O CUIDADO COM QUEM CUIDA

Um olhar sobre o adoecimento dos profissionais da saúde pública no Brasil

O fenômeno do constante adoecimento em decorrência das relações de trabalho é uma característica do mundo contemporâneo

Como profissional da saúde com 16 anos de experiência no Sistema Único de Saúde (SUS), escrevo para um alerta sobre o adoecimento dos profissionais da área do país.  

O fenômeno do constante adoecimento em decorrência das relações de trabalho não se restringe apenas aos profissionais de saúde; é uma característica do mundo contemporâneo. O assunto é emergente, inclusive justifica a atualização da Norma Regulamentadora NR1-2025, que trata do gerenciamento dos riscos ocupacionais nas organizações. Contudo, precisamos assegurar o cuidado de quem cuida da doença, pois o adoecimento dos profissionais de saúde é índice crescente.  

Segundo o Instituto Nacional do Seguro Social-INSS, no ano de 2024, foram notificados mais de 724 mil acidentes de trabalho. Desses, 61% resultaram em afastamento. Os setores mais afetados foram construção civil, transporte e saúde, levando a afastamentos superiores a 15 dias e a óbitos.  

Um olhar sobre o adoecimento dos profissionais da saúde pública no Brasil. A imagem mostra uma mulher com luvas, máscara e touca.
Crédito: Breno Esaki/Flickr

É fato que os profissionais de saúde lidam com a área mais delicada do ser humano: a sua vida ou a vida de seus entes queridos. Aqueles que estão doentes tem urgências, tem demandas e medos que nem sempre são atendidos no tempo e na forma que necessitam, o que gera cobranças e pressão sobre os profissionais que atendem esses pacientes.  

Historicamente, os profissionais de saúde enfrentam desafios devido à escassez de recursos para o exercício de suas funções, à alta demanda em relação à oferta de serviços, à pressão por metas e ao aumento da violência – especialmente com a exposição não autorizada em redes sociais. Após a pandemia da Covid-19, esses profissionais se deparam com um mundo mais modernizado, porém mais adoecido, sobretudo no que diz respeito à saúde mental. 

Ainda existem outros fatores, como: diversos indicadores estabelecidos pelos entes federativos e diferentes sistemas de informação, resultando em uma sobrecarga de tarefas, visto que é preciso atender um grande número de pessoas, com escuta qualificada e realizar o lançamento nos devidos sistemas mencionados, para garantir o registro, mas também ao cumprimento das metas. Cito ainda, o desafio no trabalho em equipe, uma vez que cada profissional enfrenta suas próprias dores físicas e emocionais, entre outros aspectos.  

A desmotivação é uma queixa entre os profissionais, especialmente com o aumento das agressões por parte dos usuários. O falecimento da doutora Maggy, em uma unidade básica de saúde em Belo Horizonte-Minas Gerais, evidencia o aumento do medo, da violência e do sofrimento entre os profissionais de saúde. 

Que as autoridades reconsiderem o processo de trabalho e as exigências feitas à saúde pública do nosso país para garantir o cuidado com quem cuida.  

  

Vanessa Carvalho é bacharel em Serviço Social pela Puc-Minas; especialista em Gestão da Assistência Social; Especialista em Gestão Municipal do SUS; além da formação em gestão pública e assessoria pública municipal. Desempenha atualmente função de assessora de saúde em um município Mineiro. 

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