Uma nova classe defende seus privilégios - Le Monde Diplomatique

SALÁRIOS E DESIGUALDADE

Uma nova classe defende seus privilégios

por Gérard Duménil e Dominique Lévy
1 de julho de 2010
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O domínio do setor financeiro sobre o produtivo permitiu o favorecimento dos altos executivos das finanças tanto na área privada quanto na pública. Uma aliança entre capitalistas e executivos estaria garantindo privilégios e sacrificando políticas sociaisGérard Duménil e Dominique Lévy

O neoliberalismo tem por objetivo restabelecer e aumentar os poderes e a renda das classes mais favorecidas. Até à crise atual, essa empreitada – a globalização neoliberal – foi bem-sucedida, tanto no plano nacional quanto no internacional: a renda dos mais favorecidos foi beneficiada por um crescimento insolente, um fenômeno hoje amplamente reconhecido e pudicamente chamado de “crescimento das desigualdades”.

 

Contudo, limitar essa análise ao aumento da renda obtida por meio do capital (juros, dividendos e mais-valias resultantes de aplicações em Bolsa) pode ocultar a disparada dos altos “salários” (nos quais se incluem prêmios, bônus e stock-options), em particular nos Estados Unidos. Esse crescimento contrasta com a estagnação, e até mesmo a regressão do poder aquisitivo da grande maioria dos assalariados.

 

O exame das contas das maiores empresas, entre as quais as das sociedades financeiras, permite ter uma noção dos montantes dos prêmios oferecidos aos executivos gestores. Essa evolução não se limita, aliás, aos Estados Unidos.

 

Em 2006, por exemplo, às vésperas da crise financeira, o montante total dos prêmios pagos pela UBS, o grande banco suíço de gestão de carteiras, alcançava US$ 10 bilhões. Ou seja, uma quantia equivalente aos salários ou aos lucros sem descontar os impostos. Em 2007, o nível dos prêmios não sofreu alteração… ao passo que nesse meio-tempo, a empresa perdeu cerca de US$ 5 bilhões!

 

Na realidade, a partilha da renda distorceu-se efetivamente em favor das frações superiores da pirâmide das rendas, e não de um número reduzido de indivíduos. Embora seja impossível traçar uma fronteira rigorosa, trata-se provavelmente, nos Estados Unidos, de 5% das famílias mais favorecidas. Ou seja, cerca de 7,5 milhões de famílias, talvez um pouco menos. A renda desses 5% é constituída, numa proporção acima de 70%, por salários, e foram estes últimos que mais aumentaram no decorrer do período neoliberal (os dividendos e os juros extraídos do capital constituem 11% apenas da renda total deste grupo).

 

A ordem social do pós-guerra se baseara num compromisso de fato que havia reunido as classes populares e os assalariados do topo das hierarquias. A realidade hoje é outra.Na França, fala-se em “executivos superiores”; nos países anglo-saxões, em “managers”. Esta “aliança” de fato no topo das pirâmides sociais entre executivos e detentores de capitais constituiu a base social do neoliberalismo.

 

Na segunda metade do século XX, a relativa autonomia dos executivos superiores do setor privado e dos altos funcionários (públicos) favoreceu o crescimento e o progresso tecnológico mais do que o desempenho de aplicações nas praças financeiras1. O sistema financeiro estava então a serviço principalmente da acumulação do capital produtivo2. As instituições estatais desempenhavam um papel essencial em matéria de política econômica e de pesquisa, enquanto o compromisso social com as classes populares impunha objetivos de proteção social ou de aperfeiçoamento do sistema educativo.

 

A guinada foi espetacular no período neoliberal, foi a conversão dos executivos, começando pelos integrantes do alto da pirâmide, à nova ordem social que autorizou a instauração da lógica do “tudo em benefício do acionista”. Uma transformação paralela operou-se simultaneamente do lado dos altos funcionários públicos, vetores de “novas políticas”: a abertura das fronteiras ao comércio internacional e às movimentações de capitais, a desregulamentação, ou ainda a retomada do controle sobre as despesas sociais.

