Um novo projeto de país não é uma escolha - Le Monde Diplomatique

O DESAFIO DAS FRENTES

Um novo projeto de país não é uma escolha

por Natália Szermeta
1 de março de 2021
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Caminhamos a passos largos para um aprofundamento do autoritarismo e do fechamento democrático

Uma unidade ampla democrática não exclui a necessidade de uma frente de esquerda que aponte um novo projeto de país

A crise sanitária que atinge o Brasil e o mundo trouxe novos paradigmas para a existência humana. Como já dizia Milton Nascimento, “nada será como antes”. O Brasil ainda enfrenta um dos piores momentos da pandemia do novo coronavírus: atingimos a marca de 250 mil mortos no país, cidades decretam lockdown e hospitais entram em colapso por falta de leitos. Para piorar, no auge da crise, o governo encerrou o auxílio emergencial que garantiu o mínimo de subsistência para 68 milhões de pessoas, injetando R$ 32 bilhões na economia.

O auxílio atendeu 67% dos desempregados brasileiros e mais de 40% das mulheres chefes de família. O valor representa mais da metade da renda familiar para 23 milhões de pessoas e é a única fonte para outros 9 milhões. Acabar com o benefício, em meio à segunda onda, é uma irresponsabilidade social, um gesto de crueldade e desumanidade.

Além da pandemia, enfrentamos um governo genocida. O presidente desrespeita todas as orientações sanitárias, da negação do uso de máscara ao incentivo à aglomeração e até mesmo a propaganda da cloroquina e da ivermectina como medicações preventivas ou de tratamento para a Covid-19. Chegou ao ponto de sugerir que a vacina poderia ter consequências graves à vida das pessoas, incluindo se tornar um jacaré. Somos um país sem rumo, sem governo e sem vacina.

Vale ressaltar que, no meio desse cenário catastrófico, o governo se preocupa em publicar decreto de flexibilização do armamento da população, aprovar e sancionar a autonomia do Banco Central e agora quer aprovar a chamada PEC Emergencial. Valendo-se de chantagem, a proposta prevê o fim de uma das mais importantes conquistas da Constituição Federal de 1988, promovendo a desvinculação dos gastos obrigatórios com saúde e educação. Argumentam que, para garantir auxílio por mais quatro meses, terão de deixar de investir em direitos básicos fundamentais na garantia da dignidade humana. 

De forma criminosa, estão fazendo da crise sanitária a porteira aberta para passar a boiada. Aproveitam o momento em que as ruas não podem ser ocupadas com grandes mobilizações para aplicar um projeto neoliberal e destruidor.

 

Um povo que luta pela vida

No entanto, “é sempre bom lembrar que um copo vazio está cheio de ar” e, apesar de todas essas mazelas, o Brasil também pôde experimentar a importância da organização popular, como se acostumou dizer por aqui em Pindorama: os movimentos sociais estão fazendo o que o governo não faz.

Foi no meio dessa tragédia que a luta em defesa da vida se transformou em potentes redes de solidariedade. Cito aqui algumas importantes iniciativas, como a campanha de solidariedade do MTST, que arrecadou mais de R$ 1 milhão, convertidos em 220 toneladas de alimentos, 156 mil refeições, 110 mil máscaras e 15,7 mil kits de higiene e limpeza, amenizando o sofrimento de 19,6 mil famílias das periferias de todo o Brasil. Estamos falando de um único movimento social, que não é financiado por nenhuma empresa nem governo.

Durante a pandemia, o MTST tem organizado uma brigada de saúde, que reúne profissionais da área em sistema de atendimento solidário, contribuindo com orientação médica, acompanhamento psicológico e acolhimento. Organiza também uma brigada jurídica que orienta e auxilia juridicamente, evitando despejos ilegais e abusos contra inquilinos, por exemplo. Enquanto o governo aprofunda a crise econômica com saídas absurdas para a crise sanitária, o MTST criou o “Contrate Quem Luta”, uma tecnologia que busca trabalho para famílias que lutam por moradia no período de isolamento social. 

Essa atuação na base da sociedade, entre os mais vulneráveis e com ações de solidariedade, é fundamental em momentos como o que estamos vivendo. Sabemos que iniciativas assim não resolvem o problema, pois não substituem o papel de políticas públicas estruturais, mas criam redes de apoio mútuo e fortalecem atores sociais para lutas futuras, com soluções coletivas, em contraponto a saídas individuais.

A pandemia nos mostrou que, sim, precisamos ser melhores, mas também nos mostrou que podemos ser ainda piores. Por isso, o elemento da solidariedade precisa ser exaltado. É possível transformar se formos mais solidários, empáticos e se compreendermos que esse deve ser um pilar importante na construção do trabalho de base e de um novo projeto de país.

