O ENIGMA DO VOTO MINEIRO

Uma análise sobre a idiossincrasia eleitoral de Minas Gerais

Por que Minas Gerais, estado historicamente visto como um retrato político do Brasil, tantas vezes escolhe caminhos diferentes para presidente e governador?

O Departamento de Ciência Política (DCP) da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) é considerado um dos mais respeitados do país. Um dos fatores que ilustram esse prestígio – e, provavelmente, não o principal – é o fato de Minas Gerais ser um dos estados mais complexos para a análise eleitoral no Brasil, apresentando características muito diversas, tais como grande extensão territorial, forte heterogeneidade econômica e social, diferenças marcantes entre regiões, como a Zona da Mata, o Sul de Minas, o Triângulo Mineiro, o Norte de Minas, o Vale do Jequitinhonha e a Região Metropolitana de Belo Horizonte, além do elevado número de municípios (853, o maior do país), fazem do estado um lugar privilegiado para os estudos sobre comportamento eleitoral e política brasileira.

Embora radicado na cidade do Rio de Janeiro desde 2023, nasci e cresci no interior de Minas Gerais. Trata-se de uma cidade com pouco mais de 60 mil habitantes chamada Cataguases, na Zona da Mata. Em meados de 2014, me mudei para Juiz de Fora, município próximo, de médio porte, com cerca de 540 mil habitantes, onde cursei Direito na Universidade Federal.

Por ter vivido 28 dos meus 31 anos naquele estado, tendo trabalhado em algumas campanhas e acompanhado de perto as peculiaridades que envolvem seus pleitos, permiti-me a ousadia de tentar esmiuçar o intrincado cenário eleitoral mineiro – tarefa dificílima, em um campo de debate que desperta a atenção e suscita análises de muitos profissionais, muitos deles com trajetórias e qualificações distintas – e, em muitos casos, superiores às minhas.

  1. O cenário atual

A poucas semanas do início da campanha eleitoral oficial, Minas Gerais vive um cenário de indefinição em relação aos palanques dos principais postulantes ao cargo de presidente da República. Afinal, quem serão os candidatos ao governo do Estado, segundo maior colégio eleitoral do país, com 10,3% do eleitorado brasileiro – mais de 16,3 milhões de eleitores?

O senador de direita Cleitinho Azevedo (Republicanos), alinhado ao ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e dono de um discurso de combate ao establishment, lidera todas as pesquisas de intenções de voto. Na rodada mais recente da Pesquisa Quaest, publicada em 28 de abril deste ano, o senador apareceu com 37% das intenções de voto em cenário estimulado, seguido pelo ex-prefeito de Belo Horizonte Alexandre Kalil (PDT), que somou 16%.

Embora lidere todos os levantamentos, Cleitinho Azevedo tem titubeado e ainda não oficializou sua candidatura. No início de junho, afirmou que só tomaria essa decisão após a Copa do Mundo. Encerrada a competição, o político de Divinópolis segue sem confirmar sua participação no pleito de outubro.

A eventual empreitada do senador rumo ao Palácio Tiradentes poderia garantir um forte palanque ao senador Flávio Bolsonaro (PL), pré-candidato à presidência, em Minas Gerais. Porém, Cleitinho Azevedo ainda não foi capaz de garantir o apoio do PL mineiro – embora este seja provável – a sua possível candidatura. O principal motivo é uma disputa que deságua no futuro: as eleições de 2030 e 2034. Nikolas Ferreira (PL), deputado federal eleito em 2022 com a maior votação da história de Minas Gerais (1,47 milhão de votos, a maior do país naquela eleição), teme perder protagonismo dentro da direita mineira caso Cleitinho seja eleito governador. Além do mais, críticas recentes do senador ao ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP) e o seu posicionamento favorável ao fim da escala 6×1 têm despertado a desconfiança de uma influente ala do PL nacional. Por esses motivos, o PL tem testado os nomes do empresário Flávio Roscoe, que pontuou somente 2% na última Pesquisa Quaest, e do ex-prefeito de Betim Vittorio Medioli (PL).

Do outro lado, o PT também não teve vida fácil para definir o palanque do presidente Lula, candidato à reeleição, em Minas Gerais. Entusiasta de uma candidatura de frente ampla encabeçada pelo ex-presidente do Senado Rodrigo Pacheco (PSB-MG), o Lula não conseguiu convencer o senador, embora tenha insistido até a reta final das articulações. Com dificuldades para formar um grande arco de alianças em torno de seu projeto eleitoral e temendo um resultado frustrante nas urnas, Pacheco decidiu encerrar sua carreira política e não será candidato a nenhum cargo em 2026.

