Uma prosa entre autoficção e retrato geracional
No romance de estreia Amor fácil, o autor sul-mato-grossense Tiago Marino narra uma geração entre luto, instabilidade econômica e experimentação afetiva
Amor fácil, primeiro livro de Tiago Marino, autor nascido no interior de Mato Grosso do Sul, faz um retrato geracional partindo de experiências pessoais. Entre crise climática e trabalhos precarizados, os personagens Miguel, Pablo e Caio vivem experiências de luto e amor.
Como observa a escritora Andressa Arce na orelha da edição: “Carlos Drummond de Andrade não previu esta quadrilha: Miguel ama Pablo, que, por sua vez, ama Caio e Miguel.” As questões dos personagens são tão atuais que soam como trechos de diálogos que estaríamos tendo agora ou daqui a pouco. E o autor, ao se apropriar da autoficção, explora dilemas geracionais que vão da instabilidade econômica à experimentação afetiva.
Remetendo ao estilo de escritores como Edouard Louis, Annie Ernaux, Didier Eribon e Rosa Montero, reconhecidos por sua ficção que parte de experiências e visão política pessoais, Amor fácil conduz o leitor através de um texto fluido e direto. Em certos momentos, é possível identificar, ou presumir, alusões a uma vida que foi ficcionalizada. Locais, pessoas e circunstâncias integram sem afetação um fluxo de estilo rasteiro e objetivo. Parecemos estar diante de uma narrativa que se põe contra a narrativa mesma. Ou, para lembrar a questão levantada por Annie Ernaux em entrevista a Fréderic-Yves Jeannet: “contra quem, contra qual forma de literatura”.
Em certos momentos, o texto soa autobiográfico: “Um jovem escritor assina exemplares de seu novo livro para distribuir e ganhar alguma comissão naquela livraria que também calha de ser uma editora independente. Quando olha para o reduzido número de pessoas que vieram prestigiá-lo, confirma que nunca vai conseguir abandonar a docência para viver da escrita. No meio da plateia, nota a presença de Carlos, que apesar de já ter mais de trinta anos na cara, veste uma camiseta do Che Guevara”.

O autor, que nasceu no interior do Mato Grosso do Sul, atualmente vive em Campo Grande. Também atua como assessor jurídico e professor na Universidade Federal do Mato Grosso do Sul (UFMS). Além de referências a elementos da rotina local da cidade de Campo Grande, por exemplo, o boteco da rua 14, o parque dos ipês amarelos, a livraria Hámor etc., o livro explora questões mais amplas da memória social e da cultura.
Como a referência à ditadura militar, que aparece representada pela figura da avó de Pablo, uma antiga militante do partido comunista, perseguida durante o regime ditatorial. Ou como a abordagem a modelos não monogâmicos de relacionamento, vivido pelos personagens Caio, Pablo e Miguel.
O relacionamento dos três é quase um triângulo amoroso. Quase, já que o triângulo não se fecha, a relação se dá a partir da proposição de acordos não convencionados pela cultura heteronormativa. Em dada altura, lemos: “De toda forma, disse que concordava com minha visão sobre a monogamia. Um padrão de relacionamento pautado no tolhimento, na contenção, com fortes raízes cristãs e com implicações sobre vários campos da vida, especialmente o dos direitos civis”.
Afinal, em Amor fácil, Tiago Marino transporta para a ficção vivências e reflexões políticas, tendo por pano de fundo inquietações enfrentadas por uma geração que está saindo da juventude. E, no processo de luto das suas perdas e utopias, irremediavelmente reconhece a debilidade sociopolítica atual. Ao contrário do que diz o título: talvez não seja fácil.
Ana Luiza Rigueto é jornalista.

