A alfabetização como alicerce da equidade e do futuro da América Latina
Avanços recentes colocam a alfabetização no centro da agenda pública latino-americana, apontando caminhos concretos para reduzir desigualdades e sustentar o desenvolvimento econômico e democrático da região
A história da educação na América Latina é marcada por um paradoxo persistente. Somos um continente de criatividade e resiliência, mas ainda falhamos no compromisso básico com nossas crianças: a garantia do direito de ler e escrever. No entanto, o recente Encontro Internacional sobre Alfabetização, Equidade e Futuro, realizado em Brasília, revelou que estamos diante de uma janela de oportunidade extremamente relevante. O que antes era visto como um tema secundário, está se transformando em uma agenda de Estado prioritária, transnacional e, acima de tudo, eficiente.
Para todos que ocupam espaços de decisão, a mensagem nítida e inteligível é de que a alfabetização na idade certa é a infraestrutura intelectual necessária para sustentar democracias e garantir a viabilidade econômica da região. Um dos grandes aprendizados da última década é que a alfabetização bem-sucedida não acontece por geração espontânea. Ela exige alto nível de diálogo e combate à síndrome da descontinuidade, em que políticas são abandonadas a cada troca de gestão.
O caso brasileiro, com o Compromisso Nacional Criança Alfabetizada, é emblemático por sua maturidade institucional. Ele se baseia em uma tecnologia social que o Brasil aprimorou no Ceará e, posteriormente, em outros estados: o regime de colaboração. Ao associar apoio técnico-pedagógico a incentivos financeiros, como a redistribuição do ICMS baseada em resultados educacionais, transformamos a alfabetização em uma prioridade real para cada prefeito e gestor local. O aprendizado demonstra que a eficácia pedagógica é indissociável da gestão política e fiscal.
Aliás, organismos como o Banco Mundial e o BID alertam que a falha na alfabetização compromete o PIB futuro. Ou seja, estamos compreendendo que a não alfabetização na idade adequada influencia diretamente a capacidade produtiva de uma nação. Um país que não alfabetiza suas crianças na idade certa está, deliberadamente, optando por um futuro de baixa produtividade e de exclusão social.

A América Latina vive hoje um momento oportuno e positivo. Além da evolução brasileira com o Compromisso Nacional Criança Alfabetizada, movimentos como o “Por un Chile que Lee” e as campanhas de mobilização e avaliações na Argentina conseguiram colocar a alfabetização no topo da agenda, retirando o tema da exclusividade técnica dos ministérios da educação e levando-o para o centro do planejamento público. Na Colômbia, no Peru e no México, o consenso cresce, corroborando a visão de que a alfabetização é a base de qualquer projeto de soberania nacional.
Isso exige, primeiro, o uso inteligente de evidências, com a avaliação como etapa norteadora das ações formativas — algo que o Brasil já demonstrou ao estabelecer padrões nacionais e sistemas diagnósticos precisos. de modo a assegurar uma mediação qualificada que trate a criança como sujeito pensante, capaz de produzir sentido e interagir plenamente com a cultura escrita. Por fim, é urgente uma educação intercultural e bilíngue. Alfabetizar crianças indígenas e de comunidades tradicionais em sua língua materna não é apenas uma escolha pedagógica, mas um ato de rompimento com a violência colonial que historicamente silencia talentos.
Quanto à equidade, o Encontro Internacional reafirmou que não haverá coesão social enquanto a exclusão educacional tiver cor, gênero e território. No Instituto Natura, defendemos que a alfabetização é um dos pilares da equidade social e racial.
Encerrar o ciclo de analfabetismo funcional na América Latina é um desafio da nossa geração. Exige resiliência e uma visão que ultrapasse ciclos políticos, mas é possível de ser alcançado na próxima década, se consolidarmos esse pacto regional. Ao transformar a alfabetização em cláusula pétrea de nossos contratos sociais, deixaremos de ser o continente do amanhã para sermos o continente do agora. O otimismo cauteloso que sentimos é baseado em evidências e em um futuro que, finalmente, parece ser de leitura plena para todos.
David Saad é diretor-presidente do Instituto Natura
Karina Stocovaz é Gerente Sênior do Instituto Natura para os Países Hispânicos