Sem sucesso em seu plano A, o presidente Lula tampouco avançou em suas alternativas seguintes. Após a recusa de Rodrigo Pacheco, o PT iniciou negociações com o ex-prefeito de Belo Horizonte, Alexandre Kalil, pré-candidato ao governo de Minas Gerais pelo PDT e segundo colocado na maioria das pesquisas de intenção de voto. Embora tenha sido o candidato apoiado por Lula nas eleições de 2022, Kalil – à época filiado ao PSD – resistiu às investidas petistas e não aceitou construir uma aliança para 2026. O pré-candidato do PDT atribui a derrota no último pleito, quando foi superado ainda no primeiro turno por Romeu Zema (NOVO), com 56,18% dos votos contra 35,08%, ao arranjo com o PT.

Sem conseguir chegar a um acordo com Rodrigo Pacheco e Alexandre Kalil, o PT optou por uma candidatura própria e passou a mirar a ex-prefeita de Contagem, Marília Campos. Eleita quatro vezes prefeita da cidade da Região Metropolitana de Belo Horizonte, terceira mais populosa de Minas Gerais, Marília é pré-candidata ao Senado, lidera as pesquisas de intenção de voto para o cargo e recusou abrir mão de uma disputa considerada mais favorável em troca de uma candidatura ao governo estadual com enorme chance de insucesso.

Uma ala do PT em Minas Gerais chegou a abrir conversas com o ex-vereador e ex-presidente da Câmara Municipal de Belo Horizonte, Gabriel Azevedo (MDB). As tratativas, no entanto, não avançaram e acabaram sendo descartadas. Ex-integrante do PSDB, Azevedo tem buscado se aproximar de setores mais progressistas na tentativa de viabilizar sua candidatura ao governo de Minas. Na mais recente pesquisa Quaest, ele apareceu com 3% das intenções de voto.

No dia 20 de julho, o PT mineiro anunciou o deputado federal Patrus Ananias (PT) como candidato ao governo de Minas Gerais. Ex-ministro do Desenvolvimento Social e Combate à Fome nos dois primeiros mandatos de Lula, Patrus também foi prefeito de Belo Horizonte nos anos 1990 e integra o grupo de quadros históricos do partido. Plano D após as tentativas frustradas com outros nomes, o deputado busca reverter o cenário preocupante do palanque de Lula no estado a pouco mais de dois meses das eleições.

O atual ocupante da cadeira no Palácio Tiradentes e candidato à reeleição é Mateus Simões (PSD), eleito vice-governador na chapa de Romeu Zema (NOVO), em 2022. Ele exerce o cargo desde março deste ano, quando o titular renunciou para disputar a Presidência da República em outubro.

Com desempenho ainda discreto nas pesquisas (3% no levantamento da Quaest anteriormente citado), Simões era filiado ao NOVO até o início de 2026 e transferiu-se para o PSD em busca de maior apoio político para sua candidatura, além de tentar reduzir o elevado índice de desconhecimento de seu nome junto ao eleitorado. A filiação do atual governador à sigla presidida por Gilberto Kassab causou mais um embaraço no já tumultuado xadrez mineiro.

O PSD filiou o ex-governador de Goiás Ronaldo Caiado, em março deste ano, que será o candidato da legenda à Presidência da República nas eleições de 2026. Embora a sigla tenha projeto próprio para a disputa presidencial, Simões mantém compromisso com a candidatura de Romeu Zema ao Planalto e não apoiará o nome lançado pelo próprio partido.

O fato é que, com Mateus Simões longe de alcançar dois dígitos nas sondagens, o ex-governador Romeu Zema também está distante de contar com um aliado forte na disputa pelo governo em seu domicílio eleitoral. No caso de Ronaldo Caiado, o seu próprio partido não garantirá um espaço onde possa pedir votos no estado.

O presidenciável Renan Santos, candidato do MISSÃO – partido criado pelo Movimento Brasil Livre (MBL) – e, tecnicamente, empatado nas pesquisas de intenção de voto com Caiado e Zema, tem como candidato ao governo de Minas Gerais o jornalista, advogado e blogueiro Ben Mendes (MISSÃO), que pontuou 3% no levantamento mais recente da Quaest.

