Uma guerra inútil, difícil de justificar e ganhar - Le Monde Diplomatique

Paquistão

Uma guerra inútil, difícil de justificar e ganhar

Edição - 29 | Paquistão
por Muhammad Idrees Ahmad
3 de dezembro de 2009
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De um lado, o Talibã. De outro, o governo. Entre eles, a população paquistanesa, que atualmente não sabe a quem temer: se o exército insurgente ou as tropas oficiais. A onda de dúvidas e o sentimento de insegurança no Paquistão geram disputas e tensões cada vez mais acirradas

Desde minha chegada a Peshawar, em meados de setembro de 2009, ouvi nove explosões, antecedidas por assobios cortantes. O som vinha de Hayatabad, subúrbio a oeste da cidade. O alvo desses foguetes? Um posto de guardas que monitora a fronteira com a região tribal de Khyber.

Encorajado pelos americanos, o governo do Paquistão declarou, em 2002, guerra ao Talibã, o que levou à multiplicação das operações militares em áreas tribais sob administração federal (Federally Administered Tribal Areas, FATA). Essas áreas, localizadas ao longo da fronteira com o Afeganistão, no noroeste do país, possuem três milhões de habitantes (cerca de 2% da população paquistanesa). Depois de sua derrota no Afeganistão, os talibãs se refugiaram no Waziristão do Norte, sob a liderança do senhor de guerra antissoviético, Jalaluddin Haqqani, e, em Bajaur, sob o partido Hizb-e-Islami, de Gulbuddin Hikmatyar. O exército nacional, que até então hesitara em atacar esses afegãos, considerando-os como um trunfo contra a crescente influência da Índia no Afeganistão, finalmente entrou no Waziristão do Sul para capturar os “estrangeiros”1.

A recusa, por parte das tribos, de se livrar de seus hóspedes, acabou os unificando contra o governo central. Assim, vários grupos militantes se juntaram aos talibãs paquistaneses, menos disciplinados que suas contrapartes no Afeganistão, e a chefia dessas áreas passou para as mãos de homens como o carismático Nek Muhammad, de apenas 27 anos, mas ex-combatente na guerra contra a União Soviética e o Afeganistão, e feroz adversário da presença americana no país.

Apoio aos Estados Unidos

Durante o conflito contra os soviéticos, tanto os rebeldes afegãos como suas armas passaram pelas áreas tribais. Hoje, porém, a política do governo e as aspirações do povo não convergem como naquele tempo, especula Rustam Shah Mohmand, analista político paquistanês. Segundo ele, isso acontece por três razões principais: a decisão tomada, em 2001, pelo presidente Pervez Musharraf, de participar na “guerra contra o terrorismo” travada pelos Estados Unidos; o uso excessivo da força no apoio a esse conflito, percebido como puramente americano; e o desaparecimento ou a entrega aos Estados Unidos de pessoas suspeitas de terrorismo, muitas delas inocentes. A partir daí aumentou o fosso entre o povo e o governo.

Em 2002, na Província da Fronteira Noroeste, chega ao poder o Conselho Unido Para a Ação (Muttahidda Majlis-e-Amal, MMA), uma coalizão de partidos religiosos que se opunha à “guerra contra o terrorismo”2. As instituições locais entraram em colapso, principalmente o gabinete do “agente político”, que, desde meados do século XIX, durante o Império Britânico, fazia a ligação entre o governo federal e os maliks, os líderes tribais. A infraestrutura tribal tradicional e o conceito de autonomia regional também saíram prejudicados, o que contribuiu para aumentar a insegurança.

Em 2004, após Musharraf sofrer dois atentados fracassados, o governo enviou ao Waziristão do Sul cinco mil soldados apoiados por helicópteros de combate. As tropas, porém, sofreram pesadas perdas e o presidente foi forçado a assinar um tratado de paz com Nek Muhammad. O cessar-fogo foi interrompido em 18 de junho, quando o jovem líder foi assassinado por um ataque aéreo americano, pelo qual o governo paquistanês assumiu a responsabilidade – como é frequente – para não ter que admitir que a sua soberania houvesse sido violada por Washington.

