AMIZADE SOB MEDIDA

O sionismo cristão no Brasil e na Guatemala

Apesar da diferença de escala institucional entre os dois países, é importante 
destacar a origem comum das iniciativas: o campo evangélico conservador. A retórica do sionismo cristão mobiliza símbolos bíblicos e a ideia de bênção divina para justificar o apoio político a Israel, reforçando o papel de ambos os países como “aliados espirituais” e seculares

Na América Latina, onde fé, política e diplomacia frequentemente se entrelaçam,
Israel tem exercido com notável eficácia seu soft power na tentativa de influenciar a
geopolítica dos países em relação ao Oriente Médio. A institucionalização de datas
comemorativas da Amizade de Estados latino-americanos com Israel tem se tornado uma
das expressões mais visíveis desse projeto, que busca sedimentar vínculos políticos e
diplomáticos com governos e sociedades locais. 

Nessa estratégia, o sionismo cristão – designação de grupos evangélicos com
atuação política em defesa do Estado de Israel – joga um papel fundamental concretizando,
em termos religiosos, as ambições geopolíticas israelenses. Nesse cenário, os casos da
Guatemala e do Brasil revelam a eficácia de certa diplomacia da fé cujos caminhos
distintos são impulsionados por lógicas e motores semelhantes. 

O projeto tramitou por vários anos no Congresso Nacional, com alterações tanto no Senado quanto na Câmara dos Deputados, até ser aprovado. No entanto, em 2013, a presidente Dilma Rousseff vetou integralmente a proposta, argumentando que a data escolhida coincidia com o Dia Internacional de Solidariedade com o Povo Palestino, instituído pela própria ONU. A justificativa oficial, elaborada com base em parecer do Ministério das Relações Exteriores (Itamaraty), ressaltava que a criação da data comemorativa naquele dia poderia gerar tensões diplomáticas desnecessárias. 

Ainda em 2013, a própria presidente Dilma encaminhou ao Congresso o Projeto de Lei nº 5815/2013, propondo a instituição do mesmo Dia da Amizade Brasil–Israel, mas em 12 de abril, data em que o Brasil estabeleceu relações diplomáticas com Israel em 1951. 

Apesar dessa readequação, setores da mídia evangélica interpretaram o veto inicial como uma escolha política do governo petista em favor da causa palestina e em detrimento de Israel. Essa narrativa teve forte repercussão, especialmente entre lideranças religiosas e grupos que defendem relações próximas com o Estado israelense. O fato de o governo ter proposto uma nova data não foi suficiente para mudar essa percepção crítica. 

Em 20 de maio de 2025, o Congresso brasileiro aprovou o Projeto de Lei nº 5815/2013 — o mesmo apresentado pelo governo Dilma —, estabelecendo o dia 12 de abril como o Dia de Celebração da Amizade Brasil–Israel. A proposta foi então enviada ao Poder Executivo para sanção. 

Porém, as denúncias de organismos internacionais de que o governo de Benjamin Netanyahu estaria cometendo diversos crimes de guerra contra os palestinos, somadas ao contexto de grande tensão diplomática entre o Brasil e Israel, levaram o presidente Lula a optar por não se manifestar em relação ao referido projeto. Com isso, a matéria deverá retornar ao Congresso e ser promulgada pelo presidente do Senado, Davi Alcolumbre. 

A decisão presidencial reacendeu críticas por parte de atores evangélicos sionistas, que historicamente interpretam a postura dos governos petistas como alinhada à causa palestina e hostil a Israel. Esses grupos evocam recorrentemente a declaração de Lula como “persona non grata” pelo governo de Netanyahu, em 2024, após o presidente brasileiro afirmar que Israel estaria praticando um genocídio na Faixa de Gaza contra o povo palestino, como forma de desqualificar o líder petista. 

Na Guatemala, desde 2018, celebra-se oficialmente o Dia Nacional da Amizade 
entre Guatemala e Israel, instituído pelo Congresso Nacional por meio do Decreto 12-
2018.  

A data, fixada em 14 de maio, passou a integrar o calendário cívico nacional e mobiliza ministérios, escolas, prefeituras e demais instâncias do poder público. A criação desse “dia” foi impulsionada pela Liga Parlamentar de Amizade Guatemala–Israel, fundada em 2017 e composta majoritariamente por deputados evangélicos. Com o apoio de parlamentares evangélicos e conservadores, a Liga articulou e aprovou a proposta com rapidez, consolidando institucionalmente a aliança entre os dois países. 