O mesmo levantamento da Quaest revela que, a depender do cenário apresentado, o grupo formado por indecisos, eleitores que declararam voto branco ou nulo e aqueles que não pretendem votar oscila entre 33% e 51%. O percentual evidencia um quadro de elevada incerteza e indica que uma parcela significativa do eleitorado ainda não consolidou sua escolha.

A pouco mais de 60 dias do primeiro turno das eleições, os principais postulantes ao Palácio do Planalto ainda possuem palanques frágeis no segundo maior colégio eleitoral do país. Vale destacar que, desde a redemocratização, todos os candidatos eleitos para a Presidência da República também venceram em Minas Gerais, reforçando a tradição do estado como um dos principais termômetros eleitorais do país.

Foto: Paulo Pinto/Agência Brasil
  1. Minas Gerais: o estado-pêndulo brasileiro?

O conceito de estado-pêndulo (swing state) é comumente utilizado nas eleições presidenciais estadunidenses e refere-se a um estado em que a disputa eleitoral costuma ser equilibrada entre os principais partidos – tradicionalmente, o Partido Democrata e o Partido Republicano – e cujo resultado pode influenciar decisivamente a eleição presidencial.

Embora não se possa estabelecer uma equivalência perfeita no caso brasileiro, dadas as substanciais diferenças entre os dois sistemas eleitorais, Minas Gerais é frequentemente comparada a um estado-pêndulo, especialmente nas eleições presidenciais, em razão de sua diversidade regional, de seu peso eleitoral e de seu histórico recente de coincidir com o vencedor nacional. A comparação, porém, constitui uma analogia analítica, e não uma categoria formal do sistema eleitoral brasileiro.

Em 1989, na primeira eleição presidencial direta desde 1960, Fernando Collor (PRN) derrotou Lula (PT) em Minas Gerais, no segundo turno, por 55,52% a 44,48%. No Brasil, Collor venceu por 53,03% a 46,97%. Em 1994, Fernando Henrique Cardoso (PSDB) foi eleito no primeiro turno com 64,82% dos votos em Minas Gerais, enquanto Lula obteve 21,90%. No país, FHC alcançou 54,28%, contra 27,04% de Lula. Em 1998, o tucano voltou a vencer no primeiro turno, registrando 55,68% dos votos em Minas Gerais, diante de 28,06% de Lula. No Brasil, os percentuais foram de 53,06% para Fernando Henrique e 31,71% para Lula.

As disputas seguintes foram decididas no segundo turno. Em 2002, Lula derrotou José Serra (PSDB) por 66,45% a 33,55% em Minas Gerais e por 61,27% a 38,73% no Brasil. Em 2006, foi reeleito ao vencer Geraldo Alckmin (então no PSDB e atualmente filiado ao PSB, como vice-presidente da República) por 65,19% a 34,81% em Minas Gerais e por 60,83% a 39,17% no país. Em 2010, Dilma Rousseff (PT) derrotou José Serra por 58,45% a 41,55% em Minas Gerais e por 56,05% a 43,95% no Brasil. Em 2014, Dilma foi reeleita ao vencer o ex-governador mineiro Aécio Neves (PSDB) por 52,41% a 47,59% em Minas Gerais e por 51,64% a 48,36% no país.

Após quatro vitórias consecutivas de candidaturas petistas, Jair Bolsonaro (então filiado ao PSL) derrotou Fernando Haddad (PT) no segundo turno. Em Minas Gerais, Bolsonaro obteve 58,19% dos votos, contra 41,81% de Haddad. No Brasil, venceu por 55,13% a 44,87%. Primeiro incumbente não reeleito desde a aprovação da emenda constitucional que passou a permitir a recondução para cargos do Executivo, Jair Bolsonaro (PL) saiu derrotado por Lula (PT) em 2022, em outra disputa que terminou somente no segundo turno. Mais uma vez, Minas Gerais espelhou o Brasil. Em Minas: 50,20% a 49,80% para Lula; em todo o território nacional: 50,90% contra 49,10%.

  1. A idiossincrasia do voto mineiro: um eleitorado que historicamente dissocia suas escolhas para o governo estadual e a Presidência da República

Em 1960, as eleições para presidente e vice-presidente ocorriam de forma separada. Ou seja, o eleitor podia escolher o candidato à Presidência da República de uma chapa e o candidato à Vice-Presidência de outra.