Dois outros acordos de paz foram concluídos nos anos seguintes até que, em agosto de 2007, as forças armadas do Paquistão invadiram uma mesquita ocupada por militantes pró-talibãs em Islamabad. Essa intervenção, que resultou na morte de muitas pessoas inocentes, provocou uma onda de terrorismo por todo o país. Em resposta, o exército expandiu suas operações nas províncias de Bajaur, Mohmand e Khyber. Os combates foram violentos e sem vencedores. Milhões de pessoas foram obrigadas a se deslocar e a raiva contra o governo cresceu.

As tensões atingiram o auge em 2009, quando forças paquistanesas invadiram o vale de Swat após o fracasso da Ordem do Tribunal Islâmico (Nizam-e-Adl), o novo acordo de paz que o governo federal tinha assinado com o Movimento para a Aplicação da Sharia Islâmica (Tehreek Nifaz-e-Shariat-e-Muhammadi, TNSM), partido local que defende a restauração da lei islâmica na região.

Até 1969, os três distritos de Malakand – Chitral, Dir e Swat – eram, de fato, estados principescos independentes, com os seus próprios códigos legais. Sua fusão com o Paquistão levou à substituição desses códigos pela legislação nacional, mas os procedimentos judiciais já existentes não foram alterados em consonância. Nos tribunais dos distritos os processos ficaram em aberto e as decisões foram continuamente adiadas. Essa situação provocou, desde o fim dos anos 1970, uma campanha para o retorno ao sistema anterior e estimulou a fundação do TNSM em 1989 pelo líder Sufi Muhammad.

Ao longo dos anos seguintes, este movimento pegou em armas duas vezes, o que forçou os governos de Benazir Bhutto, em 1994, e de Nawaz Sharif, em 1999, a fazerem inúmeras concessões para acabar com a violência. Todas em vão: o TNSM nunca deixou de se desenvolver. Muhammad foi para o Afeganistão combater as forças dos EUA, à frente de dez mil homens. A maioria deles foi morta ou capturada, ele perdeu muito de sua credibilidade. Por fim, foi preso em Dera Ismail Khan.

Em 2005, porém, seu filho, o Mullah Fazlullah, reativou o TNSM, que se radicalizou. Depois de ser rebatizado Movimento Talibã do Paquistão (Tehreek-e-Taliban Pakistan, TTP), em dezembro de 2007, o partido ganhou popularidade entre os mais pobres. A retórica populista de seu líder, Baitullah Mehsud, seu método de dispensar justiça rápida e as críticas à velha elite feudal atraíram muitos jovens insatisfeitos. Asif Ezdi, outro analista político, explica que “o Estado tem decepcionado muito” os jovens, e acrescenta: “O islamismo militante no Paquistão tem se alimentado do comportamento das elites, que utilizam o Estado para preservar e aumentar seus privilégios e deixam as pessoas comuns numa pobreza crescente.”

Confrontados com o desemprego, uma grande quantidade de jovens se juntou às fileiras dos talibãs, porque, assim, eles poderiam obter armas e treinamento militar.

Ao mesmo tempo, os meios de comunicação privados empurravam para um confronto político e a guerra travada pelos talibãs começou a ser vista como uma luta contra as elites. “Em algumas áreas, os camponeses sem-terra se levantaram contra os latifundiários ricos”, diz Ezdi. “E isso num país onde as pessoas comuns não têm muitas oportunidades de ultrapassar as barreiras sociais, pois o governo, o sistema político e as elites parecem estar juntos contra eles. Essa mistura de fervor revolucionário e religioso é que propiciou o sucesso do Talibã3.”

Os pequenos criminosos, por sua vez, se integravam ao TTP na medida em que sua influência crescia, para escapar da justiça rápida dos talibãs, mas também para se beneficiar tanto das armas, como da rede de relacionamentos poderosa que eles usaram para aterrorizar os concorrentes, bem como a população. Nesse ínterim, de acordo com sua interpretação estrita do Islã, os talibãs locais proibiram a educação das meninas e mais de cem escolas foram bombardeadas, o que causou um rápido declínio na sua popularidade. Até mesmo o TTP, por meio de seu porta-voz, Maulvi Omar, expressou reservas sobre tal decisão.

