TRABALHO

As diferenças substantivas nas formas de organização do trabalho entre “entregadores de plataformas”

Embora entregadores que atuam em plataformas de entrega sob demanda, como iFood e 99, e aqueles vinculados às operações logísticas de empresas como Amazon e Mercado Livre sejam frequentemente agrupados em categorias amplas, como “trabalho de plataforma” ou “economia digital”, essa aproximação tende a obscurecer diferenças substantivas nas formas de organização do trabalho, nas temporalidades da circulação, nas infraestruturas mobilizadas e nas relações estabelecidas entre trabalhadores, algoritmos, mercadorias e consumidores finais.

Em primeiro lugar, há diferenças importantes na natureza da atividade econômica realizada. Entregadores de aplicativos como iFood ou 99 operam predominantemente em mercados de entrega sob demanda, caracterizados pela imediaticidade do consumo. O trabalho consiste em conectar restaurantes, comércios locais e consumidores finais em circuitos de curta duração, nos quais o valor da mercadoria está fortemente associado à rapidez da entrega. A refeição, por exemplo, é produzida, transportada e consumida em um intervalo temporal relativamente curto. Já os entregadores vinculados às operações logísticas da Amazon ou do Mercado Livre integram cadeias mais amplas de circulação de mercadorias. Nesses casos, o foco não está na entrega imediata, mas na coordenação e no deslocamento de produtos provenientes de centros de distribuição, galpões e bases logísticas que articulam fluxos em escalas regionais e nacionais.

Essa distinção implica diferentes formas de relação com o espaço urbano. Os entregadores de aplicativos tendem a atuar em áreas de elevada densidade comercial e populacional, concentrando seus deslocamentos em regiões centrais ou em bairros com intensa demanda por serviços. Sua mobilidade é marcada pela imprevisibilidade das solicitações e pela necessidade constante de adaptação a fluxos urbanos dinâmicos. Em contraste, os entregadores logísticos frequentemente percorrem rotas previamente estruturadas, planejadas a partir de sistemas de distribuição territorial mais amplos. A gestão do trabalho aproxima-se, nesse caso, de modelos tradicionais de logística e transporte de cargas, ainda que mediados por tecnologias digitais.

As formas de remuneração também apresentam diferenças significativas. No trabalho sob demanda, a renda costuma depender da quantidade de corridas realizadas, dos horários trabalhados, das dinâmicas de precificação algorítmica e da intensidade da demanda local. O tempo de espera entre entregas constitui um elemento central da experiência laboral, pois pode significar períodos não remunerados. Já nas operações logísticas, embora também existam formas variáveis de remuneração, o pagamento tende a estar associado às rotas realizadas, ao volume de encomendas transportadas ou a contratos de prestação de serviços relativamente mais estáveis, envolvendo o cumprimento de metas de produtividade e de prazos de entrega.

Outro aspecto relevante diz respeito às infraestruturas que sustentam cada modalidade de trabalho. No delivery sob demanda, restaurantes, cozinhas, consumidores e plataformas constituem os principais pontos de articulação da rede. Nas entregas logísticas, por sua vez, a operação depende de uma infraestrutura muito mais complexa, composta por centros de distribuição, galpões, sistemas de triagem, transportadoras intermediárias e bases de apoio. O entregador torna-se um dos elos mais instáveis e enfrenta maiores obstáculos de mobilidade de uma cadeia logística mais extensa, cuja coordenação envolve a combinação entre múltiplos agentes humanos e tecnológicos.

Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

As formas de ingresso nessas diferentes modalidades de trabalho também revelam pontos de interseção e distinção. Em ambos os casos, o acesso à atividade passa por procedimentos mediados digitalmente, como o cadastro em aplicativos, a submissão de documentos pessoais e do veículo, bem como a espera pela aprovação da plataforma. No entanto, entre as operações logísticas vinculadas a empresas como Amazon e Mercado Livre, os processos de seleção tendem a ser mais demorados e rigorosos. Além da verificação documental, são frequentemente realizados controles adicionais, incluindo consultas aos antecedentes criminais, em razão das responsabilidades associadas ao transporte e à custódia de mercadorias de maior valor econômico.