Tomemos como exemplo a eleição presidencial de 2022: em um sistema como o vigente em 1960, o eleitor poderia ter votado separadamente em Lula (PT), que tinha Geraldo Alckmin (PSB) como candidato a vice-presidente, para a Presidência da República, e em Braga Netto (PL), general da reserva do Exército que integrava a chapa de Jair Bolsonaro (PL), para a Vice-Presidência – ou vice-versa.

Foi justamente o que o eleitor brasileiro fez na eleição presidencial de 1960. Jânio Quadros (PTN), político populista de perfil conservador, foi eleito presidente da República, tendo Milton Campos (UDN), ex-governador de Minas Gerais, como candidato a vice-presidente em sua chapa. Para a vice-presidência, entretanto, o eleitorado escolheu João Goulart (PTB), o “Jango”, representante do campo trabalhista e progressista, que integrava a chapa do marechal Teixeira Lott (PSD). Entre a população, ganhou força o movimento “Jan-Jan” (Jânio e Jango), e dois políticos de perfis divergentes acabaram eleitos para ocupar, respectivamente, a Presidência e a Vice-Presidência da República.

O que viria adiante é história. Jânio Quadros renunciou seis meses após tomar posse, acreditando que voltaria ao cargo nos braços do povo. Jango assumiu a presidência e permaneceu no cargo até ser deposto pelo golpe militar de 1964.

A comparação não chega a tanto, mas o eleitor mineiro também apresenta uma interessante idiossincrasia. Nem sempre opta por votar em um candidato ao governo estadual alinhado ao seu candidato à Presidência da República. Pelo menos neste século, em diversos momentos, escolheu, simultaneamente, governadores e presidentes situados em campos políticos distintos no cenário brasileiro.

Aécio Neves (PSDB) foi eleito governador do estado em 2002 e reeleito em 2006 com ampla margem. Nas duas ocasiões, derrotou o ex-deputado federal Nilmário Miranda (PT) no primeiro turno. Porém, como demonstrado anteriormente, Lula (PT) venceu, respectivamente, José Serra (PSDB), em 2002, e Geraldo Alckmin (então filiado ao PSDB), em 2006, nas eleições presidenciais em Minas Gerais, também por margens muito expressivas.

Ainda no auge da polarização existente entre PT e PSDB, que marcou a política brasileira por praticamente duas décadas, o eleitor mineiro, tanto em 2002 quanto em 2006, optou por Aécio Neves para o Palácio Tiradentes, mas escolheu Lula para a Presidência da República, rejeitando as alternativas tucanas ao Palácio do Planalto nas duas eleições.

Em 2010, Lula deixou o Palácio do Planalto com 87% de aprovação e indicou Dilma Rousseff (PT) como sua sucessora. A ex-ministra venceu aquele pleito, inclusive em Minas Gerais. No entanto, após duas derrotas expressivas na disputa pelo governo estadual, o PT optou por não lançar candidatura própria e apoiou Hélio Costa, ex-ministro das Comunicações, que concorreu pelo PMDB (atual MDB). A eleição terminou, mais uma vez, no primeiro turno, com a vitória de Antonio Anastasia (PSDB), atualmente ministro do Tribunal de Contas da União (TCU), em novo revés para o grupo petista na disputa pelo governo de Minas Gerais.

Foi somente em 2014 que o eleitor mineiro, após anos de dissociação entre suas escolhas para o governo estadual e a Presidência da República, voltou a optar por candidatos alinhados para os dois cargos. Dilma Rousseff foi reeleita presidente em uma disputa acirrada no segundo turno contra Aécio Neves, então candidato do PSDB, por 51,64% a 48,36%.

Para esta análise, importa destacar que Aécio foi derrotado justamente em Minas Gerais, estado que governara por oito anos em dois mandatos consecutivos. A petista venceu no estado por 52,41% a 47,59%, resultado que acompanhou o desfecho nacional e contribuiu para sua reeleição.

Diferentemente das disputas eleitorais anteriores, o eleitorado mineiro escolheu Fernando Pimentel (PT), do mesmo partido da presidente e ministro em seu primeiro mandato, para ocupar o governo estadual no primeiro turno, com 52,98% dos votos válidos. Em segundo lugar ficou Pimenta da Veiga (PSDB), com 41,89%.

A eleição de 2018 apresentou características atípicas por diversos fatores, tornando-se objeto de análise de vários cientistas políticos. O pleito marcou o fim da polarização existente entre PT e PSDB. O partido tucano perdeu espaço para setores mais à direita em uma disputa marcada pelo discurso antissistema pós Operação Lava-Jato, enquanto os chamados “outsiders” saíram vencedores em importantes disputas pelo país.

