QUE SEJAMOS TODOS TRATADOS COMO NEGROS

Por quase trinta anos, eu desejei ser branca

O racismo no Brasil é epidérmico, melanocrático

“quaaaase branca”

       “moreninha”

                                “cor de jambo”

                          “bronzeada”

Definições que ouvi repetidas vezes de familiares, professores e pais de colegas, que acreditavam, por afeto talvez, ser necessário suavizar no meu fenótipo aquilo que eles próprios consideravam incômodo. Tomei as palavras como verdade a ponto de construir uma identidade distorcida a respeito das minhas origens raciais. E assim também fizeram minha mãe, Suzy, e minha avó, Divina, que morreu aos 98 anos com a certeza de que ela não era negra.

Divina pintava aquarelas. Coloria retratos utilizando a técnica de fotopintura. Quando jovem, pintou um autorretrato a partir de uma fotografia em preto e branco. Na imagem original, Divina tem a pele negra, os cabelos crespos e o nariz largo, heranças visíveis de sua ancestralidade africana. Mas a aquarela pintada por minha avó a retrata com a pele branca como leite e os cabelos lisos levemente ondulados.

Eu, que fui criada por essa avó e cresci com esse autorretrato ao lado da minha cama, atravessei a infância, a adolescência e boa parte da vida adulta sem perceber a gritante distinção entre a ficção e o real. Em Ensaios sobre Fotografia, Susan Sontag escreve: “O pintor constrói, o fotógrafo revela”, e é a partir da construção do autorretrato de minha avó que parto em busca da revelação da minha própria identidade.

Por que demorei tantos anos para perceber a deturpação racial no autorretrato de minha avó?

Divina
Crédito: Acervo pessoal/Mariana Luiza

Esta incapacidade de estranhar a imagem embranquecida de Divina, com quem convivi de modo tão íntimo, entendo hoje como reflexo da “brancura” que habita em minha subjetividade, que colonizou meus desejos e a forma como eu olhava para o mundo e para mim mesma, fragmentando qualquer tentativa de construção de uma autoimagem negra afirmativa em mim. Eu não era capaz de confrontar os códigos dessa brancura na aquarela de minha avó, pois, no fundo, eu a desejava também em meus próprios traços.

A alienação racial vivida por mim e por minha família não era uma particularidade nossa. Era uma condição bastante comum em um Brasil majoritariamente negro, que se vendia ao exterior como o berço da “democracia racial”. Internamente, entretanto, se desautorizava a reconhecer a si mesmo a partir daquilo que lhe era inegável e, ironicamente, seu maior legado na imagem projetada ao mundo: suas raízes africanas. O racismo no Brasil é epidérmico, melanocrático.

Movida pelo desejo de compreender a negação da minha identidade negra, iniciei, em 2018, uma pesquisa voltada a identificar fatores que evidenciam o papel do Estado na construção da identidade nacional brasileira.

 

“Onde há nação, há brutalidade. E onde há brutalidade, nós somos o alvo”.

Jota Mombaça

Assim como a aquarela embranquecida de minha avó fabricava um rosto que não era o seu, outra imagem – pública, política e violenta – operou, em escala nacional, o mesmo gesto de fabulação racial: A Redenção de Cam, de Modesto Brocos. Exibida por João Batista Lacerda no Congresso Universal das Raças, em 1911, em Londres, a tela foi apresentada como materialização visual da tese do embranquecimento.

“Oferecemos ao Estado brasileiro nossas experiências historicamente acumuladas como forma de construirmos coletivamente uma outra dinâmica política”. – Documento da Marcha das Mulheres Negras de 2015
Modesto Brocos. A Redenção de Cam, 1895.
Óleo sobre tela, 199 × 166 cm.
Museu Nacional de Belas Artes, Rio de Janeiro.

Se a aquarela de minha avó atribuiu a ela uma identidade fictícia, a pintura de Brocos materializou, de forma oficial e amplamente difundida, o perverso gesto de construção de uma identidade nacional, símbolo do projeto de nação de uma oligarquia: “o negro passando a branco, na terceira geração, por efeito do cruzamento de raças”. Sua maior sordidez foi atribuir às mulheres negras o papel de agentes desse processo, transformando o embranquecimento em uma espécie de graça divina da República.

