Uma visita guiada à nova Grécia - Le Monde Diplomatique

EUROPA EM CRISE

Uma visita guiada à nova Grécia

por Panagiotis Grigoriou
5 de maio de 2014
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Presidente da Comissão Europeia, o ex-primeiro-ministro português José Manuel Barroso avalia que os “sacrifícios” pelos quais passam o povo grego “abriram para eles as portas de um futuro melhor”. Um futuro aparentemente bem distante…Panagiotis Grigoriou

Pré-história

2007. Com o objetivo de denunciar o surgimento de uma geração obrigada a se virar com 700 euros por mês, jovens com ensino superior lançam um movimento chamado G700. Cinco anos depois, o ontem inaceitável parece então um sonho, e a organização anuncia sua autodissolução: “Desde a criação do movimento, o destino dos protagonistas do G700 passou por mudanças. […] O que chamávamos de ‘patamar de 700 euros’ e identificávamos como uma referência social foi achatado pelos acontecimentos. […] Para aqueles que continuam a participar de nossas atividades, 700 euros por mês constitui hoje uma soma prodigiosa”. É o fim da exigência por “dignidade”: “Nossa busca pessoal hoje se resume à sobrevivência”.1

 

Inverno

Final de 2013. A taxa de desemprego chega a 30%. A parcela da população ativa que não participa mais da vida econômica (o que inclui desempregados não declarados, estudantes que nunca trabalharam etc.) eleva-se a 56,4%.2 Desde 2008, os salários caíram em um quarto no serviço público.

 

Noites de festa

Manolis dirigiu sua pequena empresa de construção por mais de vinte anos. Especializado em acabamento, ele fazia a instalação de revestimentos internos (carpetes, assoalhos) em estabelecimentos comerciais e industriais. “Às vezes eu ganhava até 6 mil euros por mês”, lembra. “Houve momentos em que trabalhávamos dia e noite, mesmo de fim de semana. Chegamos até a recusar encomendas.”

Ele relutou durante muito tempo até pedir falência, no final de 2012. Dois anos antes, tinha demitido seus três empregados. Na época, pensou que a crise seria passageira e que em dois anos as atividades seriam retomadas…

Em 2011, como muitos gregos, precisou mudar de apartamento. O que ele ocupava com a mulher e os dois filhos era muito pequeno para acomodar sua mãe. Depois que sua esposa Lina foi demitida, a casa só podia contar com a aposentadoria da mãe de Manolis para se virar: mil euros por mês.

Quando encerrou as atividades, ele vendeu seu furgão “por um terço do valor” e o trocou por uma perua. “Desempregado, sem indenização [já que não existe nenhum benefício para independentes que vão à falência], pensei em trabalhar clandestinamente. A perua ia servir para levar meu material e minhas ferramentas, pois eu as guardei.”

Depois de um ano, Manolis perdeu as ilusões. Mesmo trabalhando apenas cinco dias por mês, ele pensava em superar a situação, mas esse objetivo permaneceu inatingível, exceto por uma ocasião, quando foi contratado por um mês nas obras de um hotel na Áustria. Ele recebeu, na época, 60% da remuneração de um trabalhador austríaco pelo mesmo serviço.

“Eu não sabia quanto tempo isso ia durar. Estava contando com um projeto de reforma de um apartamento chique no norte de Atenas, mas acabou sendo tudo adiado.” Quando chegaram as festas de fim de ano, em 2013, Manolis não tinha recebido o adiantamento esperado de 200 euros, de um montante total de 500 euros.

As dívidas se acumulavam: cerca de mil euros para o Seguro Social, impostos e banco. “Toda manhã”, confidenciou-nos em dezembro de 2013, “eu me pegava falando sozinho em casa… Tinha medo das festas, que se aproximavam e que celebraríamos em um apartamento gelado”. Depois um amigo lhe ofereceu um aquecedor portátil e um botijão de gás. Um vizinho “emprestou” 200 euros na véspera de Natal.

Mas 2014 começou mal. Um novo pacote de medidas de austeridade poderia achatar a pensão da mãe de Manolis. “Feliz Ano-Novo e, o mais importante, muita saúde!”, diz com um sorriso: ele não tem seguro-saúde. Como um terço da população. Em maio de 2010, Andreas Loverdos, então ministro da Saúde de George Papandreou, já lamentava “que as pessoas não morrem” e “vivem muitos anos […] depois da aposentadoria”.

 

Cultura

A convenção coletiva dos atores de teatro acabou em dezembro de 2013. A organização patronal do setor propunha remunerá-los com entre 3,25 e 5,54 euros brutos por hora.3 O tempo dedicado aos ensaios, até então pagos, passaria a contar apenas como prazer de atuar…

 

“Morte súbita”

Na noite de 16 para 17 de dezembro de 2013, a empresa Hellas On Line (HOL), especializada em telefonia e internet, desmontou seu call center. Por volta de 2h30 da manhã as instalações já estavam livres de equipamentos e móveis.4 Cada vez mais comum, o método tem até apelido: fechamento por “morte súbita”.

