Uma Internacional reacionária - Le Monde Diplomatique Brasil

A EXPANSÃO DO EVANGELISMO

Uma Internacional reacionária

por Akram Belkaïd e Lamia Oualalou
1 de setembro de 2020
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Desde o início dos anos 1980, o evangelismo mobiliza multidões de fiéis reunidos por uma mesma visão ultraconservadora do mundo. Capazes de articular alianças transfronteiriças como entre a Coreia do Sul e os Estados Unidos, os pastores dessa corrente vituperam contra o aborto e o casamento homossexual, em nome de uma leitura literal da Bíblia. Eles não se esquecem, contudo, de garantir a si mesmos rendas bastante confortáveis. Há muito tempo ausentes da arena política, os evangélicos investem cada vez mais no espaço público, a ponto de influenciar eleições na Nigéria e em todo o mundo

Do Rio de Janeiro a Seul, passando pela Cidade do México e por Lagos, há quatro décadas o mundo protestante passa por uma dinâmica ultraconservadora que influencia as questões sociais, societais, econômicas e diplomáticas. Com seus 800 milhões de fiéis, o evangelismo cristão – uma corrente do protestantismo – tem tido um avanço fulgurante.1 No início do século XX, 94% da população da América do Sul era católica; apenas 1% dos habitantes do continente afirmavam ser protestantes. Hoje, estes são 20%, e a proporção de fiéis ao Vaticano caiu para 69%. No Brasil, em 1970, 92% dos habitantes se declaravam católicos; em 2010, eles não passavam de 64%, tendo as “deserções” beneficiado as múltiplas igrejas evangélicas, sobretudo as pentecostais, que proliferam no país.2 Em 2018, o candidato à Presidência Jair Bolsonaro contou com o voto de 70% dos evangélicos. Seus 11 milhões de votos fizeram a diferença para que ele superasse Fernando Haddad, o candidato do Partido dos Trabalhadores. Em 2016, Donald Trump, ainda mais abertamente do que seus antecessores republicanos Ronald Reagan e George W. Bush, cortejou esse eleitorado, tido agora como essencial para sua reeleição em novembro. Hoje, evangélico rima com político.

O ponto de partida para essa mudança pode ser localizado nos Estados Unidos. Foi lá, na década de 1910, que nasceu o pentecostalismo, o qual dá grande importância à narrativa de Pentecostes e à influência do Espírito Santo sobre os apóstolos de Jesus Cristo. Foi nessa época que missionários começaram a viajar pelo planeta com a missão de divulgar os princípios fundamentais do pentecostalismo: o renascimento, ou o início de uma nova vida, efetivado por meio de uma conversão pessoal que passa por um “segundo batismo”; e a centralidade da Bíblia na vida diária, bem como sua inerrância, isto é, a afirmação doutrinária de que ela não contém erros. Soma-se a isso a importância do testemunho pessoal na expressão da fé. Relançado pela “segunda onda” dos anos 1960, o movimento ganhou força mais uma vez, vinte anos depois, quando surgiu, ainda nos Estados Unidos, o neopentecostalismo. Nessa “terceira onda”, os fiéis viram-se instados a integrar a necessária luta cotidiana contra o mal e o demônio. Eles também foram chamados a dar particular importância aos sinais e prodígios do divino. Milagres, curas, “profetização” e “falar em línguas” (linguagem espiritual sobrenatural com a qual o fiel se comunica diretamente com Deus) são os grandes pilares dessa religião abertamente proselitista.3

Foi então que os círculos neopentecostais começaram a difundir a teologia da prosperidade, que faz da fé meio de obtenção de abastança financeira. A riqueza, portanto, passou a ser apresentada como um sinal de saúde espiritual, sem que haja motivo para condená-la (ao contrário, a pobreza é muitas vezes considerada uma punição divina). Os crentes são chamados a fazer doações regulares para apoiar sua Igreja. Doar dinheiro tornou-se, assim, um gesto profilático que pode afastar o mal, resolver problemas pessoais e permitir curas. Aqui e ali, retumbantes escândalos financeiros e morais macularam esse esplendor.4 Fiéis abusados procuraram a Justiça, e televangélicos como o famosíssimo Jimmy Swaggart, estrondoso perseguidor do mal diante das câmeras, tiveram de prestar atos de contrição por ter cedido à tentação da carne, o que inspirou o sucesso Jesus, He Knows Me [Jesus, Ele me conhece], da banda de rock Genesis. Mas a máquina estava funcionando. Aos poucos foram surgindo as transnacionais evangélicas. As trocas entre países aumentaram. Os missionários norte-americanos foram sucedidos por quadros locais, continuando o recrutamento de novos seguidores. Escolas, universidades, centros culturais e hospitais brotaram do solo: tudo deveria contribuir para a difusão da doutrina.

