senão o que significa o sionismo? O sionismo é o retorno a Sião, significa retornar a Jerusalém, retornar a todos esses lugares bíblicos. Portanto, nós temos de abordar o processo de paz de tal modo que ele não signifique desenraizar os habitantes das colônias4”. Neste caso, então, a única possibilidade é a extensão da lei israelense para toda a Cisjordânia e a outorga da nacionalidade e do direito de votar dos palestinos, ou seja, um Estado único que, tanto para ela como para Reuvlen Rivlin ou Moshe Arens, só pode ser um “Estado judeu”. 

  

Essas propostas tendem a solucionar uma das contradições fundamentais da ala liberal, no sentido político do termo, da direita israelense: como conciliar sua reivindicação da soberania sobre o conjunto da “Judeia e da Samaria” (a Cisjordânia) com os princípios democráticos? Como evitar a instauração de um sistema de apartheid, no qual os palestinos não poderiam exercer seus direitos políticos? Menahem Begin, que conduzira pela primeira vez a direita à vitória em 1977, já havia tentado resolver esse dilema. Após ter recebido o presidente egípcio Anuar El-Sadat em Jerusalém, em novembro de 1977, ele havia proposto um plano que definia sua concepção da autonomia palestina e oferecera aos residentes da Cisjordânia e de Gaza a possibilidade de escolher entre as nacionalidades israelense e jordaniana, e, portanto, o direito de votar num dos dois Parlamentos. Essa ideia logo seria abandonada, pois ela esbarrava num obstáculo que até hoje nenhuma das três personalidades acima mencionadas consegue superar: como reconciliar a reivindicação de um “Estado judeu” com a outorga do direito de votar dos palestinos? Moshe Arens afirma que eles não representarão mais do que 30% do total da população, mas ele subestima o número de habitantes da Cisjordânia e “esquece” Gaza. Como um plano como esse poderia impedir a população palestina de transpor o limite fatídico de 50%? Mesmo se ela Alcançar apenas 40%, nenhum governo poderia constituir-se sem o apoio de uma parte dos palestinos. E por que eles apoiariam o governo de um “Estado judeu”? 

  

Quaisquer que sejam seus limites e suas contradições, essas teses iconoclastas refletem o pessimismo geral que acompanha o impasse do “processo de paz” que há anos vem sendo mantido vivo com a ajuda de aparelhos. Apesar da retomada das negociações palestino-israelenses sob o comando do presidente Barack Obama, em 2 de setembro de 2010, raros são os observadores que apostam nas chances de reanimar o moribundo. O desânimo alastrou-se e atinge em primeiro lugar os dirigentes estadunidenses que estiveram envolvidos nessa questão ao longo das últimas décadas. 

  

Entre 1988 e 2003, Aaron David Miller atuou como conselheiro de seis secretários de Estado sucessivos, sob três presidências. Ele tomou parte de todos os conchavos e negociações, fossem eles públicos ou secretos. Num artigo de grande repercussão cujo título resume seu pensamento – “A falsa religião da paz no Oriente Médio e como eu me tornei um não crente”5 –, ele explica que o conflito palestino-israelense deixou de ser central para Washington, uma vez que outros, como os do Iraque, do Afeganistão, do Paquistão, e, sobretudo, do Irã, monopolizam as atenções, e que nem mesmo uma grande potência como os Estados Unidos pode fazer tudo ao mesmo tempo, especialmente nesses tempos de crise.  

  

“Os crentes devem reexaminar sua fé num momento em que a extensão da potência americana ultrapassa suas capacidades. Os Estados Unidos devem fazer o que podem, trabalhar com os israelenses e os palestinos para negociar as questões centrais do estatuto final (…), ajudar os palestinos a desenvolver suas instituições, convencer os israelenses a ajudar os palestinos, permitindo que eles respirem economicamente, estendam sua autoridade e mantenham a calma em Gaza.” 

Outro protagonista influente, Robert Malley, que participou como conselheiro do presidente Bill Clinton nas negociações de Camp David (julho de 2000), também tira conclusões pessimistas da sua experiência e desenvolve uma crítica radical da solução de um Estado palestino ao lado de Israel.  

  

“Esta ideia não responde aos problemas que ela pretende resolver. Ela promete encerrar um conflito que nasceu em 1948 e, provavelmente antes disso, mas só se preocupa com os problemas que surgiram em 1967. Pôr fim à ocupação dos territórios palestinos é essencial, mas as raízes do conflito são muito mais profundas: para os israelenses, trata-se da recusa dos palestinos de reconhecer a legitimidade do Estado judeu; para os palestinos, da responsabilidade dos israelenses na perda das suas posses e na sua dispersão que acompanharam o nascimento de Israel”6. Nada conseguirá apaziguar “as emoções mais profundas e mais viscerais, as nostalgias e os rancores”, nem a criação de um Estado palestino, nem mesmo o debate sobre a porcentagem de território que cada parte irá recuperar. O que fazer, então, já que Robert Malley recusa, ao mesmo tempo, a solução de um Estado único? 