O Dia da Amizade é mais do que uma homenagem pontual — trata-se de uma engrenagem institucional. O evento é promovido pela Liga Parlamentar de Amizade Guatemala–Israel, pela Embaixada de Israel na Guatemala e pela comunidade judaica, acompanhando uma série de outras ações que ganham capilaridade no território guatemalteco. 

Vemos, por exemplo, a nomeação de ruas, praças e monumentos com o título “Jerusalém, capital eterna de Israel” em mais de 10% dos municípios do país, além da inserção do ensino obrigatório da cultura israelense no currículo escolar nacional. Trata-se de um gesto político, sim, mas também de uma aliança convertida em marcadores territoriais, identitários e religiosos. 

A estratégia de soft power israelense encontrou terreno fértil na Guatemala por razões históricas e estruturais. Entre elas, destaca-se a figura de Jorge García Granados, diplomata guatemalteco que articulou o apoio latino-americano ao Plano de Partição da Palestina da ONU (1947); a Guatemala foi o segundo país, após os Estados Unidos, a reconhecer a independência do Estado de Israel, em 1948. 

Granados é constantemente evocado como símbolo inaugural da amizade irrestrita com Israel. Paralelamente, o campo evangélico conservador — com seus parlamentares no Congresso e forte enraizamento nas bases sociais — passou a cultivar Israel como nação irmã, tanto do ponto de vista espiritual quanto geopolítico. 

A aliança com Israel, nesse contexto, constitui simultaneamente uma construção institucional e um mito fundacional moderno. Os parlamentares sionistas cristãos são, hoje, um dos principais motores dessa aproximação bilateral Guatemala–Israel, que, entre outros desdobramentos, justifica a adesão irrestrita à política do governo de ultradireita de Benjamin Netanyahu, fundindo, no imaginário cotidiano de fiéis e cidadãos, a ideia do povo judeu com a do Estado laico moderno. 

Apesar da diferença de escala institucional entre os dois países, é importante
destacar a origem comum das iniciativas: o campo evangélico conservador. No Brasil,
como na Guatemala, foram parlamentares evangélicos, a exemplo do ex-senador Marcelo
Crivella. Iniciativas legislativas dessa natureza são estimuladas por redes transnacionais,
que se identificam com o sionismo cristão e atuam conjuntamente com atores israelenses
para ampliar o apoio internacional ao Estado de Israel na América Latina. 

A retórica do sionismo cristão mobiliza símbolos bíblicos e a ideia de benção
divina para justificar o apoio político a Israel, reforçando o papel de ambos os países
como “aliados espirituais” e seculares. Enquanto na Guatemala a atuação diplomática de
Jorge Granados, tem um papel mítico na criação da aliança dos guatemaltecos com Israel,
no Brasil, o papel do embaixador Oswaldo Aranha na Assembleia da ONU que deliberou
a partilha da Palestina cumpre a mesma função e é exaustivamente explorado pelos
políticos evangélicos locais. A afinidade com Israel é alimentada tanto por convicções
escatológicas e simbólicas (ligadas à ideia de povo escolhido e bençãos divinas a serem
recebidas, quando apoiado nas suas iniciativas de expansão territorial, por exemplo),
quanto por estratégias políticas promovidas pelo governo de Netanyahu e seus aliados no
movimento sionista cristão internacional. 

Crédito: Lucas Martins

A promoção do Dia da Amizade, tanto no Brasil quanto na Guatemala, configura-
se como um instrumento eficaz da diplomacia da fé. Além de ser uma expressão estratégica do soft power israelense na região. O que distingue os dois contextos não é a lógica que os propulsiona, marcada pela atuação de parlamentares evangélicos e pela receptividade
simbólica da aliança com Israel, mas a velocidade e a profundidade de sua
institucionalização. 

Na Guatemala, a convergência entre o campo evangélico conservador, o poder legislativo, a Embaixada de Israel e a comunidade judaica local permitiu um estreitamento sem precedentes nas relações bilaterais, culminando na transferência da embaixada guatemalteca para Jerusalém em 16 de maio de 2018, logo após os Estados Unidos. Além disso, no atual conflito entre Israel e Gaza, o alinhamento diplomático da Guatemala permanece em apoio irrestrito ao governo de Netanyahu, mesmo com a presidência de Bernardo Arévalo, assumidamente de esquerda. 

