ORMUZ E A GEOPOLÍTICA DO PEDÁGIO

O cerco dos EUA à China e a blindagem eurasiana do Irã

O conflito atual não é apenas uma escalada militar ou uma crise regional, mas a expressão da disputa entre um modelo tradicional de poder, baseado na coerção e na superioridade tecnológica, e outro mais difuso, resiliente e descentralizado

O esgotamento da “coerção ocidental” tradicional

A recente escalada global e o colapso do cessar-fogo estabelecido pelo Memorando de Entendimento (MoU), assinado em 17 de junho de 2026, consolidam a atual guerra entre EUA/Israel e Irã como um conflito de reconfiguração hegemônica no Oriente Médio. Mais do que uma sucessão de ataques e retaliações, o conflito se projeta como um embate entre formas distintas de exercer poder no sistema internacional.

O gatilho imediato para o colapso da trégua foi o controle de navegação no Estreito de Ormuz, por onde transita cerca de 20% do petróleo mundial.

​A divergência encontra-se no Memorando de Entendimento, no qual o Irã acusa os EUA de violar os termos acordados ao tentar impor a abertura unilateral de novas rotas de navegação ao sul, próximas a Omã, sem autorização prévia. Pelo acordo, Teerã manteria o controle direto e a soberania sobre a rota norte por 30 dias após a assinatura.

Em resposta, o Irã atacou navios comerciais de grande importância, como o petroleiro Al Rekayyat, que transportava gás liquefeito do Catar. Os Estados Unidos reagiram bombardeando mais de 80 alvos em território iraniano ao longo do estreito, buscando neutralizar a capacidade naval e de mísseis da Guarda Revolucionária (IRGC).

Historicamente, o poder dos EUA e de seus aliados sustentava-se no binômio formado por sanções econômicas asfixiantes e superioridade militar incontestável. Se um país desafiasse a ordem internacional, ele era isolado financeiramente (via sistema SWIFT ou embargos) e, se necessário, alvo de intervenção armada. Esse modelo operava como um mecanismo de organização do próprio sistema internacional, capaz de impor custos e induzir comportamentos.

Hoje, esse padrão revela sinais de esgotamento contra atores de médio e grande porte. O Irã enfrentou décadas de sanções e, ainda assim, conseguiu estruturar uma base tecnológica militar avançada, como os drones Shahed e mísseis hipersônicos, além de preservar sua projeção regional.

O conflito atual não representa uma escalada militar ou uma crise regional recorrente. Ele expressa uma tensão mais profunda entre um modelo de poder que possui uma arquitetura ainda baseada na centralidade financeira, na superioridade tecnológica e na capacidade de coerção direta e em outro que possui formas mais difusas, resilientes e descentralizadas de projeção estratégica, que reduzem a eficácia dos instrumentos tradicionais de pressão.

É nesse contexto que a capacidade ocidental de ditar os rumos do Oriente Médio apenas pela força ou pelo isolamento econômico encontrou um teto e o retorno dos bombardeios mútuos transcende a mera rivalidade diplomática, ancorando-se em três pilares geopolíticos fundamentais:

Ormuz como gargalo: de rota a instrumento de poder

O Estreito de Ormuz transcende a definição clássica de uma rota comercial marítima; ele opera, fundamentalmente, como um dispositivo geopolítico de estrangulamento seletivo. Por ele flui aproximadamente 20% do comércio mundial de petróleo, o que significa que seu controle, ou mesmo a capacidade de ameaçar esse fluxo, confere a um ator o poder de regular não apenas o tráfego físico de navios, mas o próprio comportamento do mercado financeiro global. O domínio sobre Ormuz influencia os preços internacionais do petróleo, a estabilidade das cadeias produtivas globais e a previsibilidade do comércio internacional.

É diante desse tabuleiro de alta intensidade que Donald Trump, após os bombardeios que enfraqueceram a capacidade iraniana, recuou na proposta de taxação unilateral (pedágio) de 20% sobre as embarcações em Ormuz, substituindo-a por acordos bilaterais de comércio e investimento com Estados do Golfo, voltados à canalização de recursos para a infraestrutura interna dos Estados Unidos. Trata-se da manifestação prática de uma nova lógica de poder que combina coerção militar, controle logístico e engenharia financeira. Sob essa ótica, a presença militar ocidental na região deixa de ser justificada apenas pela clássica garantia de “livre navegação” e passa a operar como um mecanismo de reconfiguração dos termos de acesso, circulação e precificação da energia global.

A narrativa de proteção ao Estreito de Ormuz encobre uma mudança na forma como a economia e o poder se articulam no cenário internacional. O objetivo estratégico vai além de conter o Irã: trata-se de condicionar o acesso à energia de potências concorrentes, sobretudo a China, maior importadora de petróleo do Oriente Médio, a uma arquitetura de segurança sob liderança estadunidense. Nesse processo, a segurança é transformada em serviço, e a circulação marítima, em um ativo controlável. O conflito, assim, deixa de ser apenas militar e se afirma como uma disputa econômica pelo controle dos fluxos energéticos que sustentam a economia global.

Mais do que uma simples reorganização financeira, a substituição da taxa por acordos de investimento com os Estados do Golfo revela uma manobra estratégica de Washington para conter, de forma indireta, o avanço chinês na região. Ao atrair e ancorar o capital árabe à sua própria estrutura econômica, os Estados Unidos não eliminam a presença de Pequim, mas passam a enquadrá-la dentro de uma arquitetura de poder que ainda controlam. Trata-se, nesse sentido, de converter a dependência energética chinesa, baseada no petróleo que atravessa Ormuz, em uma vulnerabilidade estratégica cada vez mais condicionada pelos EUA.

