Uma conversa com Kênia Marangão sobre seu novo livro que traz o insólito em meio ao cotidiano
O livro publicado pela editora Patuá reúne dezoito histórias curtas que usam o insólito para abordar incômodos muito reais
A busca por liberdade e mudança é algo com que vez ou outra nos deparamos durante o decorrer da vida. Esta busca é o tema central trabalhado por Kênia Marangão em O vôo das libélulas e outros contos inflamáveis (editora Patuá), obra com atmosfera onírica de maneira a que foge do realismo cru para tratar de situações muitas vezes um tanto desconfortáveis da vida cotidiana. A coletânea é composta por 18 contos e já inicia com uma epígrafe de Gabriel García Márquez, um dos maiores nomes do realismo fantástico (se não o maior), para mergulha na subjetividade de personagens de vidas comuns que, pela via do desejo, procuram por libertação ou mudança.
Kênia Marangão nasceu em São Paulo, capital, mas viveu a adolescência na cidade de Garça, no Centro-Oeste do estado. Graduou-se em Artes Plásticas na Unicamp, exerceu o magistério, cursou Direito e hoje segue pela transversal da escrita. Integrou o grupo Pirlimpimpim, de contadores de histórias, fez performances para o público infantil e adulto, adaptações de textos para a oralidade e narrativas originais para as apresentações. Apaixonada pela literatura que une o real ao fantástico, escreve contos e romance. O vôo das libélulas e outros contos inflamáveis é seu primeiro trabalho publicado.
Confira a entrevista completa com a autora abaixo
Por que você decidiu colocar o cotidiano como tema condutor para os contos do livro?
Escrevo sobre o cotidiano, sobre fatos que, apesar de comuns, despertam medos, desejos, obsessões… escrevo sobre acontecimentos aparentemente corriqueiros que nos atravessam, nos surpreendem e acabam mudando o curso da vida ou mostram novos vieses e possibilidades. Os contos reunidos na obra são convites para mergulhar em eventos banais transformados em realidades fantásticas. Neles, é possível encontrar pistas para novos olhares e ressignificação de vivências. Tratam de libertação, compreensão de realidades, transcendência. Embora as histórias e os personagens sejam fictícios, é fácil reconhecê-los em amigos, vizinhos, parentes e, com bastante frequência, em nós mesmos.

E por que te interessou tratar dos desafios cotidianos?
Porque viver é enfrentar atribulações. Somos empurrados para a missão de compreender, enfrentar, vencer, superar ou até mesmo sucumbir a dilemas. Já que não há como escapar, melhor estarmos preparados.
E você acredita que a literatura fantástica pode nos ajudar a enxergar novos caminhos diante dos dilemas do cotidiano?
O cotidiano, a realidade de cada pessoa é algo único e complexo. Penso que a ficção, na forma da literatura fantástica é a melhor maneira de nos aproximarmos das verdades pessoais sem reduzi-las. Ela proporciona um tipo de compreensão que ultrapassa a racionalidade estrita, ecoa entre pensamentos e sentimentos sem dar respostas, mas nos impulsiona a encontrá-las.
Como foi o processo de escrita do livro? E quanto tempo durou?
É quase impossível precisar o tempo que levei para escrever o livro. Ele surgiu quando percebi que tinha uma quantidade enorme de textos inacabados, alguns com ideias excelentes, mas não desenvolvidas. Escritos colecionados há quase uma década. Estudei, selecionei o material, reestruturei os contos, aprimorei a linguagem, lapidei e só então percebi que formavam um conjunto coeso, coerente em tema e forma. O processo, a partir da seleção até as últimas revisões, durou mais ou menos dois anos e meio.
O título do livro é bastante interessante. Sabemos que “O vôo da libélula” nomeia um conto, mas por que “e outros contos inflamáveis”?
O que a arte e a literatura fazem é sensibilizar e questionar, mexem com nossas percepções, certezas e incertezas, com aquilo que nos humaniza, mas não fornecem resposta. Assim, o título O voo das libélulas e outros contos inflamáveis tem razão de ser: para leitores atentos, os contos ardem. Assim como as inflamações do corpo, espero que assim como espero que contribuam para a recuperação das lesões da alma.
A influência de García Márquez é iminente no livro, afinal, um trecho escrito pelo autor aparece na epígrafe. Além do Gabo, outros autores influenciam sua escrita?
Adoro a maneira que Domenico Starnone escreve, mas não sei se posso dizer que tenha tido alguma influência direta nos meus trabalhos. Leio muita literatura nacional contemporânea, sou fã da Giovana Madalosso, Andrea del Fuego, Natalia Borges Polesso, Mariana Salomão
Carrara, Marília Arnaud. Amei AVegetariana, da coreana prêmio Nobel de Literatura e quero devorar tudo o que ela escreveu. De forma consciente ou inconsciente, minhas leituras acabam transparecendo na escrita.
Como você define o seu estilo de escrita?
Acredito que o estilo se desenvolve no ato de escrever e, portanto, está sempre se construindo e se redefinindo. Até agora, os elementos do realismo mágico são um recurso narrativo recorrente. Vejo a ficção, inclusive com elementos fantásticos, a melhor maneira de traduzir a realidade.
No mais, escrevo de maneira simples. Gosto de usar descrições de sensações táteis. Faço isso para que o leitor se sinta dentro do texto em pé de igualdade (e vulnerável) como os personagens.

Na sua trajetória profissional, há a presença das artes plásticas e do Direito, área em que você exerce sua profissão formal. Você poderia comentar como estas experiências impactaram na sua escrita?
Escrevi na adolescência, mas na época o apelo das artes visuais era mais forte e optei por elas. Retornei à escrita já madura (o que acredito ser uma vantagem) durante a faculdade de Direito para escapar e aprimorar os modelos técnicos. Os primeiros textos livres contos e crônicas são desse tempo. E, por mais que eu tenha tentado escapar do fazer artístico exercendo outras profissões, a escrita ressurgiu para me colocar de volta no lugar a que pertenço, a um lugar de expressão, de questionamento e criação.
O que esse livro representa para você? Você acredita que a escrita do livro te transformou de alguma forma? Por quê?
Quando abandonei o “fazer arte” para me dedicar a trabalhos formais e remunerados entrei em depressão. Fiz os tratamentos médicos necessários, me curei, mas passei por recaídas e reincidências. Algo me faltava. A busca da beleza e do inusitado através do exercício criativo é necessidade que eu não deveria ter menosprezado. Desde que assumi a escrita como minha forma de expressão (mesmo com a ansiedade que esse exercício implica) me sinto de volta a quem sou.
Ana Ferrari é uma jornalista formada pela Faculdade Cásper Líbero e pós-graduanda em Edição e Gestão Editorial pelo Núcleo de Estratégias e Políticas Editoriais (NESPE). Sempre teve forte ligação com a literatura e às vezes se aventura a escrever textos ficcionais.

