AMÉRICA LATINA EM TRANSFORMAÇÃO

Novas direitas, plataformas digitais e o reposicionamento geopolítico regional

Em sociedades marcadas por frustrações estruturais acumuladas, desigualdade persistente e profundo descrédito nas instituições, a economia da atenção atua como o terreno fértil para que a extrema-direita estabeleça seus projetos de ruptura

A polarização política que marca o cenário contemporâneo da América Latina tem sido frequentemente interpretada como resultado direto da divisão ideológica entre direita e esquerda.  No entanto, essa leitura, embora relevante, mostra-se insuficiente para explicar a velocidade, a intensidade e a forma com que essas polarizações se manifestam no presente. Há um elemento estrutural relativamente novo que precisa ser incorporado à análise: o papel dos algoritmos e da economia da atenção na reorganização do debate público.

Com o avanço das telecomunicações, os algoritmos e os mecanismos digitais deixaram de ser meros intermediários neutros da informação para se tornarem atores centrais na mediação da realidade social. Ao definir o que é visível ou viral, essas estruturas moldam ativamente o repertório informacional das sociedades. Assim, fatores históricos, culturais e estruturais deixam de ocupar o centro da mediação do debate público, enquanto o engajamento passa a determinar a circulação das ideias.

É exatamente nesses processos invisíveis e avassaladores que as democracias da América Latina se encontram inseridas. O antigo ecossistema do debate público foi inteiramente transferido para a lógica da economia da atenção, transformando o ato político em um produto disputado no mercado dos cliques. Sob o patrocínio de modelos de negócios das Big Techs, algoritmos de recomendação deixaram de ser ferramentas neutras de entrega de conteúdo para se tornarem os novos gestores da vontade popular, operando como o motor por trás do avanço de forças políticas de extrema-direita na região.

Essa transformação está diretamente vinculada à consolidação da chamada economia da atenção. Nesse modelo, o recurso mais escasso não é a informação, mas a capacidade de capturar e manter o foco do usuário. Como consequência, conteúdos que despertam emoções intensas, como indignação, medo e raiva, passam a ser priorizados pelos algoritmos, pois geram maior interação. A política, ao ser absorvida por essa lógica, passa a operar sob novos parâmetros, enquanto discursos moderados, que exigem reflexão, tempo e ponderação, tornam-se obsoletos. A impaciência algorítmica, tendência de exigir respostas instantâneas, leva os indivíduos a desenvolverem uma intolerância ao esforço cognitivo prolongado. Esse comportamento premia a simplificação extrema e os conteúdos curtos, polarizados e emocionalmente carregados são os únicos capazes de romper a barreira do desinteresse coletivo, gerando o engajamento necessário para a viralização. Dessa maneira, a tendência é criar soluções fáceis para problemas complexos, o que torna o debate extremamente raso, pois o tempo da reflexão cede lugar para a urgência da reação, e o debate público passa a ser substituído pela dinâmica do confronto.

Essa vulnerabilidade cognitiva, portanto, não deve ser interpretada como uma mera sucessão de eventos isolados, mas como uma tendência ampla de reconfiguração ideológica e geopolítica na América Latina. Em sociedades marcadas por frustrações estruturais acumuladas, desigualdade persistente e profundo descrédito nas instituições, a economia da atenção atua como o terreno fértil para que a extrema-direita estabeleça seus projetos de ruptura. Ao se apropriar de lógicas digitais que privilegiam o choque e a intensidade emocional, esses movimentos operam por meio de narrativas inflamadas e estéticas de espetáculo perfeitamente moldadas para o algoritmo.

Foto: Guilherme Santos/Sul21.com.br

Figuras como Javier Milei, na Argentina, compreenderam essa dinâmica ao utilizar a imagem real e digital de uma motosserra para simbolizar, de maneira brutal e altamente compartilhável, o corte de gastos públicos. Nayib Bukele, por sua vez, consolidou em El Salvador o modelo do “governo por redes sociais”, utilizando transmissões cinematográficas de mega presídios para envelopar a complexa pauta da segurança em um produto de entretenimento digital de consumo rápido. Esse mesmo padrão se reflete na ação midiática de Keiko Fujimori no Peru, que recorreu a vídeos curtos no TikTok para humanizar sua imagem diante da juventude, e na vitória de Abelardo de la Espriella na Colômbia. Sob a marca de “El Tigre”, Espriella transformou sua campanha em um fenômeno de pirotecnia virtual, provando que propostas de “mão de ferro” ganham tração inédita quando sintonizadas com a pressa do eleitorado.