Jair Bolsonaro (à época filiado ao PSL) venceu em Minas Gerais e em todo o território nacional nos dois turnos da eleição presidencial. Na disputa pelo governo estadual, Romeu Zema (NOVO), empresário mineiro do campo conservador que estreava em uma disputa eleitoral, cresceu de maneira repentina na reta final da campanha eleitoral, vencendo Antonio Anastasia (PSDB) com mais de 70% dos votos válidos no segundo turno.

Mesmo em uma eleição considerada atípica, Minas Gerais preservou sua tradição histórica: o candidato à Presidência mais votado no estado também foi o vencedor da disputa nacional.

A disputa de 2022 não fugiu à “regra”, e Minas Gerais mais uma vez reproduziu o resultado nacional. Porém, reencontrando sua idiossincrasia, o eleitor mineiro escolheu Lula para presidente nos dois turnos, ao mesmo tempo em que optou pela reeleição de Romeu Zema para o governo estadual, conquistada ainda no primeiro turno.

A singularidade das eleições mineiras foi responsável por fenômenos que frequentemente chamam a atenção de analistas de todo o país.

No auge da rivalidade entre PT e PSDB, a força política de Lula e Aécio Neves, em Minas Gerais, resultou em uma emblemática articulação que reuniu os dois líderes em torno da candidatura de Márcio Lacerda (PSB) na eleição municipal de Belo Horizonte, em 2008. O movimento ficou conhecido como “Lulécio”, e o candidato pessebista saiu vitorioso.

Em 2022, Romeu Zema buscava a reeleição e era aliado do então presidente Jair Bolsonaro. No entanto, diante da força eleitoral de Lula no estado, evitou um alinhamento explícito à campanha bolsonarista no primeiro turno. Surgia o “Luzema”, expressão que ganhou força após pesquisas indicarem que uma parcela relevante do eleitorado mineiro pretendia realizar essa escolha cruzada: votar em Lula na disputa presidencial e, simultaneamente, pela reeleição de Zema no governo estadual. Associado ao campo da direita liberal, Zema representava um espectro político distinto do de Lula, identificado com a esquerda, reforçando novamente um padrão do eleitor mineiro de dissociar suas escolhas para os cargos estadual e nacional.

Tomo a liberdade de puxar brasa para a minha sardinha e fazer uma breve referência à minha cidade natal, Cataguases, localizada na Zona da Mata mineira, como mencionei no início deste texto.

Desde 1989, em todas as eleições presidenciais, a maioria dos eleitores cataguasenses escolheu candidatos do PT, mesmo nas ocasiões em que o partido saiu derrotado em Minas Gerais e no resultado nacional. Na cidade, Lula venceu em 1989, 1994, 1998, 2002, 2006 e 2022. Dilma Rousseff venceu em 2010 e 2014. E, mesmo em 2018, eleição considerada atípica, Fernando Haddad também foi o mais votado no município.

No entanto, a população cataguasense quase sempre escolheu prefeitos associados ao campo da direita nas eleições municipais – a exceção ocorreu em 2012, quando um candidato filiado ao PCdoB saiu vitorioso. No mesmo período, a cidade elegeu prefeitos do MDB (em seis oportunidades), do extinto PFL (em uma oportunidade) e do PSDB (em duas oportunidades). O PT jamais venceu uma eleição municipal em Cataguases e historicamente apresenta desempenho modesto nas disputas pelo Executivo local.

Conclusão

É evidente que a dissonância observada nos votos do eleitor mineiro não constitui um fenômeno isolado de uma única eleição. Trata-se de uma característica recorrente de seu comportamento eleitoral, marcada por uma forma própria – e por vezes pouco convencional – de avaliar escolhas políticas.

No primeiro turno das eleições de 2022, Lula conquistou 48,29% dos votos válidos em Minas Gerais, ao passo que Alexandre Kalil, seu candidato ao governo do estado, obteve 35,08%. Romeu Zema, por sua vez, foi reconduzido ao cargo ainda na primeira rodada, com 56,18% dos votos. O resultado evidenciou uma particularidade do eleitor mineiro: a formação da improvável dobradinha Lula-Zema, expressando uma lógica eleitoral que nem sempre se alinha às tradicionais divisões partidárias.

