Vozes à margem: periferias, estética e política - Le Monde Diplomatique

RESENHA

Vozes à margem: periferias, estética e política

por Mário Augusto Medeiros da Silva
Março 14, 2018
Imagem por Cena do filme Grajaú, onde São Paulo começa, de João Cláudio de Sena
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Resenha do livro Vozes à margem: periferias, estética e política, organizado por Giordano Barbin Bertelli e Gabriel Feltran (São Carlos: EdUFSCar, 2017)

A primeira impressão de leitura causada por Vozes à margem: periferias, estética e política é a da existência de vida coletiva pulsante em diferentes sentidos e níveis, em espaços e circunstâncias comumente associados ao vazio, individualismo e/ou ansiosos por revitalização. De um lado, essa impressão se confirma pela qualidade da equipe de jovens pesquisadores universitários integrada e organizada no volume por Giordano Barbin Bertelli e Gabriel Feltran, realizando um trabalho colaborativo muito articulado interna e coesamente, apoiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e pelo Centro de Estudos da Metrópole (CEM).

De outro, pelos textos que evidenciam distintos mundos e modos de abordar a ideia de periferia, apresentando pesquisas concluídas ou em andamento, investigando diferentes temporalidades, distintas produções culturais (música, cinema, artes de maneira geral), espaços de sociabilidades (casas de prostituição, bairros periféricos, disputas pelos centros urbanos, cidades interioranas e suas periferias etc.) e o vitalismo da reconstrução memorialística, tanto pela fala de quem vivenciou esses mundos periféricos na própria experiência ou pela reconstrução metodológica da memória coletiva.

O livro resulta, assim, num trabalho de grande potência para leitores especializados ou para um público mais amplo que se interesse pelo tema. Explicita a vitalidade da reflexão em Ciências Humanas, oriunda de universidades públicas (espaço comumente atacado nos dias correntes por seu aparente hermetismo ou ausência de relevância social) e também a pluralidade de existências sobre as periferias urbanas. Em se tratando deste último tópico, cabe perguntar, de modo imperfeito: o que elas são? Para além de regiões geográfica e historicamente formadas, que ganharam enorme visibilidade política, cultural e de interesse científico na última década e meia, do começo dos anos 2000, as periferias ultrapassam a dimensão da questão política (relações com “centro” e os poderes instituídos nele), econômica (debate importante sobre precariedade, pobreza, vulnerabilidade). Elas são isso também, mas vão além, sendo importante ver, explicitar, evidenciar isto na análise, para que não haja repetição sobre um discurso da “ausência”, da “falta”, do sofrimento e do precário, perigando redundar num novo “centrismo” vazio ou ainda na condenação sobre os “pobres periféricos” pela sua pobreza e condição periférica, que pode redundar na igualmente pouco proveitosa condenação, em função disso, de suas visões de mundo e opções políticas. Isso é ultrapassado e o concreto já rachou, como demonstra o livro.

Dito de outra forma: tal complexidade aparece de maneira absolutamente clara no livro, por exemplo, no diálogo estabelecido entre o antropólogo Guilherme Aderaldo com seus interlocutores durante a estreia e exibição do filme Grajaú, onde São Paulo começa na zona sul da capital paulistana. Além da motivação do coletivo em produzir a obra, o filme também surge como resposta a outro, gravado vinte anos antes, no mesmo espaço, com o discurso da precariedade e da falta, uma visão possível, de meados dos anos 1990, de dentro da universidade. Do Grajaú como “fim de São Paulo”, o mesmo bairro, pelas lentes de alguns moradores do bairro, organizados em coletivo de ação cultural, para os seus pares, o Grajaú se torna o começo de tudo, da cidade inclusive. É uma discussão de grande valor reflexivo apresentada no artigo de Aderaldo, “Cidades em conflito: câmeras, sprays, lugares e movimentos”, que compõe a segunda parte do volume.

Retomando, o que igualmente chama atenção é a perspectiva dos pesquisadores em tornar esse movimento de rotação de perspectivas, de tentar complexificar a percepção periférica no centro da observação e narrativa, algo a ser observado em ótica histórica, que provoca um jogo de alto nível, por vezes, entre as ideias de marginal e periférico. O artigo de Gabriel Feltran, “Sobre anjos e irmãos: cinquenta anos de expressão política do ‘crime’ numa tradição musical das periferias”, sobre a figura do anjo nas letras de Jorge Ben dos anos 1970 e sua conexão de sentidos estabelecidas pelos Racionais Mc’s nos anos 1990 cria, em minha leitura, um fio condutor para essa perspectiva.

Feltran percebe que o sampleado de trechos de músicas de Ben é, além de recurso de homenagem dos mais jovens e de uma linha de cânone, também a possibilidade de ler as transformações sobre os mundos do crime em cenários periféricos, narrados por artistas que possuem conexão com tais contextos. Da mesma forma que a percepção sobre os sentidos de ser “bandido”, “marginal” e ética deste sujeito/personagem mudam: dos anos 1970 nas favelas cariocas para os anos 1990 nas periferias paulistanas, alcançando uma primeira fase dos anos 2000, malandragem, proteção, organizações criminosas e a criação de um Partido do crime, como o PCC ganham força. As consequências dessas mudanças são expressas nas figurações literárias da realidade, que também mudaram no cotidiano histórico e complexo das periferias.