Não é casual que essa pintura tenha sido mobilizada como representação oficial do futuro desejado. Desde Independência ou Morte, de Pedro Américo, o Brasil vinha sendo fabricado por meio de imagens que inventavam uma origem heroica, europeizada e branca para um país profundamente indígena e negro. Se Américo construiu a cena do nascimento de uma nação, Brocos antecipou a nação que se queria construir. Entre essas duas telas, escancara-se a lógica torpe de um país cujo projeto estatal escolheu a europeização como fundamento identitário. Diante dessas e tantas outras imagens fundadoras que estruturaram a arquitetura simbólica brasileira, a pergunta se impõe: qual retrato se revela a partir dessas mitologias visuais?

“[O] cinema é o espaço onde ocorre a mais dura batalha pela representação. Mais que a fotografia, mais que a escrita, os estereótipos são fixados e ganham vida no cinema. E se você não se liga nesta forma problemática de representação, sujeitos se tornam objetos de representação por toda a vida”. – Manthia Diawara

Um filme documental, provisoriamente intitulado A Cor da Margem, e o website linhadecor.com, repositório da pesquisa reunida ao longo de sete anos, foram as linguagens inicialmente escolhidas para denunciar e confrontar esse projeto de nação. Tornar esse material acessível à sociedade civil sempre me pareceu fundamental, sobretudo em um país marcado por uma cidadania sistematicamente negada às pessoas negras.

Convidei a professora de Direito Constitucional Thula Pires para coordenar a pesquisa jurídica. A partir dessa parceria, integrou-se ao projeto a professora e historiadora Ana Flávia Magalhães, que assumiu a coordenação da pesquisa histórica. Juntas, mobilizaram um grupo de onze pesquisadores do ensino superior para investigar instrumentos normativos que marginalizaram a população negra no país.

Também se somou à equipe o arquivista e curador Yago Lima e, a partir desse e de outros encontros potentes, o projeto se expandiu para diferentes ações e linguagens: a exposição de artes visuais Constituinte do Brasil Possível, disponibilização de conteúdos educacionais por meio de planos de aula gratuitos, esquetes com influenciadores de diferentes regiões publicadas no perfil @_linhadecor, além de outras iniciativas gestadas pelo mesmo impulso de partilha.

O conteúdo presente no site reúne o esforço de evidenciar como diversas normas jurídicas, da Constituinte de 1823 à Constituição de 1988, produziram teor ou efeitos racistas, mesmo quando não mencionavam diretamente pessoas negras, articulando essas leis aos contextos e às formas de resistência individuais ou coletivas de cada período.

Mas não só. O projeto também se dedica a recuperar personagens e experiências de resistência apagadas do nosso imaginário político, reinscrevendo-as no debate jurídico e ampliando as possibilidades de compreender o país para além das narrativas hegemônicas.

Escolhemos renunciar à utilização de imagens de controle que reduzem a presença negra às violências da escravidão ou ao trabalho forçado, anulando a capacidade de agência, criação e inventividade de pessoas negras. Optamos por estimular a produção de imagens que contestem essa história única. O artista mirim Fênix Valentim, de doze anos, ilustrou verbetes jurídicos e episódios de resistência negra que foram sistematicamente apagados da produção iconográfica oficial do século XIX, como a Revolta dos Malês, a Revolta das Carrancas e outros eventos cerceados do imaginário visual do período.

Essas ilustrações, ao lado da pesquisa histórica e jurídica, operam como um gesto deliberado de disputa de narrativa e fabulação histórica, como parte indissociável da tarefa de refundar o país: não no sentido de inventar fatos, mas de reimaginar os modos de narrar, devolvendo presença simbólica ao que foi silenciado. Fabular a história aqui é disputar o regime de imagens que molda a ideia de Brasil; é propor cenas de origem e futuros possíveis, afirmando que a resistência negra sempre esteve no centro da construção deste país, ainda que o Estado tenha insistido em apagá-la.

“Oferecemos ao Estado brasileiro nossas experiências historicamente acumuladas como forma de construirmos coletivamente uma outra dinâmica política”. – Documento da Marcha das Mulheres Negras de 2015
Fênix Valentim. A Revolta dos Malês, 2024.
Giz de cera em papel, 210 cm × 297 cm.
“Oferecemos ao Estado brasileiro nossas experiências historicamente acumuladas como forma de construirmos coletivamente uma outra dinâmica política”. – Documento da Marcha das Mulheres Negras de 2015 
Fênix Valentim. Rasgando o Código Criminal do Império, 2024.
Canetinha e nanquim em papel, 210 cm × 297 cm.