Nessa linha, merece destaque um episódio curioso ocorrido no estado de São Paulo nas eleições de 2022. Tarcísio de Freitas, candidato do Republicanos ao governo estadual com o apoio de Jair Bolsonaro, disputava a eleição tendo o “10” como número de urna, enquanto o então presidente concorria à reeleição pelo PL com o número “22”. A diferença entre as numerações acabou produzindo um fenômeno inusitado: parte do eleitorado bolsonarista, ao tentar reproduzir o voto presidencial na disputa estadual, acabou digitando “22” na urna para governador, gerando uma parcela expressiva de votos anulados (521 mil).

O episódio evidencia o forte vínculo entre a escolha presidencial e a disputa estadual para uma parcela do eleitorado de São Paulo. Naquele pleito, Jair Bolsonaro foi o candidato mais votado no estado nos dois turnos da eleição presidencial.

No caso do eleitor mineiro, a combinação entre diferentes correntes políticas parece fazer parte de uma lógica eleitoral própria. Não há resistência aparente em apertar “45” para governador – número do PSDB – e “13” para presidente – número do PT – ou “30” para governador – número do NOVO – e, novamente, “13” para presidente.

A título de comparação, o contraste do comportamento eleitoral mineiro torna-se ainda mais evidente quando observado em relação aos dois outros maiores colégios eleitorais do país: São Paulo, o maior deles, e Rio de Janeiro, o terceiro maior. Nesses estados, os candidatos mais votados para o governo estadual estavam politicamente alinhados ao candidato que recebeu a maior votação para a Presidência da República em 2022.

Jair Bolsonaro venceu nos dois turnos em São Paulo, obtendo 47,41% dos votos válidos no primeiro turno e 55,24% no segundo. Tarcísio de Freitas (Republicanos), por sua vez, também saiu vitorioso nas duas etapas da disputa pelo governo estadual, com 42,32% na primeira rodada e 55,27% na segunda. Destaca-se a proximidade praticamente absoluta entre os percentuais alcançados por Bolsonaro e Tarcísio no segundo turno, evidenciando uma forte convergência entre as escolhas do eleitorado paulista para a Presidência e para o governo estadual.

No mesmo pleito, Bolsonaro também saiu vitorioso nos dois turnos no Rio de Janeiro: obteve 51,09% dos votos válidos no primeiro turno e 56,53% no segundo. No âmbito estadual, Cláudio Castro (PL), aliado do ex-presidente, foi reeleito ainda na primeira rodada de votação, com 58,67% dos votos válidos, reforçando o alinhamento entre as escolhas do eleitorado fluminense para a Presidência e para o governo estadual.

As perguntas que se impõem são: 2026 confirmará a regra ou será exceção? A fragilidade dos palanques estaduais dos principais postulantes à Presidência da República em Minas Gerais será determinante para o desempenho por eles alcançado ao final da eleição? A experiência mineira demonstra que essas respostas estão longe de ser simples.

O fato é que o eleitor de Minas Gerais não parece se constranger diante da possibilidade de construir novos “Jan-Jans”, “Lulecios” ou “Luzemas”. Sem medo de ser feliz (ou triste).

 

Leonardo Delfino é advogado, formado pela UFJF, pós-graduado em Direito Público, assessor legislativo na Câmara Municipal do Rio de Janeiro, ex-assessor parlamentar da Câmara dos Deputados e ex-assessor parlamentar da Câmara Municipal de Cataguases

 

Referências

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G1 MINAS GERAIS. Quaest: pesquisa mostra cenário da disputa pelo governo de Minas Gerais. Belo Horizonte, 28 abr. 2026. Disponível em: https://g1.globo.com/mg/minas-gerais/eleicoes/2026/noticia/2026/04/28/quaest-governo-estado.ghtml. Acesso em: 22 jul. 2026.

G1 MINAS GERAIS. Pacheco confirma que não disputará governo de MG e diz que vai encerrar carreira política. Belo Horizonte, 29 maio 2026. Disponível em: https://g1.globo.com/mg/minas-gerais/eleicoes/2026/noticia/2026/05/29/pacheco-confirma-que-nao-disputara-governo-de-mg-e-diz-que-vai-encerrar-carreira-politica.ghtml. Acesso em: 22 jul. 2026.

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JORNAL DO COMMERCIO. Tarcísio perdeu votos no primeiro turno porque eleitores anularam o voto; entenda o caso. Recife, 2022. Disponível em: https://jc.uol.com.br/dinheiro/2022/10/15103792-tarcisio-perdeu-votos-no-primeiro-turno-porque-eleitores-anularam-o-voto-entenda-o-caso.html. Acesso em: 22 jul. 2026.

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