A DISPUTA PELA PRÓXIMA LIDERANÇA DA ONU

Veto, paralisia institucional e as demandas do Sul Global

No contexto atual de fragmentação geopolítica, a próxima liderança da ONU precisará atuar como uma ponte capaz de conectar as demandas urgentes do Sul Global às estruturas de poder das grandes potências

O ano de 2026 será marcado pelo processo de escolha do próximo Secretário-Geral da Organização das Nações Unidas (ONU). A pessoa que assumir essa função passará a ser o representante máximo da maior organização intergovernamental internacional, um sistema complexo formado por múltiplas agências, fundos e organismos que perpassam campos interligados que vão desde o político e econômico até o securitário. Embora o cargo não possua poder de mando sobre os Estados, ele detém a capacidade de pautar prioridades globais e conferir legitimidade política a determinadas agendas. Paralelamente, a função também reflete todas as contradições e desafios da organização.

O atual Secretário-Geral, António Guterres, ocupa o cargo desde 2017 e buscou sobretudo priorizar a agenda climática e ampliar a participação da sociedade civil. Por vezes, defendeu a reforma do Conselho de Segurança das Nações Unidas (CSNU) em busca de maior representatividade para países em desenvolvimento. Ao mesmo tempo, cobrou responsabilidade dos Estados-membros em relação ao cumprimento da Carta da ONU, enfatizando o multilateralismo e iniciativas como o Pacto para o Futuro.

No entanto, sua atuação não fugiu de desafios que já vinham sendo evidenciados em mandatos anteriores e revelou, ainda mais, os limites do cargo diante de um Conselho de Segurança amplamente paralisado. Em um dos momentos mais críticos da organização em décadas, o desafio é evitar que a próxima liderança atue apenas na gestão da inércia institucional, em um cenário no qual a alegada “falta de utilidade” da ONU decorre diretamente da polarização entre as grandes potências com poder de veto.

Fotografia de um pano azul com o símbolo da ONU
Crédito: Public Domain Pictures

Longe de funcionar apenas como uma salvaguarda contra decisões precipitadas, o poder de veto no CSNU se consolidou como um instrumento estrutural de dominação política. Ao permitir que interesses nacionais de cinco Estados (China, Estados Unidos, França, Reino Unido e Rússia) se sobreponham sistematicamente a consensos mais amplos, o veto não apenas paralisa respostas a crises humanitárias e ambientais, como também delimita, de forma rígida, os contornos do que é politicamente aceitável no sistema internacional.

Após 80 anos de mandatos exclusivamente masculinos, há uma demanda crescente para que a próxima liderança seja uma mulher, preferencialmente da América Latina e do Caribe, respeitando a regra não escrita de rotação regional. Essa demanda não é apenas simbólica ou decorativa; ela sinaliza a necessidade de atualização da instituição diante das novas dinâmicas internacionais. Neste momento, uma liderança oriunda do Sul Global no comando da ONU permitiria lançar luz sobre concepções alternativas de segurança e desenvolvimento que não se limitem à lógica militar. Ou seja, permitiria expandir o olhar para visões que melhor incorporem a participação de grupos marginalizados e a reparação de desigualdades históricas – temas que a noção abstrata de paz que orientou a criação da ONU, em 1945, frequentemente falhou em endereçar.

Entre os principais nomes aventados para ocupar o cargo, Michelle Bachelet (Chile) e Rebeca Grynspan (Costa Rica) se destacam. Bachelet possui uma trajetória em direitos humanos que encarna valores centrais da Carta da ONU, mas enfrenta resistência de Rússia e China, que a percebem como uma liderança mais propensa à intervenção em questões consideradas sensíveis à soberania estatal. Já Grynspan, atual Secretária-Geral da Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD), é vista como uma candidata pragmática e técnica, com foco na reforma da arquitetura financeira internacional e no desenvolvimento econômico – um perfil potencialmente mais “aceitável” para os países com assento permanente e poder de veto no CSNU.