Os 360 funcionários receberam uma proposta: pedir demissão – portanto, abrir mão de qualquer compensação – e em seguida serem recontratados por uma filial offshoreda HOL por um salário 20% abaixo do anterior e sem o pagamento de horas extras. Eles tiveram 48 horas para decidir. Para os que aceitaram, “o tempo de trabalho começa somente quando eles ligam o computador, e não quando chegam. Da mesma forma, os treinamentos realizados no local de trabalho não serão pagos”, conta um funcionário.5

 

Modelo chinês

Para saber o futuro, basta ir até o porto de Pireu, que tem parte de suas instalações geridas pela companhia chinesa Ocean Shipping Company (Cosco) desde 2010.6 Quando chegou, a Cosco impôs aos trabalhadores da doca II contratos individuais “ao estilo chinês”: “um retorno à Idade Média”, nas palavras do jornal Eleftherotypia. Claramente à frente de seu tempo, os contratos assinados previam que os funcionários seriam pagos “a uma tarifa de 40 euros por dia”. Até então, a convenção coletiva de 2009 previa salários entre 58 e 94 euros, dependendo da experiência e especialização dos trabalhadores e técnicos. Aliás, os 40 euros oferecidos pela Cosco já incluem “bônus e os diversos benefícios, trabalho noturno, feriado, indenizações relacionadas a horas extras e custos de transporte”.7

 

Futuro

Em um jornal de Atenas, uma oferta de trabalho: em Creta, procuram-se “camareiras, sem salário, com comida e alojamento”.8

 

Sindicatos

Enquanto a sociedade oscila em “modo de sobrevivência”, as reivindicações sindicais esfriam. Inicialmente defensivas, em seguida elas foram fracionadas, por setor, por empresa, antes de se transformarem em interpelações políticas mais amplas e, às vezes, mais fluidas. Assim como a exigência de saída da Troika – que reúne os representantes do Banco Central Europeu (BCE), da Comissão Europeia e do Fundo Monetário Internacional (FMI).

Depois dos milhares de manifestações que marcaram a vida do país entre 2010 e 2014, a mobilização ruiu. Do mesmo modo que os partidos políticos, o mundo sindical perdeu o crédito junto à população. Ele é associado ao “mundo de antes”. Aliás, as pessoas perguntam-se cada vez mais: de que adianta ir para a rua se todas as manifestações feitas não conseguiram impedir o desmantelamento do país?

 

Cooperativas

Antes de ser demitido, no final de 2010, Yannis, jornalista há mais de 25 anos, ganhava 2 mil euros líquidos por mês. Durante um ano, ele recebeu um benefício mensal de 450 euros. Graças à indenização paga por seu ex-empregador, ele aguentou. Pelo menos até janeiro de 2012: então, todas as suas economias se esgotaram.

“Pensei que ia voltar a trabalhar logo”, diz. “Como conheço bem o mundinho dos jornalistas, imaginava que minha caderneta de telefones seria útil.” Houve uma única oferta, vinda de antigos colegas que lançaram o Diário dos Redatores, um jornal autofinanciado sob a forma de cooperativa. Eles convidaram Yannis a participar da aventura e também do financiamento do projeto. Isso implicava pagar entre mil e 2 mil euros, e trabalhar durante três meses sem salário. Seus colegas insistem: o jornalismo é um setor abatido, “o futuro pertence a este tipo de iniciativa”. Yannis declinou.

No final de 2012, ele conseguiu emprego em um grande jornal que acabava de encontrar um investidor. Assinou então um contrato individual prevendo um salário mensal de mil euros. “Após quatro meses, nossos salários já não eram pagos no dia. Nem preciso dizer que meu contrato expirou. Assim como a convenção coletiva da profissão, que datava de 2009. Ela nem era mais respeitada. Antes da crise, o jornal mantinha oitocentos funcionários; agora há menos de um quarto. Eu cheguei a trabalhar três semanas seguidas, sem um dia de folga.”

No final de 2013, a empresa devia a Yannis e seus colegas cinco meses de salário. A direção propôs um “plano de resgate”: uma alteração de cada contrato, aceitando a redução de 30% do conjunto dos salários. Os signatários também deviam renunciar a qualquer ação individual ou coletiva contra o jornal até agosto de 2014. Yannis recusou.

A direção partiu então para a ofensiva: argumentando que o novo plano tinha sido rejeitado por parte do pessoal, não pagou os salários no início de novembro de 2013. “As relações de trabalho estão péssimas. Os ‘signatários’, como são chamados, acusam a nós, que recusamos o acordo, de acabar com o jornal.” Os funcionários só concordam com uma coisa: seus interlocutores são uns “bandidos”.

Última cena: a direção diz que o jornal poderia se transformar em empresa autogerida. Sob o pretexto de “transferir o controle aos funcionários”, “ela pretende acima de qualquer coisa nos repassar as dívidas”, exalta-se Yannis. Entretanto, os funcionários aceitam: afinal, as coisas não melhoram…

Panagiotis Grigoriou é Antropólogo e historiador, é autor do blog Greek Crisis (www.greek-crisis.gr) e do ensaio Le cheval des Troïkans [O cavalo dos troicanos], Fayard, Paris, fev. 2013.



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