No Brasil, embora a proposta de criação do Dia da Amizade Israel–Brasil tenha surgido antes da experiência guatemalteca, sua tramitação já dura quase duas décadas sem resolução definitiva. Essa demora pode ser atribuída ao peso simbólico da política externa brasileira, tradicionalmente comprometida com o multilateralismo, o direito internacional e a defesa da causa palestina. Tais fatores tendem a frear iniciativas semelhantes — mesmo quando há apoio no Parlamento por meio de alianças conservadoras e sionismo cristão. 

Enfim, enquanto na Guatemala a amizade com Israel se tornou política de Estado
e marco identitário, reforçado por milhares de bandeiras do país em ruas e púlpitos, no
Brasil ela permanece no campo da disputa simbólica, tensionada por diferentes tradições
diplomáticas, ideologias e alianças religiosas. Comparar esses dois casos é, portanto,
lançar luz sobre os modos como fé e geopolítica se entrelaçam na América Latina, e sobre
como um mesmo gesto: celebrar a amizade com Israel, pode assumir sentidos
profundamente distintos conforme o terreno onde é semeado. Mais do que isso, pode nos ajudar a compreender como parte do segmento cristão latino-americano, o sionismo cristão, vem contribuindo indiretamente para o projeto colonialista e expansionista do governo de extrema direita de Israel. 

 

Brenda Carranza é doutora Ciências Sociais, Profª. Programa Pós-Graduação Ciências Socias -PGCS- IFCH/ UNICAMP; Pesquisadora visitante FAPERJ; Co-coordenação: Centro de Pesquisa da Antropologia da Religião – LAR/UNICAMP;Conselho Editorial: Revista Ciências Sociais & Religião; Controle da mídia religiosa: Bereia e do International Journal of Latin American Religions; Pesquisas em andamento: Sionismo Cristão; Objeção de consciência e direitos reprodutivos na América Latina. (https://lattes.cnpq.br/7823709627972135) 

Maria das Dores Campos Machado é autora dos livros Política e Religião (Politics and Religion), Rio de Janeiro, FGV (2006); Carismáticos e Pentecostais: Adesão religiosa e seus efeitos na esfera familiar ( Charismatics and Pentecostals: Religious adhesion and the effects in a familiar sphere), Campinas, Ed. Autores Associados/ANPOCS (1996). She is also one of the organizers of the books Gênero, Neoconservadorismo e Democracia (Gender, Neoconservatism and Democracy) (São Paulo, Boitempo) (2020), Religiões e Homossexualidades (Religions and Homosexuality) (Rio de Janeiro, Fundação Getúlio Vargas) (2011) and Os votos de Deus (The votes of God) (Recife, Massangana) (2006)[email protected]  

Paul Charles Freston é formado em Ciências Sociais (Cambridge/Liverpool/Oxford); Prof. emérito de Política e Religião Wilfred Laurier University/Candadá; Prof. Colaborador em sociologia (UFCAR); linhas de pesquisa: Sionismo cristão no Sul Global; religião, política e cristianismo; pentecostalismo e política; religião e globalização. http://lattes.cnpq.br/4864799809509408 

Joanildo Burity é Dr. Ciência Política, Pequisador Estudos de Cultura, Identidade e Memória Fundação Joaquim Nabuco (FUNDAJ); Prof. Programa Pós-Graduação em Sociologia e Ciência Política da Universidade Federal de Pernambuco -PPGSCP-UFP; Prof. Sociologia em Rede Nacional (Profsocio/FUNDAJ); Sênior Lecturer dos Departamentos de Governo e Assuntos Internacionais e de Teologia e Religião e Coordenador do Programa de Mestrado Religião e Globalização Universidade de Durham/Inglaterra; Coordenador do Laboratório de Estudos de Religião e Política –LABERP/FUNDAJ-UFP; linhas pesquisa: religião e política; cultura e identidade; religião e ação coletiva movimentos sociais; globalização e cultura; teoria política. http://lattes.cnpq.br/1117978372756077 

Cecília Loreto Mariz é professora titular aposentada da UERJ. Doutora em Sociologia da Religião e da Cultura pela Boston University (1989) e mestre em Sociologia pela UFPE (1982). Tem pesquisado e pulicado sobre religiões no Brasil especialmente sobre Evangélicos e Católicos. 

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