Vitrine de discursos, palco de impotência
Entre a crise de legitimidade e a urgência de uma refundação, a ONU chega aos 80 anos incapazes de responder aos dilemas globais
No dia 23 deste mês, a Assembleia Geral das Nações Unidas (ONU) celebrou 80 anos. Deveria ser um momento de reafirmar a legitimidade do multilateralismo e a esperança em soluções coletivas para os dilemas contemporâneos. Mas o que se anunciou em Nova York é a repetição de um ritual conhecido: discursos carregados de simbolismo, promessas de cooperação e uma prática política incapaz de oferecer respostas à altura da gravidade das crises atuais.
O peso de uma arquitetura obsoleta
Concebida em 1945, a ONU cristalizou a ordem do pós-Segunda Guerra Mundial. Nesse contexto, o Conselho de Segurança confere aos cinco membros permanentes (China, Estados Unidos, França, Reino Unido e Rússia) a capacidade de impedir a aprovação de qualquer resolução, mesmo que a maioria dos membros vote a favor. Ao invés de ser uma ferramenta para o consenso, o veto é frequentemente usado para proteger os interesses estratégicos dessas potências, tornando o órgão incapaz de refletir as mudanças na geopolítica mundial. Enquanto novas potências emergem e o Sul Global se torna cada vez mais relevante, a capacidade de decisão continua concentrada em poucos Estados.
A guerra na Ucrânia, o massacre em Gaza, o colapso do Sudão ou a emergência climática expõem essa contradição: diante de tragédias globais, a ONU se limita a resoluções sem caráter vinculante e a pronunciamentos ignorados pelas potências beligerantes. Assim, mantém legitimidade formal, mas perde eficácia prática e credibilidade política.
Soberania desigual e crise de hegemonia
O princípio fundador da ONU estabelecido em seu artigo 1, é, primeiramente, manter a paz e a segurança internacional, seja por meio da solução pacífica de disputas ou pela tomada de medidas coletivas para reprimir atos de agressão. Em seguida, o artigo visa a desenvolver relações amistosas entre as nações, baseadas no respeito à igualdade de direitos e à autodeterminação dos povos. Outro pilar fundamental é a cooperação internacional para solucionar problemas globais de caráter econômico, social e humanitário, além de promover o respeito aos direitos humanos e às liberdades fundamentais para todos. Por fim, a ONU busca ser um centro para harmonizar as ações de todas as nações na busca por esses objetivos comuns (UNICEF 2024).
Na prática, vigora a lógica da soberania desigual: enquanto todos os países têm direito à palavra, apenas alguns detêm poder de decisão. O multilateralismo converte-se, então, em teatro diplomático onde o Sul Global (majoritário em número e população) participa como espectador, raramente como protagonista.
Essa desigualdade se traduz em seletividade. Crises no Oriente Médio ou na África são tratadas como periféricas, enquanto conflitos na Europa mobilizam energia política e recursos. Do mesmo modo, países que menos contribuíram para o aquecimento global são os que mais sofrem suas consequências, mas têm suas demandas relegadas ao silêncio.
Diante de todos esses percalços, presenciamos uma crise hegemônica: o velho sistema multilateral, dominado pelas potências do Norte, não consegue mais garantir consensos e o novo, composto de um multilateralismo plural, inclusivo, atento às demandas do Sul Global, ainda não nasceu. Nesse vácuo de poder, prolifera a paralisia institucional e a violência desregulada.
Refundar a ONU
Mais do que reformas incrementais, a ONU precisa ser refundada. Isso implica que o Conselho de Segurança, hoje refém do veto das grandes potências, deve ser democratizado, pois sem ampliar sua representatividade e limitar os privilégios herdados de 1945, não haverá legitimidade. Além disso, é crucial criar mecanismos obrigatórios e com financiamento garantido para enfrentar emergências humanitárias e ambientais. Essa refundação também passa por assegurar recursos estáveis, não subordinados à boa vontade das potências, e por ampliar a participação da sociedade civil e do Sul Global, aqueles que carregam o peso das guerras e da crise climática. Sem essas mudanças, a ONU continuará sendo uma tribuna simbólica, palco de discursos vazios, incapaz de proteger direitos fundamentais ou mediar conflitos que ameaçam o futuro comum da humanidade.