Ansioso para conter o impacto do TTP, o governo liberou Muhammad em 2008. Ele havia, oficialmente, renunciado à violência e as negociações terminaram em fevereiro de 2009 com o compromisso de fim das hostilidades e a entrega de armas. Em contrapartida, o governo federal aceitaria os tribunais islâmicos, nos quais a lei se apoia na chariá. O acordo foi ratificado somente em 14 de abril de 2009 e, apesar de uma aparência de normalidade, a paz não retornou no vale de Swat e nenhuma das partes envolvidas respeitou seus compromissos.

Alguns analistas ocidentais e seus aliados locais se apressaram em denunciar a nova legislação, afirmando que o Paquistão estava à beira do colapso e que seu arsenal nuclear em breve ficaria em mãos do Talibã, que já estava organizado a cem quilômetros da capital. A pressão se intensificou sobre Islamabad. Em maio, quando um grupo de militantes do TTP organizou um ataque no vale de Buner, a mídia apresentou o incidente como o prelúdio de uma marcha na capital e os tanques do exército começaram a se movimentar.

As forças armadas conseguiram desalojar os militantes do Talibã, mas quase três milhões de civis foram deslocados como resultado da intervenção. Entre os que permaneceram, muitos foram mortos no bombardeio. A agência das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR) denunciou esses atos e alertou que não poderia fornecer mais que um terço do suporte necessário. A maioria dos refugiados foi alojada por familiares e amigos. O governo não ofereceu nenhuma assistência e a ajuda externa foi parar, sobretudo, nos bolsos dos políticos corruptos. Os governantes do Sindh e do Punjab, no Paquistão Oriental, impuseram restrições à entrada de refugiados nas suas províncias, o que ressaltou a dimensão étnica do conflito: os pashtuns imediatamente se consideraram os alvos principais dessas decisões.

No entanto, ao contrário da intervenção militar nas áreas tribais, essa operação foi aprovada pela população do Paquistão – 41%, de acordo com várias pesquisas da época4 – e saudada como um sucesso pelos dirigentes políticos, os militares e os meios de comunicação. Todos consideraram que era imprescindível lutar contra os militantes e criminosos em Malakand, sem, porém, aprovar o uso da força. “Acho que [a guerra] era evitável”, disse Rahimullah Yusufzai, jornalista e analista renomado, “mas o Paquistão não é um ator livre e independente. Os Estados Unidos e outros países têm exercido pressão, e, por várias razões, o governo não pôde resistir.” Para ele, os militantes, nunca foram uma ameaça para o país ou para o seu arsenal nuclear. “O governo mesmo diz que não havia mais de cinco mil talibãs. Sim, eles controlavam o vale do Swat, mas de quantos homens dispunham para marchar sobre a capital?”

Cegueira política

O Paquistão tem 73 milhões de habitantes, um milhão deles no exército, e possui uma força aérea bem equipada. “O Talibã não tinha nem a capacidade nem a intenção de entrar na capital”, diz Yusufzai. “Eles visavam somente o Malakand, e mesmo lá eram influentes em apenas três distritos”. O analista aponta que muitos estão convencidos de que Muhammad poderia, pelo seu carisma, resolver o conflito e marginalizar os extremistas.

O ex-ministro paquistanês Roedad Khan se pergunta se todas as opções políticas foram consideradas. “Nós nunca vimos uma guerra mais inútil, mais difícil de justificar e ganhar”. Rustam Shah Mohmand, outro comentarista, se pergunta: “Se o objetivo da intervenção foi o de combater os elementos hostis ao Estado, era preciso atacar apenas a eles. Por que o governo achou necessário invadir todo o território? Ao usar a força aérea e o bombardeio indiscriminado, ele tinha certeza que o povo sofreria.” O poder certamente prevaleceu no Vale do Swat, mas, de acordo com o Mohmand, o preço a pagar pode ser caro demais se “as causas políticas, sociais e econômicas que provocaram o aparecimento dos talibãs não forem revistas e se não ocorrer uma extensa reconstrução.”

