Um presidente conciliador - Le Monde Diplomatique

Gestão Obama / Política Externa

Um presidente conciliador

por Michael Klare
3 de janeiro de 2010
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Obama é um dirigente metódico, pouco inclinado a ações espetaculares. Entretanto, deixou claro, ao receber o prêmio Nobel da paz, que está disposto – assim como todos os presidentes americanos recentes – a recorrer à força militar quando considerar que os interesses dos Estados Unidos estão ameaçados

Nos últimos tempos, não houve um presidente americano que ascendeu ao poder com objetivos tão ambiciosos no campo da política externa quanto os de Barack Obama.

Ao ser empossado, em janeiro de 2009, num momento em que a reputação internacional dos Estados Unidos estava seriamente abalada, ele se propôs a restaurar o prestígio do seu país tentando solucionar um vasto elenco de problemas: o desarmamento nuclear, a paz entre Israelense e palestinos, a melhora das relações com a Rússia, a reconciliação do “Ocidente” com o mundo muçulmano. Como se isso não fosse suficiente, ele ainda se dispôs a dedicar sua atenção a problemas amplamente ignorados pelo governo de George W. Bush, tais como os da pobreza no mundo e o das mudanças climáticas.

Muitos dos que apoiaram Obama acreditavam que ele conseguiria obter importantes progressos em relação a essas questões em seu primeiro ano de mandato. A decepção foi considerável. Isso reflete as expectativas – possivelmente excessivas – que os eleitores alimentavam a seu respeito, mas também uma avaliação equivocada do temperamento do presidente e do meio ambiente no qual ele é obrigado a agir.

Obama é um dirigente metódico, pragmático, pouco inclinado a ações espetaculares. Perfeitamente consciente dos limites do poder americano – mais importantes do que aqueles encontrados por todos os presidentes dos Estados Unidos no período recente –, ele evita tomar iniciativas que colocariam ainda mais à prova os recursos de um país que já vem amargando déficits abissais.

Para fazer uma avaliação do seu primeiro ano de governo, é importante lembrar que nunca um chefe de Estado americano estivera imediatamente confrontado a tamanho declínio. Há oito anos, quando George W. Bush tornou-se presidente, os Estados Unidos gozavam de uma economia sólida, possuíam um exército aparentemente todo-poderoso e não encaravam nenhum adversário sério.

Essas condições invejáveis desapareceram. As invasões do Afeganistão e do Iraque, por Bush, fizeram desaparecer o ímpeto de simpatia do qual o país se beneficiara depois dos atentados de 11 de setembro de 2001. Além do mais, a prorrogação dessas intervenções as transformou em fiascos muito onerosos, que minam o moral do exército americano.

Tentar reverter a tendência de declínio do país constitui a meta principal da política externa da administração Obama. Conforme vêm insistindo o presidente e sua equipe, trata-se de “realizar mais com menos”. Para alcançar esse objetivo, eles acreditam mais na persuasão do que na imposição, privilegiam a discussão em detrimento do antagonismo, o compromisso em detrimento da rigidez, e preferem os passos pequenos aos grandes.

Isso pode ser conferido, por exemplo, nos esforços empenhados para conquistar o apoio de Moscou para promover a redução dos estoques de armas nucleares nos Estados Unidos e na Rússia, e também na sinalização de uma posição mais radical em relação às atividades de enriquecimento nuclear do Irã.

A força da persuasão

Ciente de que ele não poderia obter a aprovação do Kremlin por meio da cólera e da intimidação – o que caracterizava a estratégia que Bush havia desenvolvido –, o presidente Obama aceitou cancelar os planos de instalação de interceptores antimísseis na Polônia, um gesto que há muito vinha sendo pedido por Moscou. Tão reveladora como essa foi a sua campanha visando revigorar os laços diplomáticos com a Síria, com a esperança de enfraquecer a aliança de Damasco com Teerã e permitir a abertura de negociações de paz regionais com Israel.