No mundo inteiro, inclusive na França, onde o movimento conta quase 700 mil seguidores e continua crescendo,5 a força dos evangélicos reside em sua capacidade de sacudir velhas estruturas hierárquicas e mostrar pragmatismo. Eles constroem templos em qualquer lugar: um cinema desativado, um pequeno restaurante, uma garagem velha. Não há crise vocacional entre os pastores: enquanto a Igreja Católica luta para conseguir sacerdotes, qualquer evangélico pode assumir um ministério, basta um pouco de carisma e algumas cadeiras de plástico ao redor de um teclado elétrico e de uma Bíblia. A comunhão entre os evangélicos se fortalece pelo fato de que o rito é baseado na emoção: eles cantam, riem, choram com a evocação da crucificação de Cristo, entram em transe. A música é o elemento central da celebração, e seu acervo é imenso: gospel, rock cristão, country evangélico etc. Nessa dinâmica, a comunicação e a criação de mídias são um trunfo crucial, assim como o proselitismo de rua e as campanhas intensivas de evangelização nas redes sociais.

(REUTERS/Tom Brenner)

A galáxia evangélica está longe de ser homogênea. Os batistas, que remontam ao século XVII e contabilizam hoje 100 milhões de crentes, dividem-se em uma infinidade de igrejas bastante progressistas ou moderadas, sendo uma de suas grandes figuras o ex-presidente dos Estados Unidos Jimmy Carter, ganhador do Prêmio Nobel da Paz de 2002. Nem todos os neopentecostais são adeptos da teologia da prosperidade e nem todos votam em candidatos de direita, com parte desse grupo oferecendo um forte apoio aos presidentes venezuelanos Hugo Chávez e Nicolás Maduro. Mas a maioria permanece ultraconservadora, quando não reacionária. Frequentemente favorável à pena de morte e ferozmente contrário ao aborto, o neopentecostalismo rejeita, em nome da “defesa da família”, leis favoráveis a minorias lésbicas, gays, bissexuais e trans (LGBT+). Em Uganda, as igrejas evangélicas militam permanentemente em prol do endurecimento de uma legislação que já criminaliza a homossexualidade, reivindicando leis que autorizem “terapias de conversão” dedicadas a mudar a orientação sexual de pessoas LGBT+. No Malaui, na África do Sul e no Zimbábue, o discurso homofóbico e anti-imigração é amplificado por televangélicos que, entre os mais famosos, como o “profeta” Sheperd Bushiri, detêm fortunas colossais.

A laicidade e o secularismo estão na mira dos evangélicos. Seja no Brasil, na Nigéria ou na Coreia do Sul, o discurso político está impregnado de referências religiosas muitas vezes hostis à modernidade e ao progresso. Para Valdemar Figueredo, professor de Ciência Política e teólogo brasileiro, o objetivo dos evangélicos é “retroceder, ir contra o Estado laico, a ciência autônoma, a importância das universidades, o pensamento livre, a condição da mulher, as questões de gênero, os direitos das minorias. São grupos medievais no pior sentido. Politicamente, isso muda tudo: já não se trata mais de uma discussão entre conservadores e progressistas, em um contexto democrático. A partir do momento em que o lema do governo é ‘Deus acima de tudo’, isso significa que tudo está em risco”.

Encarnando a alternância à esquerda, o presidente mexicano, Andrés Manuel López Obrador, também não hesita em adotar a linguagem político-bíblica, proclamando-se “discípulo de Jesus Cristo” e aliando-se a um pequeno partido conservador, o Encuentro Social (Encontro Social), liderado por cristãos evangélicos muito interessados em ajudar o presidente mexicano “em assuntos de vida e de família”. Em toda parte, os evangélicos marcam pontos. As relações entre as religiões são diretamente afetadas. Enquanto a Igreja Católica e os protestantes tradicionais dialogam regularmente com os diversos representantes do islã, os evangélicos, que apoiam o Estado de Israel, não escondem sua hostilidade aos muçulmanos, que muitas vezes são vistos simultaneamente como inimigos potenciais e como uma população a ser convertida.