 

Na França, por razões históricas, as características do compromisso do pós-guerra que permitiram identificar uma “esquerda3” foram mais pronunciadas do que nos Estados Unidos. Em decorrência disso, a adesão ao neoliberalismo pelos executivos superiores dos setores privado e público revelou-se menos fácil, mas ocorreu mesmo assim. Ela gerou consequências políticas, como a adoção, pelo Partido Socialista francês, das opções neoliberais (valendo-se dos pretextos da “coerção externa” e da “globalização”), o que resultou na regressão das ideias de esquerda em proveito da ideologia neoliberal4.

 

Assim como ocorreu nos anos 1930 e nos dias que se seguiram à Segunda Guerra mundial, é a confrontação entre três atores sociais principais – as classes populares, as classes de executivos e as classes capitalistas – que determina atualmente a dinâmica histórica das nossas sociedades5.

 

A aliança neoliberal (entre executivos e capitalistas) sobreviverá ao choque da crise atual? Vale lembrar que a crise de 1929 havia incentivado um compromisso entre executivos e classes populares sob a pressão do movimento operário e do temor despertado pela União Soviética.

 

A comparação com a crise de 1929 revela diferenças consideráveis. A mais evidente é a fraqueza, hoje, do movimento operário (ou de um movimento sustentado por uma base popular mais ampla): o grande medo do comunismo que marcou grande parte do século XX já é coisa do passado, apesar do surgimento de um novo temor: o da expansão esmagadora da “China das reformas”.

 

A crise atual volta a salientar os contornos de uma ordem social dentro da qual uma nova autonomia gerencial pode afirmar-se: uma vigorosa retomada de controle por parte de uma elite organizadora, em termos de regulamentação, de gestão e de políticas.

 

Será o caso de enxergar um sinal precursor dessa evolução nas recentes declarações de Barack Obama a respeito dos bancos, ou se trata apenas do que chamam nos Estados Unidos de “repressão financeira”, referindo-se à relativa domesticação dos interesses financeiros no período do pós-guerra? Neste caso, as características “sociais” do compromisso do pós-guerra não seriam reproduzidas. Um novo equilíbrio dos poderes se estabeleceria entre as classes assalariadas superiores e as classes capitalistas, sob a direção das primeiras. O Estado se envolveria vigorosamente na economia, mas, então, poderia tornar-se evidente que ele não é necessariamente de esquerda.

 

Do estrito ponto de vista das classes superiores dos Estados Unidos, consideradas globalmente, a crise tem suas raízes numa corrida desenfreada em busca de uma renda elevada que, por sua vez, engendrou dois tipos de excessos: o desenvolvimento sem limites das atividades financeiras e os desequilíbrios crescentes da economia dos Estados Unidos (sempre mais dependente das importações e de financiamentos provenientes do restante do mundo6).

 

Ocorreu uma espécie de “divórcio” entre os interesses das classes superiores e os dos Estados Unidos, considerados aqui como território econômico. Não só as fontes de renda das classes superiores se globalizaram como estas últimas optaram por privilegiar seu modo de vida (ou seja, seu consumo) em detrimento do investimento produtivo do país. A necessidade de corrigir esses excessos desponta como a condição prévia para toda verdadeira saída de crise. Uma tarefa muito difícil, e até mesmo impossível, segundo as regras do jogo neoliberal.

 

Durante a fase inicial da crise, os discursos e as práticas almejaram, sobretudo, perpetuar as modalidades da aliança neoliberal no topo, a saber, a recuperação tão rápida quanto possível das vantagens materiais das classes superiores. O ressurgimento dos prêmios, mais elevados do que nunca, é uma prova disso. Contudo, está chegando a hora das mudanças, marcadas pela direita, sem dúvida, apesar do choque. Só esperemos que elas não ocorram por iniciativa da extrema direita.



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