  

Como um bom número de observadores estadunidenses, ele defende a ideia de uma “solução temporária de longo prazo”, cujas características variam, mas que permitiria adiar as questões mais sensíveis, como a de Jerusalém ou aquelas dos refugiados.  

  

Roger Cohen, um destacado editorialista do The New York Times, resumiu essa concepção7. “Obama, que já recebeu o Prêmio Nobel, deveria reduzir as expectativas, parar de falar em paz, banir a palavra, começar a falar em distensão. É o que Lieberman quer, é o que o Hamas diz querer, é o sentido que pode ser dado às evasivas de Netanyahu. Não é o que Abbas quer, mas ele está sem poder. Como disse um especialista em Ciências Políticas israelense, Shlomo Avineri, ‘um status quo não violento está longe de ser satisfatório, mas tampouco é ruim; Chipre não é tão ruim assim’ (…) A paz dos bravos deve ser substituída por uma trégua dos medíocres”. 

  

Intifadas 

Esse pessimismo alimenta-se de uma falsa simetria que impregna desde 1993 a ação das grandes potências: dois povos vivem nesta terra, eles devem chegar a um acordo, o que pressupõe “boa vontade” e o isolamento dos extremistas dos “dois bordos”. Essa concepção oculta as responsabilidades específicas do ocupante e o coloca no mesmo plano que o ocupado. Ela esquece que todos os governos israelenses, mesmo após os acordos de Oslo, deram continuidade à sua política de conquista da terra: o número de colonos, entre o momento da sua assinatura em 1993 e hoje, passou de 100 mil para 300 mil, sem contar os 200 mil instalados em Jerusalém Leste. Paralelamente, “o acréscimo dos territórios situados a oeste do muro construído por Israel, as terras detidas pelas colônias oficiais e extraoficiais, os espaços utilizados pelas estradas de desvio e as zonas militares fechadas no vale do Jordão, que as autoridades israelenses fazem questão de conservar em qualquer hipótese”8 representam 45% do território da Cisjordânia.  

  

O surgimento da segunda Intifada, em setembro de 2000, fez com que o então primeiro-ministro Ehud Barak pudesse convencer a grande maioria da opinião judaica israelense de que não havia nem nunca houvera qualquer “interlocutor palestino”9 digno desse título. Até mesmo a decisão histórica da cúpula dos países árabes de Beirute, em março de 2002, de aceitar uma paz global com Israel em troca da criação de um Estado palestino dentro das fronteiras de 1967 foi rechaçada com desprezo. E o governo israelense não paga preço algum por essa recusa, já que as principais potências mundiais, tanto os Estados Unidos quanto a União Europeia, a China ou a Rússia, lidam com ele como se a ocupação não  

existisse – mesmo que a imagem de Israel na opinião venha se deteriorando sensivelmente. 

  

Fundamentalmente, o grupo que dirige Israel recusa-se a reconhecer, nos fatos, a igualdade dos palestinos. Os acordos de Oslo não diminuíram essa arrogância nem contradisseram a ideia segundo a qual a vida de um palestino não vale a segurança de um israelense. Aproveitando-se da hostilidade dos seus vizinhos e tirando argumento do genocídio dos judeus durante a Segunda Guerra Mundial, os dirigentes israelenses construíram uma concepção da segurança absoluta fora do Alcance de qualquer potência, que vem arrastando o país para guerras sem fim. Será uma solução possível se o princípio de igualdade entre todos os seres humanos que vivem nesta terra não for reconhecido? “A igualdade ou nada”, proclamava o intelectual palestino Edward Said10, uma ideia que passou a ser encampada por diversos protagonistas e, em primeiro lugar, pelos palestinos de Israel que a reivindicam com mais e mais força. 

  

Daí a preocupação de um veterano da imprensa israelense, autor de um dos primeiros livros dedicados ao Fatah11, Ehud Yaari. Num artigo publicado no começo de 2010, ele explica que daqui a alguns anos, o apoio à solução dos dois Estados irá arrefecer, que outras ideias irão surgir, que o desaparecimento da Autoridade Palestina irá provocar a anexação de fato dos territórios ocupados e que os palestinos conseguirão dessa forma garantir “na calada da noite e à revelia, a dominação demográfica. Essa anexação às avessas não nos deixará outra escolha, a não ser coexistirmos com uma maioria árabe”12. Portanto, em sua opinião, um armistício é necessário, e esse poderia ser facilitado por uma retirada de Israel para dentro da área delimitada pelo “muro de segurança”, o que provocaria o desmantelamento de 60 colônias e o repatriamento de 50 mil colonos (de um total de 500 mil).  