“Oferecemos ao Estado brasileiro nossas experiências historicamente acumuladas como forma de construirmos coletivamente uma outra dinâmica política”. – Documento da Marcha das Mulheres Negras de 2015

Neste novembro, mês da Consciência Negra e da II Marcha das Mulheres Negras, voltamos nossos olhos para os marcos que reconfiguram não apenas a luta política no Brasil, mas também o próprio modo de imaginar o que pode ser um país. A Marcha de 2015 retorna agora, dez anos depois, propondo mais uma vez um projeto de país voltado para a Reparação e para o Bem Viver de todas as pessoas.

Embora essa nação tenha se habituado a mirar sua arquitetura jurídica nas tradições de Estados Unidos, Inglaterra e França, nações que proclamavam liberdade, igualdade e fraternidade, enquanto sustentavam escravismo, colonialismo e hierarquias raciais e de gênero profundas, existe um outro repertório, anterior, mais amplo e mais radical, produzido por sociedades africanas e por lutas negras no mundo atlântico, que precisa ser reconhecido como parte da nossa própria genealogia constitucional.

Ao revisitar marcos históricos africanos e afrodiaspóricos, percebemos que sempre houve outras possibilidades de organizar um país fundamentado na vida plena e em uma relação integral com a natureza. A Carta Mandinga, século XIII, do Império do Mali, reconhecia a centralidade das crianças, o valor sagrado da vida e a participação ativa das mulheres na tomada de decisões – séculos antes da Europa e Estados Unidos considerarem essas dimensões básicas da cidadania.

Esses documentos, ao lado de revoltas como as dos Malês e das Carrancas, das lutas quilombolas, dos processos de resistência no pós-abolição e dos movimentos sociais contemporâneos, revelam projetos alternativos de país, formulados em diferentes tempos, que apontam para um Brasil possível, fundado na vida plena e em uma relação integral com a natureza.

Se a pesquisa das leis me despertou revolta e desejo de denúncia, o encontro com essas personagens e com a luta de nossos ancestrais negros acendeu um sentimento de pertença a um coletivo, a uma filosofia e a um país que ainda não existe, mas que vem sendo cuidadosamente construído, século após século, pela força e pela lida daqueles a quem devo honrar.

Termino, então, parafraseando o artigo 14 da Constituição haitiana de 1805 e fazendo dele o meu desejo de país: a partir de agora todos os cidadãos brasileiros serão conhecidos e tratados como negros.


Mariana Luiza é cineasta e artista visual. Seu trabalho aborda questões de identidade e pertença. É idealizadora e produtora do projeto Linha de Cor e da exposição Constituinte do Brasil Possível (CCC-RJ 2024 e CNJ-DF 2025). Dirigiu a instalação imersiva “Redenção” (2023, IDFA), a série documental criada por Emicida “Enigma da Energia Escura” (2021, GNT/Globoplay) e o curta “Casca de Baobá” (2017, BIFF). É formada em Roteiro pela New York Film Academy (2008, NYC) e em Montagem pela Escola de Cinema Darcy Ribeiro (2018, RJ). É Membra da APAN – Associação dos Produtores Audiovisuais Negros, da AAWIC – African American Women In Cinema (EUA) e Talento Paradiso.

 

Referências

DAMASCENO, Janaína. Entrevista: Manthia Diawara e o cinema africano. FICINE,  Rio de Janeiro, 13 dez. 2013. Disponível em: https://ficine.org/2013/12/13/entrevista-manthia-diawara-e-o-cinema-africano/. Acesso em: 22 nov. 2025.

HAITI. Declaração de Independência do Haiti, 1804.

LACERDA, João Batista de. Sur les métis au Brésil. Paris: Imprimerie Devouge, 1911. Disponível em:

https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/d/d9/Sur_le_m%C3%A9tis_au_Br%C3%A9sil.pdf. Acesso em: 22 nov. 2025.

MOMBAÇA, Jota. Não vão nos matar agora. Compilação de José Fernando Peixoto de Azevedo. 1. ed. Rio de Janeiro: Cobogó, 2021.

SONTAG, Susan. Ensaios sobre a fotografia. Tradução de Rubens Figueiredo. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.

 

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