1912, o Carnaval que nunca acabou
O carnaval já foi também palco de disputas políticas e símbolos nacionais. Em 1912, a morte do Barão do Rio Branco transformou a folia em luto – e acabou produzindo um episódio inédito na história brasileira: um carnaval celebrado em dose dupla, entre homenagens, tensões republicanas e o sarcasmo característico dos cariocas
O carnaval é a festa que melhor expressa o sentimento de brasilidade. Alegria, liberdade e energia são ingredientes que levam milhares de pessoas às ruas, Brasil afora. De norte a sul, todos os anos, blocos, marchinhas e trios elétricos proporcionam uma verdadeira descarga de dopamina.
Para além do aspecto psicológico, o carnaval é uma festa que representa uma vida econômica para milhares de trabalhadores. Há trabalhadores informais nas praias no Rio de Janeiro que utilizam esse período para conseguir parte significativa da renda anual. É o momento em que os preços sobem em virtude do grande fluxo de turistas, estrangeiros e nacionais, que movimentam a economia. Segundo dados da prefeitura do RJ, espera-se que 5,9 bilhões de reais movimentem a economia da cidade.
1912 e o carnaval em dose dupla
Longe dos números atuais e da organização que envolve a maior festa do planeta, no longínquo ano de 1912, o Brasil teve um inédito momento em sua história. O carnaval aconteceu em dois momentos. Eram outros tempos, era outra República.
Ainda caminhando para a construção de uma República mais democrática, o Brasil era um lugar marcado por privilégios de todas as ordens. No poder, elites políticas de São Paulo e Minas Gerais se alternavam na presidência. As eleições eram um acordo pré-estabelecido pelas oligarquias e coronéis, à base da coerção e da força. Uma parte significativa da população não votava em virtude de não saber ler e escrever. A Primeira República que nasceu de um golpe militar era apenas um sonho para um clube de amigos.
Se na política local, viveu-se um caos, na política externa o Brasil tinha uma exceção. Desde 1902, José Maria Paranhos da Silva, o “Barão do Rio Branco”, assumiu o cargo de Ministro das Relações Exteriores com a missão de resolver os problemas fronteiriços com os vizinhos. O sucesso nos casos de Brasil x França no Oiapoque e na compra do território do Acre com a Bolívia, garantiu uma popularidade ímpar. O Barão era mais popular que o presidente da República.

O teste para essa popularidade veio de uma forma trágica no ano de 1912. O carnaval que havia sido marcado para fevereiro, foi adiado quando em 10 de fevereiro foi noticiada a morte de Rio Branco por insuficiência renal, aos 66 anos de idade, no palácio do Itamaraty. Houve uma intensa comoção na cidade, diversos clubes pelo país resolveram cancelar os festejos em respeito ao falecimento do “herói nacional”.
Milhares de foliões foram às ruas para enterrar Rio Branco. Partiram do Itamaraty e chegaram até o Cemitério Caju. Diversas homenagens foram feitas para cristalizar a imagem do diplomata como patrono na solução de controvérsias com os vizinhos. O prefeito do Distrito Federal articulou o Decreto n. 853, em 14 de fevereiro de 1912, para a “(…)Avenida Central passa a ter a denominação de Avenida Rio Branco.”
Apesar do luto, alguns foliões voltaram às ruas uma semana após a morte para celebrar o carnaval. Esse primeiro festejo somou-se à nova data da festa, em abril, quando outras homenagens foram feitas a Rio Branco. Surgiram marchinhas em homenagem ao chanceler: “Com a morte do barão, tivemos dois Carnavá / Ai, que bom, ai, que gostoso / se morresse o marechá”.
A letra trazia uma crítica ao presidente da República, Hermes da Fonseca, que não gozava de boa popularidade entre os cariocas. Também revelava o sarcasmo característico do Rio de Janeiro: a hipótese de um terceiro carnaval caso o chefe do Executivo nacional viesse a falecer.
Danilo Sorato é professor de História e Relações Internacionais. É pós-doutorando em Estudos Marítimos (PPGEM/EGN). Doutor em Estudos Estratégicos pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Pesquisador do Laboratório de Política Externa Brasileira (LEPEB/UFF) e Pesquisador do Centro de Estudos Estratégicos e do Planejamento Espacial Marinho (CEDEPEM/UFF/UFPel). Escreveu diversos artigos acadêmicos e jornalísticos sobre as relações internacionais do Brasil, em especial os governos Temer, Bolsonaro e Lula.
Referências
SANTOS, Luís Cláudio Villafañe G. O dia em que adiaram o Carnaval: política externa e a construção do Brasil. São Paulo: Ed. Unesp, 2010.
SORATO, Danilo. A Questão do Amapá e o Ensino de História. Rio de Janeiro: Autografia, 2019.