  

Na realidade, todos esses projetos de “solução temporária”, no quadro do atual equilíbrio das forças, só fariam prorrogar a ocupação de diferentes maneiras, mantendo os palestinos confinados dentro de reservas, sem unidade territorial, sem controle das suas fronteiras, sem poder econômico nem político. A perspectiva de um único Estado em todo o território histórico da Palestina levanta uma quantidade semelhante de problemas13, como mostra o debate no campo “pró-palestino”, agitado pelas propostas de Reuvlen Rivlin e de Moshe Arens. 

  

Uri Avnery, um veterano do combate em prol da paz, denuncia com força as falhas desses projetos14: eles excluem Gaza; o Estado único será judeu; a anexação da Cisjordânia permitirá prosseguir a colonização; na melhor das hipóteses, a outorga da cidadania aos palestinos irá demorar uma boa dezena de anos, e se estenderá até mesmo por uma geração inteira.  

  

Interesses coletivos 

Esse ponto de vista é contestado por Ali Abunimah, um intelectual americano-palestino, organizador do site The Electronic Intifada (A Intifada Eletrônica) e autor de um livro no qual ele preconiza um Estado único15. Após ter apontado, como Avnery, os limites dos projetos da direita, ele prossegue16: “Uma vez que os judeus israelenses tiverem reconhecido a necessidade de direitos iguais para os palestinos, eles não poderão impor unilateralmente um sistema que mantém privilégios indevidos. Um Estado comum deverá levar em conta os interesses coletivos legítimos dos judeus israelenses, mas também deverá fazer isso com todos os outros cidadãos.” 

  

Quanto ao Hamas, ele mantém-se afastado do debate, limitando-se a aceitar a criação de um Estado palestino na Cisjordânia e em Gaza e a prometer, dentro dessas condições, uma hudna (trégua) mais ou menos longa com Israel, mas sem reconhecimento do Estado judeu. Em relação ao que seria a “liberação de toda a Palestina” e o futuro da sua população judaica, o movimento islâmico limita-se a declarações sobre a aceitação pelo islã das minorias religiosas.  

  

Enquanto as duas organizações mais representativas dos palestinos, o Fatah e o Hamas, permanecem ausentes do debate – ainda que esse seja antigo – sobre o Estado único, intelectuais como Edward Said e Tony Judt, uma parte do movimento de solidariedade com a Palestina, e uma fração significativa, porém minoritária da opinião palestina apoiaram ou apoiam a utopia de um Estado único e democrático17. Contudo, essa proposta é prejudicada pelas suas ambiguidades: estaríamos falando num Estado de todos os seus cidadãos, baseado no modelo sul-africano? Ou num Estado binacional conforme o modelo da antiga Tchecoslováquia? Como seria a sua Constituição e quais garantias ela ofereceria às diferentes comunidades, nacionais e religiosas? Como esse Estado se situaria em relação aos seus vizinhos? Faria ele parte da Liga Árabe?  

  

No que vem a ser mais problemático ainda, um projeto como esse só poderia se construir a partir de uma luta comum entre os palestinos e, ao menos, uma fração significativa da população judaica israelense. O exemplo da África do Sul é mencionado com frequência. Porém, muito além da questão de saber se Israel é ou não um Estado de apartheid, o modelo sul-africano só foi possível porque o Congresso Nacional Africano (CNA), por meio da sua aliança com o Partido Comunista, contava com uma “base branca”. O CNA também tinha ajustado seu discurso e seus métodos de luta à sua vontade de construir uma sociedade “arco-íris”, e estava empenhado em evitar o êxodo da população branca que havia amargado, por exemplo, Angola e Moçambique. Ele não utilizava o terrorismo, a não ser de maneira limitada, temendo que a opinião pública retirasse-lhe o apoio, sobretudo a minoria branca18. Ao mesmo tempo em que ele lutava de maneira intransigente pelo princípio do “um homem, uma mulher, um voto”, o CNA soube levar em conta os temores da comunidade branca e de uma parte dos mestiços para oferecer-lhes garantias convincentes. 

  

Esse modelo precisa de novas formas de organização, tanto do lado palestino quanto do israelense, para superar os temores, os ódios e os preconceitos que separam os dois povos. Referindo-se à difícil peregrinação até a sua casa em Jerusalém, o poeta palestino Mahmoud Darwich escreveu: “Pedirei eu a desconhecidos que dormem em minha cama… / licença para uma visita de cinco minutos a mim mesmo? / Será que me curvarei com respeito diante dos moradores / do meu sonho de criança? / Indagar-me-ão: Quem é este indiscreto visitante estrangeiro? / Poderei eu falar em paz e em guerra entre vítimas e vítimas das vítimas, sem um único inciso?/ Será que eles me dirão: Não há lugar para dois sonhos em uma mesma alcova?”19 

Alain Gresh é jornalista, do coletivo de redação de Le Monde Diplomatique (edição francesa).



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