O Brasil entre a vitrine e o risco
Tradicionalmente encarregado de abrir os debates da Assembleia Geral da ONU, o Brasil ocupa um espaço estratégico que combina prestígio simbólico e responsabilidades políticas. Desde 1947, esse gesto confere ao país uma visibilidade singular: é o Brasil quem inaugura o tom da sessão antes mesmo das grandes potências, reforçando sua imagem de mediador equilibrado no cenário internacional. Esse é o capital simbólico. Mas o mesmo palco impõe responsabilidades: cada discurso brasileiro é lido como uma chave interpretativa dos debates, exigindo coerência entre a retórica internacional e as práticas domésticas. Ao reivindicar voz para o Sul Global e apresentar-se como articulador de consensos, o Brasil carrega não apenas sua própria agenda, mas também a expectativa de representar aspirações coletivas.
No campo ambiental, a posição brasileira carrega um peso particular. Como anfitrião da COP30, o país é instado a liderar o debate climático e apresentar credenciais de vanguarda na preservação da Amazônia. Contudo, essa expectativa se choca com as ambiguidades internas: o avanço do agronegócio sobre áreas sensíveis e o garimpo ilegal funcionam como contraprovas que a comunidade internacional não hesitará em destacar. A vitrine pode, nesse caso, se transformar em espelho das próprias fragilidades nacionais.
No plano dos conflitos globais, o Brasil busca reafirmar sua tradição diplomática ao defender negociações para Gaza e Ucrânia, em sintonia com o espírito do Sul Global que reivindica soluções pacíficas e multilateralismo. Entretanto, a aposta na neutralidade carrega riscos. Ao mesmo tempo em que pode ser vista como independência, pode também ser interpretada como complacência diante de violações de direitos humanos, corroendo a credibilidade moral de sua mediação.
Por fim, a agenda da reforma da ONU coloca o Brasil diante de um dilema histórico. O pleito por um assento permanente no Conselho de Segurança ganha novo fôlego em tempos de questionamento da ordem internacional, mas permanece quase utópico diante da rigidez estrutural da organização. Nessa arena, a insistência brasileira pode converter-se em símbolo de persistência ou, inversamente, em testemunho da impotência de uma ONU que resiste a qualquer transformação profunda.
Assim, entre vitrine e risco, o Brasil enfrenta o desafio de projetar liderança sem escorregar nas contradições internas e sem sucumbir à inércia de um sistema internacional que insiste em permanecer anacrônico.
Entre a esperança e o ceticismo
A ONU nasceu como promessa de um mundo mais justo. Oito décadas depois, é vitrine simbólica onde potências projetam discursos, mas raramente soluções. A noção de soberania desigual revela a contradição de um sistema que proclama a igualdade de todos os Estados, mas perpetua hierarquias coloniais no coração da governança global.
Estamos diante de um impasse: o multilateralismo herdado do pós-guerra perdeu eficácia, mas um novo ainda não se instituiu. Nesse vazio, a ordem global é ameaçada por um crescente unilateralismo, que não se manifesta apenas em ações individuais, mas também na captura das instituições internacionais por interesses do Norte Global e do capital transnacional. As vozes do Sul Global que clamam por justiça climática e autodeterminação continuam relegadas à margem, quando não abafadas pelas potências que dominam a cena.
Para o Brasil, a Assembleia Geral é palco de visibilidade, mas também espelho de contradições internas: entre a retórica progressista e os limites impostos por nossas fragilidades sociais e ambientais.
No fundo, o encontro da ONU em Nova York revela o dilema de nosso tempo: nunca houve tanta necessidade de cooperação multilateral, e nunca o sistema esteve tão incapaz de oferecê-la. Trata-se, como salienta Alfredo (2025), de um verdadeiro desafio civilizacional: conter a deriva unilateral das potências e reinventar um multilateralismo fundado na igualdade substantiva entre nações. Sem isso, a ONU permanecerá um palco de discursos vazios, promessa sempre adiada de uma governança justa e solidária.
Maurício Alfredo é mestre em Educação, professor de Geografia, Geopolítica e Atualidades no Ensino Médio e Superior. Autor de material didático junto à Editora Companhia da Escola.
Bibliografia
Alfredo, Mauricio – O desafio civilizacional de conter o unilateralismo e reinventar o multilateralismo – Observatório da Imprensa – 24 de abril de 2025, edição 1335. Disponível em: https://www.observatoriodaimprensa.com.br/internacional/o-desafio-civilizacional-de-conter-o-unilateralismo-e-reinventar-o-multilateralismo/
UNICEF Brasil. Carta das Nações Unidas. 2024. Disponível em: https://www.unicef.org/brazil/carta-das-nacoes-unidas