Entretanto, Obama deixou claro, em Oslo, em seu discurso de aceitação do prêmio Nobel da paz, que ele está firmemente disposto – assim como foram todos os presidentes americanos recentes – a recorrer à força militar quando considerar que os interesses fundamentais dos Estados Unidos estão ameaçados. Essa disposição sobressai nitidamente em sua decisão de enviar – temporariamente, segundo ele – mais soldados para o Afeganistão, além de estender a utilização dos aviões não-tripulados para localizar e matar dirigentes da Al Qaeda no Paquistão.

Simultaneamente, Obama anunciou: “Nós não podemos contar exclusivamente com a força militar. A América deverá mostrar sua força através da sua capacidade de pôr fim a um conflito, de impedi-lo – e não apenas de declarar a guerra”.Essa perspectiva reflete uma abordagem prudente no plano do planejamento estratégico, iniciada antes da sua chegada à Casa Branca e continuada durante os primeiros meses da sua administração. Para acompanhar esse processo e para aconselhá-lo em relação às questões de política externa, Obama selecionou personalidades mais conhecidas pelo seu “pragmatismo” e sua “sutileza” do que pelos seus posicionamentos ideológicos1. Em troca, esses conselheiros auxiliaram o presidente, elaborando estratégias que refletem os limites da potência americana, e que visam ao mesmo tempo tirar o melhor partido das suas vantagens naturais.

As grandes linhas dessa abordagem foram plenamente explicitadas em abril passado, por ocasião de um simpósio extraordinário de dois dias, realizado em Washington, sobre o tema das novas perspectivas estratégicas dos Estados Unidos. Organizado pelo Instituto de Estudos Estratégicos Nacionais (cuja sigla em inglès é INSS) da Universidade de Defesa Nacional, este evento contou com a participação de personalidades tais como Michèle Flournoy, a subsecretária da Defesa, James Steinberg, o secretário de Estado adjunto, e Marie Slaughter, a diretora do planejamento político no Departamento de Estado2.

Dessas discussões surtiu uma ideia fundamental: os Estados Unidos devem adaptar-se a um mundo no qual eles não gozam mais de uma supremacia inconteste. “Considerando as mudanças radicais que vêm ocorrendo, nós devemos distinguir as coisas sobre as quais nós podemos agir e aquelas às quais nós temos de nos adaptar”, explicou um funcionário experiente. A respeito da expansão da China e da Índia, por exemplo, ele confidenciou: “Nós não podemos alterar o curso dos acontecimentos – não existe nenhuma receita plausível que permita retardar [seu] crescimento”. Em vez disso, Washington deve procurar reunir esses países na luta contra problemas mundiais tais como o subdesenvolvimento, a mudança climática e a desordem econômica.

Obviamente, tal abordagem implica em abandonar tudo o que se pareça com arrogância ou paternalismo. “Nós temos que aprender a dirigir num mundo horizontal e não hierarquizado”, salientou um funcion&aacut
e;rio do Departamento de Estado. “Nós não podemos ditar a conduta a outros países; temos que lançar mão de persuasão”. Isso poderia significar, em certos casos, trabalhar fora dos parâmetros diplomáticos habituais, de modo a alcançar a população de certos Estados por meio de ferramentas informais de comunicação.

Para a secretária de Estado, Hillary Clinton, esta abordagem pode ser descrita como “o poder inteligente”, isto é, “a utilização hábil de todos os meios dos quais nós dispomos, inclusive… a nossa potência econômica e militar, nossa aptidão a empreender e a inovar, assim como as capacidades e a credibilidade do nosso novo presidente e da sua equipe3”.

Barack Obama é um político pragmático, ele sabe que os avanços nos setores que o preocupam – desarmamento nuclear, paz no Oriente Médio, erradicação da pobreza etc. – só podem ser efetivados se ele não negligenciar os “interesses nacionais”, essenciais dos Estados Unidos e garantir assim que eleitorados-chave não se voltem contra ele.

Num dado momento, teria sido possível planejar a restauração da democracia no Afeganistão e a melhora das condições de vida dos seus habitantes. Mas, isso não parece mais estar ao alcance de Washington, em todo caso, não a um preço que a América possa arcar. Portanto, era preciso escolher – e Obama deve ter percebido isso – entre uma possível vitória dos talibãs e uma operação destinada a dar ao presidente Hamid Karzai uma chance para redimir-se. Outra preocupação era de que uma possível vitória dos talibãs no Afeganistão estimulasse uma maior ousadia às forças do Talibã no Paquistão. Isso teria acentuado o caos neste país.

