Flávio Bolsonaro e a disputa pelo capital político da extrema direita
Qual é o preço e o tamanho do apoio que a família Bolsonaro ainda pode oferecer a um candidato competitivo à Presidência?
A possível candidatura de Flávio Bolsonaro não deve ser lida apenas como um projeto eleitoral individual. Ela opera, antes de tudo, como um experimento político controlado, um “balão de ensaio” cuidadosamente lançado para medir o que ainda resta do capital eleitoral, simbólico e negociável da família Bolsonaro no rearranjo da direita e extrema direita brasileira. Mais do que disputar um cargo, o movimento testa sua capacidade de continuar relevante num cenário em que o bolsonarismo já não ocupa o centro da cena política, mas tampouco desapareceu.
A aposta, no entanto, é arrisca por definição. Diferentemente de Jair Bolsonaro, Flávio carrega consigo um pesado passivo jurídico e político que jamais deixou de acompanhar seu nome. O ponto central é o caso das “rachadinhas”, um esquema operado por Fabrício Queiroz que movimentou cerca de R$ 2 milhões em repasses feitos por 13 ex-assessores de seu gabinete. Segundo o Terra (2019), muitos desses assessores “(…) jamais desempenharam qualquer função pública: eram funcionários fantasmas que emprestavam nome e contas bancárias para permitir o desvio de recursos públicos, mediante retenção de uma parte do salário”. A lavagem desse dinheiro, por sua vez, ocorreu, conforme reportou a Carta Capital (2025), através da aplicação em uma loja de chocolates em um shopping no Rio, da compra de imóveis com dinheiro em espécie e do pagamento de despesas pessoais.

Outra acusação grave é a sua relação direta com o entorno do miliciano Adriano da Nóbrega, que chegou a ser homenageado por Flávio na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro e teve familiares empregados em seu gabinete. Uma candidatura, qualquer que seja o cargo, recoloca todo esse conjunto de fatos sob os holofotes de forma inevitável. O risco é evidente: o mesmo movimento que busca medir a força eleitoral do clã pode também acelerar o seu desgaste definitivo.
É justamente aí que reside o caráter experimental da operação. Ao expor Flávio ao escrutínio público, a família testa não apenas sua capacidade de defesa política, mas também o nível de tolerância social ainda existente em relação à simbiose entre política institucional, milícia e práticas patrimonialistas. O que se mede não é apenas intenção de voto, mas resistência moral do eleitorado, adesão ideológica e disposição para relativizar escândalos em nome da guerra cultural.
A pergunta que orbita esse movimento é central para 2026: qual é o preço e o tamanho do apoio que a família Bolsonaro ainda pode oferecer a um candidato competitivo à Presidência? Se a extrema direita brasileira caminhar para uma candidatura que não seja diretamente do clã, como já se ventila em setores do empresariado, do agronegócio e das igrejas, o bolsonarismo precisará provar que ainda entrega votos, ruas, militância digital e capacidade de mobilização. Flávio, nesse sentido, funciona como um ativo em teste.
O cálculo é frio. Se a candidatura fracassar, o prejuízo é “administrável”: confirma-se o esvaziamento político da família e abre-se espaço para uma transição dentro do campo conservador. Se, ao contrário, Flávio demonstrar viabilidade eleitoral relevante, o clã se recoloca como peça-chave nas negociações da extrema direita, não necessariamente como protagonista, mas como fiador de um capital simbólico ainda operacional.
Essa estratégia revela também a transformação do bolsonarismo: de projeto de poder hegemônico a moeda de troca política. O clã deixa de operar apenas como liderança carismática e passa a se comportar como ator negociador, disposto a trocar apoio por espaço, proteção institucional e sobrevivência política. O “experimento Flávio Bolsonaro”, portanto, não é apenas eleitoral é sobretudo estratégico.
Mas há um limite estrutural para essa operação. Ao contrário do que ocorria em 2018, quando a narrativa anticorrupção funcionava como instrumento de ascensão, hoje o bolsonarismo está indissociavelmente vinculado a escândalos, à relação com o submundo miliciano, à ruptura institucional de 8 de janeiro e à instrumentalização do Estado para fins familiares. Uma candidatura de Flávio não testa apenas sua popularidade; testa a capacidade do país de continuar naturalizando práticas que corroem o próprio fundamento da vida pública.
Mais do que um projeto personalista, a eventual candidatura de Flávio Bolsonaro funciona como um sismógrafo da extrema direita brasileira. Ela indicará se o bolsonarismo ainda é força capaz de organizar politicamente um campo, ou se passa, gradativamente, à condição de herança tóxica, útil apenas como base de barganha residual.
Em última instância, o que está em jogo não é apenas o futuro político de um sobrenome, mas a resposta a uma questão mais profunda: a extrema direita brasileira seguirá prisioneira do bolsonarismo ou conseguirá se reorganizar para além dele? O “balão de ensaio Flávio Bolsonaro” responde menos ao presente imediato do que ao mapa de forças que já começa a se desenhar para 2026.
Mauricio Alfredo é Mestre em Educação, Professor de Geografia, Geopolítica e Atualidades no Ensino Médio e Superior