Para Yusufzai, outros sinais de cegueira política são a prisão de membros do Shura, o Comitê Consultivo do Talibã, que as autoridades paquistanesas convidaram, em setembro passado, para negociações; a tática de armar milícias contra os talibãs em uma região onde os feudos de sangue prevalecem; e a demolição de casas de famílias inteiras, ordenada pelo governo paquistanês no vale de Swat, em retaliação contra um de seus filhos em fuga. Tudo isso, analisa o jornalista, só pode levar ao aparecimento de novos recrutas para a insurgência.

E apesar de constatarmos a volta de uma paz frágil, isso é graças à execução de mais de duas centenas de suspeitos desde que os combates terminaram, com total impunidade. A população vive aterrorizada pelas forças de segurança. “Se antes as pessoas estavam assustadas com os talibãs, elas agora vivem com medo do exército”, disse Yusufzai. “Qualquer um pode ser acusado de ser talibã. Sua casa é então demolida, a pessoa é presa e, amanhã, seu corpo é jogado numa vala qualquer. As pessoas estão assustadas, têm medo de falar.”

Em outubro passado, na véspera da incursão militar no Waziristão do Sul, o Talibã multiplicou suas operações. Sob a liderança de Hakimullah Mehsud, eles tinham como objetivo conquistar Hangu, Kohat, Shangla e P
eshawar, mesmo que para tanto tivessem que matar boa parte da população. Quando o governo central intensificou os bombardeios aéreos, para preparar a ofensiva terrestre, as ações dos talibãs se tornaram mais espetaculares. Simpatizantes, vindos do Punjab até se atreveram a atacar o quartel-general do Exército em Rawalpindi.

Enquanto isso, os ataques dos aviões não tripulados americanos continuaram nas áreas tribais. De acordo com uma pesquisa publicada pelo The News5, cerca de 700 civis morreram durante 60 bombardeios, entre 29 de janeiro de 2008 e 8 de abril de 2009. Apenas 14 desses mortos eram suspeitos de serem militantes. A opinião pública ficou indignada6.

É entre todos esses percalços que o Paquistão segue tentando realizar o que os Estados Unidos e a OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte) não foram capazes de conseguir no Afeganistão. Mas, quanto mais dura a ação militar, mais as províncias fronteiriças tendem a escapar ao seu controle. Com crescente número de vítimas e da insegurança, a revolta já ganhou alguns distritos do Punjab. Ao mesmo tempo, essa realidade não impede que as elites paquistanesas ou comentaristas ocidentais esperem eliminar todos os talibãs. E as vozes que se erguem contra a guerra são imediatamente suspeitas de serem simpatizantes.

Corações em disputa

A recente incursão de 28 mil soldados no Waziristão do Sul provocou um novo êxodo massivo: um terço da população foi deslocado. Enquanto os talibãs perdiam cada vez mais adeptos, a Associated Press apontou que os refugiados expressavam sua raiva contra o governo, gritando: “Viva o Talibã!” Em vez de conquistar os corações e mentes, o governo os entrega ao inimigo e se os talibãs não são amados, ele o é ainda menos. A convicção de que o Paquistão combate pelos Estados Unidos persiste.

Segundo o jornalista Syed Saleem Shahzad, os acontecimentos dos últimos sete anos têm provado que o Talibã sai sempre fortalecido das operações conduzidas contra ele. Eles já se reagrupam no vale de Swat, que tinham abandonado durante o ataque. “Quando a neve começar a cobrir as principais rotas de suprimentos é provável que os talibãs recuperem todo o território perdido7”, afirma. A mídia e os comentaristas ocidentais já não mantêm mais seu otimismo.

Foi em um desses dias que ouvi os assobios cortantes sobre Hayatabad. Um dia depois dos ataques, o custo do pão no mercado era de 15 rúpias, quase cinco vezes mais alto que na véspera. Enquanto isso, os salários estão estagnados, a inflação e o desemprego aumentam. Nas ruas, ninguém falava dos perigos que ameaçam a vida das pessoas, todo mundo estava reclamando dos preços dos alimentos.

 

*Muhammad Idrees Ahmad é jornalista, co-fundador do site Pulse.



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