Através dessa estratégia deliberada, ataca-se sistematicamente pilares civilizatórios como a educação e a cultura, deslegitimando os espaços responsáveis pela formação do pensamento crítico e eliminando a capacidade social de mediação. Nesse ambiente, a impaciência algorítmica destrói as condições de possibilidade do dissenso democrático, convertendo adversários em inimigos existenciais e substituindo o debate por uma guerra permanente de percepções. O método alimenta a polarização extrema e o discurso de ódio, fragmentando as normas de convivência social, destruindo a confiança nas instituições e, por fim, inviabilizando a busca por consensos essenciais para a sobrevivência democrática.

Se, no plano interno, essas dinâmicas reorganizam o comportamento eleitoral, no plano externo elas passam a ser instrumentalizadas como ferramentas de poder. É nesse ponto que a questão assume outra escala. A engrenagem da economia da atenção atua como o veículo ideal para a reconfiguração geopolítica pretendida pela doutrina Make America Great Again (MAGA), de Donald Trump. Longe de recorrer aos tradicionais golpes de Estado ou às intervenções militares que marcaram o século XX, a estratégia de Washington para conter o avanço dos investimentos e da influência chinesa na América Latina passa a operar de forma mais difusa e menos visível, por meio de linhas de código, sistemas de recomendação e direcionamento algorítmico controlados pelas Big Techs.

Nesse contexto, é emblemática a fotografia que marcou a cerimônia de posse de Donald Trump, em janeiro de 2025, na qual estavam presentes os CEOs e fundadores das maiores empresas de tecnologia do mundo. A imagem sintetiza simbolicamente a convergência entre poder político e poder tecnológico, evidenciando o papel estratégico que essas plataformas passaram a desempenhar na projeção da influência geopolítica dos Estados Unidos.

Do ponto de vista geopolítico, o reflexo mais nítido dessa guerra informacional traduz-se na recente declaração do próprio Trump, que apontou as eleições brasileiras como o “próximo grande teste” de sua influência na região. Na visão estratégica dos EUA, induzir uma guinada à direita na maior economia do continente, utilizando o ecossistema digital para inflamar o eleitorado e desestabilizar governos progressistas, é a ferramenta mais eficaz para isolar Pequim e retomar o controle hegemônico sobre o mapa político regional.

Transpondo essa dinâmica para o plano internacional, o método que viabiliza essa nova forma de ingerência estrangeira, portanto, prescinde de intervenções armadas ou de golpes de Estado tradicionais, operando essencialmente através dos algoritmos de recomendação e da gestão da economia da atenção. Não se trata da extinção dos mecanismos clássicos de intervenção política, mas de uma reconfiguração sofisticada: as plataformas digitais tornam-se as arenas centrais de poder, onde a influência externa é exercida de maneira difusa, contínua e dificilmente rastreável. Nesse cenário, a impaciência algorítmica e a economia da atenção não geram a polarização social a partir do nada, mas atuam como potentes dispositivos de aceleração e radicalização de fraturas e contradições estruturais já existentes no tecido social brasileiro.

Como resultado, o enfraquecimento das democracias latino-americanas por meio da polarização interna facilita a perda de sua soberania informacional e política, recolocando a América Latina sob a histórica zona de influência e controle estratégico dos Estados Unidos.

Dessa forma, ao deslocar a disputa política para o controle dos fluxos de informação e engajamento, Washington amplia sua capacidade de influenciar os rumos das eleições no Brasil sem disparar um único tiro, convertendo a própria infraestrutura digital na mais eficaz arma geopolítica do século XXI. Diante dessa nova engenharia de poder, a soberania nacional já não se decide nas fronteiras, mas nos algoritmos: enfrentá-los e regulá-los deixa de ser uma opção e passa a ser uma condição indispensável para conter o avanço do colonialismo algorítmico.

 

Mauricio Alfredo é Mestre em Educação, Professor de Geografia, Geopolítica e Atualidades no Ensino Médio e Superior

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