(Crédito: Vitor Flynn)

 

A democracia também está em risco

Não se pode ignorar que vivemos tempos sombrios. A democracia está em risco desde o golpe de 2016. A eleição de Bolsonaro em 2018 escancarou as portas do inferno. Caminhamos a passos largos para um aprofundamento do autoritarismo e do fechamento democrático. Manifestações em defesa do AI-5 (período da ditadura de maior cerceamento das liberdades, de mais assassinatos, sumiço de corpos e torturas) protagonizadas pelo próprio presidente da República, cerceamento das liberdades de expressão e imprensa, defesa de intervenção militar e fechamento do STF e do Congresso Nacional, abuso de publicações de decretos, bem como a ameaça já manifestada por Bolsonaro de golpe em 2022 caso perca a eleição (a exemplo da invasão do Capitólio nos Estados Unidos e do comportamento de Trump após sua derrota), são sinais temerários das cenas dos próximos capítulos que podemos vivenciar.

Uma frente ampla em defesa das liberdades democráticas também é tarefa de nosso tempo e nela devem caber todas as colorações políticas comprometidas com a defesa da democracia. Ela tem dimensão dos enfrentamentos concretos, mas não se traduz em unidade eleitoral.

A diversidade não nos impede de concluir que nossa existência depende de um ambiente democrático, e, se ele está em risco, precisamos reunir uma ampla força social para defendê-lo, mesmo sabendo que logo ali na esquina pegaremos caminhos diferentes.

É preciso não confundir alhos com bugalhos: uma unidade ampla democrática não exclui a necessidade de uma frente de esquerda que aponte um novo projeto de país, que se contraponha às saídas neoliberais e entreguistas.

 

Uma agenda em defesa da vida

Diante de tamanha tragédia que vivemos, não podemos cair na paralisia. Nossos algozes nos desejam mortos, cabe a nós recorrer à famosa teimosia dos que insistem em não morrer. Peço licença aqui para trazer um relato que tem sido recorrente nos dias atuais: durante a pandemia, o MTST, movimento que construo há quinze anos, tem mantido contato com as pessoas, preservando o distanciamento social, de forma individualizada, muitas vezes por telefone. Falando com muita gente dessa forma, o que mais escuto é: “Não fosse o movimento, eu não teria um grão de arroz pra comer”, “Vocês foram os únicos que me ligaram, nem o pastor ligou pra saber se eu estava bem ou se precisava de alguma coisa”. Certa vez, um companheiro relatando sua situação me disse de forma simples e emocionada: “Às vezes, eu penso que esta situação toda está servindo para as pessoas enxergarem como somos um nada sozinhos e verem como estamos fazendo tudo errado nesta passagem pela Terra”. 

Essa conclusão a que ele chegou na tentativa de encontrar um lado acolhedor para todo o sofrimento que está vivendo martelou em minha cabeça. Lembrei-me da lição que nos deu Pepe Mujica: precisamos parar de formar consumidores e formar mais cidadãos! Parte da crise política e social que vivemos se expressa nesse apontamento crítico. A conclusão a que chegou o companheiro também foi, em parte, provocada pela crise dos valores neoliberais, escancarada na pandemia, que coloca a vida em segundo plano e o consumo, a meritocracia e o lucro em primeiro lugar.

Não existe saída para essa situação que não passe por uma agenda imediata de defesa da vida, do auxílio emergencial, da vacina, do combate à fome e ao desemprego. Encerramos 2020 com 14,1 milhões de desempregados segundo o IBGE, e o cenário para 2021 é ainda mais catastrófico. É preciso intensificar ações de solidariedade como as já citadas, fortalecer os movimentos sociais que atuam fortemente no combate à miséria e construir unidade em torno de saídas populares e democráticas, que passam por disputas institucionais, mas não apenas. Neste momento não podemos construir grandes mobilizações, mas precisamos estar atentos e fortes para, assim que possível, voltarmos às ruas, com os verdadeiros protagonistas da história: o povo pobre, periférico, preto, as mulheres, os trabalhadores e trabalhadoras deste país! 

A luta pela existência está na ordem do dia, e é ela que deve compor uma agenda de unidade. É preciso que a esquerda brasileira construa um projeto mínimo de combate às desigualdades, opondo-se ao plano de morte dos neoliberais. Esse programa mínimo passa por enfrentar o mercado financeiro, a especulação imobiliária e os super-ricos.

Essas ações imediatas devem apontar para a construção de uma saída política de longo prazo: um novo projeto popular, que enfrente as questões de nosso tempo com novas linguagens e tecnologias. Compreender as desigualdades sociais, econômicas, raciais e de gênero como estruturais. Apresentar um novo modelo econômico, contrapondo os dogmas neoliberais. Uma preocupação honesta com o meio ambiente, povos originários e a relação com a natureza. Que responda às mudanças concretas nas relações de trabalho. E, por fim, um projeto que não fique olhando para o espelho retrovisor, mas que aponte para um futuro de esperança!

 

*Natalia Szermeta é coordenadora nacional do MTST.



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