O uso do sampleado também é algo político, recorda Giordano Bertelli, em “Errâncias Racionais: a periferia, o rap e a política”. Pelo uso aguçado que fizeram deste recurso na cena mais pujante do rap do fim dos anos 1980 e ao longo das décadas seguintes, os Racionais Mc’s são continuamente acionados ao longo de textos no livro, seja em citações de letras de suas músicas, em memórias ou exatamente pelo uso político da figuração da realidade periférica, com capacidade criativa ímpar. Algo explorado em detalhe por Henrique Takahashi em seu texto “A mixagem de significações dos Racionais MC’s”.

Porém, o rap não é o único gênero musical a fazer uso daquele recurso, espécie de citação e reinvenção musical, tampouco a discutir politicamente a realidade que o circunda, nem mesmo a ser politicamente aceito ou perseguido pelo entorno crítico, que pode criminalizá-lo ou reverenciá-lo, a depender a maneira como trata as fronteiras daquilo que é “legal” ou “ilegal”. Isso é apresentado por dois textos que tratam de expressões musicais distintas, com rendimentos igualmente interessantes.

Nos artigos sobre “O funk proibido como política de integração marginal” (de Carlos Mattos) e “Em disputa: tensões estético-discursivas na cena punk em São Paulo, entre 1977 e 1988” (de André Pimentel), os autores apresentam com muitos detalhes a construção política dos gêneros analisados, seja pelas letras de músicas, as histórias de pioneiros das cenas, o trânsito das ideias (das músicas de bailes blacks e os sambas de Bezerra da Silva retratando a vida bandida; ou, ainda, da cena londrina de filhos da classe trabalhadora descrente do capital para os ouvintes pobres e igualmente proletários do centro e periferias da São Paulo industrial e ditatorial do fim dos anos 1970), “o lado certo da vida errada” – expressão no texto de Mattos – é compreendido desde dentro, tanto quanto a recuperação das memórias dos primeiros punks paulistanos. Dessa forma, vai-se além do proibicionismo ou da crítica ao “elogio da vida bandida”, de um lado, e da fala sobre a agressividade visual, musical e política do outro. Com as lentes mais apuradas e os ouvidos atentos, nos ensinam os autores, aprendemos mais sobre política, cultura e crítica social.

Há dois aspectos não menos importantes para mencionar, caso ainda não tenham ficado claros: o primeiro, que a cidade é um grande personagem do livro. Mirada por ângulos que se encontram nas franjas, ela é enfocada, pelo princípio de que das suas periferias entende-se melhor suas centralidades. Assim, faz todo sentido que, numa cidade como São Paulo, que a partir da metade do século XX passou a ser narrada como capital do progresso, haja um artigo em que a ideia de progresso seja balanceada pela figuração musical e poética de Adoniran Barbosa, como é apresentado por Lígia Conti em “‘Pogréssio, Pogréssio, eu sempre iscuitei falar’: o samba e as narrativas da cidade-progresso”. A autoimagem do centro sobre si mesmo é iluminada pelos ângulos de Adoniran e Geraldo Filme – a narrativa do filho de migrante italianos e do negro descendente de escravizados, trabalhadores do samba paulistano, narradores a contrapelo do capital, poetas dos pobres e deixados pelo caminho do mito enganador da capital industrial. Este artigo encerra a primeira parte do livro, denominada “Uma tradição crítica preterida: música, ressignificação política, confronto estético”.

O segundo aspecto que se ressalta no livro é o apreço pela memória, individual e coletiva, como recurso analítico e de investigação da realidade. Memória, sociologicamente, é sempre reconstrução da realidade social, condicionada por sujeitos inscritos em grupos e classes sociais, clivados por gênero, etnias, relações com o mundo do trabalho, posição no ambiente familiar etc. A segunda parte do livro, “A cidade em suas marcas: territórios marginais e espaços públicos”, apresenta com mais intensidade o aspecto reconstrução memorialística, inclusive com os pesquisadores autores sendo parte das narrativas que procuram (auto)analisar. Derek Pardue, tratando de textos publicados na internet do poeta e ativista paulistano Sergio Vaz perfaz um caminho não apenas pessoal – de sua proximidade com sujeitos da cena hip hop como também um caminho da coletividade da literatura marginal, coletividade narrada por escritores, que procuram manter algo como uma relação íntima com o lugar de onde falam. Daí a pergunta com que o autor denomina seu artigo, questionamento inerente das reflexões do próprio Vaz: “‘O que adianta estética sem ética? A coletividade no discurso marginal”.