Estreito de Ormuz visto de cima – Foto: NASA

Descentralização do comando e redistribuição do poder

O ciclo recente de ataques, intensificado a partir das operações conduzidas por Estados Unidos e Israel, não produziu apenas danos à infraestrutura militar iraniana, mas desencadeou um processo mais profundo de reconfiguração interna. A morte do aiatolá Ali Khamenei atua, nesse contexto, como um ponto de virada, acelerando a transição de uma estrutura fortemente centralizada para uma lógica mais difusa de coordenação militar e estratégica. Não se trata, portanto, de um simples vazio de poder, mas de sua redistribuição em múltiplos níveis operacionais.

Nesse novo arranjo, a fragmentação do comando deve ser compreendida como uma adaptação funcional. Sem um centro decisório único e plenamente controlável, as forças armadas regulares, a Guarda Revolucionária (IRGC) e as milícias regionais do chamado “Eixo da Resistência” passam a operar com maior autonomia tática e capacidade de iniciativa. Na prática, deixa de existir um “botão central” em Teerã que possa ser pressionado, militar ou economicamente, para interromper o conjunto das operações.

Essa descentralização já se manifesta empiricamente no padrão das ações em curso. A utilização de táticas de enxames de drones de baixo custo e o emprego de lanchas rápidas da Guarda Revolucionária que operam de forma independente para assediar forças navais convencionais exemplificam essa nova dinâmica. Ataques recorrentes a bases norte-americanas no Golfo, em países como Kuwait, Bahrein e Emirados Árabes Unidos, ocorrem de forma simultânea e descentralizada, muitas vezes à revelia de sinais diplomáticos emitidos em níveis mais altos. De modo semelhante, milícias aliadas em diferentes pontos da região mantêm capacidade autônoma de engajamento, utilizando drones, mísseis e operações indiretas que dificultam a atribuição clara de responsabilidade e ampliam a complexidade do conflito.

O resultado é a emergência de uma forma de poder que escapa à lógica tradicional do Estado hierárquico. Ao tentar “decapitar” o regime para forçar uma rendição rápida, o Ocidente acabou gerando, paradoxalmente, um oponente muito mais difuso e resiliente às ferramentas de dissuasão tradicionais. Ao dispersar seus centros de decisão, o sistema iraniano torna-se menos vulnerável a estratégias baseadas em sanções ou negociações centralizadas. O conflito, assim, deixa de se configurar como uma guerra contra um Estado plenamente identificável e passa a assumir a forma de um embate prolongado contra múltiplos núcleos de decisão interconectados, tornando a contenção mais complexa e a resolução diplomática estruturalmente limitada no curto prazo.

Nesse entrelaçamento entre controle logístico e dispersão estratégica, o conflito transcende o eixo EUA–Irã e passa a se inscrever em uma disputa mais ampla pela reorganização da economia global de energia, envolvendo blocos, alianças e formas concorrentes de exercício de poder no sistema internacional.

Dinâmica de blocos e a economia global de energia

O terceiro pilar que sustenta a resiliência do Irã frente à coerção ocidental é a sua inserção estratégica em uma nova dinâmica de blocos globais. Geopoliticamente, Teerã não atua de forma isolada. A rápida recomposição de sua infraestrutura militar e a manutenção de sua capacidade defensiva na costa iraniana são viabilizadas por uma profunda aliança estratégica e de segurança com a Rússia e a China, que desempenham papéis complementares e decisivos capazes de neutralizar, de forma prática, o antigo paradigma de isolamento financeiro e militar.

Nesse sistema, Moscou atua como parceiro militar direto, adquirindo a tecnologia de drones iraniana e compartilhando inteligência tática, sistemas e experiência operacional. Já a China, que evita armar diretamente o Irã, exerce a função de sustentação estrutural, garantindo acesso a cadeias industriais, componentes estratégicos e fluxos financeiros. Não se trata de uma aliança formal clássica, mas de uma convergência funcional de interesses para ambos, já que o prolongamento do envolvimento estadunidense no Oriente Médio representa uma vantagem estratégica, ao deslocar recursos e atenção de outros espaços críticos da disputa global, como o Leste Europeu e o Indo-Pacífico.

Esse suporte de blocos permite que o conflito extrapole o plano militar e seja utilizado como uma eficiente arma de desgaste econômico contra o Ocidente. A instabilidade no Estreito de Ormuz e seus efeitos sobre os preços da energia funcionam como forças inflacionárias globais. Esse cenário reduz as projeções de crescimento das economias ocidentais e gera um severo desgaste político interno para a administração de Donald Trump, especialmente em um momento sensível que antecede as eleições legislativas de meio de mandato nos EUA.

Assim, revela-se a verdadeira essência do conflito: o Oriente Médio já não abriga uma guerra por procuração (proxy war) tradicional, mas sim um confronto direto de desgaste de proporções globais. O tabuleiro atual testa os limites da projeção de poder estadunidense em um mundo multipolar. Nesse novo ecossistema, o controle de gargalos marítimos vitais associado ao suporte de parcerias eurasianas robustas confere a potências regionais como o Irã uma blindagem sem precedentes contra os instrumentos tradicionais da hegemonia ocidental.

Diante de um cenário em que cada movimento de Washington para sufocar o Irã ou pressionar o Estreito de Ormuz parece apenas empurrar os países do Golfo para os braços de Pequim e fortalecer a resiliência de Teerã, resta uma incômoda e irônica questão: será que as novas e supostamente infalíveis estratégias norte-americanas para o Oriente Médio foram, de fato, combinadas com os chineses?

 

Mauricio Alfredo é mestre em educação, professor de geografia, geopolítica e atualidades no ensino médio e superior

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