Um olhar sensível sobre a Amazônia
O filme acerta em dar protagonismo para a própria região e seus habitantes, sem cair no erro de transformar o lugar em mero cenário para uma trama importada e adaptada à força para o contexto amazônico
A boa obra de arte não é apenas aquela que domina as regras da forma e expressa a subjetividade do seu autor. Aquilo que chamamos de clássico é onde vemos refletida a cultura de um povo e o espírito do tempo, pois é na concretude das coisas e no olhar sobre o específico que vemos o que permanece: as respostas sobre como lidar com o devir e com a decadência do mundo.
O Último Azul (2025), dirigido por Gabriel Mascaro, apresenta todas as características de um clássico. Usando a distopia para contar uma história sobre o envelhecimento e como regiões na periferia da periferia do capitalismo global são tratadas, temos uma história sensível, dramática, e, acima de tudo, profundamente crítica sobre a Era em que vivemos e para onde estamos indo. Num país distópico e autoritário, os idosos são enviados compulsoriamente para um campo de concentração. Tereza, moradora de Manacapuru/Amazonas, vivida por Denise Weinberg, ao atingir a idade para ser recolhida, não aceita o que tentam lhe impor e empreende uma jornada de luta para decidir o seu próprio destino.

Como nascido nas Amazônias (sim, no plural) e morador de Manacapuru desde 2017, quando assumi a vaga de professor de Sociologia no Instituto Federal do Amazonas (me livrando finalmente de um longo exílio no Sudeste), senti-me grato em ver que os povos da região e sua cultura não foram representados de forma folclorizada, estereotipada ou condescendente. Não somos bárbaros sem história ou coitadinhos que precisamos de um branco colonizador que nos salve, trazendo a cultura ou a religião certa. No filme, fomos representados com objetividade e respeito.
Sinto-me satisfeito em ver partes da cidade que eu costumava frequentar retratadas pela lente de Mascaro, com seu interessante contraste entre azul, verde e laranja: o cais, a ilha no meio do Rio Solimões, os bairros populares, a feira e a cidade vista de cima: uma península parecendo um grande dedo apontando de forma inquisidora para o Grande Rio.
Toda boa distopia é feita a partir de um problema contemporâneo que se hipertrofia numa sociedade do futuro, onde tudo deu errado. Falar do futuro é também falar do presente. O problema do envelhecimento e como nossa sociedade trata os idosos é tema fundamental. Estamos presos numa sociedade do cansaço; para usar um vocabulário de Byung-Chul Han, exploramos os outros e a nós mesmos e chamamos isso de liberdade, empreendedorismo, construção do próprio destino e outras besteiras que palestrantes, coachs, gurus e teólogos da prosperidade, verdadeiros mitoplastas contemporâneos, alardeiam como panaceias para todos os males. Quando adoecemos ou envelhecemos, não somos mais capazes de produzir. Somos colocados então em choque com a dimensão desumana da alta modernidade. Os idosos e os doentes são tratados como restolho, como a borra de um material que não tem serventia, uma peça velha a ser substituída na máquina esfomeada da produção de mais-valia social. Eis aí a chave para compreender a raiz do preconceito contra idosos. Também é a raiz explicativa para entender o olhar muitas vezes condescendente e tutelar que muitos têm com pessoas da terceira e da quarta idade, e que o filme aborda muito bem: idosos têm desejos, libido, fantasias, sonhos. São seres históricos que têm direito de fazer sua própria história.
O filme também acerta em dar protagonismo para a própria região e seus habitantes, sem cair no erro de transformar o lugar em mero cenário para uma trama importada e adaptada à força para o contexto amazônico. Posso citar, como exemplo de acerto, a cena em que a protagonista viaja de barco e depara-se com centenas de pneus velhos jogados nas beiras dos rios, simbolizando o despejo de materiais tóxicos e como o norte global usa regiões periféricas como depósito de coisas indesejáveis.
A personagem venezuelana, uma missionária ateia que ganha a vida vendendo Bíblias para os ribeirinhos, é uma bela crítica ao processo de invasão de missionários na Amazônia, muitos deles mais interessados em ganhar dinheiro do que em ganhar almas. E por que seria necessário ganhar almas? Quem disse que as populações tradicionais precisam de mais religião ou de mais um pregador? O que os povos da Amazônia, tanto os tradicionais quanto os ocidentalizados, precisam é de direitos sociais e civis, políticas públicas de saúde, de educação e de transporte. Precisamos que o Estado nacional pare de nos tratar como colônia interna e comece a pensar em como nos livrar da pobreza, das doenças endêmicas, do crime organizado, da devastação ambiental e das nossas corruptas oligarquias locais que oprimem o cidadão comum. Precisamos de soluções concretas, porque nossos problemas são concretos. Nossos problemas são deste mundo, não de outro…
Vencedor merecido do Festival Internacional de Cinema de Guadalajara e do Festival de Cinema de Berlim, o Último Azul apresenta um filme sensível sobre um mundo que caminha para sua pior versão. É um filme que merece ser visto e revisto, debatido e explorado em todas as suas nuances. Bravo!
Ricardo Kaate Lima é doutor em Ciências Sociais pela UNESP, professor do Instituto Federal do Amazonas e autor do livro A Lança de Anhangá.