A situação no Irã constitui um desafio tão complicado quanto os descritos acima. As preferências de Obama são claras: imaginar uma saída negociada para o conflito em torno do enriquecimento nuclear, o que confirmaria a sua fé na eficiência da discussão em vez e no lugar da confrontação. Para alcançar esse objetivo, ele tentou trazer os iranianos para a mesa das negociações, enquanto, paralelamente, buscava convencer os russos da necessidade de sanções em caso de fracasso. Além disso, o que revelou ser igualmente importante, ele convenceu os israelenses de se absterem de toda ação militar enquanto as negociações parecem estar progredindo. Entretanto, uma prova de força parece provável4. Ao que tudo indica, isso conduzirá a sanções mais firmes contra Teerã.

Mas, já que parece pouco plausível que ele consiga convencer os iranianos, Obama será novamente confrontado com a possibilidade de um recurso à força militar.

No que diz respeito à Rússia, o presidente busca estabelecer relações favoráveis para o desarmamento nuclear e a luta contra as ambições nucleares do Irã. Para alcançar seus objetivos, ele empenhou-se em ganhar a confiança do presidente Dmitri Medvedev e o parabenizou por ter rompido com os hábitos da Guerra Fria, enquanto condenou seu predecessor Vladimir Putin, considerado por ele um adepto da “maneira antiquada de governar um país5”. Através de uma série de conversas reservadas, Barack Obama obteve o apoio de Medvedev para uma redução importante, dos dois lados, dos estoques de armas nucleares, além de uma promessa de aplicar sanções contra o Irã se elas se revelarem necessárias. Contudo, a deterioração das relações de Moscou com a Ucrânia e com outras repúblicas ex-soviéticas pode resultar em atritos com Washington.

Aliança com a China

Por fim, no que se refere a Pequim, Barack Obama procurou implantar um novo quadro de relações que leve em conta o estatuto de superpotência incipiente da China, mas que preserve ainda assim a liberdade de ação dos Estados Unidos. Segundo ele, esse quadro é necessário, pois ele permite evitar uma crise em relação a Taiwan e favorece a cooperação de Pequim em torno de questões como as do aquecimento climático e da proliferação nuclear no Irã e na Coreia do Norte. Contudo, esse é considerado um projeto ambicioso, dada a preocupação – bastante disseminada nos Estados Unidos –despertada pelo peso econômico crescente da China.

Essa abordagem de Barack Obama foi particularmente clara por ocasião da sua visita em Pequim, em novembro de 2009. Muitos foram os americanos que se mostraram decepcionados com o fato de o presidente não ter se pronunciado a respeito das violações dos direitos humanos no Tibete, nem sobre a desvalorização artificial da moeda chinesa. No entanto, o presidente Hu Jintao e ele assinaram, em 17 de novembro, uma declaração de princípio a respeito das futuras relações entre os seus dois países. Esta poderia fornecer um quadro para a cooperação no longo prazo almejada por Obama. “Os Estados Unidos e a China têm uma base de cooperação cada vez mais ampla e compartilham responsabilidades comuns sempre mais importantes em torno de muitas questões essenciais, relativas à estabilidade e à prosperidade mundiais”.
Na América Latina, a sua política se inscreve na continuidade daquela de George W. Bush. E quando sua vontade de obrigar Israel a interromper as construções de novas colônias na Cisjordânia esbarrou numa resistência inflexível, ele simplesmente abandonou essa abordagem.

Onde quer que isso tenha sido possível, Barack Obama tentou convencer seus interlocutores de sua visão que busca um aprimoramento das relações internacionais, mas atento às reações, ele não se furtou a abandonar uma proposta quando essa provocava uma forte oposição, no exterior ou em seu próprio país.

 

*Michael Klare é professor de estudos sobre paz e segurança mundiais no Hampshire College, em Amherst, Masachusetts, e autor do recém lançado Rising powers, shrinking planet; the new geopolitics of energy, publicado nos Estados Unidos pela Metropolitan Books, e no Reino Unido pela One World Publications.



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