MÉXICO

Violência política de gênero como modus operandi da exclusão

Assédio contra a presidenta mexicana Claudia Sheinbaum é mais um recado emblemático, dirigido a todas nós, de que o espaço público ainda nos quer ausentes, excluídas ou, quando muito, toleradas e sob determinadas condições

Em 4 de novembro, durante atividades políticas, a presidenta mexicana Claudia Sheinbaum foi vítima de um episódio de violência política.

Diferentemente do que muitas pessoas disseram, não se tratou de mais um caso de assédio sexual mas sim de uma estratégia deliberada de reafirmação do patriarcado em retirar a agência das mulheres, anunciar a sua inadequação para a cena política e reinscrevê-las em uma posição de menosprezo, ridicularização, escracho e, sobretudo, de objetificação, ainda que pese o fato de se tratar da mulher mais poderosa do país. A violência política vem sendo utilizada em toda a região como instrumento de exclusão política das mulheres.

Trata-se, portanto, de uma ferramenta de manutenção da dominação masculina nos campos do poder, operando por meio da humilhação pública, do silenciamento e da negação da competência política das mulheres. Essa forma de violência é direcionada, em especial, àquelas que desafiam as hierarquias tradicionais do poder.

Relatórios oficiais indicam que, no México, as mulheres tendem a relatar com maior frequência serem vítimas de violências simbólicas, psicológicas, verbais, seguida de violências econômicas e sexuais. Embora os registros de violência política de gênero ainda sejam relativamente baixos – em parte, por ser uma categoria normativa recente –, o panorama mais amplo nos revela uma epidemia persistente de violência de gênero no país. Tanto que em 2022 foram registrados 968 casos de feminicídios, número que representa um aumento de 127 % em relação a 2015.

De acordo com o Índice de Paz México 2025, as formas de violência mais associadas à violência contra as mulheres mais do que duplicaram na última década, revelando a profundidade estrutural da desigualdade de gênero no contexto mexicano. Nesse cenário, a eleição de Claudia Sheinbaum, em junho de 2024, como a primeira presidenta do país, pelo partido Morena, representa um marco histórico. Sheinbaum construiu uma trajetória sólida antes da vida pública, atuando como engenheira de energia e professora no Instituto de Engenharia da Universidad Nacional Autónoma de México (UNAM).

Sua vida pública começou a ganhar destaque quando serviu como secretária do Meio Ambiente da Cidade do México (2000-2006), posição na qual se tornou braço direito de seu antecessor na presidência Andrés Manuel López Obrador, então chefe de governo da capital. Essa projeção a impulsionou na carreira política, levando-a a posições eletivas como a prefeitura de Tlalpan (2015-2017) e, posteriormente, ao cargo de chefe de governo da Cidade do México (2018-2023). Sua ascensão ocorre em um país que, desde maio de 2019, adotou a “Paridad en todo”, a partir de uma reforma constitucional que exige 50% de representação para mulheres e homens em todos os cargos de tomada de decisões públicas, nos três poderes da União (Executivo, Legislativo e Judiciário), bem como nos três níveis de governo (federal, estadual e municipal).

O que nos encaminha para a questão: quais os custos das mulheres latino-americanas em participar da política?

Crédito: Eneas De Troya/Flickr

Até o presente momento, a América Latina teve apenas oito presidentas eleitas democraticamente, e tem sido, também, a região em que identificamos o maior número de casos de violência política contra as suas presidentas, governadoras, legisladoras e militantes. Os casos se tornaram tão graves e constantes que também somos a região que criou o único tratado de direitos humanos sobre o tema: a Declaración sobre la Violencia y el Acoso Políticos contra las Mujeres (OEA, CIM, 2015), bem como a Ley Modelo Interamericana para Prevenir, Sancionar y Erradicar la Violencia contra las Mujeres en la Vida Política, adotada pelo Mecanismo de Acompanhamento da Implementação da Convenção de Belém do Pará (Mesecvi) e que tem por objetivo orientar os Estados para adaptar suas lei nacionais. Dilma Rousseff, por exemplo, sofreu inúmeros questionamentos a respeito de suas capacidades intelectuais e de articulação política e sua aparência física passou por um escrutínio público. Foi representada de maneira cruel por meio de adesivos misóginos e violentos, sofreu injustamente um processo de impeachment que a retirou da presidência (que se deu, entre tantos fatores, por ser mulher). Cristina Kirchner, vítima de lawfare e de tentativa de assassinato, é sistematicamente invalidada por seus opositores por ser herdeira peronista bem como, por mobilizar afetos (amores e ódios) dos eleitores e se eleger em todo e qualquer cargo eletivo que tenha disputado. Michelle Bachelet também não saiu ilesa, como nenhuma delas sai por enfrentar o status quo de domínio branco masculino das esferas de poder: sofreu com estereótipos de gênero, foi vítima boicotes partidários e de ataques virtuais com ofensas de caráter sexual, insultos à sua aparência e à sua condição de divorciada.

Quanto mais alto as mulheres sobem na escala de prestígio, seja financeiro, político ou simbólico, mais os seus corpos, comportamentos, capacidades e performance são questionados. Já os homens, parecem todos blindados, quase habitam uma redoma de vidro, envoltos numa aura de inacessibilidade para as mulheres políticas.

A lição que emerge desse lamentável episódio – longe de ser um caso isolado – é contundente: não importa o posto que uma mulher ocupe, o reconhecimento social e político que conquiste ou o prestígio que sua trajetória lhe confira; ela continuará sendo percebida, antes de tudo, apenas como mulher. Isto é, nenhuma equipe de segurança, número de votos nas urnas, formação acadêmica ou experiência político-administrativa é capaz de suspendê-la ou protegê-la das estruturas perversas que sustentam as desigualdades de gênero. O corpo feminino, em especial, aqueles atravessados por marcadores sociais de diferença como classe, raça/etnia e orientação sexual, permanece sendo objeto de controle, vigilância, discriminação, violências e deslegitimação no espaço público. Ao mesmo tempo, é construído como corpo-território: disponível à exploração, à dominação, ao assédio e à docilização, em consonância com as lógicas patriarcais e cisheteronormativas que persistem em reger o poder político entre nós. Resta-nos a pergunta: até quando?

O que ocorreu com Claudia Sheinbaum não é um incidente isolado, é apenas mais um recado emblemático, dirigido a todas nós, de que o espaço público ainda nos quer ausentes, excluídas ou, quando muito, toleradas e sob determinadas condições. Mesmo assim, seguimos resistindo, amparadas pela memória coletiva das lutas feministas que nos antecederam, pelos movimentos renovados de mulheres indígenas e de mulheres negras, por todas aquelas que, ao longo da história, abriram brechas nas estruturas de dominação para que hoje pudéssemos existir e falar em primeira pessoa no campo político.

 

Saiba mais sobre o assunto na Cartilha de enfrentamento à Violência Política contra as Mulheres em Perspectiva Interseccional (2024) elaborada pelo NEPEM-UFMG.

 

Jéssica Melo Rivetti é pós-doutoranda em Sociologia na Universidade de São Paulo (USP) com experiência em estudos sobre violência contra mulheres nas elites políticas latino-americanas.

Marlise Matos é professora do Departamento de Ciência Política da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e coordenadora do Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre a Mulher (NEPEM).

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