A preocupação com a segurança é reforçada por uma série de mecanismos de monitoramento e rastreamento que acompanham a circulação das encomendas ao longo da cadeia logística. Embora ocorram episódios excepcionais de extravio ou desaparecimento de cargas, como o caso amplamente comentado de um entregador do Mercado Livre que não concluiu a entrega de uma remessa sob sua responsabilidade, tais situações aparecem como eventos raros diante da multiplicidade de controles, constrangimentos operacionais e dispositivos de vigilância que estruturam essas operações. O ingresso e a permanência nesse segmento, portanto, estão associados a formas específicas de confiança institucionalizada, nas quais o trabalhador é continuamente avaliado para além de seu desempenho, também por sua adequação a critérios de segurança e confiabilidade.

As relações com os algoritmos também assumem configurações distintas. Nos aplicativos de entrega de refeições, os sistemas algorítmicos regulam a distribuição de corridas em tempo real, monitoram deslocamentos e influenciam diretamente a renda diária dos trabalhadores. A incerteza sobre critérios de pontuação, ranqueamento e acesso a pedidos constitui frequentemente uma fonte de tensão. Nas operações logísticas, os algoritmos tendem a atuar mais intensamente no planejamento de rotas, na previsão de demanda, na organização de estoques e no monitoramento do desempenho operacional da cadeia de suprimentos. Embora o controle digital permaneça central, ele se manifesta de maneira diferente, articulando-se a estruturas logísticas mais robustas e menos dependentes da interação instantânea entre oferta e demanda.

Há ainda diferenças importantes na experiência social do trabalho. Entregadores de aplicativos frequentemente descrevem sua atividade em termos de autonomia, flexibilidade e possibilidade de “fazer seu corre”, mesmo quando essa autonomia é atravessada por mecanismos intensos de controle algorítmico. Entre entregadores logísticos, por outro lado, a experiência tende a ser mais fortemente marcada por rotinas padronizadas, cronogramas predefinidos e integração a sistemas organizacionais complexos. A linguagem da logística, da produtividade e da eficiência ocupa um lugar mais central do que a linguagem da flexibilidade e da disponibilidade permanente.

Dessa forma, embora ambas as categorias de trabalhadores possam ser compreendidas como participantes de formas contemporâneas de trabalho mediado por plataformas digitais, suas experiências laborais não são equivalentes. Os entregadores de aplicativos de entrega rápida operam em circuitos urbanos marcados pela instantaneidade, pela imprevisibilidade da demanda e pela intensa interação com consumidores finais. Já os entregadores logísticos integram cadeias de circulação mais amplas, associadas à gestão de fluxos de mercadorias em larga escala, à coordenação de infraestruturas complexas e a temporalidades mais extensas da circulação. Tratar esses grupos como uma categoria homogênea de “trabalhadores de plataforma” pode ser analiticamente útil em alguns contextos, mas corre o risco de obscurecer diferenças fundamentais nos regimes de trabalho, nas formas de controle, nas infraestruturas mobilizadas e nas economias morais que organizam suas atividades cotidianas.

 

Ana Raquel Couto é doutora em Sociologia pelo Programa de Pós-Graduação em Sociologia da Universidade Federal Fluminense. Pesquisadora do grupo Fronteiras (PPGS/UFF), do NuCEC – Núcleo de Pesquisas em Cultura e Economia e do LabPatt- Laboratório de Pesquisa-ação sobre Trabalho e Território. Desenvolve pesquisas na área dos estudos sociais da economia, empreendedorismos nas economias populares, mobilidades urbanas, mulheres entregadoras, comércio logístico e economias de plataforma.

Leia mais sobre o tema: