Uma análise decolonial e libertária dos debates eleitorais

RACISMO, PATRIARCADO E CHARLATANISMO TEOCRÁTICO

Uma análise decolonial e libertária dos debates eleitorais

por Wallace de Moraes
5 de setembro de 2022
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A exclusão dos únicos candidatos negros da possibilidade de divulgar as suas ideias nos debates confirma que o sistema representativo é oligárquico e racista

Sabemos que o Estado gerido por representantes da direita por séculos não só patrocinou o colonialismo, como justificou as diferentes formas de racismo. Normalmente, o direitista é racista, como o foi Adolf Hitler e seus partidários nazistas que justificaram o extermínio de judeus, comunistas e todos que se diziam de esquerda. Daí não esperarmos muito de quem se apresenta como tal. Não é incongruente quando um direitista desdenha dos povos quilombolas se referindo a eles como “pesando em arrobas”, como fizera o candidato do ódio. É horrendo, mas é um direitista se posicionando em coerência com a sua posição ideológica. A direita sustentou o colonialismo, não esqueçamos disso.

Por outro lado, no primeiro governo de esquerda da história, entre 1793 e 1794 durante a Revolução Francesa, os montanheses (aqueles que se sentavam no alto e à esquerda do parlamento francês, daí seu nome) aboliram a escravidão nas colônias nas Américas, pressionados, é claro, pelos próprios negros que haviam tomado o poder no Haiti em uma das revoluções mais emblemáticas da história. Depois dos membros da esquerda serem guilhotinados pelos direitistas, que reassumiram o poder, a escravidão foi restituída.

Desde o final de 2014, vários grupos de direita com forte atuação nas redes sociais têm defendido uma cultura conservadora, preconceituosa, intolerante contra as liberdades das comunidades LGBTQIAP+ e contra tudo que aponte para igualdade social, de direitos ou signifique de esquerda, socialista etc. Esse fenômeno do ativismo conservador agressivo produziu a vitória eleitoral do candidato do ódio e das armas. Seu governo acentuou uma política estabelecida no Brasil há mais de quinhentos anos caracterizada pelo desejo/simpatia de matar física e/ou psicologicamente (necrofilia) negros/indígenas (colonialista) e os que fogem da cultura cisheteronormativa, que não praticam as religiões judaico-cristãs, que desafiam os primados do militarismo e do igrejismo, que seja de esquerda, ou simplesmente não espelhe os seus preconceitos; resumindo, o outro (outrocídio). Assim, o conceito de necrofilia colonialista outrocida busca caracterizar as políticas postas em prática pelo governo das fake news que faz um malabarismo sustentado com menções à bíblia, mas curiosamente defensor da liberação das armas para matar o “outro”. A alusão a Jesus, que nunca defendeu o assassinato de ninguém, com a defesa do slogan: “bandido bom, é bandido morto”, caracteriza um verdadeiro charlatanismo teocrático, que, evidentemente, é racista.

As últimas pesquisas demonstram que cada vez mais as pessoas têm se reconhecido como negras, os movimentos étnicos têm crescido; as cotas nas universidades têm contribuído sobremaneira nesse autorreconhecimento, contudo, essa conjuntura ainda não se reverberou em relação às questões raciais. Os negros são maioria na sociedade brasileira e ocupam normalmente os piores empregos, as piores moradias e muitos são assassinados sem qualquer constrangimento nas favelas e periferias por forças policiais.

Há mais de quinhentos anos, portugueses chegaram ao litoral das terras tupiniquins e declararam-se novos donos. Dava-se início ao colonialismo: um processo de subalternização de indígenas e de escravização de africanos com genocídios de suas etnias e epistemicídios de suas culturas e saberes. Passados 522 anos, ainda encontramos traços do colonialismo em todos os aspectos da sociedade brasileira, isto é, colonialidades, como: racismo, classismo, patriarcado, LGBTQIAP+fobia, ecologicídio e especismo.

Como explicar a ausência desses temas no debate e nas entrevistas dos candidatos à presidência da República?

As eleições presidenciais de 2022 são particularmente interessantes para analisarmos esses aspectos no país. Preparei um quadro comparativo para mensurá-los, associado com a orientação ideológica e o patrimônio dos candidatos. Objetivo correlacionar a exclusão de alguns pretendentes a chefe do Executivo da participação dos debates e a colaboração para o predomínio das ideias necrofílicas colonialistas outrocidas.

 

Quadro 1: Racismo na campanha eleitoral brasileira1

Candidato Cor da pele Patrimônio em 20222 Orientação ideológica Participação entrevista da Globo Participação debate da Band TV
Felipe D’Avila

(Novo)

Branca R$ 24 milhões Direita Não Sim
Lula

(PT)

Branca R$ 7,4 milhões Esquerda Sim Sim
José

Eymael (DC)

Branca R$ 6,5 milhões Direita Não Não
Ciro Gomes

(PDT)

Branca R$ 3 milhões

 

Esquerda Sim Sim
Simone Tebet

(MDB)

 

Branca R$ 2,3 milhões Direita Sim Sim
Jair Bolsonaro

(PL)

 

Branca R$ 2,3 milhões Direita Sim Sim
Soraya Thronicke

(União Brasil)

Branca R$ 783 mil Direita Não Sim
Sofia Manzano

(PCB)

Branca R$ 498 mil

 

Esquerda Não Não
Vera Lúcia

(PSTU)

Negra R$ 8,8 mil

 

Esquerda Não Não
Léo Péricles

(UP)

Negra R$ 197,31

 

Esquerda Não Não

1 O PTB lançou a candidatura de Roberto Jefferson (PTB) à presidência da República. Entretanto, como ele está em prisão domiciliar por corrupção no caso do mensalão em 2012, existe a possibilidade da sua candidatura ser embargada pelo TSE. O candidato Pablo Marçal do PROS está com a sua candidatura sendo questionada por membros do seu partido. Por isso, ambas não serão objeto da minha análise.

2 Patrimônio declarado pelos candidatos ao TSE. Fonte: https://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-noticias/2022/08/10/presidenciaveis-declaram-de-r-24-milhoes-a-r-197-veja-quem-e-mais-rico.htm.

 

Do ponto de vista da reprodução do patriarcado, percebamos que, dos dez candidatos, há um predomínio das candidaturas masculinas (seis homens e quatro mulheres), sem nenhum candidato autodeclarado das comunidades LGBTQIAP+, indicando a existência de uma sociedade desigual de gênero e sem representação trans/homossexual.

Se associarmos as questões étnico-raciais com o ponto de vista de classe, perceberemos o seguinte. Seis candidatos são milionários e uma tem quase R$ 1 milhão de patrimônio.[1] Destes, todos são brancos (homens e mulheres). Não podemos identificar uma relação direta entre patrimônio e posição ideológica no espectro político, pois dois dos candidatos que se autodeclaram de esquerda estão entre as quatro maiores fortunas. Por outro lado, os candidatos mais pobres são exatamente os dois únicos negros. Léo Péricles é aquele que apresenta a pior situação financeira. Ele não possui nem R$ 200, o que provavelmente os milionários gastam em um lanchinho da tarde.

Do ponto de vista estritamente racial, percebemos que de dez candidatos, oito são brancos, dois negros (Léo e Vera Lúcia) e nenhum indígena. Os negros pertencem a dois pequenos partidos da esquerda estatista defensora do socialismo de Estado. A opressão de classe e a sua relação direta com o racismo está explícita na declaração de bens dos candidatos. Se ampliarmos um pouco, veremos que as três piores declarações de bens são de candidatos comunistas/socialistas (dois negros e uma mulher branca).

Do ponto de vista ideológico, são cinco candidaturas que se apresentam como defensoras do proprietalismo (conjunto de ideias que priorizam a garantia da propriedade privada acima da vida e da liberdade, defendendo os princípios do mercado e do lucro).[2] Portanto, devem ser lidas como de direita: Felipe D’Avila, Jair Bolsonaro, José Maria Eymael, Simone Tebet e Soraya Thronicke. Apesar da unidade no proprietalismo, eles possuem diferenças significativas. De um lado, Felipe D’Avila, defensor do Estado mínimo. Apresenta as privatizações como panaceia, pensando que o mercado solucionará tudo; do outro lado, está Bolsonaro, fiador da defesa do igrejismo, da tradição conservadora que pode ser resumida em um de seus slogans: “Deus, pátria, família, liberdade”. Slogan muito parecido com os de Hitler e Mussolini. Os outros três candidatos circulam entre um polo e outro, defendendo mais mercado ou mais igrejismo. Todos são brancos. As duas mulheres são senadoras apoiadoras arrependidas do candidato do ódio e das armas. Portanto, há menos de quatro anos ignoraram por completo todas as explícitas demonstrações de misoginia e de charlatanismo teocrático do candidato do ódio e o apoiaram. Ademais, não quiseram aderir às lutas das feministas que se manifestaram em diversas capitais do país pelo “Ele não!”. Ao que tudo indica, o feminismo de ambas, apresentado no último debate da TV Band, é bem recente, deixando crer se tratar de uma estratégia eleitoral. Ademais, são candidatas defensoras da expansão do agronegócio e contrárias aos interesses das sociedades indígenas.[3]

As outras cinco candidaturas são de esquerda, com três homens e duas mulheres, das quais duas são de negros e duas são de mulheres. Vera Lúcia representa a interssecionalidade, sendo mulher e negra. Três dessas candidaturas são de pequenos partidos marxistas que criticam o petismo por não apresentar um projeto a contento, que priorize os trabalhadores.

No que concerne às candidaturas de mulheres, há uma paridade em números entre as de esquerda e de direita, duas para cada lado. Mas existem grandes diferenças entre elas: 1) as de direita puderam participar dos debates, as de esquerda, não; 2) as de direita são ricas; 3) as de direita apoiam o agronegócio, as de esquerda, não; 4) as de direita têm tempo na televisão e nos debates para divulgar seus feminismos branco e capitalista, as de esquerda possuem espaço diminuto; 5) a única candidata negra é de esquerda e mais pobre do que as outras. Ao que parece, existe um racismo ideológico explícito na campanha eleitoral.

O candidato mais rico é Felipe D’Avila (Novo) – R$ 24 milhões. O segundo mais rico é Lula (PT), R$ 7,4 milhões. A riqueza deixou de ser um privilégio da direita, pois Ciro e Lula estão entre os quatro mais ricos, em segundo e quarto respectivamente. Só a extrema-esquerda continua pobre, com os candidatos negros Péricles e Vera Lúcia. De modo geral, as candidaturas de direita possuem mais dinheiro.

Para confirmar o racismo institucional pela cor da pele, por viés ideológico e de classe, exatamente os mais pobres, negros e comunistas foram excluídos dos debates televisivos da Band e da Rede Globo.

A Empresa Brasil de Comunicação (EBC) entrevista a candidata à Presidência da República pelo PSTU, Vera Lúcia. Foto: Marcello Casal Jr/Agência Brasil

Racismo institucional nos debates eleitorais

Diante desse quadro, convido-a(o) a dar mais um passo de modo que possamos analisar melhor o significado das exclusões raciais, de classe e de ideologia. Para tanto, analisemos o debate eleitoral para a presidência da República na Band TV[4] (28 ago. 2022) e as entrevistas de alguns candidatos no Jornal Nacional da Rede Globo (22-26 ago. 2022).

Para as entrevistas no Jornal Nacional, apenas quatro candidatos foram convidados: Lula, Bolsonaro, Ciro e Tebet. Procurei, mas não encontrei a justificativa dada pelo Jornal Nacional para alguns serem sabatinados e outros não. Talvez, seja pelas intenções de votos (baseadas em pesquisas de opinião); talvez, seja por partidos que tenham representação no Congresso Nacional. Independente de qual for a desculpa, ela fere o princípio básico de igualdade de oportunidade, isonomia, para apresentar propostas ao eleitorado. Simultaneamente, confirma o racismo institucional brasileiro. Senão, vejamos. Os quatro candidatos escolhidos e os entrevistadores são brancos. Desta forma, soa estranho saber que a maioria da população brasileira é negra, mas não se vê representada na discussão presidencial? Para piorar, enquanto negros e pobres continuam sendo assassinados, cotidianamente, nas favelas e periferias, todos os quatro candidatos, bem como os sabatinadores, ignoraram solenemente as discriminações raciais cotidianas e não trataram do tema do racismo, nem da violência policial. Sabemos que os corpos negros e indígenas durante o colonialismo eram tratados como sub-humanos. Será que os corpos que morrem nas favelas e periferias do Brasil ainda são considerados assim?

No debate da Band, seis candidatos foram convidados. Nesse caso, os quatro excluídos foram: 1) uma mulher branca do Partido Comunista; 2) um homem branco da democracia cristã (DC); 3) uma mulher negra do PSTU; e 4) um homem negro da Unidade Popular (UP). Assim, mais uma vez, foram excluídos os dois únicos negros e os três representantes da esquerda comunista/socialista.

Com exceção do candidato da DC, os outros três excluídos poderiam apresentar teses contestando o sistema capitalista, sua exploração, suas desigualdades, o racismo, o patriarcado sob uma perspectiva classista, a trans/homofobia, a discriminalização das drogas, do aborto, denunciar a violência policial, o papel das instituições na manutenção do sistema, a destruição das nossas florestas e o especismo. Poderiam também fazer a defesa da ação direta e da autogestão dos trabalhadores (sinceramente, não sei se eles chegariam a tanto, mas seria uma possibilidade). Certamente, a exclusão dos negros e da mulher comunista da participação nos debates como candidatos a presidentes constitui-se como racismo institucional e ideológico. Todos que concordam com essa postura assumem uma posição que colabora para a manutenção do racismo na nossa sociedade.

Tal como em 2013, quando a grande mídia, com adesão de todos os partidos, criminalizou os black blocs (formados majoritariamente por jovens negros das favelas e periferias que carregavam os símbolos do anarquismo, enfrentavam as forças policiais e denunciavam suas arbitrariedades), pavimentou o terreno para o avanço das ideias propaladas pelo ativismo conservador agressivo representada na candidatura do ódio e das armas, justamente para valorizar o militarismo que fora amplamente abalado com aquelas manifestações.

Nos debates eleitorais, ao excluir as únicas candidaturas negras e comunistas, igualmente pavimenta-se o terreno para a predominância das ideias conservadoras, militaristas e igrejistas. É exatamente por esses motivos racistas e absolutamente antidemocráticos que estamos vivendo sob a hegemonia das ideias do charlatanismo teocrático. Os dois candidatos de esquerda que participaram do debate não possuem um conhecimento aprofundado do racismo, além de estarem tão comprometidos em explicar a corrupção e acuados pelo predomínio das ideias conservadoras, que são instados a propor soluções por meio da conciliação masoquista de classe. Renunciam os interesses progressistas em prol de certa unidade subordinada com o conservadorismo e o sistema do capital. Certamente, criticam a posição antivacina do clã do ódio, a falta de crescimento econômico do país, a misoginia, mas não avançam para além desses aspectos “permitidos” pelos governantes econômicos e socioculturais.

Entretanto, o racismo institucional não para por aí, pois além de não ter qualquer candidato (a) negra(o)/indígena, participando do debate, também identificamos o seguinte:

1) Dos quatro apresentadores, todos eram brancos, e com paridade de gênero (dois homens e duas mulheres). Percebemos que houve uma grande preocupação para se evitar um protagonismo do homem branco na condução do debate, sendo algo positivo. Essa linha se exacerbou com o número de mulheres convidadas.

2) Dos sete jornalistas escolhidos para entrevistar, seis eram mulheres, das quais apenas uma aparentemente negra (nunca podemos afirmar com certeza sem saber se a pessoa se reconhece como tal). Não obstante, ela fez uma pergunta (sobre como melhorar os transportes para o agronegócio) que não tem qualquer ligação com questões raciais, sociais ou de desigualdade que tanto afetam os negros, maioria da população.

3) A maioria feminina branca entre os debatedores chegou ao ápice com a pergunta da jornalista Ana Estela de Souza Pinto, da Folha de S.Paulo, que trouxe o tema da paridade de gênero para a escolha dos ministros do futuro governo. Sua pergunta foi ótima, mas não se preocupou com paridade racial. Talvez não tenha sido o caso da jornalista, mas é bom saber que, historicamente, o feminismo branco atua dessa maneira: almeja igualdade de gênero, mas não se preocupa, por exemplo, com a sua empregada doméstica não ter representação, direitos, nem dignidade, nem com suas iguais negras que sofrem interseccionalmente das opressões de classe, raça e patriarcado.

Enfim, ninguém tocou no tema do racismo em um debate dentro da campanha eleitoral para a Presidência da República de um país com a maioria da população negra. Tudo normal. Segue o jogo!

Os quadros abaixo correlacionam o percentual aferido pela cor da pele dos participantes do debate com a população brasileira.

 

Quadro 2: Candidatos, apresentadores e jornalistas convidados para participar do debate da Band TV por cor da pele.

  № Candidatos № Apresentadores № Jornalistas % total de participantes no debate % População brasileira[5]
Brancos 6 4 6 94,1% 43%
Pardos 0 0 1 5,9% 47%
Pretos 0 0 0 0% 9,1%

 

Quadro 3: Candidatos, apresentadores participantes da sabatina do JN na Rede Globo por cor da pele.

  № Candidatos № Apresentadores % total de participantes no debate % População brasileira
Brancos 4 2 100% 43%
Pardos 0 0 0% 47%
Pretos 0 0 0% 9,1%

 

Percebamos a discrepância entre o percentual da população e os participantes dos debates. Na sabatina da Globo, 100% dos candidatos e apresentadores eram brancos. No debate da Band enquanto uma pessoa, equivalente a 5,9%, representava 47% da população parda; os brancos com 43% da população tinham 94,1% do total de representantes. A situação é pior para pretos ou negros retintos que não tiveram participante em nenhum dos dois debates. Não mensuramos o percentual de membros da comunidade LGBTQIAP+, pois não sabemos a orientação sexual dos jornalistas e dos apresentadores. De qualquer forma, nenhum deles tocou no assunto que interessam aos membres dessas comunidades que tanto sofrem de discriminação, principalmente agora com o avanço do ativismo conservador agressivo representado pelo charlatanismo teocrático.

 

Day after do debate: repercussão na grande mídia

No dia seguinte ao debate, as análises de toda a grande mídia foram uníssonas em dizer que a mulher branca, milionária, do agronegócio, que vota constantemente contra os interesses das sociedades indígenas, foi a suposta grande vencedora. A maior parte dos oligopólios de comunicação de massa tem defendido a sua candidatura há algum tempo. Será que essas pessoas não sabem da sua posição diante das sociedades indígenas ou praticam uma conivência racista mesmo?

A pauta feminista dominou o debate quando o candidato do ódio atacou insana e covardemente a jornalista Vera Magalhães em função da sua pergunta (no meu entender, a melhor do debate) sobre a cobertura vacinal no Brasil. Ciro Gomes, que vinha se destacando, perdeu a grande oportunidade de rechaçar com toda força o explícito machismo do candidato das armas. Os três homens foram mal na questão feminista. Ciro e Bolsonaro, acuados, reconheceram que foram machistas no passado e Lula não se comprometeu a criar um ministério com 50% de mulheres para seu futuro governo.

O tema do feminismo predominou sozinho e foi uma grande vitória das mulheres. Tomara que elas aprendam o que é interseccionalidade e tomem a consciência de que as lutas dos oprimidos devem caminhar juntas. Certamente, se só tivessem duas mulheres dentre os candidatos e elas fossem excluídas, fariam barulho e com muita razão, mas como os únicos negros foram excluídos, aparentemente, não viram problema. Elas poderiam ter colocado a pauta antirracista no centro do debate, mas, pelo jeito, não interessava. Ao que tudo indica, vivemos ainda sobre os resquícios do colonialismo em plena campanha eleitoral brasileira.

Os supracitados apontamentos ratificam todos os dados sobre análises institucionais que colocam as mulheres brancas em situação social melhor do que a de negros, indígenas e pretos (homens/mulheres).[6] Percebamos como os números indicam uma discrepância maior da relação étnico-racial sobre a de gênero, pois dos dez candidatos, apenas dois são negros, enquanto quatro são mulheres. Destas, três são brancas, duas milionárias e outra possui quase R$ 1 milhão de patrimônio declarado. Não seria de se espantar se duas das candidatas mais ricas, mulheres brancas e de elite, possuíssem dezenas de empregados, homens negros. Seria só a continuidade da colonialidade caracterizada pelo fato de que até o século XIX as mulheres brancas poderiam mandar açoitar, torturar, chicotear, matar um homem negro.

O que impressiona no Brasil do século XXI é que existem cotas para candidatura de mulheres, mas não existe para negros. Nem nos partidos de esquerda há espaço para o protagonismo negro. Com exceção de algumas candidaturas para deputados e vereadores, não existe o equivalente para candidaturas majoritárias.

Certamente, o feminismo branco deve lutar por igualdade com relação aos homens da sua cor que estão em posição superior em todas as instituições, mas só chegaremos a uma verdadeira democracia quando pensarmos também nas questões raciais, de combate efetivo da miséria e de emancipação com autonomia para todos, contemplando também, é claro, as liberdades das comunidades LGBTQIAP+. Também será necessário incluir a defesa das comunidades indígenas, quilombolas e tradicionais. Nesse rol não pode faltar a defesa das nossas florestas, dos nossos biomas, das religiões e culturas indígenas e negras. Alguém tem que ter a coragem para fazer a crítica do agronegócio e da transformação das nossas terras e de criação de animais para abate (especismo).

 

A exclusão dos negros resultou na ausência de seus temas

Os candidatos podem não ser negros, indígenas, pobres, nem das comunidades LGBTQIAP+, mas poderiam defender essas causas. Não se trata de um vitimismo,[7] mas certamente é um descuido. No entanto, predominou o mais provável, como não sofrem dessas opressões, não abordaram o assunto. Como os candidatos são impulsionados por busca de votos e as falas dissonantes não têm espaço para defender suas teses, vivemos sob a égide do conservadorismo. Para combater a extrema direita é preciso dar espaço para a extrema esquerda, só ela tem coragem para enfrentar com fortes argumentos o predomínio do charlatanismo teocrático.

Historicamente, os candidatos à direita primam por ignorar/negar a existência de racismo, entretanto parte da esquerda mundial trata do assunto. Por que aqui isso não é levado em consideração? Uma explicação parte da hipótese de que, majoritariamente, a esquerda brasileira acredita piamente na ideia de democracia racial. Ela aprendeu isso nas universidades. Os clássicos das ciências sociais defendem essa aberração, também porque eram homens brancos de elite escrevendo a partir dos seus lugares de fala.

Tal como existem os candidatos negros, que foram excluídos do debate, certamente, existem jornalistas e cientistas políticos negras(os) capazes que poderiam estar no debate ou comentá-los, mas não foram convidados. Isso expressa bem o racismo institucional. Dessa maneira, negros e indígenas são tratados como incapazes para propor ideias factíveis para o Brasil. Eles ocupam exatamente o lugar da não fala.

 

Concluindo

Na luta antirracista, não podemos esperar nada da direita – genitora legítima do colonialismo. Por outro lado, em outras partes do mundo, historicamente, a esquerda ajuda na luta contra o racismo. Mas no Brasil ela comprou a ideia da democracia racial; por isso erra e não consegue ter penetração popular que inspire as pessoas. Assim, vivemos em um momento político em que as falas dos candidatos não empolgam ninguém. Vota-se não por adesão a um projeto transformador, antirracista, antipatriarcal, classista, contra a cisheteronormatividade, mas por objeção ao outro. Depois os cientistas políticos brancos não saberão explicar por que entre 30% e 40% dos eleitores não escolherão nenhum candidato, abstendo-se, votando nulo ou em branco, como tem ocorrido nas últimas eleições desde 1994. Como eles não sabem o que é o racismo cotidiano, nas pequenas coisas, poderão reforçar um estereótipo de que os pobres, negros e indígenas são “burros” e não querem participar das eleições. A exclusão dos únicos candidatos negros da possibilidade de divulgar as suas ideias nos debates confirma que o sistema representativo é oligárquico e racista. Pior é que ainda chamam isso de democracia.

Por fim, banqueiros, intelectuais e políticos assinaram um manifesto pela democracia. De um ponto de vista decolonial e libertário, é necessário um manifesto que contemple interesses de negros, indígenas, pobres, das comunidades LGBTQIAP+, das nossas florestas, dos nossos animais, que deve ser assinado nas ruas e com muito barulho. Só assim os colonizados, como dizia Frantz Fanon, terão protagonismo. É óbvio que isso será feito por fora da esquerda e da direita. O exemplo do Haiti de 1794 está aí para pensarmos.

 

Wallace de Moraes é doutor em Ciência Política, professor dos Programas de Pós-Graduação em Filosofia (PPGF), de História Comparada (PPGHC) e do Departamento de Ciência Política, todos da UFRJ, membro do Quilombo do IFCS/UFRJ e líder do grupo de Pesquisa CPDEL/UFRJ (Coletivo de Pesquisas Decoloniais e Libertárias). Canal no Youtube: https://www.youtube.com/channel/UCI6ALgmE_efoCONkrPmQ9fw.

[1] Segundo matéria do UOL, a senadora candidata Soraya Thronicke declarou um patrimônio 78 vezes maior do que da eleição de 2018.

[2] Esses são os princípios do liberalismo econômico, mas devemos chamar por proprietalismo diante da ênfase na defesa da propriedade, enquanto liberalismo nos fornece a falsa ideia de defesa da liberdade. Estou preparando um livro a respeito.

[3] Segundo o Wikipedia, “um dos principais projetos defendidos por Simone Tebet no Senado Federal trata da suspensão das demarcações de terras indígenas e pagamento de indenizações para fazendeiros”.

[4] Retransmitido e com a apoio da TV Cultura, Uol, Folha de São Paulo, Google e YouTube.

[5] fonte:https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2022/07/cresce-proporcao-de-pretos-e-pardos-na-populacao-brasileira.shtml

[6] Apresentei os dados comparados sobre colonialidades de gênero e racial em aula pública no Canal do YouTube do CPDEL/UFRJ: https://www.youtube.com/watch?v=nWbnbVEwoTg

[7] Como o candidato do ódio e seus asseclas defendem. Mas também podemos ouvir isso de professores que se dizem de esquerda, mas que praticam o racismo institucional cotidiano.



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