Outros nomes, como o do argentino Rafael Grossi, diretor-geral da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), trazem o peso da agenda de segurança nuclear, mas enfrentam o desgaste decorrente de atritos diplomáticos diretos com atores sensíveis nesse campo. A primeira-ministra de Barbados, Mia Mottley, também desponta como uma voz poderosa contra o “falso humanismo” do sistema financeiro internacional, defendendo a centralidade da justiça climática e da responsabilidade histórica dos países centrais.

O cenário ganha contornos adicionais de incerteza quando consideramos variáveis de política doméstica. A recente eleição de José Antonio Kast no Chile, por exemplo, pode comprometer a viabilidade de Bachelet, uma vez que o apoio diplomático do governo de origem é o combustível essencial de qualquer campanha em Nova York. Sem esse engajamento ativo, nomes que aparentam favoritismo podem perder espaço para candidaturas mais alinhadas ao status quo internacional. Nesse contexto de fragmentação geopolítica, a próxima liderança da ONU precisará atuar como uma ponte capaz de conectar as demandas urgentes do Sul Global às estruturas de poder das grandes potências.

Historicamente, o cargo de Secretário-Geral foi ocupado por pessoas advindas de países do Sul Global – como Mianmar, Peru, Egito, Gana e Coreia do Sul – ou de nações do Norte com menor peso geopolítico – como Noruega, Suécia, Áustria e Portugal.

Diferentes perfis, enfoques e propostas podem ser notados nas atuações dos Secretários-Gerais, influenciados também pelas diversas conjunturas geopolíticas que impactavam a ONU, porém isso não significa um completo rompimento entre uma liderança e outra. Por exemplo, o egípcio Boutros Boutros-Ghali, secretário-geral de 1992 a 1996, destacou-se por formular e apresentar o relatório “Uma Agenda para a Paz” que reúne propostas para a prevenção de conflitos e ações para evitar a escalada de violências no pós-conflito. Guterres, de certa forma, deu continuidade a esse trabalho ao propor o documento “Nova Agenda para a Paz”, que abarca desafios contemporâneos como a reforma do Conselho de Segurança e o impacto da ação climática no contexto de paz e segurança.

Entretanto, nenhuma dessas atuações foi suficiente para impedir os impasses geopolíticos que hoje desafiam o funcionamento do Conselho de Segurança e para garantir uma paz duradoura e sustentável. O mundo enfrenta hoje feridas abertas que a noção tradicional de segurança não consegue estancar: endividamento externo sufocante, crises migratórias prolongadas, racismo ambiental, injustiça climática, uso irresponsável da Inteligência Artificial, entre outras. Uma liderança oriunda da América Latina por si só seria politicamente significativa, mas também precisaria ter clareza sobre as causas estruturais dessas desigualdades e saber articular mudanças nas estruturas do tabuleiro, navegando pelos jogos de poder que permeiam a maior organização internacional. A próxima – ou o próximo – Secretária-Geral deverá ser capaz de demonstrar que a estabilidade global depende, necessariamente, da inclusão efetiva das periferias do sistema internacional.

Os passos seguintes do processo de escolha envolvem votações informais no Conselho de Segurança ao longo do primeiro semestre de 2026. No entanto, o desafio central não é reunir bons candidatos, mas encontrar nomes que consigam sobreviver ao filtro do veto sem perder seu potencial transformador. Para que o próximo aniversário da Declaração Universal dos Direitos Humanos, em 2028, não se limite a uma celebração simbólica de um soft law cada vez mais esvaziado, a sucessão de 2026 precisa resultar em uma liderança atenta às feridas ainda abertas do sistema internacional e comprometida com a construção de uma infraestrutura multilateral que seja, de fato, funcional, inclusiva e justa.

 

Kimberly Alves Digolin é mestre em Relações Internacionais pelo PPGRI San Tiago Dantas (Unesp, Unicamp, Puc-SP) e pesquisadora no Grupo de Estudos de Defesa e Segurança Internacional (GEDES).

Giovanna Ayres Arantes de Paiva é doutora em Relações Internacionais com estágio pós-doutoral pelo PPGRI San Tiago Dantas (Unesp,Unicamp, Puc-Sp).

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