 

Akram Belkaïd é jornalista do Le Monde Diplomatique; Lamia Oualalou é jornalista e autora de Jésus t’aime! La déferlante évangélique [Jesus te ama! A onda evangélica], Cerf, Paris, 2018.

 

1 Salvo indicação em contrário, as estatísticas citadas neste artigo foram retiradas de estudos publicados pelo Pew Research Center, um organismo norte-americano independente que dedica grande parte de suas atividades ao estudo das religiões nos Estados Unidos e em todo o mundo (www. pewresearch.org).

2 Ler Lamia Oualalou, “Les Évangélistes à la conquête du Brésil” [Os evangélicos conquistam o Brasil], Le Monde Diplomatique, out. 2014.

3 Cf. Jean-Yves Carluer, L’évangelisation. Des protestants évangeliques en quête de conversions [Evangelização. Evangélicos protestantes em busca de conversões], Exelcis, Charols, 2006.

4 Ler Ingrid Carlander, “La foire aux miracles des télévangélistes américains” [Nos Estados Unidos, a feira dos milagres dos televangélicos], Le Monde Diplomatique, jun. 1988.

5 Cf. Évangéliques de France, la course aux adeptes [Evangélicos da França, a corrida pelos convertidos], documentário de 52 minutos de Cyril Vauzelle, LF Production, Montreuil, 2016.

 

 

 

Iluminação

Nós, cristãos dos Estados Unidos, saudamos a obediência de Donald Trump à Palavra de Deus sobre Jerusalém. […] Biblicamente, como cristãos, estaremos perante o Todo-Poderoso e seremos responsáveis pelo que fazemos ou não por Israel e por nossos companheiros judeus.

Laurie Cardoza-Moore, militante evangélica sobre a transferência da Embaixada dos Estados Unidos de Tel Aviv para Jerusalém, Haaretz, 6 dez. 2017.

 

Mudamos a capital de Israel para Jerusalém. Isso é para os evangélicos. Você sabe, é incrível esta história: os evangélicos se regozijam com isso ainda mais do que os judeus. É verdade, é incrível!

Donald Trump, em campanha em Oshkosh, Wisconsin, 18 ago. 2020.

 

Heresia

As forças ocidentais antichinesas tentam perturbar a estabilidade social de nosso país e até derrubar o poder político por meio do cristianismo. […] Nós apoiamos fortemente o país para que ele traga à Justiça as raras ovelhas negras que se colocam sob a bandeira do protestantismo [evangélico] a fim de contribuir com a subversão da segurança nacional.

Xu Xiaohong, presidente do Movimento Patriótico Protestante, uma organização de culto estatal ligada ao Partido Comunista Chinês (PCC), ao qual os protestantes chineses devem aderir, 11 mar. 2019 (La Croix, 18 mar. 2019)

 

Catecúmenos

Estamos, com razão, muito mobilizados em relação ao islamismo, mas, nos bairros [populares franceses], seria bom prestarmos também um pouco de atenção no que fazem os evangelistas [sic], que estão amplamente presentes, são menos visíveis, muito proselitistas e ainda interferem no ensino.

Laurence Rossignol, senador socialista, 15 out. 2019.

 

Concílio

Estamos muito honrados por estar de volta ao Reino da Arábia Saudita pela segunda vez em menos de um ano. Reunimo-nos com Sua Alteza Real, o príncipe herdeiro, Mohammed bin Salman, e outras autoridades para discutir terrorismo, paz, liberdade religiosa e direitos humanos.

Joel Rosenberg, escritor israelo-norte-americano, após visita a Jidá à frente de uma delegação de evangélicos norte-americanos, em 10 de setembro de 2019 – quase um ano após o assassinato do jornalista Jamal Khashoggi por um comando saudita, em Istambul, e algumas semanas após a crucificação e decapitação de cerca de quarenta opositores sauditas.



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