Analisar ou falar desde dentro, mesmo sabendo-se entre dois mundos – poderia ser uma ética do pesquisador universitário que trate dos temas da periferia? – apresenta-se como uma tônica de alguns dos capítulos seguintes. Os diferentes rolês pelos espaços da cidade, especialmente de pixadores, e a perspectiva de jovens protagonistas desse tipo de atividade são assim analisados por Alexandre Pereira, em “Fluxos insurgentes em São Paulo”. Tanto quanto a formação de um MC do hip hop, no interessante texto autobiográfico do sociólogo Deivison Faustino, que nos relata um percurso de protagonismo coletivo e consciência individual, dele na cena, dos grupos a que pertenceu, das próprias transformações da cena entre os anos 1990 e 2000 e, por fim, o interessante movimento pendular de si, estando entre os universos da periferia e o espaço da universidade, configurando-o como o sujeito entre dois mundos, portanto ambíguo, mensageiro, reflexivo.

Esta condição ambígua e pendular também aparece no texto “Da quebrada olhando os balões no céu”, de Marcos Guidotti. A arte – categoria êmica – dos baloeiros é explicitada tanto quanto a correria do próprio pesquisador em construir um ambiente familiar, a sua quebrada, como um objeto de estudo com sujeitos conhecidos. Um espaço ambíguo de compromissos, com a universidade e com uma atividade marginalizada no mundo periférico e pelas leis institucionais do centro, permitem uma contínua reflexão do pesquisador sobre si, o instrumental analítico das ciências sociais e também dos artistas que se dedicam das bancadas ao resgate dos balões, parlamentando com moradores periféricos e desguiando da proibição da lei.

Esse espaço muito fino entre o legal e o ilegal também é apresentado com apuro pelo estudo dedicado à atividade marginalizada da prostituição. Domila Pazzini estuda alguns dos lugares em que tal atividade se realiza na cidade de São Carlos. Personagens de casas noturnas e espaços de rua, prostitutas, clientes, donos de casas, policiais, fluxos entre cidades e permanências são vistos no espaço da ambiguidade, com regras internas compreensíveis para quem compõe tais redes e torna a figura aparente mais importante – a do cliente – bastante coadjuvante.

Há ainda duas reflexões que comparecem com rendimentos promissores, sobre as tecnologias de informação e os usos delas na periferia, abordando algo bastante próximo temporalmente, a recente ocupação de escolas públicas, onde uma juventude nascida já com a internet e que manipula sites, blogs, redes sociais, hashtags, tweets e a organização em rede de maneira muito mais eficiente que gerações anteriores se torna protagonista de um ativismo periférico. Isso é explorado parcialmente no artigo coletivo de interface teórica denominado “O advento da cibercultura e das cibercidades”, assinado por Sabrina Ferigato, Carla Silva e Alana Gozzi. Outro trabalho de investigação teórica é “Notas sobre espaço público e imagens da cidade”, texto sobre cidades e espaços públicos, assinado por Paola Jacques. Mercantilização do espaço, padronização de identidades e sociabilidades por meio de shoppings, redes de fast food, ambientes temáticos, condomínios e espaços fechados: parece haver uma produção forçada do consenso sobre o que é uma cidade e estar nela, bem como sobre uma sociabilidade única. Vai na contramão da pluralidade apresentada pelo restante do livro e é uma excelente discussão que serve como contraponto vigilante ao entusiasmo que a vitalidade periférica parece sugerir a todos nós que se interessam pelo tema.

Fica a pergunta: em que as periferias impactam essas dinâmicas do centro? Ou valerá ainda essa dicotomia, uma vez que sujeitos periféricos compõem também tais dinâmicas? A velha lição de que o capital é capaz de incorporar o seu contrário parece não ser ultrapassada. Ao mesmo tempo que ela é sofisticada no momento em que se pensa acerca dos usos de tal incorporação, os sujeitos periféricos, suas organizações políticas e culturais, suas ressignificações de atividades culturais e econômicas não produziram biografias capitalistas, pelo contrário: reafirma-se o coletivo, repõe-se o projeto que vai além do indivíduo, impõem-se pautas e sujeitos adversários da padronização do capital ao fazer uso das armas que este emprega para existir. O sol é para todos e não apenas para quem pode pagar. É uma lição que o sistema – metáfora política inaugural da literatura marginal periférica do começo dos anos 2000, formulada por Ferréz – teima em não aprender.

Vozes à margem, como todo livro, é um complexo de relações sociais. Algumas delas são expressas pela capa: em preto, vermelho e branco com um instantâneo de cena do universo hip hop, b-boys dançando em meio a uma roda entusiasmada sob um viaduto. Ao abrir o livro, nas capas internas, mais aspectos de cenas de produções culturais periféricas: grafites e pixos, basquete e jovens assistindo e produzindo atividades, como uma apresentação musical. É também a expressão coletiva de pesquisadores em diferentes universidades e momentos variados de sua formação, mostrando uma articulação interna muito promissora. Nos dias correntes, de tanto descrédito em termos de potência das ideias e prática de povo, coletividade, universidade, a publicação de um volume como este é absolutamente encorajador e fresco, tanto no terreno das ideias como do interesse pelas práticas do vasto mundo social.

 

*Mário Augusto Medeiros da Silva é professor do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Unicamp.



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